O que Dilma e Diletto já não têm mais em comum

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Dilleto

 

Há quinze dias, comentamos aqui neste espaço, que na propaganda e na política dois personagens ilustres tinham usado o artificio da fantasia para ganhar de concorrentes.

 

A Diletto inventou uma estória para valorizar seu produto, e a candidata Dilma artificializou acusações para desvalorizar seus adversários.

 

Na quinta feira, o conselho de ética do CONAR Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária recomendou por unanimidade, que a Diletto explicitasse a fantasia do “nonno” Vittorio. Embora a decisão do CONAR não tenha poder de lei, e da decisão caiba recurso, a Diletto já se manifestou aceitando o julgamento. Vai informar que Vittorio não existe e, que será usado apenas para fantasiar a origem do produto.

 

No meu modo de entender, um esmero de ética do CONAR, embora justifique o próprio nome de seu Conselho. Não menos louvável a atitude da Diletto, que acatará a sugestão, sem apresentar recurso.

 

Interessante notar que nesta mesma reunião o CONAR analisou o caso do suco Do Bem, cuja propaganda diz que: “as laranjas são colhidas fresquinhas todos os dias e vem da fazenda do senhor Francisco do interior de SP, um esconderijo tão secreto que nem o Capitão Nascimento poderia descobrir”. Mesmo sem o auxílio do herói Capitão, constatou-se que fazenda e Francisco existem, e o suco Do Bem ficou com a sua história intacta.

 

Nada mal para um setor em que a criatividade e talento já são reconhecidos mundialmente. O CONAR criado em 1977 para evitar a censura, está contribuindo para que a Propaganda se torne ícone de ética e possa influenciar outros setores a ter também o mesmo procedimento.

 

Ressalte-se que o CONAR se restringe à verdade na comunicação. E, é por isso que os partidos políticos ao invés de proibir jornalistas nos debates, deveriam convoca-los para ajudar no controle da comunicação das campanhas. Se já existisse o CONARP Conselho Nacional de Autorregulamentação Política, conforme sugerimos, a presidenta provavelmente não estaria com a saia justa de hoje.

 


Sobre o mesmo tema, leia a coluna de Carlos Magno Gibrail publicada no dia 2/12

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Boas férias, depois de prêmios, micos e muito trabalho

 

20141204_085124_586x422

 

A semana que antecede as férias é sempre de muito trabalho, seja no trabalho seja fora dele. Tudo aquilo que você não fez no ano inteiro tem de ser realizado nos dias finais para que nada atrapalhe seu descanso. A reforma em casa, o documento a ser renovado, o pagamento adiado, o texto que ainda não foi entregue e o exame pedido pelo médico são apenas algumas das muitas tarefas pendentes. No caso do rádio, tem ainda as que precisam ser feitas agora para serem usadas enquanto você está descansado: na CBN, por exemplo, tiveram as gravações para o programa Mundo Corporativo e os textos para o Conte Sua História de São Paulo. É preciso lembrar que se a gente para, a programação, não.

 

Bem verdade que não posso reclamar muitos destes últimos dias de trabalho, cheios de boas notícias. Até mesmo o que parecia ser um grande mico se transformou em diversão. Refiro-me ao pagamento da aposta à turma do Hora de Expediente – Dan, Zé e Teco – que me fizeram colocar na cabeça uma bandana semelhante a usada por Renato Gaúcho. Tudo porque acreditei que Felipão seria capaz de nos levar à Libertadores no ano que vem. Não fosse aquele segundo tempo contra o Cruzeiro, eu teria escapado da brincadeira.

 

Na intensidade da semana, um momento muito especial foi ter recebido a informação da escolha para o prêmio especial do júri na categoria rádio pela Associação Paulista de Críticos de Arte. O Prêmio APCA é dos mais tradicionais e prestigiados no país, e ter meu nome entre os selecionados me enche de satisfação. Essa é uma premiação especial pois leva ao palco gente do teatro, do cinema e das artes, além da turma do rádio e da TV. Durante muitos anos, assisti à entrega do prêmio a jornalistas e programas de rádio que sempre respeitei muito, portanto estar entre eles agora é a confirmação de que vale a pena se esforçar todas as manhãs para entregar o melhor que se consegue no Jornal da CBN. Sem falsa modéstia, esse prêmio é resultado do trabalho desenvolvido por uma equipe de profissionais competente, diversificada, divertida e comprometida com a busca da verdade. Não por acaso, nesta mesma semana, a Rádio CBN aparece pela 15a. edição seguida como a emissora de maior reputação do Brasil, conforme pesquisa “Veículos Mais Admirados: Índice de Prestígio das Marcas”, do Grupo Troiano de Branding e do jornal Meio & Mensagem.

 

Se me permite, caro e raro leitor deste Blog, compartilho ainda uma alegria muito pessoal (e familiar) desta semana: além de ver meu filho mais novo, o Lorenzo, alcançar notas que lhe permitem passar por média para o segundo ano do ensino médio – repetindo desempenho dos anos anteriores -, tive o prazer de assistir ao meu mais velho, o Gregório, se inscrever no curso de jornalismo da ESPM_SP. É a segunda faculdade para a qual se capacita, sem contar os resultados positivos alcançados no ENEM e FUVEST, neste ano. Evitei ao máximo influenciar na escolha do curso a seguir (eu juro) e entendo que a decisão de agora, por jovem que é, pode ser mudada na próxima esquina. Saber, porém, que ele, em algum momento, considerou seguir a mesma carreira que o pai e a mãe, a Abigail, sinaliza consideração e respeito pelo trabalho que nós desenvolvemos até aqui. Foi, sem dúvida, o mais importante reconhecimento que nós poderíamos buscar. E a certeza de que os próximos dias de férias serão muito bem aproveitados para comemorar todas estas conquistas.

 

Volto à programação da CBN na última semana do ano, mas estarei por aqui, no Blog, quase que diariamente contando com a sua participação e a colaboração dos nossos sempre fieis comentaristas.

Entrevista: o rádio, o jornalismo e o jornalista na era da internet

 

O rádio e o jornalismo na era da internet foi tema da entrevista que concedi para a agência de comunicação Printer Press, na qual realizei palestra destacando as novidades neste veículo e os novos caminhos da notícia.

 

Na primeira parte da conversa com a jornalista Daniella De Caprio, falamos sobre a forma como o veículo se adaptou às novas tecnologias e a relação dos profissionais de rádio com as assessorias de comunicação:

 

 

Na segunda parte da entrevista, tratamos de demandas do novo jornalismo e como estudantes que estão querendo investir neste mercado e profissionais que se iniciam na carreira podem se preparar melhor para encarar os desafios da profissão:

 

No jornalismo, você procura ouvir quem sabe mais do que você, ensina Zuenir Ventura

 

Zuenir Ventura na Bienal

 

A eleição de Zuenir Ventura para a Academia Brasileira de Letras, semana passada, me permitiu duas alegrias. A primeira de ver um dos meus escritores favoritos elevado à condição de imortal. De 1968:o ano que não terminou à Cidade Partida, passando por Sagrada Família e Inveja:Mal Secreto, todos seus livros me conquistaram não apenas pela história contada, mas pela forma como os fatos são descritos, a precisão na informação e a riqueza do texto. Gosto entre tantas outras coisas da definição divertida que tem para jornalista – um cara que não sabe nada do que fala, mas conhece quem sabe. Não é bem esta frase, mas a ideia é a mesma. Se quiser copiá-la ipsis litteris não deixe de ler Inveja:Mal Secreto, livro que integra a coleção sobre os sete pecados capitais. Aproveite e compre Gula:O Clube dos Anjos, de Luis Fernando Veríssimo, que é da mesma série. São deliciosos. Coincidentemente (ou não), ambos são jornalistas.

 

Antes que me perca pelo deslumbramento com o autor, vou logo à segunda alegria: a possibilidade de entrevistá-lo, no quadro Time das Oito – Sexta Especial, do Jornal da CBN. Na véspera, Zuenir havia enfrentado uma maratona de cumprimentos que mexeu com seu coração a ponto de obrigá-lo a fazer exames à noite em um hospital, quando descobriu que estava firme e forte para encarar a imortalidade recebida aos 83 anos. Um susto que acabou em pizza e vinho em um restaurante carioca, segundo nos contou. Na sexta-feira pela manhã, atendeu nossa ligação pouco antes de sair para a caminhada matinal na praia e se prontificou a atrasar sua programação para conversar conosco no ar. Zuenir é daqueles entrevistados que deixa o entrevistador à vontade, apesar de seu alto saber. Quem ouve, pensa que são amigos conversando, quando, na realidade, minha intimidade com ele se dá pelos livros que guardo carinhosamente na biblioteca.

 

Dos muitos assuntos que o pouco tempo me permitia abordar, tive a curiosidade de saber a opinião dele sobre o texto jornalístico, preocupação que tenho especialmente quando se refere ao que escrevemos para ser lido no rádio. Zuenir, claro, se ateve mais ao texto impresso, pois esta é a sua origem, e alertou para o que chama de processo perigoso que estamos enfrentando devido a influência muito grande da narrativa da internet, que muda a forma de as pessoas se expressarem devido a velocidade da escrita, que faz desaparecer vogais e provoca uma redução da linguagem. Apesar do medo de que isso contamine o texto, ressalta que nunca se leu nem se escreveu tanto como agora: “e você só aprende a escrever, escrevendo”.

 

Como todo entrevistado inteligente, não se resume a pergunta do entrevistador, pois sabe conduzir a conversa para os temas que entende ser interessante ao público. Assim, ao terminar de falar da influência da internet no texto jornalístico, fez a ponte para a influência da internet no jornalismo. Para ele, as pessoas hoje registram um fato e o publicam em blogs e redes sociais acreditando que estão, assim, praticando o jornalismo. “Jornalismo é apuração, investigação, é usar o saber do outro (…) no jornalismo você estuda. Quando você faz uma matéria tem uma hierarquia do saber, você se informa sobre a matéria, procura ouvir quem sabe mais do que você”.

 

Poucos sabem tanto sobre jornalismo quanto Zuenir Ventura, o imortal.

 


Ouça a entrevista com Zuenir Ventura, que foi ao ar no Jornal da CBN, no dia 31 de outubro de 2014

 


A foto deste post é do álbum de Julio César Mulatinho, no Flickr

Notas e observações: eleições 2014

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

10384300_738295732906992_3852707763984796650_n
A não aprovação da Rede Sustentabilidade de Marina para impedir a sua candidatura foi um primeiro sinal de que o pleito que viria seria um vale tudo. Inevitável, diante de condições propícias como a corrupção e a manutenção por doze anos do mesmo grupo no poder. E ampliada com o fator inesperado da morte de Campos, que trouxe de vez a candidatura de Marina.

 

A disparada de Marina acionou uma artilharia pesada que levou Aécio ao segundo turno. O emocional se acentuou e a paixão dominou eleitores, candidatos e afins. A postura se transformou em descompostura, onde predominou o juízo de valor e se abandonou a técnica e a lógica. A metodologia das pesquisas e o reconhecimento dos jornalistas foram ignorados.

 

Um dos argumentos mais utilizados para criticar as pesquisas era que ninguém conhecia eleitor que tivesse sido pesquisado .Ora, tecnicamente conhecer um dos 2.000 a 4.000 pesquisados num universo de 144 milhões de eleitores é que seria um fato raro. Ao mesmo tempo, eleitores de Aécio diziam que havia erro nas previsões que apontavam a vitória de Dilma porque no seu ambiente quase todos iriam votar em Aécio, esquecendo “apenas” que existe a segmentação de mercado, e havia outro mercado que não votaria em Aécio. Já na apuração e apresentação dos resultados também se ignorou a segmentação, e o Brasil foi apresentado como um país dividido por região, embora o seja por segmento. Situação e oposição, estado por estado. Fato muito bem ilustrado no Facebook de Amanda Dassié onde encontrei o mapa acima estampado.

 

Entretanto, grave foi a combinação PT e PSDB de afastar os jornalistas dos debates pela TV. O resultado foram diálogos com dados a bel prazer dos candidatos, quando não insultos inflamados com informações manipuladas ou fora do contexto. Viraram “memes” como o da economista que perguntou como a Presidenta Dilma iria tratar o problema da mão de obra qualificada que não consegue colocação por causa da idade, e recebeu orientação para fazer o PRONATEC.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Queimando as pestanas para entender algumas coisas

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O meu neto Gregório já está fazendo vestibulares. O plural está de bom tamanho. Afinal,estudioso como o seu avô não foi,confesso lisamente,Greg não se contenta em queimar as pestanas com um único exame. Os mais jovens,provavelmente,não sabem o que significa a expressão que,por ser um velho senhor, estou liberado para usar o termo. O significado da junção dessas duas palavras – queimar as pestanas – é algo muito antigo. Ocorre que começou a ser usada quando ainda não se dispunha de energia elétrica e os estudantes da época eram obrigados, com bem se pode imaginar,a ler as matérias prescritas pelos mestres à luz de velas ou lampiões e se dizia,meio que forçando a barra, que queimavam os olhos.

 

Não estranhem,gosto muito dos adágios e,por isso,volta e meia, lembro de um que se encaixa no meu texto. Na última quinta-feira,escrevendo sobre o absurdo que seria trazer PMs do Interior para ajudar no policiamento de Porto Alegre,repetindo o que haviam feito durante a Copa do Mundo,disse que estavam, mais uma vez, despindo um santo para vestir outro. Esperava,voltando ao início desta postagem, que o Gregório, bem mais alto que o pai dele,que jogou basquete, do juvenil ao adulto,no Grêmio,pudesse aproveitar a sua estatura e,no mínimo,tornar-se um respeitável ala. Entretanto – e aí vai mais um provérbio – o segundo em idade dos meus netos vai seguir a carreira do pai dele e a minha. Vão dizer que a laranja não cai longe do galho. Sei – e sinto muito – que frustrei o desejo do seu Aldo,meu pai. Queria ver-me advogado. E não foi por falta de esforço dele que acabei me apaixonando pelos microfones. Não sei se ficou feliz ao me ouvir nas duas únicas rádios em que trabalhei,mas acho, pelo menos,se conformou. Fico torcendo para que o Fernando que,com a Vivi,mora em Porto Alegre,faça uma boa escolha quando chegar a hora do seu vestibular. Já mostrou que é um estudante caprichoso e isso é meio caminho andado.

 

Ao lembrar como precisavam estudar à luz de velas e lampiões os estudantes de antanho sem sequer imaginarem que,um belo dia,alguém inventaria o computador e,daí para a frente,uma série de outras tecnologias que facilitariam hoje a vida deles,duvido que não pensassem serem essas benesses coisas de livro de ficção científica. Agora,lamentavelmente,as grandes invenções do homem,dependendo dos interesses dos que nos governam,servem não para facilitar a vida das pessoas. Basta que se dê uma lida nos jornais dessa terça-feira que “o governo estadual decide adiar tarifaço da CEEE na conta de luz. Por quê? Porque um aumento agora poderia prejudicar os que desejam ser eleitos neste domingo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Datafolha pesquisa o Minhocão e gera confusão

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

Minhocão_Fotor_Collage

Somente 7% da população da cidade de São Paulo aprovam a demolição do Minhocão, enquanto 76% são contra, e 53% querem mantê-lo como está. Estes dados foram publicados na terça feira, 23, pela Folha ao divulgar pesquisa Datafolha. A partir daí a difusão da notícia rapidamente se espalhou pelos canais de comunicação, que lembraram ainda que a desativação do Minhocão está contida no recém-aprovado PDE Plano de Desenvolvimento Estratégico da cidade. Restando apenas a decisão entre a demolição e uma nova ocupação.

 

A alta velocidade de propagação da pesquisa foi inversamente proporcional à análise que deveria ocorrer junto com a notícia, antes de sua divulgação. O Datafolha não diferenciou no resultado os usuários, os usuários frequentes, os não usuários, e os moradores. O jornalista Dimenstein, por exemplo, em entrevista na CBN se preocupou em defender a manutenção na forma de um parque, mas não questionou o levantamento do Datafolha.

 

Já era sabido que os moradores tinham se manifestado em audiência pública na Câmara cobrando a demolição, pois não querem nem o parque. Na origem, em 1971, data da inauguração, o Minhocão destruiu bens e qualidade de vida de 200mil pessoas. Fato não menos cruel é que o número de usuários é menor do que o número de habitantes afetados negativamente. Além do que, aqueles passam e vão para suas casas, deixando o ônus para os que ficam.

 

Ainda bem que o jornalista Leão Serva redimiu o veículo que serve, abordando segunda-feira em sua coluna na Folha: “O Minhocão e seus vizinhos”, cujo subtítulo denunciava “Pesquisa sobre temas urbanos devem identificar grupos de interesse e suas opiniões específicas”.

 

Milton Jung nesta mesma segunda dizia em seu post que os jornalistas não devem temer os meios eletrônicos como fonte de notícias. É verdade. Se algum temor caiba, que seja de si próprio.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Jornalista não deve ter medo da informação em rede, deve respeitá-la

 

#eSTAS2012: Redvolution, el poder del ciudadano conectado. The power of connected citizens

 

A multidão tem seus braços voltados para a cena que se desenrola ali na frente e na ponta dos dedos manipula o celular captando a imagem que será compartilhada imediatamente com um sem-número de pessoas. São centenas de imagens sendo registradas ao mesmo tempo e espalhadas para diferentes pontos até onde sua rede social alcança. A verdade ainda não é conhecida, o que não impede que comentários se multipliquem para diversas plataformas ajudando a construir a opinião pública (o que é mesmo que está acontecendo ali?).

 

O acesso simplificado à tecnologia e a facilidade com que nos conectamos em rede permitem que o cidadão conte os fatos a partir de seu ponto de vista e construa sua própria história, influencie pensamentos e se transforme em fonte da informação. Uma quebra de hierarquia em sociedades que se acostumaram a ter nos meios de comunicação o monopólio da notícia. Este empoderamento, que democratiza os debates e mobiliza a sociedade, não significa que o cidadão é um jornalista. Ele seguirá cidadão, mais forte e influente, e o jornalista permanecerá com seu papel de cobrir os assuntos, levantar as mazelas, cobrar mudanças, identificar exemplos e buscar a verdade que se constrói na investigação e não apenas no primeiro olhar. Tem obrigação de mediar as forças envolvidas, encontrar o equilíbrio que ajuda a esclarecer e assumir a responsabilidade da publicação, respondendo pelo que diz, mostra e escreve.

 

Jornalistas e jornalismo devem respeitar a força da informação em rede, estruturada pelo somatório de fatos registrados pelos cidadãos em diferentes meios, mas jamais temê-la. Quem souber melhor dialogar com esta sociedade, usufruir desta massa de informação à disposição e ofereccer a ela conteúdo qualificado e diferenciado vai se sobressair. Esta fórmula funcionará seja nos meios tradicionais de comunicação seja nos novos formatos que estão para surgir. Nada impedirá que o jornalista seja autor e autoridade, pois também não dependerá exclusivamente desse veículos para transmitir seu conhecimento. Formas de financiamento compartilhado já existem para sustentar a realização de reportagens e coberturas. E mais uma vez, independentemente de toda tecnologia desenvolvida, o que fará diferença é a credibilidade. Enquanto soubermos cultivá-la com nosso trabalho, o jornalista e o jornalismo persistirão. E o cidadão estará ainda mais fortalecido.

 


A imagem deste post é do Flickr da Fundacion CiberVoluntarios

Prêmio Comunique-se de Rádio, é nosso!

 

photo

 

Recebi na noite de terça-feira, o Prêmio Comunique-se na categoria “Âncora de Rádio”, durante cerimônia que marcou a 12a. edição do evento, em São Paulo. Na verdade, quem recebeu por mim foi a amiga Rosana Jatobá que no ano passado já havia subido ao palco ao ganhar o troféu na categoria jornalismo de sustentabilidade. Jatobá foi colega aqui no blog, depois seguiu em seu voo solo, construiu site próprio, escreveu livro e comanda programa e coluna sobre o tema na Rádio Globo. Na premiação, ainda estava escalada para ser mestre de cerimônia na abertura do evento. Portanto, percebe-se que eu estava muito bem representado. Minha ausência, justificada em texto lido por ela, deu-se por dois motivos: um prático e outro sentimental. Acordo de madrugada para fazer o Jornal da CBN e foi graças a este trabalho que tive meu nome destacado entre tantos profissionais, portanto nada mais justo do que agradecer a escolha com aquilo que tenho de melhor a oferecer: meu trabalho. Não comparecer ao evento me impediu, também, de repetir o choro que me dominou quando fui premiado pela primeira vez, em 2009. Ouvir a Rosana foi menos constrangedor.

 

A pedido de ouvintes, que carinhosamente escreveram para parabenizar-me, explico que o prêmio é organizado pelo Portal Comunique-se, plataforma que reúne jornalistas e comunicadores. São os próprios jornalistas que fazem uma primeira seleção de dez nomes, em seguida abre-se a votação pela internet pelos inscritos no portal, saem três finalistas e uma terceira etapa é realizada para a escolha do vencedor. Calcula-se que 100 mil pessoas votaram nesta etapa. O prêmio reúne gente consagrada e muitos colegas de redação já foram agraciados com o troféu. Alguns se repetem, comprovação de seu talento, como Miriam Leitão, Juca Kfouri, Carlos Alberto Sardenberg, Gilberto Dimenstein entre outros tantos que me acompanham pela manhã no Jornal da CBN.

 

A propósito, não tenho dúvida de que minha escolha está diretamente ligada a esta relação de talentos que me cerca na rádio CBN. São eles e mais uma equipe de jornalistas, que muitas vezes não aparecem (ou falam), que oferecem condições para que meu trabalho se sobressaia. Tenho convicção de que radiojornalismo não se faz apenas com ícones e âncoras. Somos dependentes de repórteres, editores, produtores e redatores, além de profissionais da área técnica, que ambientam nosso trabalho e interferem na produção, e do setor de internet, afinal temos de estar em todas plataformas. Uma gente criativa e responsável que encontro na rádio CBN desde que iniciei meu trabalho por lá, em 1998. E de quem tenho muito orgulho pelo que fazem.

 

Prêmio Comunique-se de Rádio, é nosso!

Menos rádio em casa, mais ouvintes nas cidades

 

19502dmale

 

A PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, divulgada semana passada, trouxe a informação (que não precisou ser revisada) da queda no número de moradias com rádio, que passou de 80,9% em 2012 para 75,8% para 2013 – queda decorrente das mudanças tecnológicas, segundo o IBGE. O índice 5,1 ponto percentual menor não significa que estamos ouvindo menos rádio, apenas que estamos ouvindo a programação de rádio em outros equipamentos e formatos, como escrevi recentemente ao ser convidado a falar sobre mudanças percebidas no decorrer dos últimos dez anos:

 

Nas redações, as notícias chegavam em grande velocidade já impactadas pela tecnologia digital. A internet fazia parte do nosso cotidiano apesar de a maioria dos veículos ainda estar tateando as possibilidades que estas ofereciam. Os portais de notícias, mesmo insustentáveis financeiramente, já eram realidade com suas redações tomadas de jornalistas, desenvolvedores de conteúdo, designers, técnicos em mídias digitais e outras especialidades. Sabia-se pouco mas se arriscava muito. Foi em 2004 que fui trabalhar no Portal Terra apresentar o Jornal do Terra, onde o investimento em jornalismo de internet era grande e a experiência de jornalistas das mídias tradicionais se misturava a de profissionais nascidos na era digital.

 

Rádio, televisão, jornal e revista experimentavam soluções na internet em um momento no qual as redes sociais ainda eram desconhecidas. O já falecido Orkut, a primeira rede a proporcionar o relacionamento de milhões de internautas e a dar oportunidade para a construção de comunidades digitais, estava se iniciando, foi inaugurado em janeiro de 2004. Naquele momento, as revistas semanais já percebiam a necessidade de estar presente nos computadores dos brasileiros pois não havia mais espaço para guardar notícias para o fim de semana. As emissoras de televisão migravam seus conteúdos para a internet, mas transmissões ao vivo neste meio não eram comuns como atualmente.

 

Ouvir rádio na internet já era comum, no celular ainda não. Conectava-se algumas emissoras no computador de mesa ou no notebook, porém a mobilidade ainda não estava presente no dia a dia do brasileiro. A conexão do rádio no celular acontecia apenas em aparelhos que captassem sinal de FM. A transformação do celular em rádio porém estava se iniciando e me permitia enxergar que ali estaria nosso futuro. No livro Jornalismo de Rádio, lançado em 2004, pela editora Contexto, já previa a disseminação desse aparelho que atualmente bate a casa dos 50 milhões, no Brasil. 50 milhões de smarthphones. 50 milhões de rádios. Também percebíamos que não bastava mais ter apenas programação no ar, tínhamos de oferecer produtos em podcast, colocar câmeras dentro do estúdio e produzir programas em vídeo. Foi, naquele ano, que ouvi do jornalista Alberto Dines me dizer, na redação do Portal Terra, que “o rádio é mídia do futuro”. O rádio estava começando a viver o seu futuro. E eu me transformei com ele.

 

Em tempo: dados coletados pela Jacob Media, nos Estados Unidos, mostram que a quantidade de ouvintes de rádios AM e FM, que escutam uma hora ou mais de rádio por dia, caiu 2%, enquanto os ouvintes que acessam os mesmos programas pela internet semanalmente aumentou 16%.