Conte Sua História de São Paulo: tentando desvendar-te em cada noite fria

 

 

Neide Lopes Ciarlariello
Ouvinte da CBN

 

 

 

 

No Conte Sua História de São Paulo vamos ouvir o soneto da ouvinte da CBN Neide Lopes Ciarlariello, paulista, filha de paulistanos e neta do cantor paulista Paraguassu. Neide está com 80 anos, é poeta, pertence a Academia Contemporânea de Letras de São Paulo e a Real Academia de Letras do Rio Grande do Sul:
 

 

Intrinsicamente ligadas, eu e tu amada minha
Tão bela! Sonho que percorro em cada via
Em cada esquina, em cada praça em cada vinha.
Te absorvo passo à passo, noite e dia
 

 

Na incansável busca do teu cerne
Tentando desvendar-te em cada noite fria
Eu não consigo, por mais que me aderne
No rastro prateado daquela estrela guia.
 

 

Pedantife de esmeraldas de Fernão
Cinzelada pela força do trabalho
És única nesse turbilhão, és joia rara
 

 

Emoldurada em ouro pelo sol
Minha São Paulo!
Minha terra!
Meu torrão!
 

 

Neide Lopes Ciarlariello é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie suas lembranças da cidade para contesuahistoria@cbn.com.br. 

Conte Sua História de São Paulo 466: os passeios de bar em bar na noite paulistana

 

Carlos Ferreira Lima
Ouvinte da CBN

 

 

São Paulo nunca foi uma cidade, digamos, muito tranquila. Sempre teve seus bandidos, alguns até famosos. Mas entre os anos de 1970 e 1980 dava para atravessar, por exemplo, sem medo, de madrugada, a Praça da Sé — ao menos era o que eu fazia, sem susto, sem sobressaltos.

 

Na Praça da Sé mesmo, do lado esquerdo de quem entra no imponente prédio de fachada de estilo jônico e granito negro da Caixa Econômica Federal, havia um bar minúsculo, desses que não suportariam três fregueses em pé, chamado Toca da Onça, que ficava aberto 24 horas. As sugestões de ‘comes e bebes’ eram poucas, e honestas: servia um sanduíche de linguiça do tipo Bragança, saboroso, feito na chapa. Podia-se até encomendar a compra da linguiça, a granel, por quilo. Depois que o bar fechou, o lugar virou loja de cartuchos, cujo letreiro até outro dia ainda estava estampado no toldo. Voltou a fechar.

 

Eu trabalhava no BCN — Banco de Crédito Nacional, que também não existe mais, na Rua Boa Vista. Algumas vezes, às sextas-feiras, após o expediente e quando não tinha aula, caminhava até o Bexiga que na época bombava como hoje ferve a Vila Madalena. Havia bares como o Café do Bexiga, o Persona e o Boca da Noite. Daqueles tempos, resistem o Café Piu Piu e o Café Aurora.

 

O Persona era de um artista plástico, todo decorado com espelho e velas. Nele jogava-se o Persona com um espelho, um par de velas e um disco do tamanho de um long play. Um casal, frente a frente, intercambiava imagens e brincava com isso por um bom tempo. Jazz e rock ao vivo eram as trilhas sonoras. O baixista Pete Woolley estava sempre tocando por lá.

 

Na volta do Bexiga, a pé, de madrugada, pela Santo Amaro, Maria Paula, Viaduto Dona Paulina, chegava a Praça da Sé. Uma parada para comer um sanduíche, beber, provavelmente, uma saideira, descer a General Carneiro e chegar Praça Ragueb Chohfi, no Parque Dom Pedro II. De lá seguia para casa, com um ônibus que circulava 24 horas — coisa rara naquele tempo. Esta linha que seguia para Ferraz de Vasconcelos, na Região Metropolitana, cortava a zona Leste — passava pelo Tatuapé, Carrão, Vila Formosa, Itaquera. Não existe mais, assim como muitos dos bares que frequentei. Assim como a tranqüilidade que me permitia caminhar de madrugada. O que persiste é São Paulo. A nossa São Paulo.

 

Carlos Ferreira Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você também as suas lembranças da cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: o primeiro emprego no estúdio dos jingles

 

Cláudio Moreira
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci na Maternidade São Paulo. Hoje, tenho 73 anos. E me veio a mente as lembranças do meu primeiro emprego, em 1961. Fui trabalhar no centro da cidade que para mim era uma consagração, pois fui para a rua mais badalada de São Paulo daquela época, a Barão de Itapetininga. Número 255, Galeria Califórnia. Ali havia a Magson que depois virou Studio G. Martins, onde eram gravados os melhores jingles do rádio e da TV brasileiros.

 

Eu era office-boy e tinha contato direto com os grandes criadores: Gilberto Martins, Heitor Carillo, Carlos Henrique e o o maestro Hector, um argentino. Lá foram criados os jingles da ‘Grapette, quem toma repete’, ‘Tody dá mais energia’ e, entre outros tantos, o do Creme Rugol ….

 

Não segui esse caminho da criatividade. Fui para o mundo financeiro, que não deixa de ser criativo, vai? Agora, aposentado, ouço a CBN boa parte do dia e curto minha neta Duda, de cinco anos. Aprendi muito com aquele pessoal do primeiro emprego. Considero-me um cara alegre e criativo —- ao menos é o que Duda costuma dizer quando fala do vovô.

 

Claudio Moreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva as suas lembranças da cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 466: meu amor preso na jaula do Parque Shangai

 

Cesar Campos
Ouvinte da CBN

 

 

Hoje estou com 65 anos. Quando criança vi coisas incríveis em São Paulo.

 

Meus pais eram separados e eu vivia com minha mãe e irmãos. Esperava com ardor o dia de sábado, quando ele me levava a passear no Parque Dom Pedro II. Cheio de árvores, caminhos ladeados de flores e plantas tropicais. Tinha lagos, uma ilha artificial. Pequeninas pontes. Que o coronel Américo Fontenelli transformou em estacionamento de ônibus.

 

Ao lado do parque D Pedro, meu pai me levava ao Shangai, uma jóia então perene para os olhos de uma criança de seis ou sete anos. Foi lá que tive minha primeira paixão de que me recordo. Uma bela moça, que deveria ter 18 ou 19 anos, que se transfigurava, por um acidente genético ou maldição tribal, em um enorme gorila. Era a Monga, a Mulher-Macaco. Uma morena de maiô, lindas pernas, cabelos ondulados e longos, lábios carnudos. Quando, ao apagar das luzes, ela se transformava e ameaçava sair da jaula, as pessoas corriam e gritavam. Eu ficava firme, como um herói, esperando que ela voltasse a sua beleza natural na próxima sessão. Ou no sábado seguinte.

 

Com minha mãe, eu andava de bonde. Com seu cobrador heróico, que circulava pendurado na boleia com os dedos cheios de notas de dinheiro fazendo troco. Curtia a chuva de dentro do “bonde camarão”, aquele fechado, onde eu via a publicidade do Rum Creosotado.

 

Pegava o bonde na Avenida Celso Garcia, no Brás, onde morávamos, até a Praça Clóvis Bevilacqua; e na Praça da Sé embarcávamos em um segundo bonde que subia a Vergueiro até a Praça Santo Agostinho, onde morava minha madrinha Josefina, amiga de mamãe dos tempos de juventude em Ribeirão Preto. Eu ficava horas na varanda, olhando aquela pracinha com ares europeus, árvores miúdas e banquinhos, ladeada por muros de tijolinhos à vista da Igreja e vivendo, quem sabe, um “dèja-vu” de outras vidas no velho continente.

 

Hoje, invejo as antigas cidades europeias que mantém suas paisagens centenárias e permitem aos velhos caminharem sobre as mesmas calçadas e tocarem os muros que guardam memórias.

 

César Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também suas lembranças e envie e para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: as cadeiras na calçada do Bexiga

 

Armando Fragnan
Ouvinte da CBN

 

 

Antigo reduto da colônia italiana desde o início do século passado, hoje transformado em bairro boêmio, acompanhei a todas as modificações ocorridas no Bexiga. Assisti à desapropriação na década de 60 que desfigurou grande parte da região.

 

Nascido e criado na rua João Passalacqua, quase nada lembra o antigo bairro. Os italianos, alfaiates, sapateiros, barbeiros e marceneiros desapareceram do bairro, com exceção dos padeiros que conseguiram resistir ao tempo. Naquela época lembro-me que segunda-feira era feriado para tais profissionais.

 

Ao domingos era infalível a missa na capela do Colégio Passalacqua. A seguir, os alunos rumavam para a segunda missa, na igreja Nossa Senhora de Achiropita. Nos fins de semana, a moda era frequentar o cine Rex, que exibia dois filmes aos moradores do bairro. Na rua Rui Barbosa, os vizinhos retiravam as cadeiras de suas casas, levando-as às calçadas onde sentavam enfileirados lembrando os costumes calabreses, sicilianos e napolitanos.

 

Havia as partidas de futebol de salão que se realizavam na quadra do Boca Junio’r da Bela Vista, na rua Santo Antonio.

 

Nas enfermidade da família era obrigatória a visita domiciliar do doutor Mazza que, religiosamente, acompanhava a evolução do paciente em casa, constituindo o médico da família, figura quase extinta nos dias atuais.

 

Pelas ruas do bairro, por falta de lugar apropriado, aconteciam os ensaios da Escola de Samba Vai-Vai, na época Cordão Vai-Vai.

 

Os primeiros namoros e, posteriormente, os bailinhos da rua Major Diogo, na época da Jovem Guarda, existem hoje apenas em nossas lembranças.

 

Do antigo Bexiga, que originou a este novo Bexiga, resta apenas a saudade de quem teve o privilégio de vivê-lo.

 

Armando Fragnan é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças da cidade e envie o texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos de São Paulo, visite o meu blog miltonjung@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 466: as tribos e índios que cercaram minha infância, no Planalto Paulista

 

Maria Ângela Silveira de Souza
Ouvinte da CBN

 

 

Tribos, índios e objetos indígenas cercaram minha infância. Não, não sou filhos de índios, mas o bairro onde morei dos três aos 11 anos, o Planalto Paulista, emprestou dos povos nativos diversos nomes para batizar suas ruas. Aratãs, Guainumbis, Itacira, Piassanguaba e Quinimuras são alguns dos que povoaram meu mundo. Meus vizinhos eram o Ibirapuera e Moema.

 

Minha taba … minha casa era cercada por ladeiras, que me viram passar e crescer entre os anos de 1950 e 1960. Quando mudei para lá, minha rua e outras como a Av Indianópolis eram de terra, e ela foi a matéria-prima para as minhas brincadeiras. Do barro, fazia as comidinhas para as bonecas. Na terra mais seca, caprichava nos buraquinhos feitos com tampinha de garrafa para jogar bolinha de gude. Empinar papagaio era minha alegria. Eu mesma construía meu pássaro com papel de seda, varetas, cola de farinha e linha de costura. Tudo comprado no armazém do bairro, que vendia também balas, maria-mole, arroz, óleo, caderno e um mundinho de coisas práticas.

 

Vi as ruas serem asfaltadas e logo ganhei minha primeira bicicleta. Uma Monark vermelha com cano para meninas. A sensação era de que havia ganhado o mundo. Pedalava ladeira abaixo, sozinha, feliz pela liberdade inocente e gostosa. às vezes exagerava. E o farmacêutico do bairro é que cuidava dos curativos.

 

Com o aeroporto de Congonhas, meu pai me levava para ver as aeronaves de perto e tomar um lanche. Me encantavam os passageiros muito bem vestidos e chiques. Em 1963, um avião caiu perto de casa. Dos 50 a bordo, 13 sobreviveram. Nunca mais esqueci o nome de um deles: Renato Consorte, conhecido comediante da época — que, hoje, é até nome de rua.

 

A avenida Paulista faz parte da minha vida —- quase uma extensão de casa. Vi o antigo Cine Astor, no Conjunto Nacional, se transformar na Livraria Cultura. Presenciei o incêndio no Center 3, em 1987. Em meados de 1990, mãe, frequentei o Parque Trianon com minha filha, e gostávamos de ver um bicho-preguiça que ficava na árvore. Nunca mais apareceu.

 

As mudanças na cidade eram visíveis e dava para acompanhar o que nascia e o que morria. Agora, a velocidade com que tudo acontece não dá tempo para expectativas e a mais paulista das avenidas mostra uma nova cara a cada dia. Deixou de lado a sisudez de terno, gravata e tailleurs e abriu os braços para todas as tribos
 

 


Maria Ângela Silveira de Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: os apitos das fábricas agora são raros

 

Dalva Rodrigues
Ouvinte da CBN

 

 

Minha infância foi na Vila Liviero, divisa com São Bernardo. Nossa casa humilde, o quintal, a rua, seus moradores, comércio, quermesse, o circo e o parquinho de diversão. Da janela da frente de minha casa avistava o terreno que diziam ser da Ford. Mas acho que só uma parte era da montadora, onde havia o pátio de automóveis. O restante era uma enorme área verde. Era o que chamávamos de “Pastão da Ford” — um paraíso para brincar, empinar pipa … onde cavalos e bois pastavam, havia um ou outro casebre, algumas hortas, árvores, cercas de madeira e arame farpado querendo impor limite aos invasores.

 

Acordava cedinho com o apito das dezenas de fábricas nos arredores. Abria a janela e olhava a névoa que cobria o Pastão se dissipando aos poucos com a chegada da luz matutina, parecia cenário de filme. Quando o capim gordura estava alto, a tela que via da janela era outra: quase tudo se tingia de rosa avermelhado. Quando o capim estava baixo, virava parque de diversão.

 

Lembro quando com alguns amigos atravessamos a pinguela do córrego, estreita e perigosa. Mais de um quilômetro de caminhada. Fomos fazer um piquenique por lá. Toalha estendida embaixo da árvore mais frondosa, comida, brincadeiras, risadas. A infância se derramava alegremente. Depois o descanso. Deitada no chão observava a vida agitada dos insetos que zanzavam ao redor. Ao longe avistava minha rua, a janela pequenininha de onde olhava o pasto logo cedo. Foi quando o tempo fechou, as nuvens escureceram e raios e trovões anunciaram a tempestade de verão. Sem consciência do perigo ficamos embaixo da árvore gigante até a chuva passar. Fomos protegidos pela nossa inocência. Sorte de criança.

 

Os apitos das fábricas agora são raros. O nosso Pastão foi tomado por hipermercado, condomínios, muros altos que separam as casas do córrego mal cheiroso. Mesmo assim ainda hoje olho o Pastão de minha janelinha, a partir das memórias que não se apagaram totalmente.

 


O capim gordura no “meu pastão” é lindo de olhar.

 


Dalva Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 466: no meio do caminho tinha pastel com caldo de cana

 

Dalvanira Pais de Lima
Ouvinte da CBN

 

 

Lazer na minha infância significava visitar os parentes. A extensão desta cidade e seus arredores garantia que cada tio conseguisse comprar um terreninho e construísse sua casa a quilômetros de distância uma das outras. 

 

Para se chegar a casa de um parente, tomavam-se, no mínimo, dois ônibus e um trem. Isso não era problema, ao contrário. Fazia parte dos atrativos do passeio. Na janelinha do ônibus, me encantei ao descobrir que era capaz de ler os letreiros das lojas — e fazia isso em voz alta.

 

Na caminhada entre o ponto de uma linha de ônibus e outra, passávamos na pastelaria chinesa para comer pastel com caldo de cana. Às vezes, o estômago não aceitava bem essa combinação e eu tinha de descer do ônibus agarrada na mão dos meus pais, deixando para trás muito trabalho para o pessoal da limpeza.

 

No trem, outro ponto alto do passeio era comer biscoito de polvilho. O menino passava chacoalhando a matraca e gritando com uma entonação peculiar: “Biscoito, salgado e doce”.  

 

Depois de um dia inteiro de visita familiar, que podia ser divertida quando tinham primos e primas com quem brincar, era hora de voltar. A maratona de ônibus e trem tinha que ser enfrentada novamente, com a diferença de que eu e meus irmãos, agora, estávamos cansados. Lembro-me que o sono dormido no ônibus ou no trem era tão gostoso que eu torcia para não chegar. No destino, era sacudida e descia feito um zumbi arrastada pelos meus pais.  

 

No Largo do Paissandu, ficava o ponto do último ônibus que precisávamos pegar para chegar em casa. Era nesse momento que encontrava descanso e conforto sentando-me em cima dos pés de meu pai. Seu sapato preto Vulcabrás servia de assento, e suas pernas faziam às vezes de encosto. Imagino quanto não fiz doerem os calos de papai, mas não podia haver assento mais confortável que aquele. 

 

Dalvanira Pais de Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva as suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: de pé descalço e a caminho da padaria, em Moema

 

Sérgio Slak
Ouvinte da CBN

 

 

Moro em Moema, na zona Oeste. Nasci em São Paulo. Estou com 61 anos. Tenho muito orgulho em dizer que sou paulistano. Com sete anos, vivia no bairro de Vila Ema, na zona Leste. Com a morte de meu pai nos mudamos para a casa de meus avóes paternos.

 

Era uma casa térrea em um terreno de 400 metros quadrados. Não era de luxo. Era ampla, com quartos grandes, cozinha espaçosa, e uma sala deliciosa de se ficar. O quintal era um sonho. Tinha jabuticabeira e dois pés de figo. Tinha também uma parreira de uva. Todo ano se colhia as frutas nas próprias árvores.

 

Meu avô era aposentado e havia vários canteiros no qual ele plantava verduras, e regava todos os dias com a água que retirava do poço. Moema era muito diferente naquela época. Ruas com pouco movimento. Todas eram de mão dupla. Alguns terrenos eram baldios. Então, a gente jogava bola por ali mesmo. Costumava andar descalços e seguia a pé sozinho até a escola.

 

Em 1974, meu avô vendeu a casa para uma construtora e com a parte da herança da minha mãe mudamos para um sobradinho de vila, no próprio bairro. Logo muitos prédios começaram a ser construídos. Foi inaugurado o Shopping Ibirapuera. E de repente Moema se transformou.

 

As ruas deixaram de ser tranquilas. O trânsito aumentou. A maioria virou mão única. Hoje, tempos prédios de alto padrão e das poucas casas que restaram a maioria é usada para fins comerciais. Algumas resistiram. Como é o caso da minha.

 

Apesar das mudanças, sigo muito feliz em morar aqui. Ao passear pelas calçadas, fecho os olhos e revivo minha infância. Me sinto de pés descalços a caminho da padaria onde comprava pão e leite. No trajeto da escola, que ficava a mais de um quilômetro dali. E brincando no quintal da casa do meu avô.

 

Sérgio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: o restaurante do futuro que me leva ao passado

 

Por Breno Lerner
Ouvinte da CBN

 

 

Fui uma única vez ao Giratório. Tinha uns 11 anos e meu avô Maurício que conhecia tudo da cidade lá me levou. Analisando hoje era um cenário que poderia tranquilamente estar no filme Tempos Modernos, de Chaplin.

 

Entrava-se por uma porta tipo saloon, fazia-se e pagava-se o pedido por número:

 

1 — arroz/feijão/bife/salada

 

2 — arroz/feijão/carne assada/fritas

 

Acho que eram 20 números no total. Tinha uma deliciosa lasanha, carne assada à brasileira e as duas salvações dos office-boys: a macarronada e o arroz com dois ovos, por preço baixo. O pedido era por interfone à cozinha —- o primeiro de São Paulo, trazido da Itália pelo dono da casa. Lavávamos as mãos e para tirar a água usávamos o primeiro secador a ar da cidade.

 

Sentava-se em uma cadeira, frente a um balcão que por sua vez ficava diante de uma envidraça cozinha oval. O balcão e a cadeira giravam ao redor da cozinha. Na primeira janela, você recebia sua comida e bebida. Tínhamos uns 20 ou 30 minutos para comer. Chegava-se então à janela das sobremesas e, em seguida, em outra janela na qual devolvia-se pratos, copos e talheres. Giro completo, alimentação feita, voltava-se a porta de saloon para ir embora.

 

Uma queixa recorrente era que quem pedia a carne assada à brasileira não comia em tempo de completar o giro e precisava de um extra, para prejuízo da fila.

 

A iniciativa foi da família Barioni, uma família de artistas e inventores. Mário bolou o restaurante; Ézio não só dirigia a casa como construiu máquinas de lavar prato, descascadores de batata e aquela secadora de mãos. O terceiro irmão, Baby Barioni, também ajudava. Ele foi o criador dos Jogos Abertos do Interior.

 

O restaurante Giratório funcionou na rua Amador Bueno, hoje rua do Boticário, de 1958 a 1968 quando fechou sufocado pelos custos da renovação do aluguel e operacionais.

 

Não vou jamais conseguir descrever a vocês meu fascínio quanto entrei e vi aquilo tudo funcionando. Era como ser transportado ao futuro.

 

Hoje, vivo no futuro e tenho uma saudade danada do passado.

 

Breno Lerner é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias de São Paulo visite o meu blog miltonjung.com.br