Vasco 2 x 3 Grêmio
Brasileiro – São Januário-RJ

Assim que soube a escalação da equipe, lembrei do amigo Sílvio, gremistão de quatro costados que há muito mora por estas bandas bandeirantes e costuma me usar como interlocutor para as angústias e delírios de torcedor. Ele torce o nariz para a estratégia do 33 (três zagueiros e três volantes), aposta do técnico Renato Portaluppi nas últimas partidas. No sábado à noite deve ter tido delírios ao perceber que além de repetir a formação, Renato não tinha o “homem de articulação” – é como os especialistas costumam chamar aquele cara que joga mais a frente dos volantes, próximo dos atacantes, e costuma acertar mais passes do que errar. O comentarista da televisão, com a anuência do narrador e repórter, também viu uma formação defensiva no 3-5-2 anunciado antes do jogo.
Como já confessei nesta Avalanche em mais de uma edição, entendo pouco dessas coisas da tática futebolística, mesmo tendo iniciado carreira no esporte e até arriscado algumas narrações de jogos, na passagem pela Rede TV!, no início desse século. Não me envergonho dessa limitação, pois conheço jornalista esportivo – uma em especial – que até hoje não conhece a lei do impedimento e isto não a impediu de fazer sucesso e ser premiada na carreira. Às vezes, questiono até mesmo se árbitros e auxiliares sabem à risca como a lei tem de ser aplicada. Minha ignorância estratégica me permite acreditar sempre que temos condições de vencer, independentemente da escalação. Verdade que quando alguns nomes aparecem no time titular fico em dúvida sobre nosso sucesso e na torcida para que os demais superem aquela carência. No sábado à noite, fiquei tranquilo, porque o único nome que, ultimamente, me incomodava estava escalado no time adversário.
Minha descrença às análises feitas apenas com base na formação tática não se deve apenas ao meu desconhecimento no assunto, mas pelo fato de o futebol ser um esporte dinâmico e os jogadores terem liberdade para criar, se movimentar e improvisar. Além disso, há muito, exige-se a capacidade de exercerem múltiplas tarefas em campo, o que leva, por exemplo, o goleador da noite ter sido responsável por três ou quatro cortes dentro da nossa área, tirando com a cabeça ou o pé bolas cruzadas pelo ataque inimigo. Tudo isso, sem castrar o seu talento lá na frente. Claro que me refiro a Barcos, autor do primeiro e terceiro gols, que tem se destacado a cada partida sob o comando de Renato. Parece ter redescoberto a confiança para driblar seus marcadores e completar em gol a bola que chega a seus pés. Ou lhe foi mostrado que os jogadores são mais importantes do que o técnico.
Foi Ramiro, porém, quem mais bem ilustrou o imponderável do futebol que dribla as expectativas e análises pré-jogo. O garoto chegado do interior gaúcho era um dos três volantes na “defensiva” escalação de Renato – os outros eram Souza e Riveros. Pela lógica, tinha mais é que segurar o adversário, impedir que chegasse ao nosso gol e reforçar a defesa que, em outras oportunidades, havia se mostrado frágil, mesmo com três zagueiros. Foi muito além disso, ao subir para o ataque, distribuir o jogo e marcar um golaço com a personalidade de gente grande. Muitos como eu, assim que ele recebeu a bola de Kleber, o batalhador, imaginaram que a melhor opção seria abrir para Pará que surgia isolado do lado direito do ataque. Ramiro teve a coragem de poucos e enfiou um chutaço de perna direita lá de fora que foi encaixar no ângulo do goleiro adversário. Que beleza de gol!
Espero ansioso pelo telefonema do Sílvio nessa segunda-feira. Ele nunca falha, seja para lamentar seja para comemorar. Vou provocá-lo com o esquema tático “defensivo” de Renato que resultou em três gols. E, principalmente, teremos a chance de compartilhar a satisfação que foi assistir ao Grêmio driblar as previsões pessimistas de quem apostava, inclusive, no tabu de não vencermos o adversário no Rio há 19 anos. Como se não estivéssemos acostumados a escrever e reescrever, quando necessário, a nossa própria história.