Iminências

 

Por Julio Tannus

 

Na iminência do lançamento da telefonia celular no Brasil, nos anos 80, fui convidado pela então Telesp para testar a nova tecnologia. Na época, recebi um “tijolo” de telefone celular. Ao atender uma chamada em local público – na rua, no shopping – as pessoas me dirigiam olhares curiosos e indagativos: “ele está falando sozinho!?”, “será que enlouqueceu!?”.

 

Hoje, dirijo olhar curioso para as pessoas nos locais públicos – na rua, no shopping, no elevador, no cinema, na praia, e em lugares inimagináveis para mim: “por que não desgrudam do iphone, ipad!?”, “o que as leva a ficar tanto tempo focadas nesses aparelhinhos!?”

 

E chega a meu conhecimento uma nova forma de buscar as “iminências”:

 

Trend Hunter = Caçador de Tendências

 

É um profissional em geral jovem, de 20 a 35 anos, com fôlego para circular pelas ruas, cinemas, shows e exposições da cidade registrando tudo, até a roupa que você está usando. Com olhos atentos, máquinas fotográficas e notebooks, ele capta comportamentos, estilos, novos talentos, ídolos emergentes e desejos de consumo. Informações preciosas para as indústrias de moda, tecnologia e design.

 

Marcas líderes e seus concorrentes utilizam um relatório de tendências anual para entender as tendências do consumidor, identificar oportunidades e acompanhar a inovação do concorrente. Marcas como Kelloggs e Nestlé dependem de caçadores de tendência para desencadear uma inovação.

 

A TrendHunter, empresa especializada neste tipo de abordagem, emprega cerca de 100.000 caçadores de tendência espalhados por 191 países.

 

Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Escreve às terças-feiras, no Blog do Mílton Jung

A sociedade andrógina de Domenico De Masi

 

Por Julio Tannus

 

Tenho me referido aqui a alguns autores e suas reflexões sobre a época que vivemos atualmente. Em geral suas considerações são negativas. Já o professor de Sociologia do Trabalho da Universidade de Roma, Domenico de Masi, faz uma análise positiva. Aqui vai:

 

Enquanto a sociedade rural precisou de sete mil anos para produzir a sociedade industrial, a sociedade industrial precisou de somente duzentos anos para produzir a sociedade pós-industrial. O que entendo por sociedade pós-industrial? Entendo que é uma sociedade cujo epicentro não existe mais a produção de bens materiais em grande escala, mas sim a produção de bens imateriais em grande escala, ou seja, a produção de serviços, de informação, de estética, de símbolos e de valores.

 

Os valores da sociedade industrial eram o racionalismo e a produtividade… E o racionalismo da sociedade industrial era um racionalismo distorcido em relação ao racionalismo que quiseram os iluministas. Os iluministas, no final do século XVI, contrapunham a razão humana à completa falta de uma pesquisa científica, à magia. Na indústria, porém, o racionalismo iluminista foi aplicado de maneira pragmática.

 

Quando as indústrias falam de racionalismo querem dizer isto: tudo o que é bom é racional; tudo que é racional é masculino; tudo que é masculino tem a ver com a produção e tudo o que tem a ver com a produção é feito nos locais de trabalho. Contrariamente, tudo o que é emotivo é negativo; tudo que é emotivo é feminino; tudo o que é feminino tem a ver com a reprodução e tudo o que tem a ver com a reprodução é feito em casa.

 

Por isso, a indústria separou nitidamente os locais de vida e os locais de trabalho; o tempo de trabalho do tempo livre. E quando termina o trabalho, todos voltam para casa na mesma hora. E quando começa o trabalho, todos devem ir para a ele na mesma hora. E quando chegam as férias, todos a tiram ao mesmo tempo. Um escritor italiano diz que, nas horas de pico, até o adultério é impossível! Tudo é complicado. Ora, a tudo isto a sociedade pós-industrial contrapõe uma situação completamente diferente. Os valores da sociedade pós-industrial são de outro tipo. A sociedade industrial apreciava a executividade acima de tudo, a obediência, a ductilidade, a conformidade. A sociedade pós-industrial aprecia sobretudo a flexibilidade e a criatividade. A sociedade industrial apreciava sobretudo a prática. A sociedade pós-industrial, a estética. Se um relógio é duzentas vezes mais preciso do que o necessário, qual a necessidade de aperfeiçoá-lo ainda mais, do ponto de vista prático? Aquilo que hoje distingue dois relógios não é a prática mas sim o design. A estética é um dos grandes valores da sociedade pós-industrial. E um outro valor é a emotividade, que é conjugada com a racionalidade. Não mais só a racionalidade, não mais a emotividade como um fator negativo, mas a emotividade como um fator importantíssimo da alma humana. E a sociedade pós-industrial aprecia ainda a subjetividade. Não mais somente coisas de massa, consumo de massa, política de massa, sindicato de massa, tempo livre de massa, mas cada um quer ser apreciado como único. Como indivíduos únicos. Kirkegaard dizia: “Gostaria que sobre meu túmulo estivesse escrito: Aqui jaz aquele único”. Ora, emotividade, subjetividade e estética são três valores tipicamente femininos, dos quais os homens descuidaram durante os duzentos anos da sociedade industrial e que só as mulheres continuaram a cultivar. Por isso, junto com a criatividade, a flexibilidade, a emotividade, a estética, um outro valor importante é a feminilização. Isto é, a sociedade pós-industrial não é nem homem, nem mulher: é andrógina. É uma sociedade na qual são apreciados tanto os valores tipicamente femininos, como os valores tipicamente masculinos. E cada homem descobre que tem em si mesmo uma parte feminina, da mesma forma que as mulheres descobrem que têm em si mesmas certas capacidades que eram típicas dos homens. As sociedades que ainda não perceberam a feminilização são sociedades bárbaras. Infelizmente, acredito que no próximo século não existirá a paridade entre o homem e a mulher, mas que as mulheres serão superiores por um pequeno detalhe: as mulheres podem ter filhos sem ter um marido enquanto que os homens não podem ter filhos sem ter uma mulher.

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier)

A mentira no mundo corporativo

 

 

Nas palestras para executivos e empresas um dos pontos que destaco é que a mentira jamais deve pautar a política de comunicação corporativa. Quando houver informações que devem ser mantidas em sigilo, seja por questões estratégicas seja por questões legais, o porta-voz deve ser sincero, pedir desculpas se for o caso e dizer de forma direta que não pode comentar o assunto. Se possível, ofereça alguma dado que seja útil ao interlocutor demonstrando boa vontade em atendê-lo. Porém, jamais, em nenhuma situação, por mais grave que seja, minta. A mentira fragiliza a corporação e seus profissionais. Agora ou daqui a pouco, nós vamos descobrir a verdade.

 

A mesma regra deve prevalecer nas relações internas dos profissionais, no entanto é evidente que os mentirosos estão à solta. Afinal, a mentira é inerente ao ser humano e muitas vezes garantia de sobrevivência não apenas nas corporações. Há os que mentem para agradar e os que mentem para escapar de situações constrangedoras. Há os que mentem para prejudicar e os que mentem para se beneficiar. Há mentiras aceitas socialmente e mentiras reprováveis. O maior cuidado que devemos ter é quanto a dimensão e o efeito desta mentira.

 

Em 29 anos de redação cruzei por muitos mentirosos. E, confesso, contei as minhas também. Espero que nenhuma tenha prejudicado colegas ou empresa. Nunca foi esta a intenção nem soube de mal que tenha sido cometido por este ato. Vale o destaque: mentir para o público nem pensar, é condenável, é execrável, um desserviço à sociedade. Podemos, como jornalista, não publicar toda a verdade em determinados momentos porque esta se constrói no decorrer dos fatos e não a temos desde os primeiros instantes. Nem sempre ao se cobrir casos jornalístico se tem o domínio de todos os acontecimentos e para se chegar a verdade final são necessárias investigações mais profundas. De qualquer forma, busca-se sempre publicar a verdade daquele momento, que pode ser transformada diante de novas informações.

 

Um caso engraçado de mentiroso: um ex-colega – omito o nome não para mentir, mas para nos preservar – era incapaz de ouvir qualquer assunto sem contar algo extraordinário do qual teria feito parte. Os que conheciam a fama dele, costumavam provocar alguns assuntos apenas para ver como se sairia. Uma das histórias mais interessantes foi quando ouviu grupo de colegas falando de acidentes de avião e ele, sem constrangimento, contou que já havia pilotado e, por habilidade e sorte, conseguira escapar de uma tragédia ao pousar o monomotor sobre a rede de fios elétricos. Tentou convencer os colegas ainda de que Dolores Duran compôs para ele a música ‘A Noite do Meu Bem’, em 1959, e, em uma de suas viagens à Washington, foi convidado por assessor de JFKennedy para visitá-lo na Casa Branca. Não estou mentindo, não. Foi isso mesmo que ele contou. Se duvidar, pergunte ao meu pai, também colega do referido. Foi ele, aliás, que, em texto publicado aqui no Blog do Mílton Jung, apelidou nosso companheiro de rádio de Barão de Münchhausen, nascido no século 18, que serviu ao exército alemão e de tantas histórias extraordinárias e inverossímeis virou personagem de livro infanto-juvenil e de filmes para o cinema.

 

Infelizmente assisti a casos de mentiras que me levaram a questionar o comportamento ético do jornalista. Conto um dos que mais me incomodaram: uma ex-colega foi pautada a cobrir um assunto pois seu diretor de departamento tinha interesses comerciais no produto que seria apresentado. Ao retornar para a redação, o editor tentou entender qual o interesse jornalístico da reportagem e a jornalista, sincera, explicou a situação. Ao ser cobrado, o diretor negou que tivesse pautado a repórter. Ela foi demitida e o mentiroso garantiu seu emprego por mais alguns anos, a despeito do peso que levou na consciência. Em situações como essa, quando seu superior mente, é preciso avaliar bem se vale a pena permanecer naquele ambiente de trabalho e quanto estas situações podem prejudicar a sua imagem profissional.

 

Quanto a colegas mentirosos é sempre bom usar uma régua simples. Mentiras engraçadas, sorria; mentiras brandas, releve; mentiras graves, denuncie ou vá para bem longe para não ser contaminado.

Mundo Corporativo: conviver, liderar e criar

 

As atitudes são importantes na definição de quem cada pessoa será. Se você quer mudar, deve transformá-las, também. A sugestão é do consultor Dill Casella, entrevistado do Mundo Corporativo da rádio CBN e autor do livro “Atitude e Altitude – uma história sobre convivência, liderança e criatividade” (Editora Vozes). No programa, Casella falou, também, sobre como os profissionais devem se organizar para atingir suas metas: detalhando, orçando, planejando, priorizando, estipulando uma data e, talvez, a reavaliando no futuro.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar, no site da rádio da CBN, às quartas-feiras, às 11 horas, ao vivo, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn.

De definição

 

Por Maria Lucia Solla

 

Flores

 

Dizemos que o que se planta, se colhe; e ao mesmo tempo mora na mente a crença na sorte e no azar. Eu colho o que planto e vira e mexe me vejo de mãos dadas com uma ou o outro. Quando passo um tempo com um deles, depois da festa ou do sofrimento, me dou conta de quanto aprendo, de quanto cresço, de quanto tenho e do pouco que preciso. Tem também o fato de que o que é sorte para um pode ser azar para o outro. De qualquer ângulo que eu olhe, dentro ou fora do cerco, esses dois aparentados me dão a oportunidade de me tornar mais humilde e de me levar a entender que estar no comando do barco é uma função que se curva frente à força do mar. Sinto que vale mais o que tenho, do que o que não tenho.

 

Na verdade é preciso ter coragem para seguir o coração e para perceber a oportunidade que a sorte carrega. É pegar ou largar. Sorte e azar são duas faces da moeda, como tudo neste planeta de contrastes. Sorte vem vestida de alegria, satisfaz; azar vem devastando na porta de entrada. Agora, que a moeda cai de um lado ou do outro e vira a vida de pernas para o ar, isso não dá para negar.

 

Tenho aprendido que não é a sorte que vem até mim, mas sou eu que percebo o caminho até ela e decido ficar ali o maior tempo possível. Cada um escolhe o seu caminho, ou não…

 

“A definição está sujeita a revisão; é um ponto de partida, não algo esculpido em pedra para ser defendido até a morte.” Daniel C. Dennet, no livro que ganhei do Dimas e do Zeca, Quebrando o Encanto.

 

Até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: dinossauros, mentirosos e insatisfeitos

 

A cultura de forte hierarquia ainda vale nas empresas brasileiras, mesmo que dissimulada pois todos sabem ser um traço dinossaurico. Este comportamento infantiliza as lideranças nas organizações e os liderados acabam delegando todas as decisões para cima e não exercitam o seu potencial. Diz a consultora Betania Tanure, entrevistada do programa Mundo Corporativo da CBN, que “quanto mais alto na organização hierárquica, autoritária, mais cercado de mentirosos você está”.

 

Pesquisa desenvolvida pela consultoria Betania Tanure e Associados, especializada em transformação de cultura empresarial, em novembro de 2012, mostra que 74% dos homens que ocupam cargo de liderança estão insatisfeitos com o nível de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Este índice é ainda mais alto, 91%, entre as mulheres com filhos até 10 anos.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar no site da rádio CBN, às quartas-feiras, 11 horas, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn

De politicamente correto

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

O que quer dizer politicamente correto? O advérbio que dá qualidade a um adjetivo é um fator excludente na comunicação. Se eu digo que estou fisicamente cansada, excluo o cansaço mental, ou de outro tipo. Descrevo meu cansaço. Agora, correto é correto e pronto. De novo me lembro das coisas que meu pai dizia. Quando alguém comentava que fulano era muito honesto, ele interferia: não existe ninguém muito honesto, nem pouco honesto. Ou você é honesto ou não é.

 

O governo anterior fez uma tentativa parcialmente fracassada, de uniformizar parte da língua pátria. Ela não vingou legalmente, mas infelizmente de certa forma vingou porque está minando a fala da mídia, que leva a cartilha a sério. O falar e o escrever dos seus funcionários estão banhados nela. Mais grave ainda é o que está acontecendo com a linguagem e as ideias na literatura infanto-juvenil.

 

Mas você deve lembrar de:

 

Atirei um pau no ga-to-to
Mas o ga-to-to não mor-reu-reu-reu
Dona Chi-ca-ca ad(i)mirou-se-se
Do ber-ro, do ber-ro que o gato deu.
Miau!

 

Pois bem, já tem muita gente ensinando as crianças a cantarem:

 

Não atire o pau no gato-to
Porque is-so-so
Nao se faz-faz-faz
O gatinho-nho
É nosso amigo-go
Não devemos maltratar os animais
Jamais! (em algumas versões você encontra Miau!)

 

Odeio o politicamente correto. É preconceituoso, totalitário, prepotente e burro. Sou pelo respeito. Essa maneira de tentar amordaçar línguas e mentes, e salientar diferenças em vez de igualdades, me lembra a época do colégio, quando a gente tinha que encapar os livros malditos pelo regime da época.

 

E por falar nisso tudo, a presidente Dilma foi vaiada ao se referir a presentes na 3ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência como pessoas “portadoras” de deficiência. Foi vaiada pela platéia. Depois se corrigiu dizendo: Desculpa, pessoas com deficiência. Entendo vocês, porque portador não é muito humano, não é? Pessoa é”. E foi aplaudida.

 

Socorro!

 

“O politicamente correto é a negação da própria vida,” diz Ilan Brenman no seu livro “A condenação de Emília: O politicamente correto na literatura infantil”, editora Aletria, que nasceu da sua tese de doutorado em Educação, pela USP. Recomendo.

 

Então começo a treinar. No Rio Grande do Sul brigadeiro é negrinho. Quer dizer que daqui para frente vou ter que pedir, na doceria, um afro-descendentezinho? E você, imagine-se lendo para os pimpolhos, na cama antes de dormirem, A Euro-Caucasiana e os sete verticalmente comprometidos…

 

… ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

O trote na rainha e o trote da rainha

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A rainha Isabel II da Inglaterra, em 1995, por ocasião do referendo sobre a Independência do Canadá recebeu no Palácio de Buckingham um telefonema do humorista Pierre Brassard imitando o primeiro ministro canadense Jean Chrétien, então preocupado com o separatismo de Quebec. O trote transmitido pela rádio CKOI FM, que começou com sotaque britânico, ao passar para o quebequiano, fez a rainha demonstrar certo embaraço. Logo completado quando o humorista passou da política para o preparativo com os trajes do dia das bruxas. Sua Majestade, ainda assim continuou e disse que era assunto que interessava aos netos. Ao que o comediante desfechou: “Mas para vossa Majestade é simples; basta colocar um chapéu”.

 

A mesma rainha, 17 anos depois, como Elizabeth II da Inglaterra, por ocasião do internamento de sua neta por afinidade, voltou a estar envolvida com trote. Parece que o inigualável humor britânico é exclusivo dos ingleses, que não conseguiram passar os bons modos às colônias do Império Britânico. Ao mesmo tempo em que a Corôa é alvo potencial de ataques de humor duvidoso. E, como sabemos desta vez com final trágico. A enfermeira indiana Jacintha Saldanha não aguentou a ridicularização a que foi exposta pelos radialistas da 2DayFM da Austrália e se suicidou. Os radialistas Mel Greig e Michael Christian, depois de curtirem projeção mundial instantânea, imitando a rainha Elizabeth II no trote à Jacintha, caíram na verdadeira extensão do ato. Menos mal que reconheceram a infeliz forma de fazer humor e se retrataram. Ainda que por forte pressão, talvez da própria mídia e do público que inicialmente se divertiu, mas agora os repreende ferozmente.

 

O recrudescimento dos programas de humor grosseiro em nosso país e as atitudes criminosas internacionais embrionadas em bullying são testemunhas de que não se respeita mais nada. Bebês, crianças, costumes, direitos humanos, etc.

 

É preciso parar, e respeitar a todos.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

O Medo na Pós-Modernidade

 

Por Julio Tannus

 

Por que vivemos em condomínios fechados? De carros com vidros escurecidos? De carros blindados? Dentro de shopping centers? Com medo de perder o emprego? Temos medo da violência urbana, do terrorismo, da exclusão social, de ficarmos para trás. Sentimo-nos sós e desprotegidos. Vários pensadores tem se debruçado no assunto, buscando entender o porquê desse medo que nos assola cotidianamente.

 

A modernidade veio com a promessa de vida melhor, mais segura, e nós apostamos nela, que traria desenvolvimento da ciência, a vida seria pautada pela racionalidade humana que é o lugar de certeza, segurança. Teríamos uma vida organizada e civilizada, com a ciência e a tecnologia bem desenvolvidas, a tal ponto que finalmente viveríamos sem o medo contínuo. Mas as esperanças se frustraram e, hoje, alguns séculos depois, novamente vivemos uma era de temores. A vida que os teóricos do Iluminismo avistaram para os indivíduos da era da modernidade é bem diferente da que temos hoje.

 

Esperava-se que os medos pudessem ser contidos; no entanto, como o sociólogo polonês Zygmunt Bauman explica, no ambiente que vivemos hoje, a luta contra o medo é uma tarefa para toda a vida.

 

Como nos conta Carlos Henrique Aguiar Serra e Flávia Mendes Ferreira em seu texto “Medos e Pathos: o indivíduo na (pós)-modernidade”:

 

Uma possibilidade interpretativa que consideramos no nosso trabalho é a formulada por Fredric Jameson no texto “Pós-modernidade: a lógica cultural do capitalismo tardio”. Este autor parte da premissa de que na pós-modernidade há uma inexorável fragmentação do sujeito. Assim, o que se coloca, portanto, nos dias atuais, contexto de pós-modernidade, é uma crise identitária, mais, uma fragmentação da identidade.

 

Para Bauman, o Estado não pode mais cumprir sua promessa de proteção neste tempo de globalização e mercados extraterritoriais. Assim, o que mais amedronta são os perigos que podem vir de qualquer lugar e o número de perigos aumenta cada dia mais. Sabemos que as ameaças são muitas (das pessoas nas ruas, de alguma coisa acontecer ao nosso lar, de uma catástrofe natural, de perder o emprego, etc.), mas o que se tenta é administrar o medo, ou seja, tornar a vida com medo algo tolerável.

 

Os perigos são percebidos como administráveis, mas são também percebidos como companhias permanentes, pois nunca iremos nos sentir livres de todas e qualquer ameaça, em estado de paz completa, mas ao contrário, sempre haverá algo a nos atormentar, ou mesmo que não seja uma ameaça real, em nosso imaginário sempre há algo a nos ameaçar. A vida dos indivíduos da sociedade atual está longe de ser livre das ameaças, ao contrário se tornou uma longa luta contra os perigos genuínos ou supostos que nos traz medo, uma luta impossível de ser vencida.

 

Chamamos a atenção também para outro aspecto que sinaliza para um desencontro e distanciamento entre modernidade e pós-modernidade: a perda da historicidade na pós-modernidade. Entendemos que esta perda de historicidade se coaduna com a tese central de Jameson acerca da “fragmentação do sujeito”. Na pós-modernidade nada tem lugar definido e mais, que a “primeira vítima do período pós-moderno, sua ausência misteriosa, é a ‘história modernista’” (JAMESON, 1996).

 

Assim sendo, numa tentativa de conclusão, os indivíduos vivenciaram e vivenciam, ainda hoje, na modernidade e pós-modernidade, medos, crises e particularmente, no que se constitui como o principal sintoma presente tanto na modernidade como na pós-modernidade: o pathos.

 

Pathos é uma palavra grega que significa paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento.

 

Berlinck afirma que quando o pathos acontece, “algo da ordem do excesso, da desmesura se põe em marcha sem que o eu possa se assenhorear desse acontecimento, a não ser como paciente, como ator“ (BERLINCK, 2OO0).

 

Por fim, identificamos que os medos, e o pathos humano, assumem no atual estágio do capitalismo tardio, na pós-modernidade, uma dimensão considerável. Na verdade, se potencializaram e muito, e uma das possibilidades de superá-los é enfrentá-los, administrá-los e quem sabe, que os indivíduos sejam capazes de produzir fantasias catárticas, libertárias e prazerosas.

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e escreve, às terças-feiras, no Blog do Mílton Jung

A adolescência das empresas, das instituições e das pessoas

 

Por Julio Tannus

 

Nas leituras sobre o que é ser um adolescente, vemos alguma proximidade com o que somos como povo.

 

Adolescência
É a fase que marca a transição entre a infância e a idade adulta. Com isso essa fase caracteriza-se por alterações em diversos níveis – físico, mental e social – e representa para o indivíduo um processo de distanciamento de formas de comportamento e privilégios típicos da infância e de aquisição de características e competências que o capacitem a assumir os deveres e papéis sociais do adulto.

 

Jacqueline Cavalcanti Chaves, em “Amor e ódio nos relacionamentos afetivos da contemporaneidade”, mostra que, paralelamente ao ideal amoroso romântico, surgem, hoje em dia, novos códigos de relacionamento e novas formas de sociabilidade. O “ficar com”, comum entre os jovens, é um exemplo destes códigos e se caracteriza pela busca de prazer imediato e pela ausência de compromisso com o outro. Levando adiante ideias desenvolvidas em trabalho anterior, a autora toma como exemplos o “ficar com” e a relação amorosa virtual para explorar o modo pelo qual o sujeito lida com sua ambivalência na atualidade, tendo em vista que a experiência amorosa é “limitada, ambivalente, imprevista e imperfeita”, considerando algumas características das sociedades ocidentais contemporâneas como a ênfase dada ao consumo, ao prazer imediato, à diversão permanente e ao bem-estar absoluto.

 

A construção da identidade do adolescente é contraditoriamente uma identidade individual e uma identidade coletiva. O adolescente precisa do adulto, precisa de referência; mas ele precisa diferenciar-se, construir sua própria identidade. Tornar-se adolescente é viver cercado por profundos conflitos.

 

Em “Jakob Willem Katadreufe: força e crueldade sem pertencimento”, trabalho de Elisa Maria de Ulhôa Cintra, temos minuciosa e sensível análise do filme holandês “Caráter”, que serve à autora como material para a discussão daquilo que chama de “eixo narcísico do desenvolvimento”. Como se constitui um adolescente cujo anseio por poder físico e intelectual e cuja aspiração à auto-suficiência domina o seu horizonte? Empregando em seu estudo noções como a de pulsão de domínio, Cintra diz que antes de mais nada será preciso verificar se houve, em sua história, experiências significativas de ser acolhido, de pertencer. O pertencimento implica sentir-se parte de um núcleo humano onde predominam trocas afetivas e capacidade de reconhecer o outro.

 

O que somos
Vemos-nos com irresistível capacidade de nos isolarmos e assim ficamos enfraquecidos, impossibilitados de enfrentar os desafios. Perdemos a capacidade de aglutinação, força necessária para dar legitimidade a uma representação efetiva. Nossa passividade torna-se permissividade.

 

No futuro, além de nos reservar grandes e rápidas mudanças, novos conceitos e demandas vão exigir um processo constante de adaptação e resposta, tanto por parte das empresas como das instituições em geral, reforçando cada vez mais a necessidade de estarmos juntos. E, para isso, cada vez mais necessitamos estar presentes coletivamente para fazer frente a essas mudanças.

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e escreve às terças-feiras no Blog do Mílton Jung