Avalanche Tricolor: até a pé nós iremos a caminho da liderança

 

Grêmio 2 x 1 Botafogo
Brasileiro – Alfredo Jaconi/Caxias (RS)

 

 

Chegamos ao terceiro dia de turbulência em São Paulo provocada por desentendimento entre sindicalistas que pararam boa parte do transporte de ônibus na capital e, de forma brutal, abandonaram os passageiros no meio do caminho. Aparentemente, os grevistas perderam força nesta quinta-feira e o sistema talvez volte a funcionar no restante do dia. Como da cabeça desta turma não se sabe o que pode sair, é bom ficar alerta no noticiário para que não sejamos surpreendidos mais uma vez. Foi triste acompanhar pessoas humildes sendo obrigadas a caminhar por horas para chegar no trabalho ou voltar para casa devido a falta de ônibus. Em alguns bairros os pedestres pareciam estar em procissão, todos seguindo o mesmo passo em busca de um destino. Imagino que não tenha sido esta cena que motivou o desproposital comentário do ex-presidente Lula de que o brasileiro está acostumado a andar a pé e este negócio de metrô na porta do estádio é babaquice, expressão usada em conversa pública com amigos. Ninguém pede estação na porta do estádio, consta que nem é recomendável, mas é prudente que se tenha meio de transporte capaz de atender a grande demanda de torcedores que costumam assistir aos jogos de futebol.

 

É provável que você já tenha lido a história que vem a seguir, mas a reproduzo aqui na Avalanche porque é o gancho que precisava para desviar este texto para as coisas do meu Grêmio. Foi no restaurante Copacabana, no bairro da Cidade Baixa, e inspirado na devoção dos torcedores que não se intimidaram com a greve de bondes, em 1953, e seguiram a pé ao estádio da Baixada do Moinhos de Vento para assistir ao jogo de seu time do coração que Lupicínio Rodrigues compôs o mais conhecido verso do hino gremista: “até a pé nós iremos, como o Grêmio onde o Grêmio estiver”. Desde aquela época, nossos torcedores não mediam esforços para apoiar a equipe e têm se consagrado por estar ao seu lado em qualquer situação. Diante desses fatos, o cansaço causado por dias de trabalho exaustivo e a obrigação de acordar ainda de madrugada para dar início à minha jornada, não seriam suficientes para justificar a ausência na partida da noite de ontem, em Caxias do Sul. Evidentemente que meus compromissos profissionais me impediriam de viajar até a cidade serrana, mas às 10 da noite lá estava eu, firme e forte (apesar de que com sono), diante da televisão. E não foram necessários mais de cinco minutos para perceber que o Grêmio me manteria acordado e sofrendo até a meia-noite. Esse foi o tempo para tomarmos o primeiro gol em jogada que até agora não entendi porque não foi interrompida com falta na intermediária, talvez respeito excessivo ao fato de seu protagonista ter jogado com a camisa do tricolor gaúcho.

 

Demoramos um pouco para entender que a virada no placar exigiria no mínimo chutes a gol. Durante parte do primeiro tempo nosso time não era capaz de encontrar espaço para tal e quando o encontrava desperdiçávamos com passes errados ou chutes desviados. De repente, com a torcida gritando no cangote, já que as arquibancadas do Alfredo Jaconi nos deixam próximos dos jogadores, de tanto insistir por um lado e pelo outro, na maioria das vezes no congestionado caminho do meio, a bola chegou a Barcos que a escorou para Rodriguinho chutar rente a grama e distante o suficiente para o goleiro adversário não alcançar. O gol de empate tirou a sonolência, minha e do jogo, e abriu a perspectiva de encerrarmos a rodada do Brasileiro muito próximo da liderança, meta que foi alcançada quando faltavam pouco mais de dez minutos para o fim da partida. As duas mudanças feitas pelo técnico Enderson Moreira deram resultado quase que imediato, pois Zé Roberto, que substituiu Ramiro, entregou a bola para Maxi Rodriguez, que entrara no lugar de Rodriguinho, marcar o gol da virada. O uruguaio chegou com velocidade, tirou os dois marcadores com um só drible e ajeitou a bola quase no ângulo. O gesto de comemoração deixou claro que ele estava incomodado com o burburinho da torcida devido ao baixo desempenho das últimas partidas. Que sempre responda jogando deste jeito.

 

Quanto a nós, torcedores: até a pé iremos a caminho da liderança.

Avalanche Tricolor: uma questão de fé

 

Botafogo 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Maracanã

 

 

Um rosário estava na mão de Alex Telles na saída para o vestiário no primeiro tempo. Pelo que disse ao repórter curioso, sempre leva com ele o símbolo de sua religiosidade. Onde guarda durante a partida, não sei, mas que precisou de muita fé para alcançar a conquista parcial, até aquele momento, sem dúvida. No pior momento do jogo, quando acabávamos de ficar com um a menos em campo, sofríamos pressão intensa de adversário que já foi apontado como candidato ao título e disputava a vice-liderança diante de seu torcedor, soubemos manter a cabeça no lugar e a bola nos pés. Situação rara nos mais de 90 minutos jogados nesse sábado, no Rio de Janeiro. Refiro-me à raridade de controlarmos a bola, pois o equilíbrio emocional se fez durante praticamente toda a disputa. Foi nesse instante que, mais uma vez, um de nossos muitos volantes, Riveros, apareceu no ataque, foi à linha de fundo e, em vez de dar um chutão para dentro da área a espera de um cabeceio salvador, com a cabeça erguida encontrou Alex chegando pela meia esquerda, entregando-lhe a bola com açúcar e com afeto. O camisa 13 gremista – ainda vou pedir essa camisa para mim – na mesma velocidade com que entrou na área, ajeitou a bola para concluir de forma certeira e indefensável: 1 a 0, mantido heroicamente até o fim da partida.

 

O gol teve a crença e coragem de Renato. Na jogada anterior, o técnico havia reclamado de Alex que, em vez de se aventurar na ponta esquerda, ficou recuado durante troca de passe. Temia, com certeza, deixar a defesa desguarnecida em setor do campo por onde o adversário demonstrava preferência em jogar. Mas Renato sabe que seu esquema, por muitos considerado retranqueiro, exige ousadia de seus jogadores. Impõe aos atacantes marcar como zagueiros, às vezes até quando estão atacando, como aconteceu com o atabalhoado Kleber, no lance da expulsão. O treinador escala três zagueiros e aposta na chegada deles na frente, como ocorreu em ao menos dois lances de perigo no primeiro tempo, através de Rodolfo e Werley. Compõe o time com três volantes mas não se satisfaz com seus desarmes, exige a presença deles no ataque quando possível como aconteceu com Souza, em um dos primeiros lances de gol do time; com o incansável Ramiro, que roubava a bola atrás e aparecia como companheiro de Barcos próximo à área do adversário; e com Riveros, tão importante no lance de gol nessa partida quanto o foi ao marcar o gol da vitória no jogo anterior. Os alas também são exigidos pelo técnico, por isso Pará protagonizou bela jogada pela direita quando já tínhamos inferioridade numérica em campo e superioridade no placar. E, claro, só por isso Alex Telles apareceu na entrada da área para receber passe de Riveros e marcar o nosso gol da vitória. Bressan, despachando todo perigo que surgia, e Dida fechando o gol nas poucas vezes em que a bola conseguia cruzar nossa linha de marcação, não fazem por menos. Apesar de não chegarem ao ataque, por razões óbvias, refletem a disposição do elenco em atender às ordens de Renato.

 

Os raros e caros leitores deste Blog sabem que costumo não confundir minhas convicções religiosas com minha paixão futebolística. Não arrisco pedir a Deus nas missas de Domingo por melhores resultados em campo, pois sei que Ele tem coisa demais para se importar. E eu, coisa mais importante para pedir. Mas de alguma maneira as crenças de Alex e Renato contaram com uma forcinha divina nessa partida de sábado à noite. Talvez obra de Padre Reus que assiste às partidas do Grêmio nas mãos de meu pai, que, lá em Porto Alegre, aperta a imagem dele com fé e muita força.

 

N.B: Como reservo minhas conversas com Ele para coisas importantes, desde após a partida tenho pedido toda a força para a recuperação do técnico Osvaldo de Oliveira, que passou mal ao fim do jogo. Além de ótimo ser humano, um amigo para quem sempre vou querer o melhor.

Avalanche Tricolor: para matar a saudade

 

Grêmio 2 x 1 Botafogo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

14JUL13_GremioxBotafogo_020

 

Cheguei de viagem logo cedo, neste domingo, após 10 horas de vôo e cinco horas de fuso que atrapalham o sono, mas não tiram a satisfação de duas semanas de férias. Ao trabalho volto na terça-feira, oportunidade para matar a saudade de colegas, do programa e dos ouvintes. Hoje, porém, dedico-me a escrever sobre outra saudade resolvida: a do Grêmio. Não que eu tenha comparecido em corpo e alma na Arena, coisa que ainda estou devendo a mim. Assisti ao jogo em casa, já aqui em São Paulo, diante da televisão. E gostei muito do que vi, mesmo sendo submetido a forte pressão do adversário que, não se deve esquecer, era o líder e tem um jogador excepcional (quase tão bom quanto Zé Roberto – acho melhor deixar este comentário fora, vão dizer que é só porque sou gremista).

 

Fazia tempo não havia jogadores vestindo nossa camisa com tanta dedicação e, curiosamente, alguns deles estão há algum tempo por lá. A vibração nas bolas despachadas para fora, como fizeram Pará e Alex Telles, e com carrinhos salvadores que impediram o gol de empate, como ocorreu com Werley e Bressan, nos minutos finais, demonstra nova disposição da equipe. Arrisco dizer que até o impassível Dida se deu o prazer de comemorar defesas. Pra frente não foi diferente, seja com a dupla Zé Roberto e Elano, seja com Kleber e Vargas, este último com destaque especial ao marcar dois golaços. Por falar em gringo, apesar de mais uma vez ter o direito de jogar apenas alguns minutos, Maxi Rodríguez, que já conquistou o torcedor, segue mostrando utilidade.

 

Em meio a divididas duras, riscos de gol, algumas jogadas atabalhoadas e ao bom toque de bola do meio para o ataque, lembrei que Renato Portaluppi, durante a semana, havia alertado para o fato de estarmos disputando uma decisão de seis pontos contra o líder e da necessidade de se vencer os três primeiros, que poderiam fazer uma tremenda diferença no final. E sabemos bem que fazem. É importante que se tenha esta visão a cada partida em um campeonato de pontos corridos. É assim que se chega ao título e foi assim que perdemos vários deles, nesses anos todos.

 

Ao ouvir o jovem lateral esquerdo Alex Telles falando com repórteres de campo, assim que a vitória foi garantida, não tive dúvidas de que o espírito do qual tinha tanta saudades estava de volta: “Desde que chegou, o Renato falou que, quando ele foi campeão do mundo, precisou de muita entrega. Se a técnica não prevalecesse sempre, hoje a vontade prevaleceu. Nosso time está muito preparado, marcando muito forte. O Renato implantou isso na gente: nunca desistir”.

 

Vamos precisar mais do que vontade, mas enquanto esta estiver presente, não vamos desistir nunca.

Avalanche Tricolor: desanimar, jamais !

 

Grêmio 1 x 1 Botafogo
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

 

Dá uma baita tristeza! A cara dos torcedores, destacada pelas câmeras na transmissão da TV, deixava isto muito claro. Um gol naquela altura do campeonato – literalmente – é de desanimar qualquer um. Assim como desanima ver que os lances a nosso favor são anulados, como o gol de Zé Roberto no primeiro tempo, enquanto os principais adversários são beneficiados, às vezes duplamente, na mesma partida.

 

O desânimo sobre o qual escrevo no parágrafo acima, no meu caso em particular, não dura mais do que algumas linhas, pois antes mesmo de começar a escrever esta Avalanche penso em tudo que já passamos na arquibancada, nas dificuldades encaradas com coragem, mesmo quando estávamos cientes da nossa incapacidade, nas derrotas sofridas e classificações que sabíamos impossíveis.

 

Logo percebo que vivemos outro momento, mesmo com resultados adversos como o desta noite de domingo. Mesmo entendendo que não conseguimos manter a bola no pé durante todo o segundo tempo. Sabendo que abdicamos de chutar a gol e nos faltaram substitutos a altura dos titulares.

 

Temos um time que desde a décima rodada está na zona da Libertadores. Tem o respeito dos adversários. Disputa ponto a ponto a vice-liderança. E ainda vive a esperança de conquistar o título, mesmo precisando driblar suas carências, erros de arbitragem e o talento dos concorrentes diretos.

 

Por tudo isso, não temos de desanimar, apenas lamentar. E no meio da semana nos recompor e encarar a partida como final de campeonato, pois não jogamos por um título. Jogamos porque gostamos. Porque queremos vencer sempre.

Avalanche Tricolor: ao infinito e além

 

Botafogo 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

 

 

Pode ter sido a camisa com o número 1 nas costas de Marcelo Grohe. Fiquei sabendo, nesta semana, que desde que ele passou a vesti-la, em lugar da 12 com a qual jogou as duas primeiras partidas como titular, o Grêmio não perdeu uma. Pode ter sido meu Ipad, que tem me permitido acessar a TV conectada em casa mesmo enquanto estou de férias na Itália. Foram três vitórias incontestáveis que assisti daqui da Maremma, região da costa de Toscana, que tornaram ainda mais agradáveis os dias de descanso. Alguém pode até imaginar que tudo está ligado a mística do adversário, aquele com o qual se alguma coisa pode dar errado, tenha certeza de que dará. Era a estreia da grande estrela internacional Seedorf diante de sua torcida e com a oportunidade de o time carioca entrar no sedutor G4. Por que daria certo?

 

Para os que preferem as superstições, tudo pode ter levado o Grêmio à vitória no encerramento da 11a. rodada do Campeonato Brasileiro. Melhor mesmo que tentem encontrar nas forças do além a resposta para a conquista de ontem contra um adversário direto na disputa pelo título, diante de um cenário tão desfavorável. Assim não perceberão que um novo time está sendo formado, com jogadores se posicionando melhor em campo e descobrindo seu papel no elenco. E talvez se surpreendam quando virem o Grêmio no topo da classificação. É lá que pretendemos chegar. Quando isto acontecer, não se engane, não será fruto do acaso, mas resultado do equilíbrio de alguns jogadores que estão conseguindo dar a equipe tranquilidade e qualidade.

 

Talvez você não tenha percebido, mas no parágrafo acima analiso o Grêmio fazendo uso do gerúndio, pois este indica uma ação em andamento e é isto que ocorre no tricolor gaúcho. O Grêmio não é um time pronto, e nosso desempenho logo após o gol da vitória se justifica nesta verdade. Sofremos uma pressão que poderia ter sido amenizada com a bola no chão, tocada de pé em pé, como fazíamos até então. Zé Roberto e Elano, no entanto, cansaram e ambos são referência e experiência no meio de campo. Por outro lado, ao conseguirmos conter o assédio do adversário, com bola tirada quase de dentro do gol, atacante derrubado no pescoção e nosso goleiro demonstrando uma incrível personalidade, ficou claro que, além de tudo, temos sorte. E é sempre bom contar com ela nos momentos decisivos, mesmo porque nossa meta é ambiciosa nesta temporada.

 

Lembrando o personagem de Toy Story, Buzz Lightyear: ao infinito e ir além.

Avalanche Tricolor: A camisa estava lá

 

Botafogo 2 x 1 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

O domingo gelado deixou a bicicleta pendurada na garagem, passear no parque não parecia tão agradável como nos dias anteriores, e na cozinha se destacava a louça acumulada do feriado estendido. Com esta equação diante dos olhos, a saída era tomar o caminho do shopping mais próximo de casa. Foi o que fiz. E centenas de outras pessoas, também. As poucas vagas no estacionamento já sinalizavam isto.

Logo que cheguei, antes mesmo de decidir o restaurante – ou entrar naquele que tivesse menos tempo de espera -, cumpri ritual que se iniciou há cerca de seis meses. Subo a escada rolante até o primeiro andar e antes de chegar no topo já olho para a vitrina da loja que está do outro lado. É um espaço pequeno, dedicado a material esportivo, no qual se vende apenas produtos da Topper. Imagino que não chame tanto atenção dos demais consumidores quanto as âncoras que são chamariz, ou as de roupas masculinas e femininas que estão elegantes com as roupas de inverno, ou as de joias que dominam as mulheres e as de tecnologia que enlouquecem os homens. Eu, porém, não consigo passear no shopping sem antes ir até lá.

E o que sempre procuro – e hoje não foi diferente -, encontro. O manequim sem cabeça vestia a camisa predominantemente azul-celeste com duas faixas em preto e branco na vertical e horizontal que se cruzam na altura do coração, onde o distintivo aparece em destaque. Meias, calções e cartazes com a imagem de Renato ao centro decoravam o restante do espaço dedicado ao Grêmio desde que o time passou a ter seu material esportivo patrocinado pela Topper.

Confesso a você que sinto uma ponta de orgulho ao ver aquela vitrina e parece que me tornei dependente dela, dada a necessidade de sempre conferir seu visual quando vou ao shopping. Por motivos mais do que óbvios, as lojas de material esportivo em São Paulo estão sempre ocupadas com camisetas do Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos. Aquela não, é toda dedicada ao meu Grêmio.

Os resultados do primeiro semestre e o desempenho nos últimos jogos não têm sido motivo de comemoração, o que aumenta minha apreensão. Temo um dia passar diante da vitrina e não encontrar mais a camisa gremista, vê-la apenas pendurada nas araras no fundo da loja, quem sabe com o carimbo de liquidação. Seria um duro golpe para este apaixonado.

Depois do passeio dominical voltei para casa disposto a assistir à mais uma partida do Grêmio. Era fora de casa e com time ainda desmontado, reforços a espera de uma chance, a revelação sentada no banco em processo de recuperação física, o melhor goleiro do Brasil servindo o Brasil, o capitão no estaleiro, entre outras tantas perdas e prejuízos que deixaram o técnico atordoado e a estratégia de campo, idem. Mas sempre fica a ponta de esperança de que algo possa acontecer de surpreendente – não foi desta vez, mais uma vez.

No apito final, lembrei-me da vitrina do shopping. A camisa do Grêmio ainda estava lá, mas até quando?

Avalanche Tricolor: É muito bom ser pai desses meninos

    Grêmio 3 x 0 Botafogo
    Brasileiro – Olímpico Monumental

    Olímpico Monumental

    Os foguetes começaram a estourar logo cedo. Alguns ônibus já estavam estacionados perto de casa e torcedores improvisavam o local para o churrasco. Ouviam-se gritos à distância e camisas do Grêmio desfilavam na calçada diante da casa de minha infância e adolescência. Foi ali que meu coração foi forjado gremista e minha alma, imortal.

    O clima era de decisão como tantas que havia assistido em meu passado porto-alegrense, boa parte delas com o direito de me iludir com os ídolos e me enganar com as promessas de vitória. Às derrotas, havia meu pai suficientemente maduro e calejado para me consolar.

    Hoje não, o pai era eu. Quem havia motivado os meninos para viajar à Porto Alegre e torcer pelo Grêmio no Monumental, neste começo de férias, é quem teria de assumir a responsabilidade pelo feito (ou desfeito).

    Por que não levá-los à primeira partida no Olímpico em jogo menos complicado? Quem sabe um de campeonato Gaúcho, desses por onde comecei a saborear o gosto pelas conquistas? Fui escolher logo uma “final” de Brasileiro, com a difícil tarefa de vencer e esperar um resultado externo para saber se teríamos o direito de estar mais uma vez na Libertadores.

    E se nada desse certo? O resultado ruim, a frustração, o estádio lotado de tristeza, os meninos me olhando querendo entender tudo aquilo ? Será que encontrarei lugar para eles sentarem e assistirem à partida com segurança?

    Nessas horas, tudo ganha uma dimensāo muito maior do que deveria. Tinha a responsabilidade de transformar aqueles momentos em algo especial, mesmo que boa parte do espetáculo não dependesse apenas de mim.

    Os meninos foram se vestir para o jogo, e buscaram na mala camisas azuis, sem que eu pedisse – davam sinal de ansiedade, também.

    Lá fora, a música entoada pelos torcedores aumentava, ainda faltavam algumas horas para seguir ao estádio, apesar de minhas preocupações já terem percorrido toda a curta caminhada até o nosso destino.

    Churrasco em família encerrado, não dava mais para recuar. Era hora de sair para ver o Grêmio no Monumental. É bem diferente do que vê-lo em qualquer outro lugar, muito mais do que torcer por ele diante da televisāo como os acostumei.

    Saí de casa de mãos dadas com os dois, e havia ainda a companhia dos meus irmão e sobrinho, ambos neófitos nestas caminhadas até o estádio – torcem pelo Grêmio sem sofrimento, na maior parte das vezes de ouvido apenas.

    Em Familia

    Tantas dúvidas e apreensões não resistiram atė a esquina da Saldanha Marinho, rua que sempre marcou o início do meu passeio ao Olímpico. Os primeiros passos na companhia deles foram suficientes para perceber quanta bobagem desnecessária havia passado pela minha cabeça. Temer o quê, se estar ali com meus dois filhos – acrescido de mais dois caras muito legais em minha vida – era, sim, o mais importante. Maior do que qualquer outra coisa que o futebol pudesse me proporcionar.

    Entrar no Pórtico dos Campēoes com eles em meio a multidão entusiasmada de gremistas foi especial, estávamos quase correndo como se não suportássemos mais a ansiedade de entrar no estádio e encontrar nosso lugar para gritar e comemorar aqueles instantes juntos.

    Pouco antes de subirmos ao nosso espaço não-reservado, encontrei dois velhos conhecidos. Verardi, eterno supervisor do clube, e Pedrão, antigo segurança sempre presente ao lado do time. Foi ele quem me lembrou de frase-lamento que repeti várias vezes ao meu pai sempre que uma adversidade surgia no caminho do Grêmio: “estão nos roubando, pai!?”

    Desta vez ninguém me roubaria a alegria de estar com meus dois filhos no Monumental, independentemente da estratégia armada pelos técnicos e do jogo jogado pelos times.

    Quis o destino, porém, que a alegria fosse completa.

    Meu time e a minha torcida foram cúmplices da satisfação de cantar trechos do hino rio-grandense ao lado dos meninos, de aplaudir a escalação e a movimentação dos jogadores, de socar o ar na bola que explodia no travessão ou fora tirada do adversário com um elegante carrinho.

    Foram cúmplices na festa do gol, dos três gols, emocionantes gols marcados por nossos ídolos. Os de André, Jonas e Douglas. Os evitados por Vítor e Paulão. Os quase feitos por Clementino. Os que se tornaram possíveis graças a inteligência emocional de Renato.

    Meu prazer, nosso prazer, de estarmos pulando, abraçando um ao outro, rindo dos torcedores boca suja, vibrando com o resultado e pedindo sorvete para matar a sede me fez criança como eles. Como na época em que eu era eles. Em que eu era apenas um menino apaixonado pelo seu time.

    Hoje, sou o pai desses meninos. Meus meninos gremistas.

    Vibrar

    Avalanche Tricolor: Estamos de volta

     

    Botafogo 2 x 2 Grêmio
    Brasileiro – Rio de Janeiro

    Jonas em Imagem do Gremio. Net

    Cansei de tomar gol no último minuto, cansei de jogar melhor e perder, cansei de ver chute certo parar no lugar errado, cansei de torcer por promessa que não desabrocha, cansei de esperar a solução que não veio. Cansei deste sofrimento absurdo que nos acompanhou toda a primeira etapa deste Brasileiro.

    Acabou, daqui pra frente tudo será diferente – escrevo com Roberto Carlos nos ouvidos. O passe longo vai cair no pé correto, o cruzamento vai encontrar a cabeça do goleador, o drible será para adiante e além, o chute vai estufar a rede, e o nosso goleiro vai segurar tudo – bem, este já segura tudo mesmo.

    Estou certo disto. Uma certeza que me abateu bem no jogo em que começamos mal, desconsertado e desconcentrado. No qual, em lugar de um time havia apenas um amontoado de jogadores a caminho de uma desgraça retumbante.

    A mudança na história do Imortal Tricolor começou após meia hora de partida, na qual nosso destino parecia traçado. Como nos tempos de jogador em que surpreendia o adversário com uma jogada inusitada, Renato Gaúcho rasgou sua fantasia, desfez-se da prepotência que marcou sua carreira, admitiu o erro e teve coragem de mexer no time. Uma mudança substancial, pois colocou em campo, em sua posição original – pela primeira vez desde que veste a camisa gremista – Roberson, um garoto com cara ingênua ainda, mas com futebol para aparecer.

    O Grêmio assumiu o comando da partida, mesmo contra um adversário apoiado por 20 mil torcedores em seu estádio. Pôs a bola em seus pés e ditou o ritmo do jogo – às vezes muito lento para o meu gosto. Mas deixou de ser uma presa fácil. Correu riscos, é claro. Mas isto só ocorre com aqueles que são arrojados.

    Foi, então, que Jonas, o Salvador, voltou a aparecer. Assim como havia feito contra o Guarani, assim como fez dezenas e dezenas de vezes desde que voltou ao Grêmio, buscou ele próprio a chance do gol.

    No primeiro, insistindo contra um defensor assustado, roubando-lhe a bola e chutando corajosamente. No segundo, tramando a armadilha com seu companheiro Lúcio: “faz ela cair perto do goleiro que eu vou fazer o gol”.

    Soube do diálogo apenas após a partida, mas sabia que o gol sairia no momento em que a bola foi lançada para dentro da área. Ali, aos 40 minutos do 2º tempo, com aquele Grêmio que conhecemos, que não desiste nunca; que se joga sem medir riscos, como se jogaram Jonas e mais quatro companheiros na mesma bola; não sabia apenas que faríamos o gol do empate, mas que nossa história neste campeonato começaria a mudar.

    Preparem-se, o Imortal voltou.

    Avalanche Tricolor: Questão de fé

     

    Botafogo 3 x 3 Grêmio
    Brasileiro – Rio de Janeiro

     

    Indulgência plenária é instrumento santo concedido pelo Papa aos fiéis católicos em situações especiais. Muitas vezes é confundida com perdão dos pecados cometidos, quando é, na verdade, a retirada da pena temporal por eles devida. Portanto, não apaga o erro, mas a conseqüência deste.

    Por que estou me imiscuindo na seara religiosa neste espaço dedicado ao esporte ? Perdão, ao futebol. E do Grêmio.

    Deixe-me explicar: neste domingo o último do mês de agosto, é data comemorativa na paróquia de Santa Suzana da qual sou participante, e em especial atenção a esta comunidade o Vaticano concedeu a indulgência plenária a todos seus. A missa foi às seis da tarde, em local onde em breve se iniciará a obra para a construção do complexo religioso que, atualmente, conta com centro de educação para mais de 300 crianças.

    Foi lá que estive durante o fim da tarde e início da noite deste domingo, enquanto o Grêmio seguia sua via sacra pelos campos brasileiros. Carregando um cruz que parece pesada de mais aos que nos representam hoje, deu sinais de que estava pronto para acabar com esta impressionante marca de nenhuma vitória fora de casa durante todo o Campeonato.

    Assim que cheguei em casa e liguei a televisão, uma bola sobrenatural superou o esforço de nosso goleiro e nos impôs uma pena que sequer posso avaliar ser ou não justa, pois nada mais assisti.

    Seja como for, ainda assim estamos na luta pois nossas carências não são suficientes para nos afastar dos líderes e de nosso maior objetivo: a Libertadores. Apenas o desafio está maior. A saga, mais difícil.

    Poderia consolar os fiéis tricolores dizendo que teremos de passar por este purgatório para alcançarmos o paraíso, mas não quero fazer nova analogia com a religião, pois se concordo em alguma coisa com meu colega Juca Kfouri é que estes dois temas não devem se confundir em campo. Apesar de ter a impressão de que estamos pagando pelos nossos pecados.