Imagine na Copa !?

Por Carlos Magno Gibrail

BRASIL OPEN 2013

 

O Ginásio do Ibirapuera, do Governo do Estado de São Paulo, domingo, só não viveu um cenário de “República das Bananas” porque o público presente não permitiu. Vaiou. Vaiou muito, com categoria e hierarquia. Pois, Luis Felipe Tavares, o organizador, foi o mais vaiado, seguido do Ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, aclamado como Aldo Tiririca.

 

O Brasil Open 2013, sucesso de público e de espetáculo, graças aos jogadores e aos consumidores, foi um fracasso de estrutura, organização e de respeito ao estatuto do torcedor. Às condições iniciais inadequadas de instalação, pois o Ginásio não tem climatização nem adaptações essenciais para a mídia, quer para entrevista quer para transmissão, houve falhas do básico, como quadras com piso irregular e bolas inapropriadas.

 

Ainda assim, o esperado duelo entre Nadal e Nabaldian se concretizou. O público correspondeu e lotou o Ginásio. E, incrível, ainda se surpreendeu. Pois, aos sabidos problemas já existentes tiveram que “engolir” a superlotação, explicada como ingressos falsos, a deselegante e tumultuada chegada do Fenômeno e Anderson Silva com a partida em andamento, paralizando-a, e a amadora cerimônia de premiação.

 

O testemunho do casal de médicos Marcelo Alves Moreira e Lilian Corrêa, experientes espectadores de Roland Garros e US Open, postado no Facebook descreve bem o evento:

Prazeroso ver Rafael Nadal em recuperação jogar aqui em São Paulo! Horripilante a organização da Koch-Tavares com anuência do ministro dos esportes e do secretario do Estado! Venderam mais que capacidade! Não numeraram os ingressos! Assistimos sentados na escada, entre as cadeiras, nós e outras centenas de pagantes (300 reais), lá naquela estufa chamada Ginásio do Ibirapuera! Essa é a turma profissional que vai organizar Copa e Olimpíadas! Obrigado Nadal! Ver vc jogar ao vivo valeu o sacrifício e a revolta!

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras

São Paulo, uma das cinco cidades do tênis mundial

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

São Paulo recebe esta semana o Brasil Open de tênis. Hoje, o maior torneio em nosso território. Alguns destaques como Nadal, Almagro, Monaco e Wawrinka, 5º, 11º, 12º e 17º do mundo, deverão apresentar um espetáculo condizente com a expectativa. O público certamente corresponderá e estará provando que o único ingrediente em descompasso é a estrutura local.

 

O Ginásio do Ibirapuera é a arena. Sem climatização, com dificuldade de estacionamento e sem a tecnologia requerida a um grande evento de tênis. Há pouco mais de um mês, neste mesmo ginásio, tivemos a Gillette Federer Cup. Com a presença de tenistas do topo do ranking da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais). Federer, Tsonga, Serena Williams, Sharapova e Wozniacki trouxeram a imensa simpatia e alegria que os caracteriza e levaram a memória da “sauna” paulistana do Ibirapuera com mais de trinta graus.

 

Roger Federer, apreciador de nosso país de longa data, talvez até pelo futebol, aconselha a melhorarmos as condições para efetivarmos um antigo sonho dos brasileiros fãs do tênis profissional. Apresentar instalações que atendam as exigências da ATP para abrigarmos o ATP World Tour Finals. Este disputadíssimo evento, atualmente em Londres, foi oferecido à cidade de São Paulo em 1999, quando Celso Pitta era prefeito. Por falta de instalações adequadas, a cidade não o sediou. Perdermos a oportunidade de estarmos entre as maiores cidades do tênis mundial que ficam na Austrália, França, Inglaterra e Estados Unidos.

 

O ATP Wolrd Tour Finals, por sua característica, é o ultimo torneio do ano e reúne os oito primeiros tenistas da temporada, é considerado por alguns como o mais importante de todos. A cidade de São Paulo pela Fórmula 1 já sabe contabilizar o retorno deste tipo de evento. É hora de Haddad rever Erundina e apresentar uma arena condigna para o tênis. Como foi feito com Interlagos. Ou Alckmin completar de vez a reforma do Ginásio do Ibirapuera.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras

O complexo de “vira-lata”

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Nelson Rodrigues, em 31 de maio de 1958, na última crônica antes da estreia da seleção brasileira de futebol na copa do mundo na Suécia titulou sua coluna “Personagem da Semana”, na revista Manchete, com o provocativo: “Complexo de vira-latas”. E explicou: “Por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol”. Ainda assim apostou na vitória, e, como sabemos, veio o primeiro título mundial. Nelson só não acertou nas consequências: “Só imagino uma coisa – se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício”.

 

Nem hospício, nem a fé se tornaram referência. Ganhamos cinco copas, temos o maior número de campeonatos mundiais, exportamos enxurradas de craques. Na América Latina o domínio é tanto que decidiram proibir final de campeonatos continentais entre nossos times. Mas, o complexo voltou. Nas vésperas de sediar o próximo mundial, Ronaldo o Fenômeno, legítimo produto nacional, o maior goleador de mundiais, eleito três vezes o melhor do mundo, e hoje Diretor do COL, consegue fora dos gramados o que nunca tinha feito dentro deles, pisar na bola: “O futebol brasileiro não vive o seu melhor momento. Talvez até esteja no seu pior momento da Historia”.

 

Fora do Brasil, o pessoal do futebol se aproveita. Breitner, alemão campeão do mundo em 1974, na Soccerex do Rio disse que ficamos fora das mudanças do futebol mundial nos últimos anos. E, em relação ao mundial de clubes, a fala em algumas ocasiões é míope ao avaliar o campeonato da FIFA. Quando não é, é até de desprezo. Atitude que alguns conterrâneos nossos tem endossado ingenuamente, pois a simples observação do comportamento dos europeus após os jogos finais no mundial de clubes constata que a fala dos homens precisa sempre ser reavaliada. Explosões dos europeus de alegria ou tristeza relacionadas com vitória e derrota são visíveis a olho nu.

 

O velho e sábio Nelson Rodrigues viveria hoje uma assertividade invejável, pois enquanto o complexo ainda persiste a paixão também explode. No tricolor campeão que tanto amou e nos “loucos” que chegam amanhã em Tókio.

 

Felipão tem mesmo que levar este espírito dos clubes à Seleção.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Procura-se: locutor esportivo de TV

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Domingo, ao término da partida de futsal que deu o campeonato mundial à seleção brasileira, embalado pela emoção do espetáculo, fiquei à espera da premiação. Até entendi o abrupto corte da Globo encerrando a transmissão, priorizando a grade da programação. O que comecei a não apreciar foi o falatório do locutor do Sportv, cujo ápice do desagrado foi escutá-lo comentar que iria se calar para que pudéssemos ouvir o som do show das medalhas, mas não se calou. Nem no momento musical nem nas falas dos protagonistas. Mudei então para a Bandeirantes, ato que imediatamente tive que recuar, pois lá o falatório do locutor ainda era maior.

 

Frustrado, mas no embalo para uma análise como consumidor, lembrei que talvez o rádio ainda deva estar influenciando os profissionais da TV. Fui conferir no Google e para a minha surpresa, praticamente todos os cursos de locução ou narração são de radio e TV. Ora, numa era de especialização e, principalmente, de grande desenvolvimento tanto para o rádio quanto para a TV, é aconselhável a mesma base? Imagine se as telenovelas ainda carregassem influência das radionovelas. E se os cursos fossem para artistas de rádio e TV? Bem, a dramaturgia é idêntica. Será?

 

Encontrei ainda no Google um excelente artigo do Mílton Jung (leia aqui). Valioso como testemunha por ocasião da Copa na África, como protagonista inovador pela RedeTV e como âncora de rádio, que lhe confere rara autoridade para análise. Ficou evidente que nesta área não se toma conhecimento nem de McLuhan, com o seu veredicto “os meios são a mensagem” nem com o Marketing, que certifica o consumidor como o centro do mercado.

 

Quem gosta de futebol não quer saber do óbvio nem do que já está na tela. Comentários precisam considerar que a maioria destes telespectadores entende e gosta de futebol. Não devem ser feitos durante a bola correndo se não forem pertinentes para não se tornarem impertinentes e irritantes. Imagens fora do contexto nem pensar enquanto o jogo está em andamento. Mostrar todo o banco de reservas no início do jogo, quando a tensão inicial ainda persiste é a prova que os boleiros não foram consultados.

 

A verdade é que em termos de futebol tudo é passado, arcaico, pois só para o futebol a TV ainda não chegou. Nem para a arbitragem, muito menos para a narração.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Jorge Marimon Mendes, um repórter esportivo inesquecível

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

O meu pai foi assinante durante muitos anos da Revista Selecções Reader´s Digest. Ele começou a lê-la na época da Segunda Grande Guerra. Claro, suas edições estavam sempre recheadas com histórias do conflito, nas quais as tropas dos Estados Unidos e de seus aliados protagonizavam batalhas fantásticas em que, via de regra, saiam vitoriosas. Já naquela época eu costumava ler desde revistas em quadrinhos – Gibi, Globo Juvenil e congêneres – a romances cujo conteúdo nem sempre era apropriado para adolescentes. Nas Selecções Reader’s Digest eu não deixava de ler, “O Meu Tipo Inesquecível”, presente em todos os números. Sob tal título, havia histórias acerca de pessoas que, de alguma forma, marcaram a vida e ficaram na lembrança de quem as relatava. Na manicure em que todas as quartas-feiras levo Maria Helena, minha mulher, existem revistas de vários tipos – Cláudia, Caras, Contigo etc. – mas, enfiadas numa pequena estante, meio escondidas, existem Selecções. São de meses passados,é verdade, o que não chega a ser problema, porque não se desatualizam, o que, por exemplo, ocorre com a Veja. Abro um parêntese para dizer que destesto as enormes revistas, repletas de fotos de pessoas que nunca vi mais gordas ou tão magras quanto as “top models” dos dias atuais.

 

Ao abrir a primeira das Selecções com que me deparei, procurei imediatamente, uma história sobre ”O Meu Tipo Inesquecível”. Folheei o exemplar e nada encontrei. O que fazer? Talvez o atual editor da Revista tenha entendido que não é fácil encontrar quem queira escrever acerca desse assunto. Ocorreu-me, nessa segunda-feira, que, se Selecções ainda tivesse “O Meu Tipo Inesquecível”, eu teria um capaz de preencher o espaço agora inexistente. Ao chegar à Rádio Guaíba, fiquei sabendo que Jorge Marimon Mendes fora encontrado morto, no sofá de sua casa, por sua filha Rosângela. Essa, viera a Porto Alegre para buscar o seu pai e levá-lo para comemorar, em Santa Catarina, o seu nonagésimo aniversário, que completaria nesta quinta-feira. Aparentemente, Jorginho, como era conhecido carinhosamente por seus colegas e amigos, aparentemente foi vitimado por um ataque cardíaco fulminante. Ao vê-lo a última vez, cheguei a pensar que o meu colega havia descoberto o elixir da eterna juventude. Prestes a fazer 90 anos, parecia ter pouco mais de 60, magro enxuto, disposto. Colorado, não perdia jogo do Inter e, pasmem, nem do Grêmio, desde que ambos não jogassem no mesmo dia.

 

Jorginho, que era o último ex-atleta vivo do Bambala, clube amador de Porto Alegre nos bons tempos dos campos de arrabaldes, começou sua carreira de jornalista em 1939, na Rádio Farroupilha. Teve passagens pelo Diário de Notícias, Zero Hora e Jornal do Comércio, em Porto Alegre; Jornal dos Sports e Globo, do Rio de Janeiro; Jornal da Semana, de Novo Hamburgo. Foi meu colega, na Guaíba, em 1958. Lembro-me que, quando Mendes Ribeiro era o principal narrador dessa Emissora, Jorginho tinha, nas nossas jornadas esportivas, uma única função: era ele quem informava as escalações das duas equipes e os nomes do árbitro e seus auxiliares. Jorge Marimon Mendes foi, também, presidente e vice-presidente da ACEG – Associação dos Cronistas Esportivo Gaúchos. Presto ao saudoso e insubstituível Jorginho minha última homenagem ao adotá-lo como “O Meu Tipo Inesquecível”.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Do Dia do Rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O Dia do Rádio – 25 de setembro – foi, em São Paulo, muito bem lembrado. Mereceu citações e programas especiais, além de reportagem no Estadão. Segundo ouvi no Jornal da CBN, nessa terça-feira, deu também assunto, para o bate-papo, sempre interessante, entre o âncora do noticiário, o Mílton Jung, com Dan Stulbach, Luiz Gustavo Medina e Zé Godoy, no quadro denominado “Hora de Expediente”. Neste blog, na data da comemoração do Dia do Rádio, o Mílton postou um e-mail enviado a ele por Maria Célia Machado, filha do Doutor Paulo Roberto. Ela fez – e ainda há tempo para que leiam – um resumo da carreira radiofônica desse que foi, décadas atrás, um dos grandes nomes do rádio brasileiro. Dentre os inúmeros programas comandados pelo seu pai, eu – que tenho mais de 50 anos – me lembro de dois que, de alguma forma, ainda na condição de ouvinte, acompanhei na casa paterna: “Obrigado, Doutor” e “Nada além de Dois Minutos”. Fui fã de carteirinha de Paulo Roberto.

 

No “Hora de Expediente”, o quarteto abordou também as transmissões de futebol e o Mílton disse que, no Rio Grande do Sul, como é um estado e, especialmente, uma cidade na qual reinam dois grandes clubes – Grêmio e Inter ou, para ser imparcial, Inter e Grêmio – as rádios usam o sistema duplex ou dúplex, como o leitor preferir pronunciar nome que veio do latim. Se existe quem não saiba, nesse sistema, se os jogos forem simultâneos, os narradores se revezam cada vez que a bola pára numa das partidas ou um interrompe o outro, no caso de ocorrer gol. Ouvintes, que escutavam o bate-papo na CBN, um de Minas, outro de Pernambuco, lembraram que se dá o mesmo nesses dois estados, porque, no primeiro, Cruzeiro e Atlético são tão rivais quanto a dupla Gre-Nal e, no segundo, três equipes rivalizam-se: Sport, Náutico e Santa Cruz.

 

Seja lá como for, com diferenças regionais ou não, porque o Brasil é muito grande e, como “o brasileiro não vive sem rádio”, este veículo segue prestigiado. Isso não impede que eu sinta saudade do rádio que conheci nos velhos tempos: o das novelas, o das boas músicas, dos programas de cunho educativ, das heróicas transmissões de futebol e de grandes coberturas jornalísticas, no país e no exterior. E o ainda mais antigo: o do tempo, por exemplo, do Dr. Paulo Roberto, médico e radialista. Podem me chamar de saudosista que não fico brabo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Reviravoltas na cobertura esportiva

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os Jogos Olímpicos de Londres aproximam-se do seu encerramento. Este, a exemplo do que aconteceu na sua abertura, é de se imaginar, será outro espetáculo inesquecível. Duvido que, mesmo os mais exigentes turistas, jornalistas e telespectadores, ao fim e ao cabo desta Olimpíada, terão algum reparo a fazer sobre o que viram. Os que ficaram em suas casas assistindo ao que as emissoras de televisão mostraram, principalmente os felizes proprietários de tevês Full HD e 3D, com certeza, deliciaram-se com as sensacionais imagens que brotavam de seus aparelhos. Tomara que, daqui a quatro anos, quando chegar a vez de o Rio de Janeiro sediar os próximos Jogos Olímpicos, o Brasil possa também encantar o mundo, em todos os sentidos.

 

Fui um dos que tiveram a chance de acompanhar, em casa, boa parte dos jogos. Ao ver a cobertura realizada pelos meu colegas de profissão, invejando-os com santa invídia, lembrei-me da época em que compartilhei da experiência vivida na Inglaterra pelos jovens e veteranos jornalistas que lá ainda estão. Das Copas do Mundo que fui escalado para cobrir como narrador da Rádio Guaíba, a de 1974, na Alemanha, me dá saudade. Escrevi faz duas semanas, que a nossa chegada – minha e do comentarista Ruy Carlos Ostermann – começou com um susto. Achávamos que a nossa bagagem tivesse se perdido. Seria um mau começo. Para quem não leu o texto em que relatei essa história, esclareço que as encontramos no dia seguinte ao do nosso desembarque em Frankfurt. Estavam na sala de bagagens não reclamadas.

 

Conhecer a Alemanha – ou um pouquinho dela, porque jornalista e radialista não são turistas – foi muito agradável. Afinal, meu bisavô paterno,o primeiro dos Jung do meu ramo que desembarcou no Brasil, era alemão. A primeira etapa da nossa estada no país avoengo foi na industrializada cidade de Frankfurt. A equipe da Guaíba que nos precedeu, alugara um Fusca, depois trocado por um BMW. Ruy e eu viajamos com esse carro por boa parte das “bundesautobahnes”, as maravilhosas rodovias que, em 1974, já era excelentes. A última das nossas viagens foi, para mim, pelo menos, inesquecível. Precisamos sair de Honnover e ir até Essen. A maioria da equipe nos esperava hospedada em um hotel, nessa cidade. Lá pelas tantas, anoiteceu. Foi quando encontramos a primeira placa indicando que estávamos em Essen. Eu dirigia o BMW. O Ruy olhava para as placas. Andamos um pouquinho mais e começaram a surgir outras placas. Era um tal de Essen isso, Essen aquilo que parecia não ter fim. Tínhamos que tomar uma resolução. Então, entramos na próxima saída com esse nome na placa.

 

E agora? Sabíamos somente o nome do hotel em que se hospedavam os nossos companheiros. E mais nada. Não se via viva alma nas ruas. Quem sabe a gente parava numa cabina telefônica e ligava para um dos nossos? Não lembro quem atendeu e informou que tínhamos de entrar numa elevada, perto de onde nos encontrávamos. E veríamos o hotel. Chegamos aonde queríamos ir. Foram necessárias, porém, tantas voltas, subindo e descendo a elevada, que elas já ameaçavam se tornar infinitas, até que, finalmente, atinamos com a saída. Foram dois caras famintos e com sono que, ainda por cima, tiveram de suportar a gozação dos colegas.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O Nobel de Economia e o resultado nas Olimpíadas

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A repetição dos movimentos nos treinamentos, a competência na escolha das ações nas competições, o acúmulo de experiências vitoriosas sucessivas em competições esportivas, são premissas inquestionáveis para a manutenção de um campeão.

 

Cielo, Murer e Hypólito, detentores destes requisitos, atletas campeões consagrados internacionalmente, não fizeram jua à bagagem competitiva que levaram para Londres. As metas traçadas não alcançadas foram devidas certamente a decisões tomadas erroneamente.

 

Se o esperado ouro não veio, não deixa de ser de ouro o momento para se iniciar a preparação para a RIO 2016, que pode vir de um vencedor na academia da ciência.

 

Há uma semana o psicólogo Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia pelo seu trabalho na área de Economia Comportamental, lançou o livro “Rápido e Devagar”, que aborda os aspectos psicológicos das tomadas de decisões.

 

Kahneman divide o processo decisório em dois Sistemas:

 

1.Rápido, é automático e emotivo,

 

2.Devagar é o controlado e racional.

 

Da otimização na relação entre os dois é que resultará a melhor decisão. Mas, não é fácil. E, Daniel Kahneman explica: “Por que temos tanta dificuldade de pensar estatisticamente? Há uma limitação desconcertante de nossa mente: nossa confiança excessiva no que acreditamos saber, e nossa aparente incapacidade de admitir a verdadeira extensão da nossa ignorância e a incerteza do mundo em que vivemos. Somos obrigados a superestimar quanto compreendemos sobre o mundo e subestimar o papel do acaso nos eventos”.

 

Cesar Cielo repetiu os 100m e se deu mal. Fabiana Murer vivenciou o stress do sumiço anterior do seu equipamento com o forte vento de agora e desistiu. Daniel Hypolito renovou a mesma queda.

 

Se na Economia a tomada de decisões é crucial, como argumenta Kahneman, a ponto de poder quebrar um país se todos decidirem errado sobre investimentos e compras. Na área do esporte de alto rendimento, as decisões são tão importantes quanto. E, tanto na esfera preparatória quanto na fase de competição. O emocional, a estatística e a sorte, devem ser levados em consideração, com a ressalva de que a pessoa não consegue analisar a si própria. Precisa ser ajudada por outra para uma análise sem viés.

 

Agora, talvez o melhor mesmo seja mergulharmos nas questões levantadas por Daniel Kahneman em seu instigante trabalho sobre as decisões. Ou, procurar um psicólogo.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

A história de um radialista fugitivo

 

Milton Ferretti Jung

 

Esta é mais uma história de rádio. Sei que quando escrevo sobre tal tema garanto, pelo menos, o interesse de um leitor: o Mílton, comandante deste blog, cujo gosto por este veículo sem o qual, é voz corrente, brasileiro não vive, rivaliza com o meu. Aliás, ele me mandou um e-mail, um dia desses, sugerindo que, volta e meia, contasse minhas experiências radiofônicas ou as vividas pelos meus colegas de profissão. Então, aí vai mais uma por mim protagonizada.

 

Corria o ano de 1977,véspera de uma Copa do Mundo que seria disputada na Argentina. Nossa seleção, que não obtivera sucesso na anterior, com sede na Alemanha, precisou participar das Eliminatórias do Mundial, competição em que não estava se saindo bem. Fui escalado para narrar Colômbia x Brasil. Ser escolhido pelo chefe da equipe esportiva da Rádio Guaíba, Armindo Antônio Ranzolin, para narrar um jogo desta envergadura era um privilégio. Meus companheiros na viagem com destino a Bogotá eram o comentarista Ruy Carlos Ostermann, o repórter João Carlos Belmonte e o operador Ronaldo Krebs.

 

Deixamos Porto Alegre num voo que nos levou a São Paulo. Lá (ou aí, como queiram) embarcamos para o destino final: a capital colombiana. Depois de uma escala em Manaus, viajamos mais algumas horas até desembarcar em Bogotá, onde chegamos no dia 4 de fevereiro, uma sexta-feira. No aeroporto de Eldorado tive minha primeira experiência com os 2.591 metros de altitude desta cidade andina. Há quem fique com falta de ar. Não foi o caso de nenhum do nosso grupo. Fomos de táxi para o Tequendama, hotel de cinco estrelas, um luxo. Nossa estada em Manaus seria de vinte dias. A seleção brasileira marcou para o domingo, 6 de fevereiro, um amistoso contra o Millionários, na época um dos mais badalados clubes de futebol bogotano.

 

No sábado, à noite, saímos a caminhar e acabamos jantando numa boate de bom nível. Até então, eu não tivera qualquer problema com a altitude. Comemos bem e bebemos moderadamente. Afinal, não se pode cometer qualquer tipo de exagero em véspera de uma jornada esportiva internacional. Voltamos os quatro para o Tequendama. Era madrugada e acordei com o estômago que parecia ter virado ao avesso. Se estivesse no México, pensaria estar sofrendo do Mal de Montezuma. Diz a lenda que todo estrangeiro que visita a Cidade do México arrisca-se a sofrer dele. Acordei mal. Não quis almoçar. Fomos para o El Campin para cobrir o amistoso da seleção brasileira contra o Millionarios. Narrei o jogo sentindo-me como um condenado. Meus companheiros foram passear na noite dominical de Bogotá. Fiquei sozinho no hotel e aproveitei para telefonar à Varig. Perguntei se a empresa tinha voo na segunda para o Brasil. Tinha, mas eu fui posto na lista de espera. Trocamos de hotel. No apartamento deste, dei um susto no Ruy ao lhe informar que eu logo iria para o aeroporto disposto a retornar a Porto Alegre. Solidariamente, os outros três me acompanharam. Antes, porém, sem que eu soubesse,o Ruy telefonara para a Guaiba comunicando que eu retornaria.

 

Voltei. O Ranzolin pediu ao Antônio Britto, coordenador do esporte,que me convencesse a retornar a Bogotá. O futuro governador gaúcho teve sucesso na empreitada. No dia seguinte, voei de retorno. No dia 20 de fevereiro narrei o  zero a zero de Brasil e Colômbia. Meu castigo foi pagar a viagem de volta. “Al fin y al cabo”, não tive prejuízo. As nossas diárias eram excelentes. O Belmonte, que viajava muito a serviço da Guaíba, com o que poupou em diárias, conseguiu construir sua casa. Talvez eu escreva alguma história sobre o João Carlos Belmonte.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)