Os 150 anos do padre e bruxo do rádio

 

Uma conversa do presidente da República Rodrigues Alves com um de seus assessores, no palácio do Governo, no Rio de Janeiro, em 1905, pode ter tirado de um brasileiro o direito de ser reconhecido como o inventor do rádio. O representante do governo havia acabado de visitar o padre Roberto Landell de Moura, de quem ouviu explicações sobre algumas geringonças inventadas por ele. Coisas como telefônio, teleauxifônio e anematofono, espécies de telefone e telégrafo sem fio e de transmissores de ondas sonoras – a maioria já patenteada por ele, nos Estados Unidos, em 1904.

Bem que o padre de 44 anos, nascido em Porto Alegre, se esforçou para convencer o enviado do Palácio que os aparelhos montados por ele poderiam estabelecer comunicação com qualquer ponto da Terra por mais afastados que estivesse um do outro.

Não se sabe se foi devido às limitações intelectuais do assessor, que talvez não tenha entendido o que lhe era apresentado; se pelo fato de o padre ter solicitado dois navios da esquadra brasileira para uma demonstração pública dos seus inventos; ou se o assessor ficou assustado ao ouvir que um dia ainda seriam possíveis comunicações interplanetárias. Certo é que, ao voltar ao Palácio, o burocrata, a exemplo de um carimbo de repartição pública, foi taxativo: “essa padre é um maluco”.

Não era novidade para Landell de Moura que já fora várias vezes transferido de paróquia, ou mesmo de cidade, acusado de ser impostor, herege e bruxo. Acusações dirigidas a ele, em 1892, quando, utilizando uma válvula amplificadora com três eletrodos, transmitiu e recebeu a voz humana. O feito se deu em Campinas, interior paulista, e nem mesmo ouvindo as pessoas foram capazes de acreditar.

Em 1889, Landell de Moura transmitiu a voz do Alto de Santana, a partir do Colégio das Irmãs de São José – lá onde está, atualmente, o Colégio Santana -, à Avenida Paulista.

Irônico que as pioneiras transmissões tenham ocorrido nesta avenida que, atualmente, abriga emissoras e antenas de rádio e televisão, além de faculdade de comunicação. Mais do que uma coincidência, a constatação de que Landell sabia bem o que fazia, e usava a geografia do espigão paulistano em seu favor.

O mérito de Landell de Moura, reconhecido apenas após a morte, em 1928, é evidente quando se pesquisa a história do surgimento do rádio. Do telégrafo, termo que surgiu no fim do século XVIII à telefonia, já no século XIX, muitos avanços levaram à radiodifusão. Estudos sobre a eletricidade e suas características se somaram até chegar ao aparelho que, atualmente, existe na casa da maioria dos brasileiros, e nos carros também.

É saudável, porém, que se aproveite esta sexta-feira, 21 de Janeiro, na qual meu conterrâneo completaria 150 anos de vida, para reforçar a mobilização que busca o reconhecimento da obra científica dele. Uma das frentes deste trabalho é a reunião de assinaturas em favor da ideia no site do MLM – Movimento Landell de Moura.

Neste espaço, que tem a intenção de discutir a cidade e o cidadão, e incentivar soluções para o ambiente urbano, a história do padre-inventor demonstra a necessidade de se impedir que a burocracia e o preconceito sufoquem a criatividade e o conhecimento.

• Parte deste texto foi escrito, originalmente, no livro “Jornalismo de Rádio”(Ed. Contexto)

O voo-cego do rádio esportivo

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O autor do texto está na ponta esquerda da mesa

 

Preciso, antes de mais nada, agradecer aos leitores do meu texto de estreia, neste espaço, pela ordem, Carlos Magno Gibrail, Daniel Lescano, Nelson Valente, Armando Italo, Dora e Airton Gontow. Foram todos muito bondosos. Grato pelas boas-vindas, passo para a escrever o que reservei para esta quinta-feira.

 

Outro dia, o Mílton, em sua “Avalanche Tricolor”, a propósito de uma outra estreia – a do Grêmio no Campeonato Gaúcho- lembrou, com saudade, o início de sua carreira na Rádio Guaíba, no qual, repórter esportivo que era, trabalhava nos jogos dessa competição, muitos deles narrados por mim. A saudade se explica: os jogos, em geral, especialmente aqueles disputados no interior do estado,transformavam-se em batalhas campais ou quase nisso. Os jogadores, mesmo os da dupla Gre-Nal, mais bem remunerados, tinham amor à camiseta, coisa rara hoje em dia, pois o profissionalismo transformou muitos em verdadeiros mercenários. O que o Mílton não recordou, porque não havia nascido na época, foi das dificuldades que se enfrentava para transmitir as partidas do que agora resolveram apelidar de Gauchão, superlativo injustificável para o futebol que se vê.

 

Em algumas cidades interioranas – Bagé era uma delas – não havia linha telefônica, necessária para que se falasse dos estádios. Viajava-se, na véspera dos jogos, por estradas de chão batido, muitas vezes debaixo de chuva. Não havia motorista profissional. Dirigiamos nós mesmos inseguras kombis. Dentro delas, estava um enorme transmissor “single-side-band”, o substituto da linha telefônica. Para que funcionasse era preciso comprar dois postes de bom tamanho, estender entre eles um cabo, conectado a outro que, por sua vez, ligava-se ao transmissor. Na sede da rádio, um técnico passava trabalho para receber a transmissão. Esse, controlava o áudio girando um botão. Para a equipe que estava no estádio ouvisse o retorno do som que era enviado, fazia-se necessário sintonizar a onda-curta da emissora.

 

Em transmissões de futebol fora do estado precisava-se contratar a Radional, antecessora da Embratel e nem sempre confiável. Essa, certa vez – e com isso vou encerrar este papo, não se preocupem – nos deixou na mão num jogo entre Atlético Mineiro e Grêmio, em Belo Horizonte, no Estádio Independência. Sem conseguir captar a onda-curta da Guaíba, abri a transmissão depois de avisar para o estúdio que iriamos – o Ruy Ostermann e eu – entrar no ar em “voo-cego”. E entramos. Narrei 85 minutos. Foi então que a onda-curta deu o ar da graça. No estúdio, o locutor do noticiário apresentava o Jornal da Noite.

 

Seja lá como for (ou como era) que, tal qual o Mílton bem mais tarde, nós dois tenhamos bons motivos para sentir saudade dos velhos tempos do futebol e do rádio esportivo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista, gremista e meu pai. Escreve toda quinta-feira aqui no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de SP: A química de Paulo Goulart

 

Ao chegar de Ribeirão Preto, interior paulista para estudar química industrial na capital, Paulo Afonso Miessa não tinha ideia do destino que o aguardava. Foi para o rádio – veículo pelo qual revela sua paixão a cada palavra – e se transformou ator ao conquistar os ouvidos do mais críticos que haviam na Tupi Difusora, Oduvaldo Viana. Ganhou novo sobrenome e virou Paulo Goulart, admirado por todos nós pelo talento e pela personalidade.

Casou com a carioca Nicette Bruno com quem teve duas filhas e um filho. Uma delas, Beth Goulart, coincidência, nasceu no dia de São Paulo, 25 de janeiro, no Rio. Foram todos criados e crescidos na capital paulista e o pai fala disso com orgulho.

São Paulo é motivo de muitos e emocionantes momentos descritos por Paulo Goulart com uma beleza que me encantou, durante a apresentação do programa desta terça-feira. Ele foi o personagem do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 457 anos da cidade. Acompanhado por uma alegria contagiante, Goulart marcou a conversa com frases que ensinam: “é preciso crer no amanhã, o amanhã é o desenvolvimento, e o aprender é fundamental”.

Ouça o depoimento de Paulo Goulart, na CBN

Durante esta semana, entrevistamos personagens e personalidades para o Conte Sua História de São Paulo. E você também pode participar deste programa contando mais um capítulo da nossa cidade. Agende uma entrevista ou envie seu texto para o site Museu da Pessoa.

Que São Paulo você quer no fim desta década ?

 

Paulistanos, os de nascença e os que se aprochegaram, querem deixar a cidade. Ao menos mais da metade deles disse isso em pesquisa feita pelo Ibope, encomendada pela Rede Nossa São Paulo (leia aqui). Opinião que não me surpreende dada a relação que temos com o ambiente urbano.

É o trânsito, é a escola, é o trabalho, é a poluição, é a violência. É um monte de coisa que nos atrapalha todo o dia. É tanta coisa que tem uma hora que a gente pensa em voz alta: “tô louco pra ir embora daqui”. O propósito não costuma vingar e a maioria prefere ficar por estas bandas seja porque é onde estão as oportunidades, a família e a nossa vida seja porque fora dela também não se tem certeza de que algo melhor haverá.

E como é aqui mesmo que viveremos, esta semana é ótima para refletirmos sobre que cidade queremos para nós. No dia 25 de janeiro, São Paulo completa 457 anos de fundação e uma série de atividades está programada para celebrar a capital paulista.

Aproveitando este clima, o CBN SP leva ao ar, a partir de hoje, uma provocação. Pelo twitter, pelo e-mail ou aqui mesmo no Blog, responda: “Que São Paulo você quer no fim desta década ?”

Imagine como você gostaria que esta cidade fosse dentro de 10 anos, e não deixe de pensar o que você poderia fazer para torná-la possível. As ideias que forem enviadas ao CBN SP vão ao ar durante a semana e as mais interessantes serão apresentadas, também, no programa especial em homenagem a São Paulo que será apresentado, ao vivo, no Pátio do Colégio, dia 25, terça-feira, das 9 e meia ao meio-dia.

Programação

Na festa promovida pelo CBN SP no dia do aniversário de São Paulo duas atrações musicais estão confirmadas: Zé Geraldo e o pessoal que integra o projeto Retrato.

No centro da festa um convidado especial: o livro. Além de entrevistas sobre a importância da leitura na nossa vida, o CBN SP estará de mãos dadas com a Campanha Doe um Livro, que surgiu no Twitter e incentiva o cidadão a doar livros que são distribuídos para escolas públicas e bibliotecas.

Você que pretende assistir ao programa, antes de sair de casa procure na sua biblioteca os livros que podem ser doados e leve até o Pátio do Colégio.

Acompanhe outros programas da CBN em homenagem aos 457 anos de São Paulo:

Por dentro de São Paulo, com os pontos curiosos da capital paulista apresentados por Heródoto Barbeiro (7h15 e 14h20)

Ser Paulistano, em que personalidades falam sobre a identidade com São Paulo em reportagens apresentadas por João Vito Cinquepalmi (11h10 e 17h45)

Conte Sua História de São Paulo, com depoimentos de personagens que contarão mais um capítulo da nossa cidade em entrevistas ao vivo para mim, no CBN SP (10h02)

Ipad, quem precisa de um ?

 

A velocidade com que gadgets chegam em nossas mãos é muito maior do que nossa necessidade. Neste momento me deparo com esta situação ao testar um Ipad, presente da família. Corri para a revista com a qual tenho maior intimidade por ser especializada nos produtos da Apple, a Mac+, e passei a folheá-la com ansiedade. Queria logo uma resposta para minha dúvida: por que preciso de um Ipad?

Lógico que o primeiro aplicativo que baixei foi o da CBN, tinha de testá-lo. E ouvir rádio nestes equipamentos para mim é a prova inconteste de que este veículo está sempre disposto a evoluir, característica que o levou a sobreviver e frustrar aqueles que por vezes assinaram seu atestado de óbito. No entanto, o Ipad me obriga apenas a ouvir rádio. E faz o som desaparecer, enciumado, se busco nova tarefa, comportamento nada mais natural nestes tempos (o meu, não o do Ipad).

Nas sugestões do editor e na navegação pela loja de aplicativos da Apple descobri outras funcionalidades. O acesso ao banco em um clique – menos o HSBC que teima em andar atrás da concorrência -, a leitura do jornal que já recebo em casa e do outro que demora a chegar na banca, algumas revistas e muitos livros de graça – nenhum em português que realmente valha a pena ler (se você souber de um deixe a indicação, por favor). De qualquer forma, livros que chegam pelo Ibook são ótimos de ler pelas facilidades oferecidas, dicionário prático, espaço para anotações e agilidade na busca.

A bateria dele é viciante, parece não terminar nunca. Falam em até nove horas ininterruptas. Uma goleada sobre qualquer outro equipamento eletrônico.

Ensaiei este post no Pages do Ipad – o Word da Apple -, demorei para encontrar algumas facilidades que havia nele e mais ainda para dar sequência aos parágrafos. Preferi correr para meu MacBook que já está totalmente dominado. Devo me acostumar com o teclado na tela, mesmo que não cosiga digitar com a mesma velocidade e muitos dedos além do ‘indicador’. Há uma irritante mania do programa sugerir palavras com letra maiúscula onde não deve. Até parece que não sabe falar em português (e não sabe mesmo).

O Keynote do Ipad é nota 10. Sou tão fã deste programa de apresentação que nem mesmo o fato de eu ser um neófito em Ipad me incomoda. Montar as telas com os dedos é fácil e interessante. Soube, porém, que arquivos do Keynote migrados para o Ipad tiveram problemas de adaptação. A Apple já teria feito os ajustes necessários. Não descobri como, pois minha primeira migração “deu pau” e arquivos de vídeo desapareceram.

No aplicativo do WordPress não consigo cadastrar meu blog ‘desenhado’ sobre esta plataforma mas com endereço Globo.com. Isto não chega a ser um problema. Encrenca é quando tento editá-lo pelo Safari, pois não dá pra rolar o texto nem a área de ‘categoria’. Ou seja, se depender do Ipad para atualizar o blog, tô ferrado. Pra escrever outro blog no qual sou colaborador e foi todo criado no WordPress, funciona de maneira razoável.

Sei que não tem máquina de fotografia nem vídeo, ruim para quem usa o Ipad para se comunicar via Skype, mas apenas por isso. Mesmo porque não vejo senso em tirar fotos com o equipamento, não é prático.

A resposta definitiva sobre a necessidade de estar com o Ipad em mãos não é muito clara para mim, ainda. Bem verdade que enquanto escrevia este post – e isto foi feito cada dia um pouco – mexi muito naquela tela e a quantidade de digitais que deixei é testemunha disso. Houve momentos, em que não fui capaz de abandoná-lo pelo Imac ou o MacBook que estavam sobre a mesa de escritório. Um comportamento revelador, sem dúvida.

Com todas estas dúvidas e sem ter explorado parte de aplicativos interessantes que estão a espera de um clic, não por acaso fui encontrar no conselho de uma terapeuta, nossa colega de blog Maria Lucia Solla, a melhor justificativa até aqui. O Ipad, assim como muitas das novidades eletrônicas que chegam ao mercado a todo momento, fascinam os adultos da mesma maneira que os brinquedos chamam atenção das crianças.

Portanto, pegue o seu e se divirta, sem dor na consciência.

Ouça a CBN no seu videogame

 

O tweet acima caiu na minha timeline e logo despertou minha atenção. Há oito anos, em palestras para estudantes de jornalismo e algum tempo depois em “Jornalismo de Rádio” (Editora Contexto), apostava na internet como forma de oferecer nova dimensão para o rádio. Imaginava a intervenção do ouvinte-internauta muito além do tradicional “sugestões e reclamações”. Via nas ferramentas digitais a possibilidade dele se transformar em programador, por exemplo.

Com seu MP3 player em mãos – sim, o Ipod ainda era novidade – e computador programado, antes de sair de casa o ouvinte-internauta baixaria os comentários e programas favoritos, não apenas da minha rádio, mas de qualquer outra fonte disponível na rede. Escolheria a ordem e hora em que ouviria o material, pouco se lixando para a grade de programação que apresentamos pronta – e, na maioria das vezes, rígida.

É o que faz Micael Silva ao baixar podcast disponível na página da CBN. Seu “radinho de pilha” é um PlayStation Portable, fabricado pela Sony, muito mais conhecido pela sigla PSP – criado originalmente para a garotada brincar com seus jogos eletrônicos. Pelo que entendi ao ler os tweets seguintes, Micael estava se divertindo com as histórias contadas na série sobre os 15 anos da rádio.

Fico intrigado com aqueles que ainda questionam o uso desta ferramenta por entenderem que se está oferecendo de graça produto que custa caro para as emissoras de rádio. A história deste veículo se consagrou desta maneira. Produzimos programas – que custam caro, diga-se, pois exigem a presença de jornalistas – que são oferecidos ao público de graça pelas ondas do rádio. Por que não fazê-los pelos bytes da internet ?

Há quem discuta, ainda, se podcast é rádio na internet. Confesso, pouco me importa o nome disso. Uma emissora com capacidade de produzir programação em áudio (em vídeo, também) com qualidade não pode abrir mão deste potencial. Tem de dispor sua produção em formato MP3 possibilitando a distribuição para os ouvintes-internautas através de download e com permissão para que o usuário se inscreva no site que fornece ‘feeds’ RSS.

Em linguagem simples, direta e objetiva – como deve ser a boa comunicação: podcast é áudio à disposição do ouvinte-internauta, que faz o que bem entender com este material.

É o rádio feito para o ouvinte-internauta. Pelo ouvinte-internauta.

Conte Sua História de SP: Ouvindo minha avó

 

Regina Aparecida Lyrio nasceu em 1962 em São Paulo e sua infância foi marcada por momentos muito especiais ao lado da avó. Ela descreveu esses momentos no texto enviado ao Museu da Pessoa e reproduzido no Conte Sua História de São Paulo:


Ouça o texto de Regina Lyrio sonorizado pelo Cláudio Antônio

Tive o privilégio de ouvir tantas histórias de minha avó que às vezes acho que quem viveu aquelas histórias fui eu.

Minha avó materna, italiana, tinha muitos filhos e filhas. Morava cada vez na casa de um. Mas onde ela mais gostava de morar, segundo ela me confiava em segredo, era em nossa casa, onde chegou realmente a ficar mais tempo, indo à casa dos outros filhos pra ficar sempre por pouco tempo e para não deixar ninguém chateado.

Em nossa casa, dormíamos eu, minhas quatro irmãs e minha avó no mesmo quarto. Depois de todo o trabalho que minha mãe tinha, dar banho, escovar dentes e cabelos, dar remédios para minha avó, ela colocava todas nós nas camas, apagava a luz, fechava a porta e dizia:

– Não quero ouvir um pio.

Eu ficava olhando a fresta de luz debaixo da porta, que indicava que minha mãe ainda estava no andar de cima, pois só apagava a luz quando chegava na sala. Aí quase toda noite começava a festa!

Às vezes eu ia até a cama de minha avó, às vezes ela me chamava. Ela trazia consigo sempre o radinho de pilha ligado, geralmente ouvindo o programa do Zé Béttio (que me parecia ficar 24 horas no ar!).

Conversávamos sobre muitas coisas, coisas que ela não conseguia entender, fofoquinhas, mas o que eu mais gostava era que ela contasse ou recontasse as histórias da vida dela na roça, em fazendas de café, na casa de barro. Os partos em casa, os filhos que tinham morrido pequenos, como ela fazia o pão e o macarrão em casa, como era a colheita do café, onde ela comprava os panos para costurar roupa para toda a família.

Eram tantas, tantas coisas, um universo tão diferente do meu, que as perguntas eram muitas, e as histórias muitas vezes repetidas. É que eu queria entender! Aquelas histórias me acompanhavam todo dia, a todo lugar, mas eu não conseguia entender muitas coisas e voltava sempre a perguntar a ela:

– Como assim, a senhora ia para a plantação de café e deixava a tia Nica, ainda bebê, num buraco forrado com panos, debaixo de uma árvore? Não vinha nenhum bicho? Ela não chorava? Como assim, a senhora casou com nosso avô sem conhecê-lo, só por que seu pai mandou?

Até hoje, quando vejo um filme de época, ou uma novela em que aparece a imigração italiana, me envolvo de tal forma naquelas cenas, naquele clima, que me dá a impressão de que fui eu que vivi aquela realidade.

Você pode participar do Conte Sua História de São Pauloi enviando seu texto para o Museu da Pessoa ou agendando uma gravação em vídeo pelo telefone 2144-7150

Skaf abre a série de entrevistas no rádio e na internet

 

Estúdio CBN na InternetTrês câmeras profissionais, mesa para o corte das imagens, tapadeiras cinematográficas vermelhas – destacando as cores da emissora – e iluminação especialmente planejada para o ambiente. Assim é o estúdio da CBN de onde serão transmitidas as entrevistas com os nove candidatos ao Governo do Estado de São Paulo, a partir de hoje, no rádio e na internet, simultaneamente.

O cenário é o mesmo usado para as entrevistas com os três principais candidatos à presidência da República, no Jornal da CBN, e para a transmissão do programa Mundo Corporativo, apresentado por Heródoto Barbeiro. Para assistir na internet, basta acessar o site da CBN.

Desta maneira, os ouvintes-internautas terão oportunidade não apenas de ouvir mas também de ver a reação dos candidatos diante das câmeras quando questionados sobre temas que foram sugeridos pelo público, nas duas últimas semanas. O CBN São Paulo conversou com especialistas nas áreas de transporte, educação, saúde, segurança, meio-ambiente e gestão pública, além de ter aberto espaço para o eleitor propor assuntos e perguntas por e-mail.

É com base nesta pauta compartilhada que as entrevistas serão realizadas das 10h30 às 11 horas da manhã, no CBN São Paulo. Durante a entrevista, mais perguntas poderão ser enviadas no endereço eletrônico milton@cbn.com.br. Todas as perguntas feitas por e-mail serão encaminhadas, após a entrevista, ao candidato para que ele tenha a oportunidade de responder às dúvidas dos ouvintes-internautas.

A ordem dos entrevistados foi decidida em sorteio com a presença dos representantes das nove coligações que disputam o cargo ao Governo do Estado, tendo como primeiro convidado Paulo Skaf, da Coligação Preste Atenção São Paulo.

Veja como ficou a ordem das entrevistas e participe:

Dia 08.09.10 – Paulo Skaf (PSB)
Dia 09.09.10 – Celso Russomano (PP)

Dia 10.09.10 – Paulo Roberto Bufalo (PSOL)

Dia 13.09.10 – Luiz Carlos Prates (PSTU)
Dia 14.09.10 – Aloizio Mercadante (PT)
 
Dia 15.09.10 – Anai Caproni Pinto (PCO)

Dia 16.09.10 – Geraldo Alckmin (PSDB)

Dia 17.09.10 – Fábio Feldmann (PV)
Dia 20.09.10 – Igor Grabois Olimpio (PCB)

Pai, teu legado é nosso, teus caros ouvintes

 

A Rádio Guaíba de Porto Alegre, onde comecei a trabalhar como jornalista, anunciou na sexta-feira, dia 30 de abril, o encerramento da síntese noticiosa que estava no ar desde a fundação da emissora, em 1957. Apresentador desde 1964 do noticiário que surgiu com o nome Correspondente Renner, Milton Ferretti Jung, meu pai, consagrou-se como o locutor de notícias que por mais tempo permaneceu no ar no rádio brasileiro. Seguirá na Guaíba, onde participará como comentarista de um programa esportivo, área na qual atuou dezenas de anos na função de narrador esportivo. É para ele que escrevo o texto a seguir:

Pai,

Tua história nos orgulha. Não apenas a nós que te conhecemos tão intimamente e aprendemos contigo. A todos que cresceram no Rio Grande ouvindo tua voz a pontuar os fatos mais marcantes do país e do mundo. Por muitos anos, cada vez que tocava a característica do saudoso Correspondente Renner, programa que se iniciou com a Rádio Guaíba de Porto Alegre, em 1957, sabíamos da importância do que viria a seguir. A seleção das notícias era criteriosa; a redação, precisa; e a locução irretocável.

A forma com que tu transmitias as informações oferecia credibilidade ao noticiário; acentos, vírgulas, indignações eram percebidos na respiração; a entonação das palavras e a pronúncia dos nomes estrangeiros davam a cada um deles o seu verdadeiro sentido. No ar, pelo rádio, uma aula a todos teus ouvintes, dentre os quais eu sempre estive.

Eu era um ouvinte privilegiado, sem dúvida. Enganado, também. Tu deves lembrar quando a mãe puxava nossa orelha em casa: “se tu não te comportares, guri, teu pai vai te dar uma bronca pelo rádio!”. O Christian, a Jacque e eu parávamos a bagunça pra ti escutar.

Faz algum tempo que o Renner, como o conhecemos, não está ao ar. Mudaram-lhe o nome, perdeu-se a qualidade do texto e a importância dos fatos. Recentemente, em erro estratégico, encurtaram-lhe as edições e desfiguraram até mesmo a tradicional característica.

Tu, não. Perseveravas no talento e na exigência com a performance. Que performance! Com as notícias, seguias a transmitir conhecimento, cultura e responsabilidade. Mantinhas vivo em nossa memória este patrimônio do rádio brasileiro, pois se o Correspondente Esso consagrou a síntese notíciosa, o Renner a eternizou nestes 53 anos dos quais 48 esteve sob tua apresentação.

Assim, a decisão da Rádio Guaíba de tirar de sua grade o Correspondente será incapaz de apagar este legado que é teu. É nosso, teus caros ouvintes, para sempre.

A nos consolar, assim que voltares das férias, o radio-jornalismo terá perdido sua mais bela e competente voz, mas o Grêmio terá ganhado um defensor ferrenho no programa de esportes do qual farás parte, na Guaíba.

Paraisópolis terá rádio comunitária

 

Das maiores favelas do País, Paraisópolis que nasceu na borda do bairro do Morumbi vai inaugurar uma rádio comunitária que será transmitida em frequência modulada, a partir de 2 de março. A União dos Moradores de Paraisópolis recebeu a concessão pública para explorar o sinal nos próximos 10 anos e criou um conselho com integrantes da comunidade para controlar a programação. Os apresentadores, repórteres e demais profissionais serão todos moradores da Paraisópolis, conforme informou Gilson Rodrigues, que dirige a entidade. Ele ressaltou que na própria favela são desenvolvidos cursos técnicos para preparação desses profissionais.

A rádio será coordenada pelo Joildo dos Santos, diretor de comunicação da União dos Moradores e por um grupo de jovens comunicadores. Joildo, aliás, é um dos integrantes do Adote um Vereador, ideia que incentiva o cidadão a acompanhar o trabalho na Câmara Municipal de São Paulo.

Ouça como será a rádio Nova Paraisópolis, na entrevista com Gilson Rodrigues ao CBN SP

A Nova Paraisópolis FM funcionará na frequencia 87.5.

A emissora faz parte de um plano de comunicação desenvolvido pela comunidade que inclui um jornal e o site www.paraisopolis.org e o jornal Paraisópolis. Em brevem os moradores pretendem lançar ainda uma revista.