De raposa e galinheiro

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

A gente nunca sabe onde termina a ficção e começa a realidade, ou vice-versa. É a tal da zona cinzenta; mas onde tem rumor tem qualquer coisa que rime com ele, de horror e humor a amor. Então entra comigo na zona, e vamos deixar que a ficção nos ajude a ver melhor a realidade que nos cerca. Refletir faz bem.

 

Xiquinha, finalmente recolhida por uma ambulância, vítima de colisão entre a esperança e a lambança, sofre, sofre, geme, pede a Deus que lhe dê alento e que resgate o seu talento para se manter viva e respirando. Passam-se horas até que a providência divina, ocupadíssima que anda nestes tempos conturbados, dá um jeito na Logística e desvia uns dois ou três anjos para dar conta do recado. Nada de místico no babado.

 

Xiquinha vive na Sociedade do Eu Primeiro, onde a Lei Divina que se oferece para orquestrar a sociedade perdeu o lugar para a Planilha do Excel, o Grande Irmão de rabo escondido pelo camisolão, que foi criado para servir o homem, – como diria o Tufão da novela das nove, para servir a Humanidade: homem, mulher, criança, cachorro… e acabou sugando, porém, a sua seiva, gota a gota.

 

Faz um teste, pega o fio de qualquer situação difícil na tua vida, que envolva outros da tua espécie, e vê aonde vai dar. Na Planilha do Excel. Mas volto ao caso da Xiquinha, que é resgatada. Está pobre de Saúde. Seu caso é grave, talvez gravíssimo. Prende o pescoço, faz alavanca nas costas. Agora, levanta com cuidado. Tem plano de saúde, perguntam vozes desconhecidas. Sim, balbucia entre um e outro ai. Para onde você quer ir, perguntou amorosamente uma voz conhecida e que a acalmava. O caso dela não é para ir aonde ela quer, é para ir ao hospital mais próximo. Decisão tomada, lá foi ela, acompanhada por dores e temores. No hospital, foi encaixada num espaço no corredor, onde havia outros seres que também precisavam de socorro e que gemiam e choravam. Onde está o médico? Cadê o pobre coitado que tem como objetivo cuidar dos seus semelhantes na hora da precisão? Correndo feito louco entre uma cabine e outra, diagnosticando a granel, ouvindo lamentos e, Xica me disse, parecia bem intencionado. Era gentil, tinha a compaixào sadia e malhada. Você teve sorte senhorita Xica, poderia ter ficado para sempre numa cadeira de rodas. Tome estes remédios para sentir menos dor. São remédios hospitalares. Procure se mexer o mínimo possível, mantenha este colar cevical por ao menos um mês. E sabe o quê? Deu alta imediata a Xica, depois de analisar as radiografias.

 

Por que teria ele dispensado Xica assim, com tanta pressa? O que o teria impedido de abrigá-la no hospital onde houvesse quem a ajudasse e lhe aplicasse a medicação? Como é que ela iria se alimentar, se vestir, tomar banho, ir ao banheiro? Afinal paga regiamente pelo socorro de um plano de saúde e já estivera internada no mesmo hospital, por quase uma semana e fora muito bem atendida. Certamente o plano de saúde tinha ressarcido o hospital pelos gastos comigo. Isso já acontecera outras vezes, em outros hospital. O hospital mudara de nome. Teria também mudado os seus objetivos?

 

Dias depois, Xica descobriu que o plano de saúde dela tinha comprado o hospital; e chorou.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De remédios

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Falávamos de remédios, suas fórmulas, marcas, grifes e genéricos. Esse tem sido um assunto recorrente na pauta de papos aqui em casa, lá em cima, no jardim, em volta da mesa redonda. Nos perguntávamos principalmente como funciona essa coisa de grife e genérico. Alguém me diz se isto faz sentido: digamos que eu tenho um laboratório de produtos químicos, e um dos meus pesquisadores pesca uma fórmula que navegava no mar dos pesquisadores. Próximo passo é a comprovação de sua eficiência nos casos previstos disso, daquilo e daquilo outro. São os animais, as cobaias, que primeiro se submetem a testes que nem sempre dão certo. Feito receita de suflê. Só que como os animais não têm necessariamente nem isso, nem aquilo, e muito menos aquilo outro, é preciso que as doenças neles sejam provocadas, para então dar início à tentativa de curá-los com a nova receita. Se um percentual desses animais, que foram feitos doentes, se curarem ou ao menos sobreviverem, então recebo autorização para aliciar um número de pessoas que não têm dinheiro para continuar a comprar as drogas necessárias para abrandar ou mesmo curar seus males, ou não têm coisa melhor a fazer na vida, para substituírem os animais. Não vem me dizer que se submetem a isso por amor aos nossos irmãos, os humanos, ou que se entregam de bandeja pelo desenvolvimento da ciência.

 

E assim, a partir desse passo, se os resultados forem satisfatórios, segundo critérios que desconheço, passo a ter uma fórmula aprovada para combater ou abrandar os sintomas dos tais males, e consigo um atestado de comprovação da sua eficiência por um órgão governamental.

 

Nós que ainda reclamamos da burocracia e da dificuldade aqui no nosso patamar de vis mortais, nem podemos imaginar quantos despachantes e lobistas, quanto tempo, quanta paciência, quanto rapapé e quanto dinheiro são necessários para a autenticação de um trem desses e sua consequente fabricação.

 

Obstáculos superados, muito tempo e muita verba depois, diploma da fórmula na mão, lá vou eu reproduzir essa receita, pagar pela criação de peças de propaganda, desenhar embalagens atraentes para convencer o prezado público de que ele precisa daquela receita, e fazer muita visita, oferecer mimos, amostras, e às vezes mais do que isso, aos médicos das áreas específicas. Confecciono então caixas de dez ou de quinze comprimidos, quando a dosagem usual mínima são cinco. Aliás, nas andanças por hospitais e farmácias, descobrimos que existe uma lei que diz que podemos pedir para abrir a caixinha e comprar metade dos comprimidos, pagando portanto metade do preço, ou um terço deles, ou a quantidade prescrita pelo médico, de acordo com minha idade, peso, condições físicas, histórico do mal que me aflige, entre outros, mas as farmácias não são obrigadas a obedecer essa lei (!) se não tiverem em suas dependências uma sala com especificações laboratoriais de higiene e uma série de exigências determinadas por um desses órgãos governamentais. Daí que como todos os donos de grifes de farmácias ou os seus franqueadores dizem que não têm recursos para projetar e executar a tal sala, e como existe outra lei dizendo que ninguém pode obrigá-los a fazer isso, ninguém faz. Resultado, ninguém vende o número de comprimidos que precisamos, e fica por isso mesmo, e pronto. Levamos os tais comprimidos para casa, tomamos a quantidade prescrita e esperamos que seu prazo de validade vença, ou vai que…, para aliviarmos o armarinho dos remédios, que representam um risco enorme e causam acidentes sérios com crianças que estão na fase de descobrir o mundo a partir de suas casas, dos armários de panelas e de tudo que possam alcançar se esticando ou trepando em banquinhos mambembes para chegar ao desconhecido.

 

Mas aí transitamos também por outra lei; a dos genéricos. Agora, vamos pensar juntos: se eu confecciono uma receita de droga com nome de Bolo e o mesmíssimo item sem nome, mas com a sua receita no rótulo, eu deveria vender aquele que tem a receita no rótulo, mais caro do que vendo o outro que tem apenas quatro letrinhas. Mas parece que também não funciona assim. O item sem nome, o genérico, custa, às vezes, menos da metade do preço do produto que só traz quatro letras em seu nome. E tem mais, se eu sou dona da receita, devo disponibilizá-la para que possa ser elaborada por outros laboratórios, ou pelo meu mesmo. O importante aqui, e meu maior ponto de interrogação, é saber como é possível fabricar a mesmíssima coisa, com nomes diferentes, pela metade do preço. E aqui não falamos de bolsa ou cd pirata. Falamos de vidas, de bem-estar e de saúde; da vida do cidadão.

 

Será que só eu tenho estas perguntas? Quanto a mim, é só o que tenho, por isso, entro com as perguntas, e se você puder e quiser me ajudar, entre com as respostas, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

A Cracolândia no círculo eleitoral

 

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

O que fazer com os traficantes e viciados !?[humildade para ouvir]

A operação Centro Legal deflagrada pela Prefeitura e governo do Estado para ‘implodir’ a Cracolândia poderia ser chamada de Operação Maquiagem. Sem sucesso na captura de traficantes influentes, tem passado a forte impressão de luta por sobrevivência política dos principais envolvidos na operação. O tapa de Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab no visual da Cracolândia conseguiu uma vitória: mexer com o governo federal, que terá agora a oportunidade de responder sobre a viabilidade da construção do ‘Hospital do Crack’ para o tratamento dos viciados.

Vale lembrar que, há três anos, conforme registrou a imprensa, a proposta do hospital foi entregue ao ex- presidente Lula em seu tradicional almoço de fim de ano com os moradores de rua e catadores. Na ocasião, o senador Eduardo Suplicy foi o porta-voz do documento assinado por viciados em crack e álcool. A notícia é que muitos dos que assinaram o documento morreram por causa do vício..

Alertamos a senhora presidente Dilma Roussef. Cuidado com os traillers ou cabanas – consultórios para competir com as tendinhas da prefeitura. Podem dizer: ‘é só para começar’. Limitar-se a este improvisado aparato federal poderá ser um fiasco de saúde pública. Fiasco como os cometidos pela Prefeitura de São Paulo nas construções das primeiras tendas no Parque Dom Pedro II, de condições sanitárias precárias; para uma cidade tão rica! Tendas e galpões vulneráveis como a grande solução para recuperar uma legião de viciados da maior Cracolândia do Brasil. Dentro da Tenda de Santa Cecília, há pouco tempo usuáriosforam flagrados pitando crack. O que parecia ser normal para algumas pessoas quando foram questionadas.

Senhora presidente, em São Paulo uma sucessão de fiascos e improvisos levaram o povo paulistano a desacreditar profundamente da classe política. Num vazio de ideias e de gestão tudo é improvisado, desde a implosão desnecessária de um prédio na favela do Moinho a caixas tapadas com toquinhos de madeira em frente à Coordenação de Subprefeituras, no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo. Quando os fiascos não se apresentam de forma grave surgem de forma violenta e odiosa contra os direitos humanos: acordar mendigos na madruga fria de São Paulo com spray de pimenta. É preciso sempre lembrar, manter a chama acesa para que tais atrocidades não se repitam.

Senhora presidente, a presença do Governo Federal em São Paulo deveria superar as espectativas[…] numa dimensão social de projetos permanentes em defesa da vida de cidadãos doentes que precisam de hospital. Ah!, mas não querem se tratar. Neste sentido a Constituição Federal é cristalina. Os doentes de crack respondem ou não pelos seus atos ? Então vale o que está escrito na Constituição.

Se querem prender os chefões do tráfico do Centro, acione o serviço de inteligência da Polícia Federal. Talvez as três polícias, civil, militar e federal trabalhando na mesma direção o serviço de segurança e proteção renderá, prenderão rápido os destruídores de vidas (sem descuidar das fronteiras, por onde tem entrado com facilidade a droga), e toda sociedade ganhará.

A Cracolândia não deve se transformar num mero instrumento de disputa de poder[…].

Senhora presidente Dilma Roussef, falta aos gestores de políticas públicas a visão de futuro para enfrentar a epidemia de crack. Por que deixaram o crack tomar conta da cidade de São Paulo e do Brasil? Para que se não cometa injustiças , e a culpa recaia apenas sobre os governos atuais -, particularmente em São Paulo o crack é problema social antigo, visto com descaso por sucessivas administrações. Depois de tantos anos, tendas e galpões! Cá entre nós, falta ou não visão de futuro e vontade política para enfrentar o problema ?

Nem mesmo os mais preparados escritórios de marketing político – contratados a peso de ouro pelos candidatos – justificariam o tamanho descaso das diferentes esferas de poder com o avanço do crack em São Paulo e no Brasil.

Até quando vamos assistir aos espetáculos de política tupiniquim ? Só falta alguém ter a ideia de carregar setenta ‘traficantes’ numa jaula, em desfile, pelas principais ruas da cidade às vésperas da eleição. Afinal, o poder está em jogo e descobriram que a Cracolândia é uma mina de voto.

Querem combater o tráfico de droga e tratar dos viciados em São Paulo ? É preciso ter a humildade para ouvir os que têm posições claras e respeitáveis sobre o assunto. Converse e ouça com atenção e anote tudo o que disser Antonio Luiz Marchioni (Ticão), Drauzio Varella ,Edson Ferrarini, Flávio Gikovate, Hans Stapel, Izilda Alves, Jaime Crowe, José Vicente, Maria Rita Kel, Maria Stela Graciani, Ronaldo Laranjeira e Wálter Maierovitch.

Aziz Ab’ Sáber e Manoel Del Rio defendem que o governo Federal desaproprie o antigo quartel do Parque Dom Pedro, e faça ali um hospital-escola, um centro integrado. O prédio está abandonado e deteriorado. Todas as pessoas citatas como referência são solidárias e quando solicitadas atendem até cidadãos anônimos.

Ouvir educadores sociais de rua e ex-viciados é fundamental. Não precisa ser ex-usuário celebridade.

A ilustração do texto fica por conta da inspiração e criatividade de algum desenhista/artista plástico solidário. Um policial aponta uma espingarda calibre 12 ou fuzil para um mendigo deitado no canteiro central florido da avenida Rio Branco e diz: “Vamos , levanta.” O andarilho se levanta tossindo com o cobertor nas costas e sai sem rumo..

Abaixo-assinado pelo Hospital do Crack

 

Por Devanir Amancio
ONG EducaSP

Carroceiros pedem hospital do crack

O Núcleo de Trabalhos Comunitários da PUC São Paulo – NTC, sob a direção da professora Maria Stela Craciani, dá a largada dentro da PUC na corrida contra o crack, e inicia, nesta quinta-feira, a coleta de assinaturas para exigir das autoridades a recuperação dos viciados. O abaixo-assinado intitulado “Grito pela vida. Hospital do crack já !” será levado pelo Movimento Fórum do Crack para outras universidades, escolas estaduais e municipais, e comunidades da Região Metropolitana de São Paulo. Catadores de recicláveis – como o carroceiro Pelezinho de Perdizes – também vão reivindicar o “Hospital do Crack”.

Considerando a gravidade do assunto, a sua profundidade na sociedade brasileira e a sua presença dentro dos lares é possível estimar a coleta de 1 milhão de assinaturas. No dia 30 de setembro o abaixo-assinado chega à Praça da Sé.

Texto do abaixo-assinado:

“Aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Nós, cidadãos brasileiros abaixo-assinados, viemos, através deste instrumento, pleitear aos poderes públicos, particularmente ao Executivo, na figura da presidente Dilma Roussef, do ministro da Saúde Alexandre Rocha Santos Padilha e do ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e ao Judiciário a criação, implementação e observação de políticas efetivas para combater e eliminar a presença da droga conhecida como “crack” na sociedade brasileira. Já mais do que tarda o momento de darmos um basta às diretrizes equivocadas que têm norteado as ações nesse sentido, caracterizadas pela leniência, passividade e omissão que apenas contribuem para engrossar o contingente de dependentes químicos desde os mais remotos pontos da zona rural até as grandes cidades, arregimentando pobres e ricos, principalmente jovens, na sua escalada destrutiva sem precedentes.

Também é nesta direção que propomos , particularmente , a criação do “hospital federal do crack” em São Paulo, como referência para todo o País.”

Médicos pedem rigor para carteira de motociclista

 

Cidade das motos

Em dez anos, os atendimentos pré-hospitalares a vítimas de acidentes com motos aumentaram 148,6% na cidade de São Paulo, de acordo com números divulgados pelo Hospital das Clínicas da FMUSP. Em 2010 foram 18.081 ocorrências contra 7.271 atendimentos em 2001. O mais preocupante nos dados divulgados neste início de semana é que os acidentes costumam aumentar em mais de 50% no segundo semestre do ano.

Na tentativa de mudar este cenário, o I Fórum Saúde e Trânsito, realizado em junho, sugeriu a formação de direção defensiva e exame de habilitação adequado às condições de trânsito que serão enfrentadas pelos motociclistas, com maios rigor na primeira habilitação. Outra sugestão é criar categorias na habilitação de motociclistas e especificar a velocidade máxima de circulação das motocicletas de acordo com as características de cada via.

A discussão, por enquanto, é teórica pois são poucas as medidas efetivas que tenham sido adotadas no País com o objetivo de acabar com o extermínio de motociclistas que assistimos nas grandes cidades brasileiras. Em São Paulo, capital em que o problema se agrava, conforme os números expressos no trabalho desenvolvido pelo HC, houve alguns ensaios sem nenhum convicção por parte da prefeitura na tentativa de reduzir o número de acidentes e mortes de motociclistas.

Melhor gestão para atender melhor, sugere Dr. Boulos

 

Em qualquer parte do mundo, a demanda no sistema público de saúde costuma ser maior do que a oferta. Porém, com investimento na gestão é possível levar ao cidadão atendimento mais qualificado. A opinião é do diretor da Faculdade de Medicina da USP, doutor Marcos Boulos, convidado do CBN São Paulo, para sugerir temas a serem discutidos com os candidatos ao Governo do Estado, a partir da semana que vem.

Uma das formas deste atendimento ser mais racional e eficiente, sugere Dr. Boulos, é conectar as informações sobre os pacientes que estão à disposição dos centros de saúde e hospitais. “Há casos em que uma tomografia computadorizada é pedida duas, três vezes para o mesmo paciente por falta de informação, aumentando o custo do atendimento”, explicou.

Marcos Boulos disse, ainda, que melhor comunicação no sistema de saúde também permite que os pacientes em situação mais crítica possam ter atendimento prioritário em exames, por exemplo.

Apesar de entender que a presença de grupos privados na administração de hospitais públicos, através da criação de Organizações Sociais, pode melhorar a atenção ao paciente, se diz preocupado com o fato deste sistema funcionar apenas em algumas unidades o que acaba privilegiando apenas parte da população. “Foi um escape para a falta de financiamento da saúde pública”, comentou.


Ouça a entrevista com o diretor da Faculdade de Medicina da USP Marcos Boulos, ao CBN SP

O CBN São Paulo contrói uma pauta colaborativa com especialistas e ouvintes-internautas para entrevistar os nove candidatos ao Governo do Estado, a partir do dia 8 de setembro, quarta-feira, das 10 e meia às 11 da manhã, com transmissão simultânea pela internet. A participação pode ser feita pelo e-mail milton@cbn.com.br ou publicando sua pergunta aqui no Blog.

A saúde pública que não está no horário eleitoral


Vítima de assalto descreve o atendimento médico recebido após o marido ter sido baleado e se envolvido em acidente de carro no qual a filha de apenas 20 dias foi ‘jogada’ pela janela do veículo. O CBN São Paulo, nesta segunda-feira, quer saber como um hospital municipal, gerenciado pela Universidade Federal de São Paulo e Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, oferece ao cidadão este tipo de atendimento.

Registre-se o mérito da reportagem do Estadão que em lugar de reproduzir BO de delegacia foi ouvir a história de pessoas.

Agora o outro lado (publicado em 31.08/17:00)

A falha nos equipamentos e a dificuldade para o atendimento ao paciente foram negadas pela Secretaria Municipal de Saúde, em entrevista ao CBN São Paulo nesta terça-feira. O coordenador da gerência hospitalar da prefeitura Paulo Kron disse que o hospital municipal Vila Maria esta devidamente equipado, mas que os problemas relatados na reportagem seriam investigados.

Ouça a entrevista do representante da prefeitura, Paulo Kron

De coração


 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De Coração na voz e sonorizado pela autora

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Meu coração andou disparando além da conta, no mês passado; o que me levou a passar um dia na emergência do hospital. Ele acalmou, mas eu ainda estou processando o fato, e não tinha me dado conta disso. A gente pensa que é forte, que pode e despode quando quer, mas não é bem assim.

Na sala fria, te furam, examinam teus humores e marcam teus compassos. Invadem a festa, trocam a música, mandam embora a tua turma, escondem a comida, acendem uma luz fria e afiada na tua cara, e a você só cabe se dar conta do quanto é pequeno, na matéria.

Lá, a gente viaja no lado duro, escuro, solitário e esburacado da vida. Não fique nervoso! Não chore! quando é tudo o que você precisa e quer fazer: ficar nervoso, descontrolado, e chorar. Muito.

Chorar esperando que alguém venha apoiar tua cabeça no colo e fazer cafuné para você dormir. Chorar até que segurem tua mão, firme-firme, te olhem nos olhos e digam: vai ficar tudo bem! e você chora, esperando acreditar.

Ali, na ante-sala do purgatório, a gente se sente frágil; fica sozinho, sem roupas nem sapatos. Tiram tudo de você, em troca da promessa de vida. E você dá; sem piar. Na iminência de mais uma agulhada no braço, se entrega total e incondicionalmente. Nem questiona sobre o líquido que goteja braço adentro, invadindo tua reserva; teus segredos. Você se agarra a qualquer coisa que represente esperança de voltar a ver a turma.

Depois de tudo isso, meu caro doutor Amaral, venho aqui pedir perdão pelo sumiço. Empaquei. Não liguei para dar notícia, satisfação de como vou passando. Também não foi por desamor à vida que não fiz o último exame; laboratório confuso, informação truncada, gente atrapalhada. E eu, cansada!

Prometo que logo mais reassumo essa responsabilidade e vou buscar a tua ajuda. Agora não dá.

Aquele pedaço de vida entre parênteses, no hospital, foi mais difícil de assimilar do que eu tinha imaginado. O osso era muito mais duro de roer; muito mais do que eu podia crer.

O senhor tem esmiuçado as vias de acesso e de escape, no mapa do meu coração, e não chegou a um diagnóstico, mas posso arriscar um palpite?

meu coração tem certeza
de que ainda é maluco-beleza
mas eu te peço o favor
não diga a ele
que já não sou mais menina
e hoje mais maluca que beleza

deixa ele na fantasia e eu na incerteza
ou seria o contrário?

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de comunicação e expressão e, aos domingos, com todo seu coração, escreve no Blog do Mílton Jung


Conheça outras imagens na galeria de imagens de Marcus Zorbis, no Flickr

Pacientes tratados como gado, diz médico nos EUA

Caminhando, ou Deus não permita, levado para uma sala de emergência (algumas vezes por uma ambulância da companhia que tem alguma “conecção com o hospital) e você pode sentir como se estivesse sendo conduzido por você mesmo. Conduzido com três ou quatro outros muito doentes para dentro de uma área que pode caber confortavelmente somente um. Algumas vezes os pacientes são empilhadas tão próximos um dos outros que é impossível para um clínico examiná-lo adequadamente. E esqueça sobre privacidade.

Doutores em todo o País tem confidenciado para mim que eles são levados a dar alta aos pacientes tão logo for possível após serem admitidos. Um contra-senso, certo ? Isto porque os hospitais pagos pelas seguradoras dos pacientes baseado no diagnóstico do paciente e não no tempo em que o paciente permance no hospital. Que você fique dois duas ou 10 o hospital será pago o mesmo valor. Isto é como pagar $5,000 pelas férias no Hilton Hotel e os funcionários que fazem o check in decidirem quanto tempo você vai ficar.

Em um golpe horrível e desonesto para se certificar que o paciente ficará tão pouco quanto for possível os hospitais tem recorrido a dar bônus para os médicos não pela sua qualidade de atndimento, mas com base no número de dias que seus pacientes ficam nos hospitais. Outros clínicos que trabalham para hospitais contaram para mim que eles foram chamados para reuniões com administradores e falaram para parar de consultar um doutor, não por causa da qualidade dele ou dela no antendimento, mas somente porque os pacientes desse doutor ficam no hospital muito tempo.

Os trechos acima, ao contrário do que você imagina, se referem ao atendimento hospitalar nos Estados Unidos e fazem parte de artigo publicado em inglês no Blog Healthcare – A behind the scenes look (Atendimento de saúde – Um olhar por trás dos bastidores), do cardiologista Dr. Evan Levine. Em “How Hospitals Make Money ? Raw Hide”, ele usa o nome de um show de televisão que se passava no velho oeste e tinha como cenário a área rural para ironizar a estratégia de hospitais americanos para ganharem mais dinheiro: tratar os pacientes como gado.

Evan é autor do livro What Your Doctor Won’t (or Can’t) Tell You que não foi lançado no Brasil e trabalha como cardiologista em Nova York. Tive oportunidade de conhecê-lo nas últimas férias quando fui para a cidade de Riedgfield, no estado americano de Connecticut. Além do seu jeito americano de receber (entenda isso como quiser), Evan mora em uma casa deslumbrante e com vista para um bosque sem-fim. É lá que escreve boa parte de seus posts, mas a inspiração encontra no cotidiano da medicina e em uma série de desrespeitos escondidos nos corredores e salas de atendimento dos hospitais.

Voluntários tornam hospitais mais humanos

 

Mais da metade dos voluntários (57%) que trabalham em hospitais estão há mais de dois anos desenvolvendo o serviço, e a maior parte desses (27%) já está por lá de cinco a 10 anos. Apesar de a maioria ser pessoas em boas condições financeiras, há um número considerado de voluntários de baixa renda que se dedicam à função, também. Estes são apenas alguns dos resultados da pesquisa “Humanização e voluntariado: um estudo em hospitais públicos estaduais da Grande São Paulo”, desenvolvido pela pesquisadora do Instituto de Saúde da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, Maria Cezira Nogueira Martins.

Na entrevista ao CBN SP, ela traçou o perfil dos voluntários que colaboram para a humanização dos hospitais:

Ouça a entrevisa da professora Maria Cezira Nogueira Martins

A repórter Michelle Trombelli – autora da foto que você vê neste post – realizou, recentemente, uma série de reportagens sobre a humanização nos hospitais (ouça aqui).