Janderson comemora o gol de empate, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Os astros se alinharam nesta madrugada de sexta-feira, em um desses fenômenos que ocorrem com baixa frequência. A última vez foi há 18 anos e a próxima só em 2040. Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e a Lua, todos a olhos vistos, atuando de forma sintonizada no céu, em uma parceria de dar inveja a quem tenta encontrar o mesmo nos gramados brasileiros —- e aqui não falo exclusivamente do meu Grêmio: o futebol jogado, com as exceções astronômicas de sempre, tem sido de qualidade bem discutível.
Antes do espetáculo no céu, assisti ao jogo do Grêmio, em Alagoas, onde a falta de sintonia dos ‘astros’ esteve evidente no primeiro tempo e melhorou um pouco no segundo, o que logo se percebeu com o gol relâmpago, no primeiro ataque coordenado, com os pontas chegando em velocidade pelos lados e Janderson concluindo para as redes. Dali pra frente, a despeito de alguns sustos — e que sustos —, o time dava sinais de que tinha potencial para virar o placar. Chances apareceram e foram desperdiçadas. Por outro lado, riscos ocorreram e, ainda bem, não se realizaram.
Ao fim e ao cabo, levar um ponto para Porto Alegre se não era o ideal, era o que tínhamos para a noite de quinta-feira, especialmente depois de sair atrás do placar. Estamos há oito jogos sem saber o que é derrota e espero que essa jornada invicta se estenda por muito mais rodadas, ao menos até estarmos consolidados entre os quatro primeiros colocados da competição.
Enquanto esse momento não chega, nos cabe levar adiante a máxima italiana que o Zio Ferretti, lá de Caxias do Sul, costumava repetir nas mais diversas situações: piano, piano, se va lontano. E desejar que, da próxima vez, os astros se alinhem em nosso favor — os celestes e os tricolores.
Diego comanda a comemoração do gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Pode me chamar de oportunista — se é que você, caro e raro leitor desta Avalanche ainda desperdiça seu tempo me chamando de alguma coisa. Pelo que li, se não neste blog, ao menos nas redes sociais, ainda tem quem perca seu tempo me criticando. Verdade que a avalanche de comentários não veio pelo que falo e penso do futebol. O tema era outro: política. E o clima anda quente por aquelas bandas.
Sendo assim, de volta ao futebol e ao meu oportunismo. Foi estratégico de minha parte esperar o fim da rodada de sábado para escrever sobre o Grêmio. Em outros tempos, teria feito meus elogios (?) logo após a vitória na Arena. Os três pontos conquistados, porém, não eram a garantia de permanência no G4, pois dependeríamos do revés de um dos adversários, que se realizou já nos embalos de sábado à noite.
Diante da intolerância de alguns ‘amigos’ de rede social — que são incapazes de procurar um só mérito no time do Grêmio, pois parecem mais interessados em atacar seus desafetos e eleger como salvador seus ídolos —, achei que comemorar a vitória com os dois pés dentro do G4 fortaleceria meus argumentos.
Oportunista portanto que sou, aqui estou, na manhã de domingo, festejando o resultado que o Grêmio alcançou diante de 30 mil torcedores, dentre os quais alguns — ou seriam muitos —- impacientes, que vaiam mais forte do que cantam nossos hinos de louvores. Ainda bem que a turma da ‘arquibancada norte’ agora está mais próxima do gramado e consegue, assim, com efeito, entoar nossas músicas e empurrar o time e os demais torcedores.
Preferiria que os protestos contra os desafetos viessem ao fim da partida e não enquanto a bola está rolando, pois atinge, também, a segurança dos demais companheiros que estão em campo. Como sou otimista, porém, melhor a vaia na Arena do que a ausência no estádio; melhor o apupo na arquibancada do que a violência que assistimos de torcidas, que ameaçam jogadores e treinadores.
Quero crer que o time, por maduro que seja, e seu técnico, com inteligência emocional elevada, tenham personalidade para driblar essas situações e superar às críticas — o que só vai ocorrer quando demonstrarem capacidade de se manter entre os quatro primeiros colocados da competição. Só os resultados em campo serão suficientes para acalmar os ânimos e calar os desânimos.
Por falar em oportunista …
O gol que abriu o placar no sábado foi de puro oportunismo. Diego Souza estava, como sempre costuma estar, no lugar certo e na hora certa para cabecear a bola para as redes, depois do lançamento de Diogo Barbosa — sim, foi do desafeto da torcida o cruzamento lá do outro lado da área que permitiu a chegada de Bruno Alves pelo alto, o cabeceio no travessão e a sobra para o nosso atacante. Foi dele, Diego, o lance do pênalti tanto quanto a cobrança paciente e precisa na bochecha da rede e distante do goleiro que definiu a vitória.
Diego Souza este oportunista é o goleador do Brasileiro B, com sete gols, e o gremista que mais marcou no Século 21, com 80 gols. Aos 37 anos, completados na semana passada, é referência também fora de campo. Muita gente o chamava de ‘cansado’, sem entender que havia sido acometido duas vezes pela Covid e jogava em um time que tinha uma série de dificuldades técnicas — sem nunca deixar de marcar seus gols. Chegou a ser dispensado pela diretoria e aceitou voltar em um gesto de humildade e resiliência. E foi assim, resiliente e oportunista, que calou os críticos. E só assim, com humildade, resiliência e resultado após resultado, o Grêmio voltará a conquistar a confiança da totalidade de seu torcedor.
Rodrigues na disputa da bola, em foto de Lucas Uebel
Paciência! Muita paciência! Parece ser a virtude necessária ao fim de mais uma rodada à beira do G4. Estamos a um ponto do grupo que se candidata à ascensão, mas ainda não estamos lá. Não precisa ser agora, porque ainda nos falta bem mais de meio campeonato pela frente, e de nada adianta estar lá para ceder a posição depois. Difícil, porém, é exercitar a paciência em momentos como esse. A ansiedade que nos toma e o desejo de nos livrarmos da maldição da B o mais breve possível, transtornam o torcedor, incomodam os jogadores e pressionam o clube.
Temos de ter tanto paciência quanto força e coragem —- outras das virtudes necessárias para nos elevarmos à Série A. Estas, ao menos, não nos têm faltado. Haja vista a forma como o time se apresentou nas últimas rodadas. Há clara entrega de cada jogador na disputa pela bola, a despeito das limitações técnicas que impedem um passe mais preciso, um chute certeiro ou a conclusão no gol (que são as virtudes mundanas que o futebol cobra). Nossa defesa é exemplar nesse cenário. Em 12 jogos, tomou apenas quatro gols. Nos últimos cinco, nenhum. Geromel é o ícone deste trabalho; Kannemann, o guerreiro; e Rodrigues, um batalhador.
O resultado que levamos para Porto Alegre, na noite desta segunda-feira, alcançado com força e coragem, está no limite da paciência exigida. A derrota seria imprudente. Fossem os três pontos, o G4 estaria conquistado Com o ponto ganho na casa do adversário, perseveramos. Seguimos na disputa. E temos a chance de descontarmos a diferença na próxima rodada quando estaremos de volta à Arena.
Como o assunto desta Avalanche são as virtudes. tenhamos fé esperança!
Janderson comemora diante da torcida, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Foram necessários dois gols para valer um. Dois pênaltis no mesmo minuto, para um ser sinalizado. Trinta e oito dias para a primeira vitória. E 450 minutos para balançarmos a rede. A despeito de tudo isso saímos com os três pontos que precisávamos para ficarmos ao alcance do G4, que nos colocará de volta à Série A.
E, às vezes, uma vitória só é suficiente para que se crie um novo horizonte — sem trocadilho com nosso adversário dessa noite de terça-feira. O próprio capitão Geromel — que zagueiro, #meodeosdoceo — falou ao fim da partida: o que até então eram quatro jogos sem vitória, transformou-se em cinco sem derrota. Assim como o que antes era limitação, agora é superação; e os todiados, Thiago Santos e Janderson que o digam, são aplaudidos.
São os poderes de um gol (no caso dois) e de uma vitória que vinham nos fazendo falta nas últimas semanas e fizeram aumentar a pressão contra Roger, a quem não se queria dar tempo para trabalhar, mesmo que se saiba das dificuldades para reestruturar um time ainda impactado pela tragédia do ano passado. Aliás, recorro mais uma vez às palavras do nosso capitão que chamou atenção, ao fim da partida, ao fato de o time estar dando sinais de que está mais sintonizado com as demandas da Série B — o que já se havia assistido na partida anterior.
Agora, espera-se que também o torcedor entre em sintonia com a Série B, por mais que essa situação seja incômoda para todos nós. Se faltava uma mensagem da equipe o recado foi emitido, dentro e fora dos gramados. Edílson revelou que os jogadores pediram à direção para que se reduza o preço dos ingressos com a intenção de aumentar o público nas partidas em casa, como estamos vendo acontecer com alguns dos clubes que estão no topo da tabela.
Está mais do que na hora de o Grêmio e sua torcida colocarem em prática o lema proposto pelo marketing do clube para esta temporada: “quando time e torcida jogam juntos, ninguém mata o que é imortal!”
Benitez luta pela bola em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
À distância, vê-se ao longe; e com a razão se expressando mais do que a emoção. Não sei bem o que teria escrito nesta Avalanche se mantivesse a tradição de publicá-la logo após a partida, nem garanto que fosse muito diferente do que você, caro e cada vez mais raro leitor, vai ler a seguir. Em detrimento desta oportunidade — da escrita imediata —, sobrou-me o espaço para a reflexão nem sempre tão simples de ser feita quando o olhar do torcedor se sobrepõe à lógica do jogo.
Na noite dessa quinta-feira, enquanto o Grêmio se engalfinhava —- sim, esse é o melhor verbo para definir algumas das poucas cenas que assisti em campo — com o adversário, eu estava cumprindo compromisso assumido com a colônia italiana. Dois de junho é a data da Festa della Repubblica e, a convite do cônsul-geral da Itália, em São Paulo, Domenico Fornara, apresentei a cerimônia oficial, com direito a discursos, música de qualidade e sorteio de prêmios. Tinha muito comida boa, também, devidamente preparada pelo alagoano Zé Maria —- José Maria Meira, um chefe de gosto sofisticado, cultura incrível e de uma simpatia ímpar. Um craque na culinária e na generosidade.
O que um jornalista de sobrenome tedesco fazia no comando da festa italiana talvez valha uma justificativa: entre o Mílton e o Jung, existe um italiano que se expressa nos costumes e hábitos, nos sabores e prazeres, e no sobrenome Ferretti, família oriunda da cidade de Ferrara, na região da Emiglia-Romagha. Foi de lá que o bisnonno Vitaliano partiu em direção ao sul do Brasil e se estabeleceu em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, no início do século 20. Teve vários filhos, dentre eles Dona Ione, minha nonna, mãe do meu pai, que me deu o privilégio e missão de ser o único dos netos a levar à frente o sobrenome da famiglia.
Tudo justificado, voltemos ao futebol.
Em meio a festa, busquei na tela do celular o único recurso para acompanhar, mesmo que de revesgueio, a partida do Grêmio que, diziam, seria a última de Roger Machado. A pressão contra o treinador — típica dos apressados e doentes — existe quase desde o início do seu retorno ao clube. Com duas semanas, o Grêmio caiu na Copa do Brasil, ainda na primeira rodada. No primeiro grande desafio, depois da queda, perdeu o Gre-Nal. A maioria esquece que, em seguida, goleou o tradicional adversário, ganhou o Hexacampeonato Gaúcho e ainda levou de brinde a Recopa Gaúcha.
O futebol imediatista pensado por muitos, os torcedores ainda machucados com a tragédia de 2021 e aproveitadores da desgraça alheia se uniram contra Roger. Os resultados e a performance de alguns jogadores também não ajudaram muito. Como acredito demais no potencial do nosso técnico, tudo que não queria ver na noite de ontem era o jogo insosso e sem alma das últimas partidas, que, certamente, resultaria em derrota. Convenhamos, não seria um resultado intragável, dadas as circunstâncias — jogávamos em um estádio transformado em caldeirão e contra um dos principais adversários da competição. Mas o contexto não permitia mais um revés.
Foi diante desses cenários ambíguos — em que eu aproveitava os prazeres proporcionados pela colônia italiana, em São Paulo; e o Grêmio, as agruras de enfrentar seus próprios ‘monstros’ e o ambiente hostil criado pelo adversário, no Rio — que vi nosso time lutar como nunca havia feito até então neste campeonato. Em campo, Roger deu preferência aos “cascudos”, apostou na experiência de veteranos, alguns odiados pelo torcedor, e conseguiu mobilizar a equipe, mesmo que ainda não tenha sido capaz de tirar do time um futebol de qualidade.
No segundo tempo, Roger foi obrigado a fazer substituições devido ao desgaste físico de alguns jogadores — a intensidade na marcação no campo do adversário cobra um preço alto. Perdemos espaço e aceitamos a pressão. E, por mais que os chatos das redes sociais só encontrassem defeitos, esse foi mais um mérito do time de Roger: soube resistir à imposição do adversário.
O ponto conquistado fora, os dois roubados do adversário, que jogava em casa, e a permanência no pelotão de cima, a uma vitória do G-4, deveriam ser comemorados ao fim da noite. Tanto quanto a mudança de atitude do time que se revelou capaz de lutar pela bola, apesar de nem sempre saber bem o que fazer com ela quando esteve em sua posse.
Pelo que li na escrita de torcedores em rede e na fala de alguns cronistas, porém, muitos preferiram exaltar as críticas e os problemas. Fiquei com a impressão de que estavam incomodados com o fato de o conjunto da obra de ontem à noite ter favorecido à manutenção de Roger. Enquanto eles esbravejam e se alimentam de suas convicções odiosas, prefiro me embevecer com a crença de que somos capazes de dar a volta por cima, como já fizemos no passado. E se puder saborear tudo isso com um vinho italiano, melhor ainda!
Roger orienta o Grêmio, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
‘Só resta trabalhar’ disse Elkeson assim que a partida se encerrou e antes de voltar para o gramado onde foi se exercitar ao lado dos companheiros que ficaram no banco de reservas. Nosso atacante “chinês” entrou no segundo tempo, correu pra cá, se deslocou pra lá, levou encontrão dos zagueiros e desperdiçou uma bola lançada próximo à linha de fundo. Muito pouco conseguiu produzir apesar de ter estado em campo no momento em que assistimos a algumas das melhores jogadas do nosso ataque — que ninguém o culpe, porque da forma como estamos atuando, nossos centroavantes, sejam quais forem, tendem ao ostracismo.
Quem entrou no segundo tempo e trabalhou muito foi Janderson — aquele baixinho que se parece com Campaz, tem menos fama que o colombiano, custa bem menos e, nas últimas participações, tem jogado muito mais. Terá de ser titular na próxima partida, seja porque Campaz estará servindo a seleção da Colômbia (?) seja porque foi dele que saíram os principais lances pela esquerda, quando usou a velocidade e a técnica para escapar dos marcadores. Chegou a linha de fundo, cruzou e deu oportunidade de seus companheiros abrirem o placar. Na Recopa Gaúcha já havia se destacado.
As escapadas de Janderson não foram suficientes para fazer o Grêmio voltar a ganhar e marcar gols no Campeonato Brasileiro. Fizemos apenas um nos últimos quatro jogos; e nenhum nos dois últimos. Apesar da performance aquém do desejado e da baixa pontuação diante do esperado, segue colado no G4 — e distante daquela situação desesperadora do ano passado.
A lição — dura lição — de 2021, porém, precisa ser aprendida. Não dá para esperar muito para reencontrar o caminho da vitória, porque já tem gente pensando em dar um “duplo twist carpado” que, parece, ser o desejo de alguns torcedores que gritam o nome de Renato nas arquibancadas. Seria repetir a mesma estratégia desastrada da última temporada. O resultado não vem, troca o técnico. Volta a não acontecer, troca de novo.
Ou se dá oportunidade para Roger trabalhar, levar a campo as suas convicções, diante do elenco que tem à disposição, ou entraremos em uma jornada sem rumo.
Ao Grêmio, só resta trabalhar. Ah, marcar gols, também!
Kannemann voltou, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
“Vâmo, vâmo tricolor
Hoje eu vim te apoiar
Para te ver campeão
Para te ver ganhar”
O canto da torcida soava baixo ao meu lado. Era o filho mais velho, sentando comigo diante da TV, que entoava à boca pequena um dos gritos mais tradicionais da torcida gremista. Foi ele quem me convocou para a decisão da Recopa Gaúcha, após ouvir meu muxoxo e desdém quanto ao título que seria disputado. Tinha razão em me cobrar. Logo eu que insisto, nunca desisto. Que estou sempre disposto a acreditar que algo melhor acontecerá. Que o ensinei o por quê da imortalidade nos acompanhar. Logo eu, estava ali, frente a ele, revelando minha desmotivação?
Nada como o sangue jovem para mexer com a gente, aquecer nosso ânimo, provocar nosso brio. Se era uma final, se era uma taça que estava em jogo, se era o Grêmio que estava em campo, não me cabia o abatimento, apesar dos últimos acontecimentos. E só tenho a agradecer pelo chacoalhão que o guri me deu. Graças a ele, tive o prazer de ver o retorno de Kannemann aos gramados, parado desde o fim do ano passado devido a uma cirurgia no quadril.
Ver nosso zagueiro com a faixa de capitão entrando em campo me fez mais feliz nesta noite. A intensidade e a dedicação que ele impôs a cada disputa de bola — e algumas vezes em que a bola nem em disputa estava — renovaram meu entusiamo. Jogou pela primeira vez sem a dor do sacrifício pela lesão que o tirou de combate e, ao fim do primeiro tempo, disse ao repórter de campo: “agora quero curtir” — e curtir o futebol do seu jeito, tomando a frente dos atacantes, reduzindo os riscos a qualquer custo, jogando-se sobre a bola se necessário, expondo-se sem medo à violência do adversário, esbravejando com o árbitro se preciso for, e impondo respeito a quem o ameaça. O espirito Kannemann de ser está de volta ao Grêmio. E volta, não por acaso, na noite em que levantamos mais um troféu regional, que confirma a hegemonia tricolor no Rio Grande do Sul.
A decisão teve outros destaques, sem dúvida. Janderson, com participação em praticamente todos os gols do time, além de ele próprio ter marcado de bicicleta. Elkeson, que demonstrou seu compromisso com o clube ao pedir para jogar, e foi premiado com o primeiro gol da partida —- um gol com jeito de centroavante. Além de Campaz, Ricardinho e Jhonata Varela que completaram a goleada.
A despeito do tamanho do troféu e da importância do título, ver Kannemann liderando mais uma conquista reforça minha crença — que andava descrente — na nossa capacidade de nos recuperarmos e, no ano que vem, estarmos de volta às finais que realmente nos interessam.
Roger observa o time em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche me conhece bem. Sabe o quanto torço, sofro e acredito, mesmo diante da descrença do futebol jogado. Sou daqueles que conservo a esperança de que em algum momento alguma coisa haverá de acontecer e mudará nosso destino. A bola que resvala no poste, vai voltar para o pé do goleador; a que desvia no zagueiro, seguirá a caminho do gol; a que chega na cabeça do atacante terá o destino das redes.
Verdade que diante dos acontecimentos do ano passado, temos motivos para desconfiar da nossa confiança. Mas aí vem um outro jogo e a crença se expressa mais uma vez. A bola começa a rolar e a gente tem a impressão de que o futebol vai desencantar. Até percebe que o passe não é mais o mesmo, a velocidade é menor e a intensidade prometida no discurso do vestiário desaparece no decurso do jogo. A despeito disso, nos entregamos à ilusão, do primeiro minuto ao apito final.
Apesar dos pesares, prefiro não depositar toda essa crença no desvario que sempre me moveu quando trato das coisas do tricolor. Se tenho a expectativa de que o dia da grande revelação está por vir é porque reconheço em Roger capacidade para tal. O treinador que tem comandado o time com a estratégia da tentativa e erro, levando a campo formação e posicionamento diferentes na busca de desempenhos melhores, terá de contar com a paciência do torcedor — quem ainda a tem?
Roger precisará de tempo para fazer com que os jogadores entendam o papel de cada um dentro do time. Mais tempo ainda porque tem o desafio de encaixar na sua forma de pensar os jogadores que herdou dos comandos técnicos anteriores. Que a paciência do treinador seja maior do que a do torcedor e os resultados – aqueles nos quais deposito minha esperança e desvario – comecem a aparecer o mais breve possível, antes que entremos em mais um caminho sem volta.
Diego Souza, sempre ele! Foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA
“Achou que seria fácil? Achou errado, otário!”. O bordão consagrado por Rogerinho do Ingá, do Choque de Cultura, me veio à mente ao fim da partida desta noite de segunda (de segunda!). Depois de engatar três vitórias na sequência e pontuar no topo da tabela, o Grêmio reencontrou-se com o revés, com uma derrota e um empate cedido nos minutos finais. E fica mais uma rodada fora do G4. Foi um choque de realidade!
Camisa e história falam alto, mas não fazem tudo. Assim como impõem respeito, provocam o ânimo do adversário que entra em campo com espírito de decisão. E se a recíproca não for verdadeira, seguirá sendo penosa essa Série B, como tem sido desde a primeira rodada.
Não adianta reclamar da conivência do árbitro com o jogo mais pesado, do gramado que prejudica o toque de bola, dos buracos que interrompem a corrida e da estrutura acanhada dos estádio em que se joga. É o que temos para hoje e fizemos por merecer.
Hoje, após um primeiro tempo em que o empate parcial foi um alívio diante dos vacilos no meio de campo, com duas bolas no poste e uma defesa gigante de Breno, encontramos um gol graças a habilidade de Diego Souza, logo no início do segundo tempo. Sempre ele!
O futebol do Grêmio até melhorou, mesmo porque a referência era o primeiro tempo de baixa qualidade. E o fato de ficarmos mais tempo com a bola nos pés e de conseguirmos impedir os avanços sobre nosso gol, já eram suficientes para mostrar algum progresso. Ao menos forjavam uma suficiência.
Sofremos o empate nos acréscimos por mérito de um time que nunca desistiu do gol, mesmo quando a técnica não se fazia mais presente. E assim será partida após partida, jogue onde jogar, dentro ou fora de casa. Todos lutando pela bola como se estivessem atrás de um prato de comida. Se não entendermos essa dinâmica da Série B, a frustração do presente se expressará mais alta do que nossas glórias do passado.
Como ensinou o ‘filósofo’ Rogerinho do Ingá: achou que seria fácil, só pelo que já fomos? Achou errado, otário!
É Dia das Mães! Dia de lembrar da Dona Ruth, que nos deixou cedo para os tempos atuais, estava com apenas 49 anos. Apesar de a despedida precoce, ensinou muito, ofereceu carinho e compartilhou gentileza aos filhos, parentes e amigos. Tinha personalidade forte, tomava à frente nas grandes batalhas da vida e cultivou uma incrível capacidade de unir a família. Saudade daquela feijoada de domingo, mãe!
De futebol entendia pouco, e torcia muito. Era gremista, como todos nós. Mas torcia muito mais pela felicidade do pai e dos filhos do que propriamente para o time pelo qual torcíamos. Sabia que um bom resultado, nos faria voltar para a casa com sorriso no rosto e comentários animados. Era a garantia de um jantar dominical recheado de histórias que eu não cansava de reproduzir à mesa como se fosse eu o narrador de futebol da família.
Entendia, como poucos e poucas, o coração deste que lhe escreve —- talvez o que mais sofria na família diante de reveses futebolísticos.
Seu abraço assim que eu retornava do Olímpico ou alguma partida pelo interior do Rio Grande do Sul, após uma derrota, era apaziguador. Nenhuma palavra de consolo era melhor do que o aconchego de seus braços. Bastavam-me!
O ápice da sensibilidade vinha na manhã seguinte, quando eu acordava ainda entristecido pelo resultado do dia anterior. A mãe sabia bem o que se passava dentro de mim, em especial diante das perdas mais retumbantes para aquela época — a derrota em um clássico regional ou, pior, de um título gaúcho. Ter de encontrar-me com os amigos na rua ou nas atividades extra-escolares aumentaria minha dor. Era a certeza de que seria “corneteado” pelos torcedores adversários.
Cúmplice do meu abatimento, Dona Ruth se antecipava a qualquer pedido de súplica para me ausentar dos compromissos externos e me propunha alguns convites irrecusáveis: “hoje o tempo não está muito bom, quer voltar pra cama?”; você não parece muito bem, será que está resfriado? Fica em casa hoje!”. Era a maneira dela dizer que entendia meu sofrimento e estava ali para me proteger.
Dona Ruth não está mais por aqui para me consolar das derrotas gremistas. Não que hoje necessitasse desse afago. O tempo me ensinou a encarar as perdas de uma forma diferente, em especial no futebol. Mostrou-me que ganhar e perder é do jogo. O importante é aprender com os altos e baixos. Mas bem que ela poderia estar aqui com a gente, seria uma ótima maneira de passar este domingo e dizer a ela o quanto eu sempre a amei!