Conte Sua História de SP: poesia para passear pelo centro da cidade

 

Por João Coradi Neto
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

No Conte Sua História de São Paulo, a poesia de João Coradi Neto, publicada no livro “Poesias Contemporâneas III”:

 

 

Faço sempre um giro por lá
Amo andar na XV de Novembro
De janeiro a dezembro
Percurso que faço a pé
Começo na Praça da Sé
Vou longe, vou acolá

 

Me emociono sempre
Passo pelo Pátio do Colégio
Pra mim é um privilégio
Não sou o ultimo, nem o primeiro
Desço a Ladeira General Carneiro
Feliz, alegre contente

 

Muita gente vejo no caminho
Chego ao Parque Dom Pedro
É lindo de dar medo
Continuo, aperto o passo
Caminho pela Vinte e cinco de Março
Trajeto que faço com carinho

 

A esta altura já estou com fome
Paro por hora no Mercadão
Onde como um sanduíchão
De calabresa ou mortadela
Sozinho ou com ela
Também pastel de bacalhau ali se come

 

Volto satisfeito e tranquilo
Subo a Ladeira Porto Geral
Me canso um pouco é natural
Logo ali na esquina se avista
A linda Rua Boa Vista
Com prédios gigantescos com estilo

 

Dou uma parada para descansar
Entro na igreja do Largo São Bento
Oro, medito e curto o momento
Em baixo o metrô vai pra Gardênia
Já estou no viaduto Santa Ifigênia
Não paro, vou continuar

 

Sigo em frente já descansado
Passo pela Avenida Ipiranga
Tomo um suco gelado de manga
Foi proveitoso, não foi em vão
Estou cruzando a Avenida São João
Tudo simples nada complicado

 

Continua na rua o agito
Acabo de chegar à Praça da República
Pode nela entrar, é pública
Sem apresentar documento ou crachá
Ando em cima do Viaduto do Chá
Tudo calmo, sem barulho ou grito

 

Antes tinha parado no espaço Municipal
O teatro, não pude entrar estava fechado
Que pena fiquei muito chateado
Olhei à minha direita, apontei o dedo
Para a bela Rua Xavier de Toledo
Imaginando o teatro com peças e seu ritual

 

Depois de toda essa volta
Dou de cara com a Praça do Patriarca
Acolhedora como uma matriarca
A faculdade como um obelisco
Enfeita e engrandece o Largo São Francisco
Para os advogados é a primeira porta

 

Olhando pra baixo, ali perto se via
A Brigadeiro Luiz Antonio no começo
Andei firme não dei nenhum tropeço
Para dar um alô a outra obra gigante
O viaduto Maria Paula exuberante
Ao meu encontro queria vir, parecia

 

Por fim e com tristeza evidente
Visito a Praça João Mendes
Faz bem pros corações e pras mentes
Com muita esperança e muita fé
Termino na Praça da Sé
E peço que possa fazer isto pra sempre

 

João Coradi Neto é o personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: aqui não se consegue fugir da Marginal

 

Por Sérgio Lopes
Do Recife-PE

 

AQUI SÃO PAULO
(18/03/07)

 

Aqui ninguém é estranho
Todo mundo se convence de que tem algo a dizer
E diz
Com sua moda
Com seus modos
Ou seus medos
Com seus cabides
Suas cabalas
Seus cabelos

 

Aqui todo mundo é igual
Ao seu igual
Em sua turma
Sua tribo
Seu quintal

 

Aqui o olhar nunca é fixo
Nem sagrado é o crucifixo
Aqui não se consegue fugir da Marginal
Nem se subestima o marginal

 

Aqui se fala bastante
Se fala bastante “nossa”
Se fala bastante nossa língua portuguesa
E outras tantas mais

 

Aqui a chuva encanta
E engarrafa
Inspira
E marca
Vem de cima
E de baixo
E, às vezes,
Invade por todos os lados

 

Aqui se sorri
Se escreve
Se come pizza
Se vai ao teatro
Deixando a sensação
De que não se está fora do mundo
Permitindo entender
Porque Rita Lee é uma completa tradução
E porque Arnaldo Antunes tem tanta inspiração

Conte Sua História de SP: Terra da garoa, terra de gente boa

 

Por José Maria Pires

 

 

Terra da garoa

Terra de Gente Boa

 

Terra que não descansa

Terra de esperança

 

Terra de gente de Fé

Terra também do café

 

Terra da Independência

Terra com Jurisprudência

 

Terra de nações e suas crenças

Terra em paz com suas diferenças

 

Terra das artes e das Ilusões

Terra de oportunidades mediante as ações

 

Terra que riqueza produz

Terra que a pureza conduz

 

Terra de muitos amores

Terra que espanta temores

 

Terra de vitórias mil

Um pedaço desse continente chamado Brasil.

 

 

Conte Sua História de São Paulo tem sonorização de Claudio Antonio e narração de Mílton Jung. Você participa enviando textos para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o poeta que casou com a cidade

 

Por Alceu S. Costa

 

 

Meu Tributo à Cidade de São Paulo.

 

De olhos fechados eu não sonhara.
Talvez, cerrados de fato não os tivera.
Então, se acordado, tudo aquilo era verdade,
Uma piscada, um flerte…o futuro conluio,
Que virou namoro, noivado…
Foi assim que me casei com esta Cidade.

 

25 de outubro de 1965.Tarde primaveril.
De costas para o passado, nova realidade.
A busca pelo sustento sem conhecer o relento,
A mão do amigo, a simplicidade do abrigo,
A distância do perigo…
Serena viagem nas asas do tempo.

 

De olhos abertos, construí o meu sonho.
Apesar da idade, a Cidade não perde o viço,
A nossa relação amadureceu, meu desvairado vício.
Não nego, estou tentado pelos acenos da outra,
Jovem, atraente, sedutora …ah!
-Trair, jamais!, descarta peremptória minh’alma sonhadora.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio, narração de Mílton Jung e  vai ao ar aos sábados, no CBN SP. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Quintanares: Verão

 

 

 

Poema de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung
Publicado em Antologia Poética

 

No capinzal, o meu cabelo cresce;
Pende, polpa madura, o lábio teu no fruto;
Todo o calor te diz: “Amadurece
Mais, ainda mais e tomba!”
Eu não espero
Vento nenhum que te derrube, eu quero
que tombes, doce e morna, por ti mesma, onde
mais sejas desejada e apetecida… vem!
Faremos
De verdura acre
E doce polpa
Manjar que reses lamberão
E virão farejar os animais noturnos

 

Antes de que nos sorva, lentamente, o chão…

 

Quintanares foi ao ar, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: Operação Alma

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

Há os que fazem materializações…
Grande coisa! Eu faço desmaterializações.
Subjetivação de objetos.
Inclusive sorrisos,
Como aquele que tu me deste um dia com o mais
puro azul de teus olhos
E nunca mais nos vimos (Na verdade a gente nunca mais se vê…)
No entanto,
Há muito que ele faz parte de certos estados do céu,
De certos instantes de serena, inexplicável alegria,
Assim como um vôo sozinho põe um gesto de adeus na paisagem,
Como uma curva de caminho,
Anônima,
Torna-se às vezes a maior recordação de toda uma volta ao mundo!

 

 

Quintanares foi ao originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: Ser e estar

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretada por Milton Ferretti Jung

 

A nuvem, a asa, o vento,
a árvore, a pedra, o morto…

 

tudo o que está em movimento,
tudo o que está absorto…

 

aparente é esse alento
de vela rumando um porto

 

como aparente é o jazimento
de quem na terra achou conforto…

 

pois tudo o que é está imerso
neste respirar do universo

 

– ora mais brando ora mais forte
porém sem pausa definida –

 

e curto é o prazo da vida

 

e curto é o prazo da morte.

 

O programa Quintanares foi ao ar, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre.

Quintanares: O cisne

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

O cisne que estava imóvel sobre o piano
desliza agora sobre as águas negras
ao som da valsa
que eu tocava a quatro mão
uma menina Gertrudes
se fosse ao menos uma Gertrudes Stein

 

o nome da valsa não me lembro
seria o cúmulo se fosse aquela sobre as ondas
que se tocava tanto no fim do mundo
e o pior de tudo
é que as visitas aplaudiam sinceramente
que menino inteligente

 

oh, tempos
oh, gente
a menina Gertrudes era enjoada e pretensiosa
como suas calças de babado.
e olhava-me com ares de quem sabia coisas
de que eu não entendia nada
é que as meninas sabem mais do que sabem

 

e havia um velho
que me parecia mais velho do que todos os retratos da sala
e que dizia sempre naquela sua voz de molas de relógio
ai, que Catitas,
ai, que catitas

 

e com as palmas das visitas
nem se ouvia o rumor das águas infinitas
que vinham subindo, subindo

 

 

Quintanares foi ao ar, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre

Quintanares: A surpresa de ser

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

A florzinha
Crescendo
Subia
Subia
Direito
Pro céu
Como na história de Joãozinho e o Pé de Feijão.
Joãozinho era eu
Na relva estendido
Atento ao mistério das formigas que trabalhavam tanto…
E as nuvens, no alto, pasmadas, olhavam…
E as torres, imóveis de espanto, entre vôos ariscos
Olhavam, olhavam…
E a água do arroio arregalava bolhas atônitas
Em torno de cada pedra que encontrava…
Porque todas as coisas que estavam dentro do balão
Azul daquela hora
Eram curiosas e ingênuas como a flor qua nascia
E cheias do tímido encantamento de se encontrarem juntas,
Olhando-se

 

Quintanares foi quadro apresentado originalmente na rádio Guaíba de Porto Alegre e os arquivos reproduzidos no blog são do narrador

Mário Quintana: O Menino Louco

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em Apontamento de história sobrenatural
Interpretada por Milton Ferretti Jung

 

Eu te paguei minha pesada moeda
Poesia…
Ó teus espelhos deformantes e límpidos
Como a água! Sim, desde menino,
Meus olhos se abriam insones como flores no escuro
Até que, longe, no horizonte, eu via
A lua vindo, esbelta como um lírio…
Às vezes numa túnica de Infanta
Sonâmbula… Às vezes virginalmente nua…
E era branca como as nozes que os esquilos descascam na mata…
Pura como um punhal de sacrifício…
(Em meus lábios queimava-se, ignorada, a palavra mágica!)

 

Quintanares foi ao ar, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre