Avalanche Tricolor: assim como o pôr do sol, nem todo empate é igual

Chapecoense 0x0 Grêmio

Brasileiro B — Arena Condá, Chapecó/SC

Lucas Leiva é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O pôr do sol se faz diante da praia onde aproveito os dias de férias, no Ceará. A cena é rara no Brasil, pois temos o litoral a leste, onde o sol nasce — ao menos é assim que nos acostumamos a ver. Lá em Porto Alegre, parada anterior do meu descanso, por exemplo, é famoso o espetáculo nas águas do rio Guaíba, a oeste. 

Assistir ao sol se por no mar só é possível aqui nesta região graças a geografia da vila de Jericoacoara — um desses locais incríveis que encontramos quando decidimos viajar pelas belezas brasileiras. E coisa linda não desperdiço. Por isso, pouco antes das seis da tarde, lá estava eu sentado na areia aproveitando cada momento, desenho e cor que a despedida do sol nos proporciona. Fiquei até o último raio alaranjado desaparecer. Já passavam das 6h15 da tarde (ou da noite).

Foi nesse clima de contemplação que voltei para o quarto onde estou hospedado para assistir ao Grêmio jogar. Logo que a partida se iniciou, às 6h30, cheguei a acreditar na possibilidade de uma vitória fora de casa —- outra coisa rara de se ver, haja vista nosso desempenho nesta temporada. Havia um esboço de time e movimentação que nos fazia melhor do que o adversário. 

Um lance atabalhoado de Bitello, ainda no primeiro tempo, mudou todas as minhas expectativas. Nosso guri se excedeu na vontade e mereceu ser expulso. Menos mal que tínhamos Lucas Leiva na reserva para ocupar o espaço deixado no meio de campo. Por outro lado, Campaz teve de ser sacrificado — logo ele que tem melhorado aos poucos nas últimas rodadas.

Jogar na casa do adversário, com desvantagem numérica e com nosso histórico no campeonato, não era animador. Apesar disso, especialmente no primeiro tempo e no início do segundo, o Grêmio foi firme e forte na marcação; e isso impediu que o adversário se aproximasse do nosso gol. Os riscos apareceram a medida que o time dava sinais de cansaço. 

Ainda assim, nosso setor defensivo foi gigante — como é gigante Geromel que se impôs na área de uma maneira impressionante. Lucas, na frente dos zagueiros, com sua experiência e talento, ajudou bastante a conter algumas investidas; e funcionou muito bem ao lado de Villasanti, enquanto este esteve em campo. 

Gabriel Grando (ex-Chapecó), atuando na terra em que surgiu e diante de parentes próximos, foi firme nas intervenções e providencial na defesa que se fez necessária no último lance da partida.

O Grêmio saiu de gramados adversários com mais um empate. Esse, porém, é um empate diferente dos demais. Tem valor de conquista pela forma como foi garantido. Além de manter-se em ascensão no campeonato, entre os quatro primeiros colocados, chegou há 15 jogos sem perder — a maior invencibilidade dos últimos dez anos, da Série B. 

Além do resultado que foi bom, diante das circunstâncias, deixamos Chapecó com duas ótimas notícias: Geromel terá seu contrato renovado automaticamente até 2023 e Lucas Leiva dá sinais de que entregará muito mais categoria e segurança ao time, especialmente a partir de agora quando deve assumir a titularidade, com a ausência de Bitello.

Avalanche Tricolor: “nos f…..”, mas tô feliz!

Grêmio 0x1 Chapecoense

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Mal havia estraçalhado um X gigantesco na mesa mambembe de uma lanchonete da Cidade Baixa, quando o rapaz vestindo o casaco da Torcida Jovem, evidentemente embriagado, olhou para nós, reconheceu as cores de nossas camisas e tascou em alto e constrangedor som: “nos fudemo (sic)“. Respondemos com uma gargalhada à sentença definitiva sobre o que havia acontecido horas antes no bairro do Humaitá.

Rir da desgraça própria, dizem, é sinal de inteligência. Ali, foi a reação possível pelo inusitado da fala e uma combinação estranha entre a má-digestão proporcionada pela derrota na estreia do Grêmio na Série B, diante de sua torcida, e a difícil digestão de um sanduíche turbinado de  coração, calabresa, bacon, ovo, queijo, maionese, ervilha e milho, que aqui, em Porto Alegre, costumamos chamar intimamente de X —- apesar de o queijo que dá origem ao neologismo ser apenas um imperceptível detalhe. 

A passagem do moço gremista, bêbado e desbocado, tanto quanto certeiro, foi rápida. Em segundos, ele já havia se voltado a outro interesse, enquanto nós ficamos à mesa lembrando alguns dos momentos vivenciados na Arena. Ao lado de meus filhos, sobrinho e irmão tive o prazer de voltar a um estádio de futebol e assistir, ao vivo, a um jogo do Grêmio. A despeito da performance de nosso time e da frustração do resultado, estar na Arena me fez um cara feliz, nessa sexta-feira. A presença no estádio move com minha memória afetiva, e me afasta de realidades que prefiro esquecer. 

Cresci em um estádio de futebol, no caso o Olímpico, que agora é apenas ruínas na vizinhança de onde escrevo essa Avalanche. Foi lá que forjei minha personalidade, aprendi a trabalhar em equipe, entender o valor de uma amizade, conviver com os diferentes, saborear as vitórias sem ser prepotente e tolerar as derrotas. Sentar-me ao lado das pessoas que amo para ver uma partida na “arquibancada” —- e as aspas se justificam porque hoje preferem dar nomes mais chiques para os espaços que os torcedores ocupam —  tem um significado que vai além do do jogo em si. Ainda bem, porque se minha alegria dependesse dos resultados alcançados até aqui, convenhamos, só me restaria dizer o mesmo que o torcedor anônimo que encontrei na lanchonete.

Avalanche Tricolor: um passinho de cada vez!

Chapecoense 1×3 Grêmio

Brasileiro – Arena Condá, Chapecó/SC

Lucas Silva e Thiago Santos em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Tinha no teatro compromisso inadiável e um espetáculo imperdível e emocionante, nesse sábado à noite. No palco do Sérgio Cardoso, aqui em São Paulo, dois casais de bailarinos propiciavam o encontro do passinho e da surdez; e não queria que nada me tirasse atenção daquele momento mágico em que um casal de bailarinos que ouve se unia a um que não ouve, em uma comunicação ritmada pela música — que pela genialidade dos seus criadores era transmitida a todos nós que estávamos na plateia. Eles conseguiram fazer o público ter a sensação do som da surdez em uma apresentação musical. Para nós que ouvimos, o silêncio é um luxo; aos que não ouvem, é o desafio do cotidiano. 

O passinho é dança nascida nas favelas cariocas que mistura breaking, frevo, samba e capoeira. Um desafio corporal que deixa a gente, os leigos, embasbacados: como alguém consegue movimentar os pés e o corpo com tanta agilidade e de forma sincronizada com a música? Imagine, então, fazê-lo sem ouvir, apenas sentindo a vibração do palco e o toque no corpo. Incrível!

Para os desentendidos, o passinho é aquela dança que jogadores de futebol desajeitados esboçam no anúncio do Campeonato Brasileiro, na tela do SporTV. Todos, mesmo os que ensaiam algum gingado, estão muito aquém da arte dos dançarinos. Convenhamos, o negócio deles não é dançar, é nos fazer feliz com outra arte proporcionada pelos pés: o futebol.

Abri mão de assistir ao jogo do Grêmio em troca do prazer único que o teatro, o primeiro desde o início da pandemia, me proporcionaria. Não pense que era desdém ou desconfiança com o nosso desempenho. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche sabe que minha crença é ilimitada. Foi uma escolha apenas. Mesmo porque, pelo Grêmio nada mais eu poderia fazer. Em campo, cabe apenas aos nossos jogadores dar solução para os problemas que criaram ao longo da temporada. É o que têm tentado nesses últimos jogos, mesmo aqueles em que não conseguiram vencer (exceção ao contra o América de Minas). Ontem engatamos duas vitórias seguidas, algo inédito nas nossas bandas, em 2021, e com destaque para nossos volantes que abriram o caminho para a vitória: Lucas Silva com chutes que começam a encontrar as redes; e Thiago Santos em uma sequência inesperada de dribles dentro da área e em direção ao gol.

A situação que nos encontramos não dá tempo de comemoração, e o próximo desafio se torna ainda mais difícil porque é contra um dos líderes do campeonato. Depois ainda teremos confronto direto com times que tentam escapar desesperadamente do risco do rebaixamento, e o virtual campeão do Brasileiro. São cinco jogos para fazer o que não realizamos em 33 rodadas. Temos condições de fazer; estamos demonstrando capacidade de reação; e alguns dos nossos jogadores se redescobrindo em campo. Seguimos acreditando. Seguimos em frente. Um passinho de cada vez!

Avalanche Tricolor: Borja, não. São Borja!

Grêmio 2×1 Chapecoense

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

Borja em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Na mesa de escritório, diante da qual sento para escrever esta Avalanche —- de onde, desde o início da pandemia, aliás, realizo todas as minhas atividades —-, misturado em meio a computadores, traquitanas eletrônicas, microfone, máscaras e papeis com anotações, está a imagem de Padre Reus. Era a mesma que o pai mantinha apertada em um das mãos, quando assistia aos jogos do Grêmio. Nela, buscava a fé que o manteve crente de que dias melhores sempre poderiam vir. 

Reus era alemão, nascido na Baviera, filho de João e Ana Margarida. Ingressou na Companhia de Jesus, quando já estava na Holanda, e após completar sua formação jesuíta, foi enviado para o Brasil. Sua jornada se iniciou em Rio Grande, foi professor de teologia em Porto Alegre, e seguiu sua obra em São Leopoldo, onde, aos 79 anos, morreu e teve o corpo sepultado. Seu túmulo, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, recebe visitantes de todo o país, que rezam e buscam a intercessão de Padre Reus para as graças pedidas. 

O pai nunca se acanhou, como devoto que era, em clamar pela ajuda de Padre  Reus, sempre que a coisa apertava para o nosso lado. Seus pedidos ao santo que ainda não é santo faziam sentido. Padre Reus, que tinha como lema “amar e sofrer”, dizia querer ser “vítima de amor”. E isso o pai sempre foi em relação ao nosso time. Eu também. Mas você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, sabe bem da minha boa intenção em jamais misturar futebol e religião, por mais que possamos encontrar vários aspectos em comum.  Ao contrário do pai, prefiro deixar a imagem do Padre sobre a mesa de trabalho — imagino ter mais serventia.

Na hora do desespero — e o despertador sinaliza que esse momento já chegou —-, recorro aos salvadores aqui da terra. Alguns santos. Outros nem tanto. Na noite desta segunda-feira, quando tudo parecia que desmoronaria nos primeiros minutos de jogo —- tomamos um gol e fomos salvos do segundo por Chapecó —-, a intervenção divina do futebol se realizou. A princípio com um chute improvável de Alisson que encontrou um espaço que não havia entre o goleiro adversário e a trave. Em seguida, quando o estreante Borja, depois de ter sido agarrado dentro da área, converteu o pênalti, com a personalidade dos goleadores.

Nosso recém-chegado atacante já havia mostrado suas credenciais em dois cruzamentos que recebeu na área. E foi o jogador que mais conclui a gol na partida. Alguém poderá dizer que foi sorte de estreante. Ele próprio levantou essa hipótese quando lembrou que costuma marcar nas suas estreias. Independentemente do que venha a acontecer, o colombiano já demonstrou fome de gol e nos salvou logo no primeiro jogo em que vestiu a camisa do Imortal. Portanto, não me faço de rogado: Borja, não. São Borja!

Que deus (o do futebol) nos ajude.

Avalanche Tricolor: lição (fora) de casa

 

Chapecoense 0x1 Grêmio
Brasileiro — Arena Condá, Chapecó/SC

 

Gremio x Chapecoense

Luciano marca de bicicleta, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Em cinco jogos, cinco vitórias. Essa é a campanha do Grêmio desde que foi obrigado a se dedicar exclusivamente ao Campeonato Brasileiro. Nessas cinco rodadas, tinha um objetivo traçado, o qual está cada vez mais próximo, apesar de ainda não estar confirmado: voltar pela porta da frente a Libertadores. Para isso, precisa estar entre os quatro primeiros colocados até o fim do Brasileiro.

 

Sabia que para alcançar a meta precisaria recuperar os pontos deixados no meio do caminho quando ainda tinha foco em outras competições.  E passou a fazê-lo, jogo após jogo. O que interessava era a vitória. Algumas vieram com tranquilidade, outras com emoção e ainda houve as com sofrimento. Seja como for, fez a  lição de casa (e fora de casa, também) e contou com a ajuda de adversários diretos pela classificação que tropeçaram aqui e acolá. 

 

Desde o meio de semana, ocupa espaço no G4 e encerrou mais uma rodada com a posição consolidada. Terá jogos difíceis daqui até o fim do Campeonato e, por isso, essa sequência de vitórias foi importante, mesmo que na de hoje tenha resumido seu desempenho aos dois primeiros minutos de jogo — e que dois minutos incríveis foram aqueles. 

 

O gol de Luciano — que parece começa a se sentir mais à vontade na equipe — foi genial tanto quanto oportuno. Após a cobrança de escanteio e o cabeceio de David Braz, nosso atacante acertou uma bicicleta dentro da pequena área. Falo de o gol ter sido tão genial quanto oportuno porque desconstruiu com o ânimo e a energia do adversário, acostumado a pregar peças no Grêmio em outras épocas. Por exemplo, no primeiro turno, em casa, empatamos em 3 a 3. Lembra?

 

Do gol em diante, tive a impressão de que o Grêmio não via hora de a partida acabar —  como se já tivesse feito a lição (fora) de casa pedida pelo professor. Arriscou algumas jogadas no ataque, manteve a bola no pé enquanto pode e se esforçou para reduzir os danos lá atrás. Depois dos riscos que corremos na partida do meio da semana, quando também havíamos aberto a vantagem logo no início da partida, era bom não bobear. 

 

 

 

 

 

Avalanche Tricolor: Renato sabe o que faz

 

 

Chapecoense 1×1 Grêmio
Brasileiro – Arena Condá, Chapecó-SC

 

GREMIO 3

 

Um tem 19, outro 20, outro 21 e tinha um ainda com 22 anos. Essa gurizada que entrou em campo hoje para representar o Grêmio tem a idade — ou quase — dos meus filhos. Gente muito nova, precisando ganhar cancha, como se diz na minha terra. Inexperiente ainda. E para tornar o desafio ainda maior entraram em uma equipe que não costuma jogar junto — em função da maratona de partidas que se inicia com a chegada de agosto, preferimos escalar 11 reservas.

 

Um dos meninos fez bonito logo no início: Pepê, 21 anos, trocou passe no contra-ataque com Hernane Brocador e com um tapa na bola encobriu o goleiro adversário quando tínhamos pouco mais de dois minutos de partida — é o primeiro gol dele entre os profissionais. Mais uma vez a escolha de Renato dava certo, pois todos apostavam que o titular seria Thonny Anderson e nosso técnico preferiu o outro guri. Deu certo. Dizem que é a estrela do técnico que brilha. Para mim, é a sabedoria.

 

O de 19 anos estava na lateral, era Guilherme Guedes; o de 20, Thony Anderson que entrou no segundo tempo; assim como Derlan, que aos 22 anos, substitui Bressan, lesionado.

 

Verdade que no nosso meio de campo havia um “veterano”: Douglas que está voltando ao time aos poucos, depois de um ano e meio parado devido a lesão e cirurgia. O “10”, como é chamado pelos colegas, ou o “Maestro”, como o chamam os torcedores, demonstra seu talento sempre que toca na bola. É uma enfiada entre os zagueiros, um passe de três dedos ou um toque para desmontar a marcação. Dá gosto de vê-lo em campo.

 

Entre os guris e o “velho” havia ainda muita gente tentando conquistar um espaço na equipe, mas com entrosamento insuficiente para dar ao time reserva a mesma movimentação dos titulares. Com isso, o que sempre foi nosso mérito, a posse de bola, ficou nos pés do adversário que pressionou, com o apoio de sua torcida e o desespero da ameaça de rebaixamento — e ainda contou com a falta de atenção dos árbitros que validaram gol iniciado com o atacante que estava em posição de impedimento como bem mostrou a televisão.

 

Saímos com um empate quando o que queríamos mesmo eram os três pontos — porque sempre queremos os três pontos. Diante das circunstâncias, porém, o resultado ficou de bom tamanho e encerraremos a rodada na zona da Libertadores.

 

A partir de agora é olhar para a Copa do Brasil, nesta semana que se inicia, e na Libertadores, na semana seguinte. Quanto ao Campeonato Brasileiro (bem que eu gostaria de ver os titulares atropelando o adversário e se aproximando ainda mais do líder) ….  Renato tem muito crédito com a gente. Que faça o que achar melhor para o Grêmio!

Avalanche Tricolor: véspera de pouco, dia de muito ou vice e versa

 

Grêmio 0x1 Chapecoense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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“Dia de muito, véspera de pouco” era ditado que ouvia muito da boca de minha mãe quando ainda era pequeno. Confesso, já não lembro mais em que momentos da minha infância a tal frase tinha serventia. Ficou na memória. E como todas as coisas na minha memória são passíveis de confusão. Troco nome de amigos assim como mudo frases populares e seu sentido. Essa em especial sempre me soou invertida e, na vida adulta, sempre foi usada para consolar-me naqueles dias em que nada costuma dar certo ou imaginamos que não tenha dado certo. Quem souber da sua origem que me ajude.

 

Há quem a use para alertar-nos da necessidade de equilibrarmos nossos bens e sentimentos, impedindo assim a euforia da vitória ou o desalento da derrota. Euforia e vitória andam de mãos dadas e geram ilusões que tendem a nos levar ao mesmo resultado lá na frente: ruim. Estão aí para provar que a busca tem de ser pelo caminho da mediação entre a excitação e a infelicidade.

 

Já ouvi quem repetisse o dito popular como forma de condenar o desperdício que cometemos nas épocas de fartura. Chamar nossa atenção para a necessidade de guardamos o que ganhamos hoje para o período das vacas magras. Como que querendo dizer que é preciso economizar agora para não faltar amanhã. Mas nesse caso, o ditado não teria de ser outro? Véspera de muito, dia de nada?

 

Sei lá! Só sei que foi a primeira frase que me veio a cabeça quando percebi que o Grêmio repetiria, neste domingo à tarde, o desempenho das últimas partidas quando apesar de ser o dono da bola, faltou-lhe capacidade de furar o bloqueio adversário. Comandou a partida e entregou os pontos. Teve muita bola no pé e pouca criação. Dominou o jogo mas não transformou essa supremacia em gols.

 

Que esta véspera de decisão da Libertadores, com pouca inspiração e nenhum gol, se transforme em um dia – no caso, uma quarta-feira –  de  futebol bem jogado e muita alegria para todos nós gremistas.

Avalanche Tricolor: o Sincero, o Precoce, o Craque e o show do Grêmio!

 

Chapecoense 3×6 Grêmio
Brasileiro – Arena Condá – Chapecó/SC

 

 

– Você viu o goleiro adiantado pra fazer esse golaço?
– Não, tentei lançar e a bola entrou!
– E já tinha feito dois gols em uma só partida?
– Já!

 

Michel, preciso na marcação e bom na saída de bola. O volante que teve a responsabilidade de substituir o capitão da equipe e um dos principais jogadores da conquista da Copa do Brasil, em 2016, revelou na noite de hoje outra nuance de sua personalidade.

 

Esforçado sabíamos que era, pela forma como luta para impedir que a bola chegue a nossa área. Aparece de um lado ou de outro da defesa, conforme o caminho que o adversário usar para tentar se aproximar do nosso gol. Trabalha em silêncio, sem chamar a atenção do torcedor. Não tem o apelo de Arthur, que nasceu com jeito de craque. Nem a dominância de Ramiro, que sabe jogar na frente, atrás ou na lateral, conforme as necessidades do time. É humilde!

 

Hoje, em entrevista, mostrou, também, que é sincero.

 

Everton, por sua vez, tem cara de moleque. Parece sempre disposto a aprontar alguma. Nunca conseguiu se firmar no time, como fez Michel. Mas seguidamente aparece em momentos decisivos. De tão veloz, é capaz de atrapalhar os já atrapalhados comentaristas da televisão – como na transmissão que acabo de assistir. Mas a velocidade dele, conhecemos há algum tempo. Nesta noite, em Chapecó, fez história, não apenas por marcar três gols em um só jogo, mas por fazer dois deles estando a apenas dois minutos em campo e com apenas dois toques na bola.

 

Além de veloz, Everton provou que pode ser, também, precoce.

 

Em um jogo incrível, no qual sequer o protagonismo do árbitro foi capaz de estragar, Luan que serviu seus colegas boa parte da partida acabou sendo servido no final. Marcou mais um, consagrando-se como dos maiores goleadores da história recente do Grêmio. Já é o que mais gols marcou na Arena, com 29 no total; nesta temporada fez 12; e, desde que assumiu como titular, em 2014, assinalou 51.

 

Se Michel se revelou sincero, e Everton, precoce; Luan apenas confirmou o que sabemos dele há algum tempo: é show! Assim como o Grêmio!

 

Grêmio Show!

Avalanche Tricolor: obrigado, Grêmio!

 

Grêmio 1 (3) x (1) 1 Atlético MG
Copa do Brasil – Arena Grêmio

 

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Torcida comemora o título e homenageia a Chape em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Era mais do que um jogo. Mais do que um título que estava em disputa.

 

A noite de hoje era memorável.

 

O futebol precisava renascer após a tragédia aérea da Chapecoense, que matou jogadores, dirigentes, comissão técnica e dezenas de colegas da imprensa. Era uma gente que nos dava alegria com a bola no pé. Que usava a inteligência para oferecer espaço aos craques no campo. Que registrava cada lance de emoção.

 

Era a nossa gente.

 

E foi pensando nessa gente que todos foram à Arena nesta noite de quarta-feira, 7 de dezembro de 2016. Havia um misto de excitação pela proximidade do título e de resignação diante da morte. Acima de tudo, havia respeito a este momento de luto.

 

Foi impossível segurar as lágrimas diante das dezenas de homenagens realizadas. Chorei no grito de Chape. Chorei ao ver o nome dos jogadores da Chape nas mãos dos torcedores. Chorei nas centenas de camisas verdes que vestimos todos nesta noite. E chorei copiosamente ao som do toque militar que marcou o minuto de silêncio.

 


Eram lágrimas que se juntavam a outras centenas que não fui capaz de conter desde a semana passada quando sofremos a perda de 71 pessoas e algumas muito próximas do meu coração.

 

Tudo que pedia nesta noite era o direito de voltar a chorar. Mas chorar de alegria, por um título que havia sido conquistado pela última vez há 15 anos. Pela vitória de um time que se notabilizou por ser Imortal.

 

O resultado da primeira partida oferecia uma margem de segurança, mas jamais a certeza da conquista. Pois do outro lado havia outro clube que escreveu sua história com vitórias impossíveis. Era preciso lutar, suar, chorar se necessário fosse, e jogar muita bola. E o Grêmio fez tudo isso com o talento que Roger lapidou e com uma força incrível que poucos são capazes de transferir para o time como esta que Renato trouxe para o elenco.

 

O Grêmio venceu esta decisão pois foi firme na marcação, equilibrado com a bola no pé e preciso no ataque. Foi inteligente em saber moderar o jogo e dar o ritmo que precisava depois de ter feito o resultado fora de casa.

 

Como se não bastasse e inconformado com o placar zerado ainda se deu ao direito de marcar um gol, pelos pés de Miller, como que querendo coroar tudo que foi construído partida após partida nesta Copa do Brasil.

 

O Grêmio ganhou a Copa. É o maior campeão de Copas no Brasil. É o Rei de Copas. E só o Grêmio para me fazer chorar de alegria após as tristes emoções que marcaram os últimos dias.

 

Por tudo isso e por tudo que você já me proporcionou na história: obrigado, Grêmio!

Avalanche Tricolor: motivos para sorrir

 

Grêmio 1×0 Chapecoense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Elenco comemora gol da vitória em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA, no Flickr

 

Tínhamos 12 minutos do segundo tempo quando Henrique Almeida recebeu a bola do lado direito da área, limpou a jogada e chutou em gol, obrigando o goleiro adversário a se esticar para despachar a escanteio. Soaram aplausos de todas as partes da Arena. Pouco mais tarde, ele deixou o gramado e a maioria dos torcedores voltou a aplaudi-lo, apesar de alguns apulpos.

 

Mesmo sem ter feito muito em campo, além daquele chute já no segundo tempo, e tendo ofendido um grupo de torcedores no meio da semana, durante partida da Copa do Brasil, o atacante recebeu o apoio da torcida na tarde deste domingo.

 

Até Marcelo Oliveira tirado para Cristo nesta temporada pelo baixo rendimento na lateral esquerda foi reverenciado ao receber, antes de a bola rolar, a camisa com o número 100 às costas, simbolizando a quantidade de partidas que disputou pelo Grêmio. Ao fim, depois da entrevista na beira do campo, também foi aplaudido.

 

Pedro Rocha, que muitos queriam ver em disparada mas a caminho do banco, também vaiado no meio da semana, foi aplaudido aos 10 minutos de partida, ao marcar o único gol do jogo, após iniciar jogada de contra-ataque e trocar passe com Wallace.

 

Chamou-me atenção, ainda, a diversão provocada sempre que o placar eletrônico destacava o resultado de jogos dos times que tentam escapar da zona de rebaixamento. Bastava um gol que complicasse a vida do co-irmão, e uma onda repentina de vibração tomava a Arena.

 

Tudo bem, o  nosso gol era mais do que motivo para comemorar. Porém, nos demais momentos destacados nesta Avalanche, tive a impressão de que o torcedor estava mesmo era procurando motivos para ser feliz novamente.

 

A sucessão de derrotas e empates, o despencar na tabela, depois de ter sonhado com o título, e a perda de um dos técnicos mais promissores do futebol brasileiro, geraram um baixo astral nos últimos tempos que afastou o torcedor das arquibancadas.

 

Neste domingo, porém, provavelmente impactado pela classificação à próxima fase da Copa do Brasil da forma como foi conquistada, parecia que se buscava razão para sorrir.

 

E esta será uma das missões de Renato: nos dar motivos para sorrir. Ele precisará contar com 100% da disposição do time. O apoio do elenco pelo que se viu não faltará. Que agora consigamos retomar a bola, dominar o jogo, encaixar o passe, ter mais intensidade na frente, concluir mais e marcar mais, muito mais, gols.