De ajuda

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Comecei a escrever sobre um assunto que tem me fascinado especialmente na última semana – O Criador e a condição humana – mas falei com uma amiga hoje de manhã, no telefone, onde a gente costuma filosofar, e minhas crenças acordaram animadas. Por isso conversaremos sobre o Paraíso em outra oportunidade, porque a nova caída de ficha não me sai da cabeça.

 

Falávamos de ajuda, um assunto que sempre me interessou e sobre o qual escrevi no ‘De bem com a vida, mesmo que doa’, sugerindo que nos façamos três perguntas antes de ajudarmos alguém:

 

– esse alguém pediu ajuda?

 

– disse do que precisava?

 

– eu tenho para dar?

 

E como tudo que a gente toma por certo e sabido não evolui porque satisfaz a fome pequena, o conceito ficou aprisionado nas páginas do livro. De repente minha amiga disse uma palavra que libertou meu conceito das masmorras onde vivem as certezas. Disse que para ser ajudada, a gente precisa se desarmar.

 

Caí do cavalo depois de ter corcoveado com ele no terreno de conceitos com prazo de validade vencido que alimentam artrite e seus derivados. Quantas vezes eu já tinha ouvido esse verbo, usado nessa expressão, mas a palavra entrega seu significado às colheradas, como sopinha de nenê. Serve-se sempre na porção que estamos preparados para receber.

 

Percebi então que quando nos armamos, não portamos armas ou bombas contra o mundo. Na verdade armamos uma bomba dentro de nós mesmos e ficamos de sentinela para que ninguém a desarme. O verbo é reflexivo! A ação e o resultado da ação são de e para o sujeito. Como pentear-se, alimentar-se e todos os seus pares. Quase nunca percebemos isso; o processo é desencadeado automaticamente, mas independente da causa, é o que acontece. Como um vírus de computador que invade a máquina e começa a substituir bites bons por bites infectados.

 

Agora com o domingão pela frente, depois de uma caída de ficha dessas, vou pôr para rodar meu antivírus.

 

E você?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Do Quiéres às redes socias

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Maria Helena, minha mulher, e eu, compramos o nosso primeiro computador faz tanto tempo que nenhum de nós conseguiu se lembrar do ano em que isso ocorreu. Talvez tenha sido em 1996. Esse tipo de informação nem o Google, que sabe quase tudo, é capaz de dar. Vá lá, lembro-me tratar-se de um Vaio. O PC estava exposto e à disposição para ser testado. Tínhamos, porém, tanta vontade de levá-lo para casa que o adquirimos sem pensar duas vezes. Naquele tempo, um computador não oferecia aos seus usuários os recursos, os programas e, claro, os avanços tecnológicos que foram surgindo com o passar dos anos. Se não me falha a memória, não se faziam presentes redes sociais de nenhuma espécie. Os “chats”, então, eram quase tudo que tínhamos para conversar com amigos ou com pessoas que nunca víramos nem sonhávamos que acabaríamos conhecendo na internet.

 

Filiamo-nos ao “chat” chamado “quiéres?”. O seu criador, o mexicano Salvador Méndez, se tornou nosso amigo íntimo. Eu lhe escrevia em português a seu pedido. Queria aprender a nossa língua. Salvador foi, tanto para Malena quanto para mim, um excelente professor de espanhol, aliás, o melhor que tive. Ela escreve o “español” melhor do que muitos hispânicos que entram nos “chats” das redes sociais. Jogo sinuca pela internet e minha preferida é a “sala Barcelona”, do site “GameDesire”, porque nessa enfrento muitos adversários de língua espanhola, com quem converso. Não sou muito chegado, no entanto, a acessar as redes sociais. Acho-as, na atualidade, evidentemente, muito importantes. Maria Helena até andou usando o meu Facebook, mas tem, agora, o seu. Eu estou nesse e no Twitter. Já assinei o Orkut (existe ainda?). Há outros, mas não me convidem para neles me cadastrar. Seja lá como for, tenho saudade do nosso primeiro PC e mesmo de sua escassa tecnologia.

 

Citei, faz pouco, no meu texto desta quinta-feira, as redes sociais. Vejo-as todas como facas de dois gumes. Há quem se utilize delas para o bem. Existem, entretanto, os que se aproveitam delas para o mal. Os exemplos desses últimos – os do mal – ficaram patentes nos ustos protestos populares em que eram exigidos mais hospitais, educação, tarifas de transporte coletivo e o fim de corrupção dos políticos. A contribuição das redes sociais, nesse sentido, deve ter alcançado quase 100%, pois até no Estados Unidos brasileiros se filiaram às manifestações. Os vândalos, os bagunceiros, os aproveitadores, aqueles que são do mal, trataram de macular as boas intenções das pessoas de bem, realizando toda sorte de tropelias, tão amplamente noticiadas pela mídia que seria ocioso as repetir. A existência dessas ralés deixou-me ainda mais revoltado porque moro em Porto Alegre há 77 anos e não sabia que, entre os seus piores representantes, muitos são daqui.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Tô de saco cheio: quem mandou me acostumar mal !?

 

 

Este texto publiquei, originalmente, na coluna “Mais ou Menos” da revista MacMais de Abril/13, a convite do editor Sérgio Miranda, a quem agradeço pela oportunidade. O artigo se encaixa na coluna ‘Tô de saco cheio’, que sai às segundas-feiras aqui no Blog e se dedica a falar da relação empresas e prestadores de serviço com o consumidor:

 

Uma Olivetti de teclas grandes cercada por laudas e papel carbono decoravam minha primeira mesa de trabalho em uma redação. Ainda era protótipo de jornalista, contratado como estagiário para trabalhar na Rádio Guaíba de Porto Alegre, em 1984, e já realizava o sonho de produzir e redigir programa dedicado ao esporte amador. Também levava comigo mania incômoda e pouco produtiva: uma letra errada ou frase mal escrita não podiam ser retocadas, jogava-se a lauda fora e começava-se tudo de novo. Os textos tinham de estar sempre limpos e respeitando a margem. Perdia tempo e papel, mas teimava em não rebater as letras ou usar o pincel corretor.

 

Comecei minha carreira no mesmo ano em que, nos Estados Unidos, era lançada uma máquina que iria revolucionar a forma de nos relacionarmos com os computadores e tornaria meu trabalho muito mais simples – você não imagina o alívio que sinto ao corrigir uma frase ou justificar o texto com apenas um ou dois toques. Gosto de lembrar desta coincidência de datas, em minhas palestras, para mostrar a evolução da comunicação nestes quase 30 anos de jornalismo. Se ao começar na profissão, o computador que era um sucesso rodava a 8 Mhz e estava há milhas de distância, hoje escrevo este artigo diante de um MacBook Pro que acelera a 2,8GHz. A evolução da tecnologia e a alta velocidade com que os dados são trocados colocaram de cabeça para baixo os meios de comunicação, mexeram no cotidiano dos jornalistas e mudaram o hábito do consumidor de informação. Poucos têm paciência para o jornal do dia seguinte ou o telejornal da noite; todos querem a notícia aqui e agora.

 

Tenho certeza de que Steve Jobs pensava em mim quando criou o Macintosh II. E sabia que, mesmo que levasse 20 anos para me encontrar com um Apple, ali estaria a máquina que iria resolver os meus problemas. Meu batizado foi em um PowerBook G4, que ainda guardo em casa, apesar do problema na tela que nenhum técnico é capaz de resolver. No teclado confortável para um notebook escrevia textos com rapidez e clareza. As ideias fluíam com facilidade. Percebi que o Keynote era um espetáculo quase tão significativo quanto o conteúdo da palestra. E era possível manipular arquivos de maneira simples, direta e objetiva.

 

Contaminado pelas máquinas prateadas – tive ao menos mais três modelos de Mac, inclusive o primeiro MacBook Air -, imaginava ter todas minhas necessidades atendidas. O tempo me mostrou, porém, que o reino encantado de Jobs tinha limites, em especial quando dependia de terceiros. A começar pela dificuldade de algumas empresas em fazer rodar seus programas – e não me refiro a games, hoje um problema menor. Por exemplo, tenho de manter um pequeno HP na mesa para acessar minha conta jurídica no Bradesco, que me promete há meses uma solução, sem sucesso. As certificadoras digitais me obrigam a manter versão antiga do Firefox para emitir notas fiscais. Pior mesmo são as assistências técnicas que se apresentam como autorizadas.

 

Nestes dez anos em que me acostumei a ser bem servido pela Apple, nas vezes que precisei de um conserto fiquei muito frustrado. O usuário Mac tem computador de alta qualidade, programas que satisfazem e performance de deixar qualquer colega da mesa ao lado de boca aberta. Infelizmente, as assistências técnicas da marca constroem um padrão de atendimento que vai na contramão da imagem de qualidade embarcada nos produtos da Apple. E não se trata de pedir nada de excepcional, apenas que respeitem o direito do consumidor.

O Keynote de Jobs é fascinante

 

Aproveito as férias para ler a biografia de Steve Jobs, lançada por Walter Isaacson, livro bem escrito e com detalhes interessantes, alguns que conhecia desde que li iWoz, escrito pelo co-fundador da Apple Steven Wozniak. Gosto das biografias muito mais do que qualquer outro gênero talvez por cacoete adquirido no jornalismo, onde se tende a falar de fatos reais. Enquanto leio, lembro-me de uma encomenda que havia sido feita pelo editor da revista MacMais, especializada no mundo Mac, para que eu escrevesse sobre o que mais me admirava no genial Steve Jobs. O texto jamais foi publicado e acabo de encontrá-lo entre vários arquivos expostos na mesa do meu MacBookPro:

Nasci no jornalismo em 1984 quando Steve Jobs trouxe a nós o Mac II, que tinha como grande façanha permitir o acesso do cidadão comum a um mundo até então reservado aos nerds. Mas apenas fui descobrir as coisas fantásticas que ele e sua equipe criaram muitos anos depois ao comprar o primeiro PowerBook, na virada do século. Rapidamente me apaixonei pela praticidade e criatividade das máquinas e da marca. Airbook, MacBook, IMac, Ipod, Iphone, Itouch e, finalmente, o Ipad se misturaram aos móveis da minha casa. E da minha vida.

Mais do que as máquinas, porém, foi sua performance no palco, ilustrada por um incrível Keynote, que me fascinou. Estudei, me atentei e explorei o programa de apresentação até onde meu conhecimento rasteiro permitiu. Difícil encerrar uma das muitas palestras sobre comunicação – foram 150 em três anos – sem que alguém da audiência não me venha cumprimentar pelas telas e recursos que aplico. Retribuo com um agradecimento envergonhado. Sei que boa parte daquele sucesso se deve a Jobs.

Consumi cada novo livro que o citava, cada página de revista que trazia informações sobre ele. Considero-me relativamente informado sobre o homem que liderou uma das empresas mais revolucionárias do mundo a ponto de não me iludir com as fantasias e mitos que surgiram em torno dele. Nada me tirou, porém, a paixão por sua obra e criatividade. A arte de Steve Jobs é a inovação e isto nos marcará para todo e sempre.

Posso sobreviver sem PC, sem celular, não

 

Por Milton Ferretti Jung

O homem vem criando e aprimorando ao longo, em especial, dos séculos XX e XXI (que me desculpem os inventores mais antigos, merecedores do maior respeito), tecnologias que facilitam sobremaneira o nosso dia a dia. Foram lançadas no mercado novidades que, nem faz tanto tempo assim, seriam inimagináveis para os nossos antepassados. Está, entre essas, em lugar de honra no pódio das invenções, sem a mínima dúvida, a internet. Sempre que vou digitar esse vocábulo fico em dúvida. Talvez devesse iniciá-lo com letra maiúscula ou mais que isso, completamente em caixa alta: INTERNET. Meu primeiro computador,um Compaq, foi adquirido em 1996 (já contei isso em postagem anterior). Desde então, aqui em casa e no trabalho, lido com PCs e, claro ,internet. Fala-se, hoje em dia, mais em digitar do que em escrever. Com a chegada do iPad, provavelmente, muitas pessoas (não serei uma delas, garanto) manterão suas bibliotecas, pequenas ou grandes, somente para enfeitar suas casas. Quem gosta de ouvir músicas enquanto caminha dispõe de outra das criações do falecido Steve Jobs, o iPop,aparelhinho que pode ser plugado também em automóveis que dispõe de sistemas de áudio mais modernos.

Entre todas as inovações tecnológicas que sacudiram o mundo existe uma, porém, cuja utilidade rivaliza com as que citei e com outras a que não me referi para não alongar demasiadamente este texto. Trata-se do telefone celular, lançado na cidade do Rio de Janeiro no início dos anos 90 visando, na primeira fase, a suprir a demanda reprimida pelos serviços de telefonia fixa. Nessa etapa, os celulares eram analógicos. Na segunda geração tornaram-se digitais, permitindo voz e dados. São agora aparelhos avançadíssimos e sofisticados. Jamais esqueci que o meu primeiro celular custou os olhos da cara, algo em torno de mil e quinhentos reais. Era um imenso Motorola. Hoje, graças a um plano de 200 minutos, que tenho com uma telefônica, saiu-me de graça um diminuto Nokia C3-00. Posso sobreviver sem PC, mas não sem telefone móvel. Não fosse um deles e eu teria ficado sem socorro quando meu carro sofreu pane tarde da noite numa via pública. Citar outros exemplos dos benefícios prestados por um celular às pessoas seria chover no molhado. Afinal, não há quem não os conheça e tenha deles se valido. O amigo leitor talvez não concorde com a primeira frase desse parágrafo, mas, se pensar um pouco, quem sabe me dará alguma razão.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Ele não aprova as invenções de Steve Jobs

 

Por Milton Ferretti Jung

Maria Helena e eu adquirimos o nosso primeiro computador, um Compaq, em 1996. Comprei-o sem sequer atentar para o fato de ele já ter sido manuseado por outros clientes da loja, porque estava em exposição e liberado para ser testado. Foi um erro, mas, felizmente, sem conseqüências. PCs têm de chegar virgens às mãos de seus compradores. A primeira providência que nós dois tomamos foi contratar um provedor para que, sem demora, pudéssemos nos transformar em navegadores da internet. O computador passou daí para a frente a fazer parte das nossas vida. Não podemos viver sem um deles. Ou melhor, mais do que um. Afinal, por isso os chamamos de Personal Computer. Depois do Compaq, com sua memória fraquíssima, parentes bem mais poderosos o substituíram, com acréscimos de periféricos e outros que tais, como é normal.

Para quem vem acompanhando os avanços tecnológicos dos últimos tempos, mesmo sem ainda ter adquirido algumas das maravilhas que estão no mercado e às quais se somam outras num piscar de olhos, causa espanto que existam pessoas avessas às modernidades. E que não se envergonham de confessar a sua recalcitrância. Fosse eu um desses, poria minha violinha no saco. Li num jornal gaúcho o texto produzido, provavelmente num PC, por um cavalheiro que não aprova as invenções de, imaginem, Steve Jobs. Ninguém é obrigado a ter iPhone,iPod e iPad. Estes aparelhos, que tanto facilitam a vida da gente, seja no trabalho, seja no lazer, ainda não são baratos. Escrever, porém, que essas maquinazinhas e outras, como o telefone celular, tiram a concentração dos aluno, transformando-se em tormento para os professores, é um baita exagero. Os alunos perdem a concentração na sala de aula quando os professores são muito chatos.

Sim, os avanços tecnológicos têm preço. Quem disse que não tinham. Já não concordo que, com um iPhone, por exemplo, as pessoas deixem de apreciar, num parque, o que existe de belezas naturais e andem como se fossem zumbis. Não entendo que, quem destesta novidades como as citadas, se atreve a criticar aquilo que não conhece. E não sabe sequer porque os nomes da agenda de celulares com touch screen deslizam tão rápidos que mal consiga os acompanhar.


Milton Ferretti jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: Steve Jobs, o Imortal

 

Grêmio 1 x 0 Santos
Brasileiro – Olímpico Monumental

Vibrava com as jogadas de um time que se transformou neste campeonato; vibrava ao ver Douglas jogar como um guerreiro, do que jamais imaginei lhe chamar um dia; assim como vibrava com os dribles de Escudero e as descidas alucinadas de nossos laterais; quando um torpedo aterrissou em meu celular com a não inesperada notícia da morte de Steve Jobs.

Nasci no jornalismo, em 1984, quando o mentor da Apple trazia ao mundo o Mac II, que tinha como grande façanha permitir o acesso dos cidadãos comuns a um mundo até então reservado aos nerds. Mas apenas fui descobrir as coisas fantásticas que ele e sua equipe criaram muitos anos depois ao comprar o primeiro PowerBook, na virada do século. Rapidamente me apaixonei pela praticidade e criatividade das máquinas e da marca. Airbook, MacBook, IMac, Ipod, Iphone, Itouch e, finalmente, o Ipad se misturaram aos móveis da minha casa. E da minha vida. Consumi cada novo livro que citava Jobs, cada página de revista que trazia informações sobre ele. Considero-me relativamente informado sobre o homem que liderou uma das empresas mais revolucionárias do mundo a ponto de não me iludir com as fantasias e mitos que surgiram em torno dele. Nada me tirou, porém, a paixão por sua obra e criatividade. A arte de Steve Jobs é a inovação e isto nos marcará para todo e sempre.

O ritmo alucinado do Grêmio na tela da televisão, porém, arrancou a tristeza que me abatia. E sem perceber estava novamente ligado pelas emoções do futebol fascinante que o time impôs no estádio Olímpico. Voltei a vibrar e socar o ar quando a vitória de realizou.

Grêmio, só tu pra me fazer sorrir nesta noite em que lamento a morte de um dos grandes gênios que já passaram entre nós.

Pensando bem, Steve Jobs é como o Grêmio, um Imortal.

Éramos felizes e não sabíamos ?

 

Por Milton Ferretti Jung

“Éramos felizes e não sabíamos”. Ouve-se seguidamente essa frase. Quem ainda não a escutou? Ela serve para lembrar, com prazer, o passado, nem sempre se referindo ao que as pessoas viveram. Outro dia, por exemplo – socorre-me o Google – um diretor da Rede Globo disse que os radiodifusores sentem saudade do tempo em que não havia a ameaça das novas mídias em seu modelo de negócios.

Normalmente, porém, quem pronuncia a frase é gente que vivenciou na sua infância momentos inesqucíveis, comparando-os com a realidade dos dias de hoje.

Permitam-me que regresse aos meus oito anos ou pouco mais que isso. Minha família morava diante de uma pracinha. Essa não passava de um triângulo situado no encontro de duas ruas. A prefeitura tentou em vão transformá-la numa praça de  verdade, mas nós, seus usuários, nunca permitimos porque acabaria com nossos improvisados jogos de futebol, basquete, vôlei e outras brincadeiras. Na minha rua havia também muitos terrenos baldios, os quais, às vezes ,serviam para que uma turma maior participasse de “peladas”, eis que o chão da pracinha era não só inclinado como sem um mínimo de grama.

O tempo foi passando, a pracinha permaneceu incólume. Os terrenos baldios acabaram. Em seu lugar surgiram casas. Os guris cresceram, casaram, tiveram filhos, alguns edifícios substituíram as casas mais velhas. Ainda sobraram os que, na juventude,fundaram um clubezinho – o Tijuca – que congrega parte da turma antiga em jantares de confraternização.

Meus filhos, quando visitavam seus avós, que nunca se mudaram, chegaram a conhecer a pracinha. Meus netos, porém, nunca passaram sequer perto da residência avoenga. Eles estão noutra. Brincam,hoje,como muitas crianças da idade dele, com computadores,iPod,iPad,Nintendo,Play Station, etc.

O Fernando, mais moço da turminha, filho do Christian e da Lúcia,irmão da Vitória, possui até um blog e está tentando ensinar a tia Jacque a criar o dela. Gregório e Lorenzo, filhos do Mílton e da Abigail, desde menininhos lidam melhor com computadores  que muita gente grande. Eu jogo somente Tetris no PC. E olhe lá.

Quando paro para pensar, volta e meia me ocorre a frase com a qual iniciei este texto e me pergunto quem teria mais razão para usá-la: eu, meus filhos ou meus netos? Responda quem se achar capaz.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista, trabalha na Rádio Guaíba de Porto Alegre e é meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de SP: Um índio na Capital

 

Yaguarê YamãA vida na natureza e no centro urbano se misturam nas histórias contadas por Yaguarê Yamã, nascido na aldeia Yàbetué, na cidade de Nova Olinda do Norte, em Paraná do Urariá, no Amazonas.

Índio Maraguá passou sua infância no norte do País, chegando em São Paulo apenas quando já havia concluído o período escolar. Chegou para estudar, fez Geografia, escreveu livros, contou histórias para crianças e casou.

No depoimento gravado ao Museu da Pessoa, para o Conte Sua História de São Paulo, Yagaré fala das lições de criança e como aprendeu a desenhar usando uma espinha de peixe. Da cidade grande, reclamou do frio e da solidão, mas, por contraditório que pareça, foi aqui na capital que descobriu seu amor – uma descoberta que ainda causa espanto aos seus amigos da aldeia.

Ouça trechos do depoimento de Yagaré Yamã no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado por Cláudio Antônio<

Você também pode registrar a sua história, grave seu depoimento no Museu da Pessoa. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou entre no site do Museu da Pessoa .

Conte Sua História de São Paulo: Festa da cidade

 

Entrevista_10Filha de ex-fazendeira do café e comerciante na capital, Maria Rosa Ascar chegou menininha em São Paulo carregada pelas mãos da mãe, após o pai ter morrido. Vieram mais oito dos 14 irmãos que viviam na mineira Nova Rezende e todos aqui foram estudar. Viveu com entusiasmo a festa dos 400 anos, comemorou ao lado de autoridades como o presidente Getúlio Vargas e assistiu a chegada da modernidade à capita: a escada rolante e o computador.

No depoimento gravado pelo Museu da Pessoa, durante a festa de aniversário de São Paulo, em janeiro deste ano, Maria Rosa lembrou de um dos primeiros bairros onde morou, a Bela Vista, e não conteve: cantarolou o amor pela capital.

Ouça o depoimento de Maria Rosa Ascar, sonorizado pelo João do Amaral

Você também pode participar. Agende seu depoimento ao Museu da Pessoa pelo telefone 011 2144-7150 ou pelo site www.museudapessoa.net. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e meia da manhã.