Menino do Grajaú, a culpa não é da bananeira

 

Casas construídas em condições precárias nos barrancos desabam e matam famílias inteiras. Nesta quinta-feira, apenas um garoto de seis anos sobreviveu e logo saberá que a mãe, o pai e a irmã de nove anos foram soterrados no barraco em que viviam no Jardim Grajaú, extremo sul de São Paulo. Bem perto dali, quatro casas haviam sido interditadas pelo risco que havia de uma tragédia. A do garoto não tinha recebido aviso prévio mas veio a baixo assim mesmo.

Outra lição que o menino terá, em breve, é jamais plantar bananeira no terreno em que mora, pois este espécie de árvore só nasce em local com muita umidade e se estiver no morro é por que o lençol freático está ralo, aumentando o risco de escorregamento.

Ouça a explicação do coronel Luiz Massao Kita, da Defesa Civil do Estado de São Paulo, sobre o efeito das bananeiras

Antes, porém, que alguém ensine ao garoto recém-orfão de que a causa da tragédia foram as bananas que ele tanto gostava de pegar no pé, que saiba os motivos que levaram a família dele para o barranco. Que entenda a responsabilidade daqueles que tem o poder para definir políticas de habitação popular; daqueles que permitiram que a família dele fosse explorada e ocupasse áreas de risco; daqueles que deixaram de investir o dinheiro dos impostos em ações de combate as enchentes para fazer propaganda de si mesmo.

O menino sobrevivente do Grajau ainda tem muito a aprender, em São Paulo.

A metrópole alagada

 

Av do Estado ou Rio Tamanduatei (Petria Chaves)

“São Paulo tem só um ponto de alagamento, a cidade”. Foi do Liberdade de Expressão e de sua nova participante, a filósofa Viviane Mosé, que saiu a frase para definir a situação enfrentada pela capital paulista após uma noite inteira de chuva. A repórter Pétria Chaves sobrevoou áreas críticas como a Ceagesp, na zona oeste, e as marginais Pinheiro e Tietê e registrou imagens que mostram a dimensão do problema. Mas foi na zona leste que ela encontrou a foto mais ilustrativa da encrenca que a cidade enfrenta por ocupar as várzeas de córregos e rios: “Avenida do Estado ou Rio Aricanduva ?”, peguntou Pétria.

(Para ver mais imagens da enchente desta quarta-feira visite nosso álbum no Flickr)

“A natureza nunca é culpada de nada”, diz geólogo

 

O estado de São Paulo tem um mapa que identifica as áreas de risco e determina quais terrenos podem ser mais ou menos ocupados. Com base neste documento, a carta geotécnica, é que os municípios tem de traçar seu desenvolvimento. A explicação é do geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos que credita a este trabalho, entre outros, a redução no número de mortes provocadas por deslizamentos, na Serra do Mar.

Em entrevista ao CBN São Paulo, o ex-diretor do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas – responsabilizou a forma de ocupação do espaço urbano pelas tragédias que tem sido registradas nesta virada de ano. “A natureza nunca é culpada de nada” disse ao explicar que as chuvas que ocorrem neste período com forte intensidade costumam se repetir a cada 10, 20 ou 30 anos.

Álvaro Rodrigues dos Santos disse que está otimista em relação as soluções técnicas para combater o problema, mas pessimista quanto as decisões políticas. Na conversa desta manhã, no CBN SP, o consultor de geotecnia descreveu algumas ações que ajudaram a impedir mais mortes no Estado de São Paulo:

Ouça a entrevista do geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos ao CBN SP

Volto a espera da verdade, em 2010

 

A chegada de 2010 não nos deu tempo de remoer 2009, devido as tragédias anunciadas no litoral carioca e na capital e interior paulistas. As autoridades, tenham qual seja o sotaque regional ou político, falaram sem fugir do manual preparado por suas assessorias de marketing. Culparam o passado – que pode ser a gestão anterior ou o trabalho não feito nos últimos 30 anos – e anunciaram decisões para o futuro, sem se importar com o fato de que a população precisa de uma saída agora. Meu medo é que ao dizerem o que dizem o façam com a certeza da verdade.

Depois não entendem a descrença do cidadão com “tudo isso que está aí”. Ficam a justificar a queda da popularidade nos métodos das pesquisas em vez de olharem para os seus próprios modos. Correm em busca de um espaço nobre na mídia para venderem uma imagem que construíram nos gabinetes e se desmanchou no primeiro temporal de verão. Chegam ao absurdo de culpar o clima pela incapacidade de gerenciar crises.

Neste clima, volto nesta quarta ao CBN São Paulo, após sete dias fora do ar, resultado de um sistema de plantão comum nas redações jornalísticas em fim de ano. Período interessante pois dividi a angústia pelos acontecimentos em destaque no noticiário com o prazer de estar mais próximo da parte mais distante da família – aquela que se manteve lá pelo Sul do País, onde a tragédia das enchentes também deixou suas marcas.

Com eles e mais alguns amigos aproveitei o pouco que restou de São Paulo nesta virada de ano, além de chuva e engarrafamento (da capital a Guarulhos foram quase três horas no carro). Menos mal que o que me motivava era a companhia de todos.

Para ficar no campo das notícias, a melhor veio de Porto Alegre ao ouvir novamente – nessa segunda – a voz de Milton Pai na Rádio Guaíba, depois de seis meses de estaleiro. Que ele seja portador de boas novas neste ano.

A todos, um 2010 de verdades (é o que queremos ouvir, senhores e senhoras candidatos) !

Canto da Cátia: Córrego, lixo e morte

 

Guarulhos - Corrego Baquirivu (Cátia Toffoletto)

O lixo é tamanho que o córrego Baquirivu parece entupido após a chuvarada desse domingo, na cidade de Guarulhos. Em outro córrego, na estrada do Bonsucesso, um homem morreu após o carro em que estava ter sido arrastado pela enxurrada à noite. A imagem do córrego e de outras ruas alagadas na segunda maior cidade do Estado de São Paulo foram feitas pela Cátia Toffoletto.

Tem que enxugar a água porque o Tietê está no limite

 

Reflexo da Cidade (Pétria Chaves)

Reflexo do que é São Paulo em imagem da repórter Pétria Chaves/CBN

 

A chuva foi muito forte – dizem o técnicos que despencou 100 mm de água -, mas a cidade já encarou com menos prejuízos temporais bem mais intensos, nos quais o número de pontos alagados ficou longe dos 98 registrados nesta terça (08.12). É o que mostra levantamento feito pelo UOL com base em dados oficiais (leia aqui).

Os mais de R$ 1,7 bilhão investidos que rebaixaram a calha do Tietê para permitir que a vazão do rio chegasse a 1.188 m3 por segundo de vazão não são mais suficientes para a quantidade de água despejada nele. Ou seja, o rio está mais raso do que deveria, pois a manutenção não é suficiente para a quantidade de resíduos que se acumula na calha do Tietê.

Para o professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola Politécnica Mário Thadeu Leme de Barros entrevistado no CBN SP a saída está em aumentar a capacidade de São Paulo “enxugar” a água da chuva. Uma das opções é investir nos parques lineares que preservariam as encostas dos córregos e riachos que desaguam no Tietê e reduziriam o volume de água despejado no rio.

Dos 23 previstos para serem entregues até 2012, segundo o Plano de Metas da Prefeitura, apenas um está concluído, no Jardim Esther, região do Butantã. Oito deveriam estar prontos neste mês de dezembro.

Haveria outras possibilidades como impedir a ocupação sem limite e sem ordem que se realiza historicamente na capital paulista, mas para tanto é preciso coragem política e restrição de privilégios. Hoje, São Paulo paga um preço muito alto pela falta de planejamento e o que a cidade sofreu nesta terça é reflexo de uma série de erros urbanísticos, muito mais do que o excesso de chuvas.

Nesta entrevista nós falamos também sobre a falha que ocorreu no bombeamento das águas do rio Pinheiros que tornou a situação do Tietê ainda mais crítica.

Ouça a entrevista do professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e sanitária da Escola Politécnica Mário Thadeu Leme de Barros

Nesta quarta, também conversamos com um economista para entender o tamanho do prejuízo calculado pela cidade em virtude dos transtornos provocados pelas enchentes.

Ouça a entrevista de Heron do Carmo, professor da FEA-USP, sobre o Custo São Paulo

Congestionamento: não saia de casa com ele

 

Por Carlos Magno Gibrail

http://www.flickr.com/photos/olhopreto/

O Movimento Defenda São Paulo, o prof. Cândido Malta e o vereador Ricardo Teixeira, tem idéias e sugestões semelhantes sobre um dos problemas principais da cidade de São Paulo. Para resolvê-lo só falta combinar com os russos.

Os russos são os cidadãos paulistanos e os governos Municipal e Estadual.

É o que depreendemos da entrevista de Ricardo Teixeira, que não é o da CBF, mas do PSDB, dada ao jornalista Milton Jung, e da conversa que tivemos com o arquiteto Cândido Malta e a arquiteta Lucila Lacreta do MDSP.

Teixeira insiste no benefício aos alternativos meios de transporte, depois de punir os automóveis com dois dias de rodízio. Última medida que efetivamente reduziu o congestionamento.

– Reescalonamento de horários; transporte solidário, faixas exclusivas para motocicletas melhorando as 600 mil viagens diárias; faixas exclusivas para bicicletas nas 300mil viagens diárias, incluindo estacionamento; tarifas mais baixa para táxis.
– Proibição de estacionamento para automóveis e aumento do rodízio de um para dois dias da semana.

Lucila enfatiza a posição do MDSP que mira nos transportes coletivos, na continuidade dos planos tipos corredores de ônibus e transportes em trilhos, bem como na desistência das obras paliativas que ignoram a demanda reprimida.

O Professor Malta lembra o trinômio problemático da cidade, ou seja, o congestionamento, as enchentes e a habitação. Além de interdependentes, bem atual, na medida em que ontem tivemos colossal paralisação da cidade revertendo no final do dia a zero km de congestionamento, graças a tragédia anunciada mais uma vez da enchente que viria e mataria mais alguns paulistanos. Enquanto Prefeito e cidadãos, míopes ou estrábicos dirigem as análises para dispersas soluções. A busca de votos por um lado e a ignorância pela ilusão de ótica e pelo egoísmo leva a uma necessidade de conscientização da população ludibriada pela propaganda do carro e dos candidatos. Senhores absolutos.

Cândido Malta enfático sobre a impossibilidade da solução pelo transporte individual traz o seguinte raciocínio aritmético usado pelos técnicos: dado os 600mil veículos vendidos anualmente na cidade e considerando 5m para cada carro, precisaríamos de 125 avenidas Paulista com quatro faixas para abrigar esta quantidade. A demanda reprimida coloca apenas 25% destes carros na rua e ainda assim precisaríamos de 31 avenidas Paulista.

A limitação é inevitável, pois o número de carros é maior do que a oferta de espaço. A solução está menos nos números que são irrefutáveis mas que por razões emocionais ou mesmo de desconhecimento não estão sendo digeridos pela população.

O pedágio urbano uma das alternativas é veementemente rechaçado pelos cidadãos que insistem no direito de ir e vir, de carro. Como se este estabelecimento democrático tivesse sido criado na época do automóvel, ou como nascêssemos de carro.

No momento em que a Economia brasileira e a paulista dão sinais de força e crescimento não é admissível apostar apenas no tempo de maturação para que população e governo se dêem conta de que congestionamentos de trânsito podem brecar o progresso. Precisamos de ordem, ordem e progresso.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, às quartas escreve no Blog do Mílton Jung e sabe que o congestionamento custa bem mais caro que o pedágio.


Visite a galeria de fotos de Olho Preto, no Flickr

As imagens da enchente em São Paulo

 

Moto alagada na Tietê (Cátia Toffoletto)

O motoqueiro tentou cruzar a pista da Marginal Tietê alagada e não teve sucesso. Assim como ele, milhares de paulistanos sofreram nesta manhã devido as enchentes provocadas pelo transbordamento do rio Tietê. Todos os investimentos feitos para rebaixar a calha do rio desde 2002 até aqui não foram suficientes para a quantidade de chuva que se iniciou às sete da noite de segunda-feira. Para as autoridades, é muita água e nenhuma cidade seria capaz de resolver este problema. O dinheiro aplicado amenizou a situação, poderia ter sido muito pior e bla-bla-bla. Para o cidadão, resta enfrentar o que você vê nesta sequência de fotos produzidas pelos repórteres da CBN e por ouvintes-internautas.

Caminhão e motorista 'afogados' na Tietê (Cátia Toffoletto)

Caminhão e motorista ‘afogados’ na Marginal Tietê, na ponte das Bandeirais. O motorista saiu da cidade de Salto e seguia para Guarulhos, mas já estava há mais cinco horas parado no local.

Deslizamento em Sapopemba 3

Uma pessoa morreu em deslizamento de terra no parque Santa Madalena, em Sapopemba, zona leste de São Paulo. Veja mais imagens da capital e região metropolitana.

Alagamento na Presidente Wilson (Cátia Toffoletto)Alagamento na Mooca (Cátia Toffoletto)Desabamento em SapopembaRua Estados Unidos alagadaAlagamento em Mairipora (Rodrigo Amaral)Rua Havre próximo da Casa Verde (Pétria Chaves)Alagamento em São Paulo 1 (Cátia Toffoletto)Deslizamento em Sapopemba