Mundo Corporativo: Beatriz Sairafi, da Accenture, mostra as vantagens que a chegada da geração 50+ traz às empresas e aos jovens

Photo by Andrea Piacquadio on Pexels.com

“A liderança é a primeira que precisa abrir as portas. Não adianta a gente fazer isso num cantinho da organização. Tem que ter de fato apoio e,  muitas vezes, você começa com um grupo de pessoas apoiando e depois os outros se contagiam e a agenda avança” 

Beatriz Sairafi, Accenture

Um administrador, com 63 anos, que fez toda sua carreira na área ambiental e, desde 2017, estava fora do mercado de trabalho. Uma advogada que, aos 54, já havia dedicado parte de sua vida profissional a uma multinacional e estava desempregada há dois anos. Dois exemplos de pessoas que, mesmo estando desempregadas e tendo passado dos 50 anos, tiveram talento e conhecimento reconhecidos pelo programa de diversidade geracional implantado pela Accenture, no Brasil. Os dois, assim como cerca de 130 colaboradores com mais de 50 anos, foram contratados durante a pandemia. Ao apostar na maturidade profissional, a empresa de consultoria e tecnologia, de atuação global, deu segmento às políticas afirmativas que começaram há 15 anos, e já abriram as portas para mulheres, deficientes, negros e pessoas LGBTQIA+. 

Beatriz Sairafi, diretora de Recursos Humanos da Accenture, em entrevista ao programa Mundo Corporativo, explicou que a decisão de investir na diversidade surgiu quando se percebeu que eram diversos, também, os públicos com os quais a empresa trabalhava:

“Nós atendemos e trabalhamos com vários segmentos de clientes, no setor financeiro, de consumo, de varejo, de saúde, de  recursos naturais. Imagina a diversidade de clientes que o nosso negócio atende. E para isso eu preciso ter de fato pessoas diversas. Se eu não tiver pessoas que realmente tem uma especialidade diferente da outra, a gente não vai conseguir fazer o melhor pelos nossos clientes”. 

A despeito de Beatriz ser do setor de Recursos Humanos, ela explica que a agenda de transformação das empresas não depende do RH, tem de ser uma agenda dos líderes porque, além de fazer parte de um planejamento de longo prazo, é necessário uma mudança ampla na cultura corporativa e isso só acontecerá diante de gestores humanizados e engajados nas mudanças. Esse movimento não se resume a abrir vagas, exige ambientes apropriados, profissionais abertos ao novo e diverso e uma comunicação efetiva entre os setores: 

“Somos uma organização em que 60% são milênios, 20% são ‘centênios’. E a gente falou: ‘puxa vida, será que o grupo mais jovem vai apoiar’.  Nossa. super apoiou e teve muito orgulho de fazer parte de uma jornada de transformação para o mercado e não só para nós”.

E, convenhamos, não haveria porque não apoiar. Profissionais conscientes tendem a perceber rapidamente as vantagens que a convivência geracional proporciona para toda a equipe de trabalho:

“Muitas vezes falta uma experiência técnica, mas a maturidade emocional e as competências pessoais; já terem vivido e passando por tanta coisa, faz com que em uma situação que parece urgente, a pessoa fala: ‘não, calma!’. Isso traz maturidade emocional e uma perspectiva de vida, uma experiência complementar aos jovens. É uma troca muito rica, onde todos têm aprendido um com o outro. E a gente ainda tem muito a explorar essa relação”.

O programa de incentivo aos profissionais 50+ seguiu modelo semelhante aos implantados em anos anteriores para outros segmentos: começa pelo recrutamento; identificação de líderes influenciadores, que são chamados de sponsors (ou patrocinadores);  formação de comitês com pessoas que se voluntariam a trabalhar com o tema; diálogo permanente para ouvir as necessidades; capacitação dos profissionais contratados; e, finalmente, aplicação de métricas para identificar de forma precisa os resultados alcançados. 

Para Beatriz, entender as demandas dos públicos que se pretende alcançar é fundamental para que se tenha o engajamento dos colaboradores:

“Então, a gente percebe que o índice de engajamento cresce muito quando as pessoas simplesmente podem ser quem elas são, porque não dá para você contribuir com o seu melhor e dar o seu melhor também para a empresa, com as suas ideias, com o seu talento, com toda a sua bagagem, se você tiver que entrar no script. Se você tiver que não falar algumas coisas porque pode ser mal interpretado”. 

Engajamento que fica evidente na fala de nossa entrevistada quando provocada a tratar da atuação dela dentro da empresa, onde consegue, a partir de seu trabalho, alcançar seus propósitos. Dentre eles, o interesse em fazer a diferença e construir um mundo melhor:

“A gente tem uma responsabilidade muito grande de mudar o nosso entorno. Acho que esse essa é uma missão minha mas de RH como um todo”.

Para entender como é possível levar essa discussão e implantar programas em favor da diversidade dentro da empresa em que você atua, vale a pena assistir à entrevista completa do Mundo Corporativo, com Beatriz Sairafi, da Accenture:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: da ave grande ao rio dos bagres

Carlos Pañella

Ouvinte da CBN

Photo by Pedro Jackson on Pexels.com

Tinha cinco anos quando o caminhão de mudança encostou na escura rua Parazinho — ares bem diferentes do interior. Armstrong e Aldrin estavam por pisar na Lua e Ho Chi Min por deixar o mundo. Na minha angústia, fixei a vista no Mickey estampado na lataria do ford baú. 

O bairro era Jaçanã, nome dado pelos índios a uma ave grande, mas ninguém a via mais por ali. Por pouco perdemos o trem de Adoniran. Não passava mais, nem “amanhã de manhã”. Foi aí que tive meu primeiro caminho suave. 

Logo mudamos para o Tucuruvi, “gafanhoto verde” do tupi. Só soube disso depois de grande; e a figura do gafanhoto no bolso do avental do grupo escolar agora faz todo o sentido. 

Descartado o inseto, mudaram o bolso, agora com um desenho de vulcão. Explicaram que era uma homenagem a um advogado e jornalista curioso tragado por uma fenda do italiano Vesúvio. Meus irmãos e eu brincávamos nas argilas da rua Bonita, onde ainda se via os antigos trilhos. Hoje, abaixo do berço do trem roda o metrô. 

Remudamos  — mudança era com a gente mesmo! — para o Mandaqui. Olha o tupi aí: “rio dos bagres” que já não havia, fora engolido pelo asfalto. Tempos de namoros na cidade. Nunca vou me esquecer dos trólebus, com a traseira encurvada e os janelões que abriam verticalmente por duas “borboletas” pressionadas, deixando o vento bater no rosto. 

Fazia educação física no Tremembé — “terreno alagado” para os tupiniquins. Quando conheci o bairro, felizmente já estava seco. 

Saí da Zona Norte para o Centro só quando casei. Trabalhava em São Bernardo à noite e tentava dormir de dia. Durma-se com um barulho desses!

Passei a vida dizendo a mim mesmo que um dia voltaria a viver no interior, mas fui crescendo, assim como a metrópole, sempre em construção, aos trancos e barrancos. 

E quem não ama a Pauliceia?!?

Vou ficando por aqui, preso por essa mãe e irmã. A essa cidade-imã.

Carlos Pañella é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da nossa cidade, no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: “Posicionem-se”, é o que Renata Spallicci, da Apsen, pede às mulheres

Foto: divulgação

“A gente passou a viver o que eu gosto de chamar de flow corporativo, que é quando a coisa de fato entra nas veias dos colaboradores, quando realmente as pessoas passam a acreditar  no planejamento, a visão de futuro”

Renata Spallicci, Apsen

De estagiária a vice-presidente. A frase que acompanha parte do material de divulgação do livro mais recente de Renata Spallicci, mesmo que precisa, diz pouco sobre a história desta executiva. Esconde que a trajetória dela foi na empresa da família — o que poderia diminuir os méritos de sua carreira profissional — tão pouco deixa explícito que o estágio final dessa jornada, até aqui, somente se deu porque ela liderou o “sonho grande” de, em cinco anos, dobrar de tamanho a Apsen Farmacêutica. Sonho sonhado e alcançado, em 2020, quando o laboratório passou a faturar R$ 1 bilhão.

A Apsen foi criada pelos avós, Mario e Irene Spallicci, em um laboratório no bairro de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, em 1969. Atualmente está sob o comando do pai, Renato, que foi quem a convidou para ser estagiária na empresa. Na entrevista ao Mundo Corporativo, Renata conta que ao se apresentar para o trabalho — “fui ali toda bem vestida” – em lugar da sonhada mesa de escritório com seu nome em um placa, recebeu crachá de funcionária do almoxarifado, onde começou carregando caixas, recebendo e distribuindo produtos. 

Levantar peso não chegava a ser um desafio impossível para a moça que tem no fisiculturismo uma de suas paixões. Ela, porém tinha clareza de que seu desenvolvimento profissional dependeria muito mais dos estudos e da busca do conhecimento do que propriamente dos laços de família. Passou por processos de coaching, mentoria e mastermind; e é formada em engenharia química, pós-graduada em administração e com MBA para CEOs pela FGV.  Hoje, Renata Spallici é vice-presidente executiva da Apsen.

A meta  de elevar o faturamento da empresa passou pela construção de um planejamento que, segundo Renata, tem como etapas iniciais “a visão clara de futuro” e a necessidade de se levar essa visão de forma organizada e com objetivos estratégicos para cada uma das áreas envolvidas, até alcançar os objetivos individuais. A autora do livro “Sucesso é o resultado de times apaixonados” ressalta a importância de contar com o engajamento dos colaboradores nesse processo de desenvolvimento. 

“O primeiro passo foi conquistar as pessoas e plugar o sonho individual do colaborador no sonho corporativo … Falando assim parece simples, mas é um trabalho árduo, é um trabalho de muita consistência, porque você tem que conversar e repactuar as conversas ao longo de muito tempo, exige  uma mudança de cultura”.

Em um dos vários trabalhos que realiza fora da empresa, Renata se dedica a mentoria de mulheres, no programa Winning Woman EY, no qual prepara lideranças femininas, muitas das quais atuando em empresas familiares como ela. Chama atenção para a importância dessas mulheres se fortalecerem tendo voz ativa e perdendo o medo de errar:

“Muitas delas são fundadoras, têm um talento específico, desenvolveram algum produto incrível .. mas eu percebo que têm dificuldade de sentar na cadeira delas e assumir o papel e as responsabilidades. Então, uma das coisas que eu trabalho muito com a com as minhas mentorandas é justamente isso: posicionem-se!”.

Para que o crescimento profissional se realize, Renata recomenda que sejamos capazes de atuar dentro da empresa com o “senso de dono”,  o que pode ser lido como mais um jargão corporativo, desses que repetimos sem entender seu sentido. Não para esta executiva, escritora, fisiculturista e rainha de bateria —- sim, Renata também desfila no carnaval paulistano.  Para ela, é fundamental que se entenda que “se a gente quer crescer, tem que ser empreendedor dentro do negócio do qual a gente participa”.

Assista agora à entrevista completa com Renata Spallicci, vice-presidente executiva da Apsen, ao Mundo Corporativo:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen. 

Conte Sua História de São Paulo: as caminhadas de um barriga-verde na capital dos paulistas

Julio Cesar Refosco

Ouvinte da CBN

Photo by Andre Moura on Pexels.com

Fui paulistano. Engraçado dizer isso! É que morei em São Paulo por uns dois anos apenas, suficientes para me apaixonar. Depois voltei para Santa Cataria, onde nasci. Aliás, Santa esta que parecia não fazer parte da geografia do paulistano. Quando cheguei à capital, em 1987, para o estágio no Instituto Florestal, cuja sede era na Cantareira, me chamavam de gaúcho. Expliquei que era barriga-verde. Continuei sendo gaúcho para eles.

Morei perto do Hospital do Câncer, na Liberdade. E para chegar à Cantareira levava mais de uma hora entre metro e ônibus. No início gostava desse trajeto:  passava por lugares pitorescos, citados em letras de músicas como o Jaçanã da famosa “Trem das Onze”. As referências musicais são tão marcantes que certo dia fui conhecer a esquina da Ipiranga com a São João; em outro, passeie pela rua Augusta e imaginei como seria descer aquilo a 120 por hora.

Caminhando e andando, percebi que nem tudo eram flores.  Havia contradições, problemas, exclusão, marginalidade, concentração de renda e problemas urbanos quase insolúveis, que faziam parte da complexidade desse lugar.

Dividia um apartamento com dois artistas, meu irmão que é músico e um amigo artista plástico. Com tais companhias, é claro, aproveitamos muito às noites e os programas que a cidade oferecia, sobretudo ali no Centro Cultural São Paulo, que ficava a poucas quadras de casa, na Rua Vergueiro e tinha uma programação de primeira ordem, a preços bem acessíveis. 

Uma daquelas noites bem aproveitadas ficou na memória. Chegando em casa, após umas cervejas, adormeci em sono incomodado pelos ruídos da cidade incansável, seu trânsito, suas sirenes. O que a princípio parecia sonho, aos poucos foi se mostrando realidade pois, da minha cama ouvia uma movimentação de vozes que entrava pela janela. Me levantei sonolento e fui para a varanda de onde observei uma cena inusitada, tanto que pensei que ainda estava sonhando.

Um objeto luminoso muito grande pairava no céu, movendo lentamente suas luzes flamejantes. Na minha racionalidade sonolenta fiquei pasmo. A cena era quase uma pintura e demorei um tempo até perceber, dentre as luzes e cores que do objeto radiavam, que se tratava de um balão. A confusão toda com gente correndo, sirenes tocando, era porque o balão estava descendo sobre uma casa próxima. No fim das contas, alguém no telhado da casa conseguiu pegar o balão e resolver o problema sem grandes consequências.

Hoje, ainda vou a São Paulo a trabalho ou lazer; e sempre aproveito a cidade. Nas últimas vezes que estive por aí , fui com minha mulher e meus filhos para eles conhecerem este lugar tão interessante, que reúne gente de todos os cantos, característica que torna a cidade um retrato demográfico do Brasil. Retrato do qual, como catarinense, fui protagonista. Catarinense, tá. E não gaúcho!

Julio Cesar Refosco é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Mundo Corporativo: Ana Carolina Souza, da Nêmesis, alerta para cuidado com os jovens em um novo ambiente de trabalho

Photo by Tima Miroshnichenko on Pexels.com

“Hoje em dia, a diferença no ambiente de trabalho depende justamente dessa vivência, dessa experiência. Quanto mais você experimenta cenários, contextos, convive com pessoas diferentes, mais repertório você ganha”

Ana Carolina Souza, Nêmesis

 O ambiente de trabalho é uma escola, que oferece profundos conhecimentos socioemocionais, que deixou de ser frequentada por quase dois anos, devido a pandemia. Essa realidade imposta pela crise sanitária impactou principalmente a formação dos profissionais jovens que deixaram de “assistir” a seus colegas mais maduros no exercício da função, de compartilhar situações diversas e de se experimentarem a partir dessas diferenças.

É o que concluí da entrevista com a neurocientista Ana Carolina Souza ao Mundo Corporativo quando falamos das perdas e lições que a pandemia propiciou, a medida que levou ao fechamento dos escritórios e “empurrou” os trabalhadores para o modelo remoto ou à distância. Não que essas modalidades fossem uma novidade, mas a urgência do momento fez com que a maioria de nós fossemos levados a esse cenário sem qualquer preparo.

“Você imagina uma sala de aula onde a gente passa informação e as pessoas recebem essa informação, e até novas memórias a partir disso, mas grande parte do nosso aprendizado é implícita, é natural, no convívio. Conforme eu vejo o seu comportamento, eu vejo como você fala, como você reage, eu vou aprendendo também. Então, esse distanciamento compromete essa troca”. 

Além do prejuízo no aprendizado, a combinação de distanciamento do local de trabalho, falta de convivência com colegas e os riscos à vida, acelerou problemas de saúde nos profissionais, tais como estresse, ansiedade, depressão e burnout. A saúde mental dos trabalhadores foi atingida em cheio e se transformou em mais um desafio para os gestores e líderes de equipes, alerta Ana Carolina. Para a sócia-fundadora da Nêmesis, consultoria de pesquisa e educação corporativa, as empresas precisam recriar ambientes de segurança psicológica, que permitam a troca de informação, o relacionamento informal e o crescimento de seus profissionais sob o risco de desperdiçarem talentos:

“O jovem que acabou de entrar nessa organização ainda não tem autonomia. Não consegue fazer o trabalho sozinho, ainda não tem total compreensão da relevância da contribuição que ele traz pra essa equipe. E ele também não conhece tanto as pessoas, não tem tanto entrosamento. Isso vai gerar um comprometimento que é principalmente sobre a questão do bem-estar desse grupo, que são os futuros talentos Nós corremos o risco de fazermos com que esse talentos cresçam na empresa tendo perdido suas habilidades socioemocionais”

O uso da neurociência beneficia a adaptação e preparação dos jovens no ambiente de trabalho, de acordo com Ana Carolina. Por muito tempo, inteligência emocional era capacidade desenvolvida ao acaso, pelas experiências vivenciadas, e atualmente é possível através de treinamentos avançar nesse conhecimento:

“Os treinamentos  têm que ter uma característica de criação de experiência de vivência, quase que uma tutoria”

Para aprender um pouco mais sobre o conhecimento que os estudos da neurociência oferecerem no clima corporativo, na formação cultura e no desenvolvimento das habilidades socioemocionais assista à entrevista completa com Ana Carolina Souza, sócio-fundadora da Nêmesis:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen. 

Conte Sua História de São Paulo: das coisas da cidade ao nome de Bartira

Por Vitor Santos

Ouvinte da CBN

Photo by FELIPE GARCIA on Pexels.com

A primeira vez que visitei o Centro Histórico da cidade de São Paulo, tinha cinco anos. Guardei poucas recordações. O local que não esqueci foi o Viaduto do Chá. 

Da segunda vez, já era adolescente. Viajei 17 km em um ônibus da Viação Penha/São Miguel. Era uma linha tradicional, que ligava o bairro mais antigo da cidade, São Miguel,  ao Parque Dom Pedro. Quando desembarquei, fiquei alguns minutos admirando o entorno do parque, e os muitos prédios altos, que eram possíveis de serem avistados. Respirei fundo, ainda que tímido e assustado com o movimento grande naquele horário. Dei alguns passos, foi quando percebi que estava atravessando a 25 de Março. Depois subi a General Carneiro, passei por baixo do viaduto Boa Vista e cheguei no Pateo do Collegio. Em seguida, passeei pela Praça da Sé, visitei a Catedral, fui pela Rua Direita, cheguei no Viaduto do Chá, avistei o Teatro Municipal. Observei as árvores e os monumentos da Praça Ramos de Azevedo.  A curiosidade era enorme, para saber o que tinha no fim da Barão de Itapetininga. Deparei com o coreto da Praça da República.

Percebi que a partir daquele dia, não viveria mais longe da pauliceia. Arrumei emprego, na Avenida da Liberdade, número 61. Era uma empresa que trabalhava com instalação e manutenção de telefones. Era a grande oportunidade que tinha de conhecer melhor São Paulo.

Na hora do almoço era comum ficar no entorno do Teatro Municipal. Visitei o antigo prédio do Estadão, na Major Quedinho — lá também ficava a Rádio Eldorado. 

Depois, trabalhei alguns anos no prédio do Top Center, na Goodyear, onde conheci muitos artistas, dentre eles Wilson Simonal, que tinha uma loja no mesmo prédio. Fui para a Philips no Brasil, na esquina da Paulista com a Bela Cintra. Mais tarde fui ao encontro do Tribunal de Justiça, em um estágio que durou mais de 30 anos,.

De todos os cantos, meu preferido é o café do Pateo do Collegio, ao lado de ruínas da antiga parede construída de taipa de pilão, onde posso ler um livro e vivenciar a história. Ali sou capaz de ouvir os tambores dos índios; contar os peixes pescados por Tibiriçá — o senhor dos campos de Piratininga. Descobrir como o português José Ramalho desembarcou em Santos, subiu o Caminho da Serra do Mar, chegou em Santo André da Borda do Campo, conquistou o cacique, e em seguida a sua filha, Bartira, índia bonita, com quem teve vários filhos. De quem descendem inúmeras das mais tradicionais famílias paulistas. 

Vitor Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: se você fosse uma marca, qual animal representaria você?

Photo by cottonbro on Pexels.com

“O uso de animais é uma das formas mais imediatas de transferência de personalidade para uma marca” 

Jaime Troiano

O coelho é da Páscoa. E é da Playboy, também. O mesmo animal, e dois sentidos diversos. O primeiro, fala de fertilidade e mexe com o imaginário infantil. O segundo, de sexualidade e se consagrou ao estimular a imaginação dos adultos. Curioso como um bichinho foi capaz de atingir públicos bem distintos, não é mesmo? A propósito: foi o ilustrador e designer gráfico Art Paul que, em 1953, criou a marca do império construído por Hugh Hefner. O artista enxergou no coelhinho a imagem sexual e divertida que procurava para representar a revista masculina que se consagrou mundialmente por publicar ensaios fotográficos com mulheres nuas em suas páginas.

E não é que o coelho também tem a capacidade de nos oferecer outros atributos? Por exemplo, a imagem dele é explorada pela Loggi, empresa de entregas, que a associa a rapidez e agilidade —- o que faz todo sentido com a promessa que a marca quer transmitir ao público. O uso de animais — e não apenas o coelhinho —- é bastante comum no branding, como bem nos mostrou Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Ela e o Jaime Troiano fizeram uma lista de empresas e negócios que se comunicam através dos animais.

A marca da Porsche, que é nome de uma família, e tem o cavalo como símbolo histórico, desde 1954, de tão relevante, jamais sofreu uma só mudança em seu desenho. A Lacoste estampa com orgulho seu jacaré — perdão, se o pessoal da marca ler esse texto vai brigar com a gente. Não é um jacaré, por mais que o senso comum assim o identifique. É um crocodilo que remete ao apelido do tenista que iniciou a confecção de roupas: Renè Lacoste, “Le Crocodile”. Por curioso que somos: foram os jornalistas esportivos que o batizaram com esse apelido depois de uma aposta que o tenista fez, durante a Copa Davis de 1927, em que o prêmio era uma mala de pele de crocodilo.

A lista é interminável: a Hering e seus dois peixinhos, a Reserva e o Pica Pau, o Twitter e o passarinho, a Side Walk e o canguru, a Peugeot e o leão, e a MSN e a borboleta.

A imagem dos animais também é recurso que Jaime Troiano e Cecília Russo aplicam em uma das técnicas para analisar a personalidade das marcas. Há mais de 20 anos, eles usam um conjunto de 20 fotografias —- desde cobra, formiga e golfinho até cachorro, gato e leão — para que se associe um animal à marca do cliente ou do concorrente. 

“Quando pedimos que as pessoas associem um animal, eles estão emprestando as características desse animal à marca. Assim, se uma marca é associada ao leão, ela é vista como uma marca com autoridade, respeitada pelo mercado e por aí vai. Isso ajuda entendermos porque marcas usam animais: é uma transposição de identidades”.

Jaime Troiano 

Um dos motivos que levam a essa transposição é o fato de os bichos carregarem consigo uma simpatia, uma relação quase infantil ativada em todos nós quando somos expostos a animais. Ou seja, cria-se um vínculo de forma fácil, revestido de alguma emoção. 

Cecília e Jaime fazem, porém, um alerta diante desta fórmula que costuma ter sucesso. Para que a emoção seja positiva, é preciso escolher bem o animal e também pensá-lo em termos de posicionamento do que quer transmitir. Uma cobra, por exemplo, pode não ser a melhor escolha, conforme o negócio. Uma tartaruga pode funcionar, desde que o serviço que você pretenda oferecer não esteja relacionado à velocidade.

E você, se tivesse que se transformar em uma marca, qual o animal representaria melhor sua personalidade?

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso é sonorizado pelo Paschoal Junior e vai ao ar, no Jornal da CBN, aos sábados,as às 7h55 da manhã. Para conversar com os nossos comentaristas, escreva para marcasdesucesso@cbn.com.br

Mundo Corporativo: Ricardo Triana, do PMI, apresenta 6 megatendências que vão impactar o planejamento do seu negócio e da sua carreira

Photo by Pixabay on Pexels.com

“Projetos são tão fundamentais na vida que é melhor preparar a que tenha conhecimento e habilidade para que se faça as coisas acontecerem e não fique apenas na ideia”

Ricardo Triana, PMI

Por acreditar na ideia de que qualquer coisa que acontece, acontece através de projetos e para que as coisas aconteçam de forma efetiva precisamos estar preparados, pesquisadores do PMI — Project Management Institute identificaram seis megatendências que impactam o futuro dos negócios. De acordo com Ricardo Triana, diretor-geral do instituto que reúne gestores de projetos do mundo todo, olhar os negócios, os investimentos e a preparação dos profissionais, a partir dos resultados dessa pesquisa, permitirá que organizações públicas e privadas reajam melhor diante dos desafios que surgirão no mercado.

“… coisas como a nuances demográfica ou a crise climática — você pode estar preparado ou não —, mas isso vai impactar a forma como você decide seus investimentos, como você prepara seu pessoal e atrai talentos”.

A seguir, listo as seis megatendências apresentadas pelo PMI com comentários que o Ricardo Triana fez durante entrevista ao Mundo Corporativo.

Disrupção digital — “é prioritário entender como Inteligência Artificial, como o Machine Learning,  etc, como essas coisas vão acontecer aqui. E não estou falando em entrar em web, não estou falando em criar um aplicativo. Estou falando de criar esse novo ecossistema de  trabalho e entender como funciona, porque não é o problema de definir algo que vai acontecer em dois anos, vai ser agora”.

Crise climática — “80% das empresas (no Brasil) usam material reciclável, quando normalmente, no mundo, a média é 67%; mas isso só não muda a crise climática. Você tem de começar a dizer, quando estou fazendo um investimento, quando estou fazendo uma planta, quando estou fazendo um projeto, como eu estou apoiando a redução da crise climática”.

Movimentos civis, cívicos e de igualdade — “85% das organizações estão acelerando seus programas de diversidade porque já perceberam que têm de fazer alguma coisa e isso não aconteceu por acaso, aconteceu porque existe uma pressão da sociedade para fazer isso … Quando (as pessoas) não são escutadas, existe uma pressão que impacta a economia”. 

Mudanças demográficas — “… temos mais pessoas velinhas que ficaram no trabalho e também temos mais jovens que estão entrando no mercado de trabalho. Temos que procurar como fazer que eles estejam compartilhando, sendo efetivos, transferindo o conhecimento, ter certeza de que esse conhecimento que as pessoas que têm mais experiência, mais anos na organização não está se perdendo. 

Escassez de mão de obra — “ … porque isso (mudanças demográficas)  também tem muito a ver com a escassez de mão de obra, porque quanto mais as pessoas ficam no mercado, maior a possibilidade de elas começarem a procurar outras oportunidades. Se não fizerem a transferência efetiva de conhecimento, se não estivermos preparando os jovens para darem resultando no dia um e não esperando por um plano de crescimento, de treinamento, etc, não serão efetivos os resultados”.

Mudanças econômicas — “Dos maiores medos que temos na América Latina, em particular no Brasil, é a economia … Um dos setores mais impactados (na pandemia) foi o de manufatura porque a cadeia de suprimentos foi impactada … 15% dos fabricantes de alguma peça de celular, tecnologia, etc, tiveram que interromper sua produção. O que você deveria estar pensando é como eu me preparo para que isso aconteça sem perder a globalização”.

Para se aprofundar em cada uma dessas megatendência e refletir melhor sobre como podemos estar preparados e planejar nossos próximos passos, na organização e na própria carreira profissional, assista à entrevista completa com Ricardo Triana ao Mundo Corporativo e aproveite as informações que estão disponíveis no site do PMI.

O Mundo Corporativo tem produção de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: sem nostalgia, esta é uma cidade vertical

Por Claudia Signorini

Ouvinte da CBN

Photo by Kaique Rocha on Pexels.com

Rua Jurubatuba, na confluência de três bairros – Vila Mariana, Aclimação e Paraíso — batizada depois com o nome de Dr Artur Saboia. A velha casa em que nascemos, eu e meu irmão caçula, ainda existe, transformada pelo atual proprietário em estúdio musical. Na  minha infância, a rua em declive era de terra batida, terminando num barranco. Nele havia muitas bicas onde nós moradores nos abastecíamos quando faltava água nas torneiras.

O lixo das casas era recolhido por carroças puxadas po burros. Era triste vê-los escorregar na lama nos dias de chuva e serem açoitados, pobrezinhos, para que continuassem a puxar a carroça pesada.

Perto havia um imenso campo coberto por um matagal para onde meu irmão mais velho me levava para caçar borboletas ou empinar pipas. Era ele mesmo que as fazia com gravetos retirados do mato, papel de seda comprado na vendinha perto de casa e trapos velhos para fazer os rabichos.

Brincávamos na rua sem que nossos pais ficassem preocupados com o que pudesse nos acontecer. Pular corda — “batalhão, lhão, lhão, quem não entra é um bobão — amarelinha, pegador, roda — senhora sanja coberta de ouro e prata, descubra seu rosto, queremos ver sua cara.

No verão, caçávamos os siriris que voavam em torno dos postes de luz. Havia muitos vagalumes e os guardávamos em caixinhas de fósforo para ver quando eles se iluminavam.

Inesquecíveis as figuras que povoavam nossa rua. A Maria Lavadeira, sempre com uma trouxa de roupa branca sobre a cabeça. A Maria Bruxa, velha esfarrapada, suja, desgrenhada, alguns poucos dentes podres na boca, com correntes de ouro em volta do pescoço, que era o pavor das crianças. A dona Celina, mirradinha, dentuça e com birote, oferecendo as famosas toalhas da Ilha da Madeira. No tempo em que meus irmãos mais velhos eram pequenos até cabreiro passava vendendo leite fresco de cabra que ele ordenhava na hora.

Eu ia à escola de bonde. Preferia aquele aberto com reboque porque adorava o seu balanço.  Na rua onde passavam os bondes , a Domingos de Morais, havia vários cinemas que frequentei com minha mãe durante toda minha adolescência. Cine Cruzeiro, onde se podia assistir a dois filmes com o mesmo bilhete. Hoje é um supermercado. O cine Phoenix, agora uma agência do Banco do Brasil. E Sabará que também deu lugar a um supermercado.

Incrível como a cidade verticalizou, os jardins com roseiras orvalhadas deram lugar a garagens cimentadas e as crianças não brincam mais nas ruas.  Não existem mais quintais, jardins, hortas com árvores frutíferas.

Recordo esses momentos porque fazem parte da minha biografia,  sem nenhuma nostalgia, sem nenhuma saudade. E sinto-me privilegiada por ter vivido tanto tempo e ter sido testemunha de todas essas mudanças em São Paulo.

Claudia Signorini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:  um tubarão e cinco motivos para encarar a concorrência

Photo by Kelly L on Pexels.com

“Veja seu concorrente não apenas como ameaça, mas como uma oportunidade de continuar aprendendo”

Jaime Troiano

Há quem garanta que a história a seguir não é de pescador, apesar de ser de pescaria. Aqui está contada porque Jaime Troiano e Cecília Russo a consideram uma excelente metáfora para o mundo dos negócios e das marcas —- que afinal é o nosso negócio:

Com os barcos japoneses precisando buscar peixes cada vez mais distante da costa, o produto chegava no mercado em qualidade inferior a exigida. O uso de freezer para manter os peixes frescos logo impactaram no sabor e fizeram aumentar as reclamações. Criou-se tanques que mantinham os peixes vivos até a chegada ao porto. Nem isso foi suficiente para agradar o exigente paladar dos japoneses, pois os peixes, a medida que tinham comida à exaustão e nenhum esforço para se manterem vivos naquele espaço de aparente segurança, perdiam vitalidade e isso influenciava no sabor da carne. Foi, então, que surgiu a ideia de colocar pequenos tubarões nos tanques dos navios, o que obrigava os peixes a se “virarem” para ficarem vivos. O movimento constante, mantinha o frescor da carne. E as vendas aumentaram. 

O tubarão, claro, é o concorrente da sua marca, que muito se teme, mas que é essencial para manter a vitalidade do negócio —- sem contar que, a presença dele no mercado, perpassa por uma questão ética: consumidores tem de ter o direito sagrado de escolha. A despeito dessa que é uma regra do capitalismo, Jaime e Cecília identificaram cinco boas razões para se incentivar a presença de concorrentes no branding. 

  • A existência de concorrentes é fundamental  para definir qual é o melhor posicionamento da marca — aquele  posicionamento em que a marca explora melhor suas potencialidades.
  • As marcas que lutam contra concorrentes se aprimoram adaptando-se mais depressa às necessidades dos consumidores. 

“As marcas mais fortes do mercado, as marcas líderes não são o que são à toa. Mas, sim, porque acompanham o tempo todo o que fazem seus concorrentes”.

Jaime Troiano
  • Uma grande vantagem do mercado concorrencial para as marcas ocorre dentro da empresa.: o reconhecimento de que existem concorrentes lá fora, diminui a vaidade corporativa.
  • Melhora nossa capacidade de entender o que pensam e sentem os consumidores. Quando eles são cativos de uma única marca não vemos como podem ser atendidos de outras formas. 
  • Estimula o pensamento criativo de quem fabrica, de quem planeja o marketing e a comunicação. Para quê? Para descobrir novos caminhos, novos produtos, novas formas de vender, nossas extensões de marca etc.

“Os melhores profissionais que já conheci vieram de empresas assim, que estão todo dia se reinventando. Enfim, concorrente nos ajuda a ser melhor e ajuda a entrega que fazemos aos consumidores.”

Cecília Russo

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo: