Onze de setembro: no bastidor do rádio

2a parte do capítulo do livro “Jornalismo de Rádio” com lições jornalísticas no 11 de setembro

FOGO NO AR 

A agência internacional acabara de anunciar, em apenas uma linha, o incêndio na torre, em Nova York, provocado pelo choque de um avião, e a Globonews interrompia a programação para reproduzir imagens, ao vivo, da CNN. Pelo canal interno, todas as emissoras da CBN eram comunicadas de que em trinta segundos seria formada rede para notícia extraordinária. Imediatamente, quem estava no ar em Cuiabá, Curitiba, Maringá, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília ou qualquer ponto do país em que houvesse retransmissora da Central Brasileira de Notícias parou a entrevista, a reportagem, seja lá o que estivesse sendo apresentado, para ouvir o Plantão CBN, transmitido do estúdio em São Paulo.

Com base nas primeiras informações, anunciei o incêndio no World Trade Center, imaginando ter sido um acidente de avião ocorrido há apenas dez minutos. Disse que seria um Boeing 737, mas se descobriu em seguida que era modelo 767, duas vezes mais pesado e com quase o dobro de capacidade para transportar passageiros. 

Encerrado o plantão, continuamos em rede descrevendo as imagens. O apresentador da CBN no Rio de Janeiro, Sidney Rezende, passou a dividir o comando da programação. Às 10h03, logo após a leitura do Repórter CBN – síntese noticiosa com duração de dois minutos, que vai ao ar de meia em meia hora –, transmiti, ao vivo, o choque do segundo avião, com a voz revelando o impressionante da cena. 

Até aquele instante ainda era difícil entender o que acontecia à nossa frente. Impossível não se emocionar, porém, com as imagens. Produtores no Rio e em São Paulo já haviam ligado para correspondentes em Nova York, em Washington e na Europa. Apuradores haviam levantado detalhes nas agências. Quem conhecia alguém nos Estados Unidos, correu para o telefone em busca de informação. Na redação, todos os monitores de televisão estavam sintonizados nas emissoras a cabo americanas. O escritório da BBC Brasil também foi acionado. E a cobertura se iniciara há apenas seis minutos. 

DEU NO RÁDIO 

O “espetáculo” do 11 de setembro foi planejado para ser transmitido pela televisão. A diferença de tempo entre o choque de um e outro avião nas torres gêmeas vai ao encontro dessa ideia. O primeiro, da American Airlines, chamou atenção das emissoras americanas que circulam por Nova York com suas equipes móveis de alta tecnologia. Quem anda pelas grandes avenidas de Manhattan se depara a todo o momento com os técnicos, sem a companhia de repórteres, em pequenos e ágeis furgões. Haveria tempo suficiente para se direcionar uma câmera para o prédio que se enxergava de vários pontos da ilha. Daí a facilidade para reproduzir, ao vivo e em cores, o segundo ataques.

O recado enviado pelo segundo avião, o Boeing da United Airlines, era claro. Se alguém não havia entendido até então o que estava acontecendo – e eu, que transmitia tudo aquilo, não entendia mesmo – ali estava a verdade. Um ataque programado para se transformar em fenômeno midiático. A câmera era a única forma de contato do mundo com aquele cenário. A aproximação do local atingido era impossível. Toda e qualquer leitura que se fez naquelas primeiras horas foi construída a partir da imagem. 

Apesar de o episódio ter privilegiado a televisão, como ocorre nos shows de entretenimento, no Brasil, o rádio teve papel importante na cobertura jornalística do 11 de setembro. 

No momento em que o ataque se iniciou, boa parte das pessoas não estava mais em casa. Encontrava-se no carro, a caminho do trabalho, ou havia chegado ao escritório. Nas escolas e universidades, as aulas tinham começado. Muita gente se deslocava a pé nas ruas de comércio. Com esse quadro e com base em análise comparativa da audiência, arrisco dizer que a maioria da população ficou sabendo do atentado pelo rádio. 

Números do Ibope deixam evidente a supremacia da programação radiofônica em relação à televisiva na faixa das nove às dez da manhã. Chega a ser, em média, três vezes maior o número de pessoas que ouvem rádio nesse horário do que os que assistem à televisão. Mesmo no decorrer do dia, o número de ouvintes supera o de telespectadores. Pesquisa do Ibope, citada pelo Jornal do Brasil, mostra que no terceiro trimestre de 2003 os ouvintes foram 2.967.603, enquanto os telespectadores não passaram de 2.408.560, entre seis da manhã e sete da noite, no estado de São Paulo. 

Não tenho dúvida de que, alertado pelo plantão da rádio jornalística da cidade, o ouvinte saiu à procura do primeiro aparelho de televisão que houvesse nas proximidades. Reação provocada em todo o cidadão que, por outros meios de comunicação, até mesmo o telefonema de um vizinho, teve acesso à notícia. Mas, ao encontrar os canais que reproduziam as imagens da CNN para o mundo, esse cidadão se deparou com âncoras, repórteres e comentaristas atuando como se estivessem no rádio. 

Sem acesso à “cena do crime”, a solução foi voltar as câmeras para o local do atentado e, por telefone, conversar com pessoas que escaparam do prédio em chamas, acionar correspondentes internacionais, entrevistar especialistas, falar com autoridades políticas e policiais em uma linguagem muito próxima à do rádio. 

Os programas jornalísticos na televisão não têm humildade suficiente para aceitar o uso do telefone como meio de informação. Um repórter que esteja diante da notícia, mas sem uma câmera, terá dificuldade de convencer o editor de que o fato deve ser transmitido, apesar da falta de imagem. Foi com o surgimento das emissoras de notícias 24 horas, como Globonews e Bandnews, que esse formato passou a ser aceito na TV brasileira, apesar de ainda encontrar muitas restrições. Antes disso, repórter ou entrevistado falando por telefone era cena rara na televisão. 

Por mais fascinante que seja a TV, fenômeno de massa de enorme impacto na sociedade, a imagem por si só não informa. É perigosa a ideia de que a câmera aberta diz tudo. De que o cidadão não carece de um intermediário para explicar o que vê. Precisa, sim. A reflexão, o questionamento e a apuração dos fatos são imprescindíveis para que o processo de comunicação se complete. Jornalistas e público não podem se tornar reféns da imagem. 

O rádio contou para as pessoas o que acontecia no 11 de setembro e elas foram ver na televisão. Encontraram seus apresentadores favoritos fazendo rádio, apesar da imagem. E que imagem. 

Leia ONZE DE SETEMBRO: UMA COBERTURA DE RÁDIO

Leia ONZE DE SETEMBRO: NO BASTIDOR DO RÁDIO

Leia ONZE DE SETEMBRO: ERAM TODOS JORNALISTAS

Leia ONZE DE SETEMBRO: O ATAQUE NO QUINTAL DE CASA

Onze de setembro: uma cobertura de rádio

Com a proximidade dos 20 anos do “Atentado de 11 de Setembro”, reproduzo nesses próximos dias trechos do último capítulo do livro “Jornalismo de Rádio”, que lancei em 2004, com publicação pela Editora Contexto. Da primeira notícia que levei ao ar, em plantão, à cobertura internacional que tivemos de planejar ao longo daquele dia, conto algumas curiosidades e aproveito para ilustrar com os acontecimentos de bastidor a incrível dinâmica de uma redação e de um programa de rádio.

Foto: Wikicommons

O DIA QUE NÃO ACABOU 

“São 9 horas e 56 minutos. Um avião bateu nas torres do World Trade Center há poucos instantes, em Nova York. O prédio está pegando fogo. De acordo com informações de uma testemunha ocular, teria sido um Boeing 737, mas esta informação ainda não foi, oficialmente, confirmada. Daqui a pouco, traremos outras informações sobre este acidente: um avião bate em uma das torres do World Trade Center, em Nova York” 

Onze de setembro de 2001 se inicia, antecedido por uma cortina musical tocada na velocidade da emergência que marca as edições extraordinárias no rádio. O primeiro parágrafo do mais dramático capítulo escrito pelo terrorismo internacional na era moderna é anunciado, ironicamente, em trinta segundos, tempo reservado na comunicação do mundo capitalista para a venda de produtos e a oferta de serviços. No texto improvisado que descreve a cena inicial do prédio em chamas, de 110 andares e 412 metros de altura, se oferece ao público o que seria a propaganda de maior impacto dos grupos antiamericanos. 

Os meios de comunicação multiplicam a mensagem enviada por Osama bin Laden e pela Al-Qaeda, através de pilotos suicidas e aviões-bomba. Cada veículo, usando de seus recursos característicos para conquistar o público ansioso pela informação. A televisão estava lá quando o segundo Boeing acertou a torre sul do World Trade Center, quinze minutos após o primeiro ataque, transmitindo ao vivo o “espetáculo”. O rádio propagou o feito terrorista narrando o acontecimento em off tube, como nos grandes jogos internacionais de futebol – sem precisar pagar pelos direitos de transmissão. A internet também calçou a cobertura nas imagens da TV, na notícia do rádio e nas informações das agências internacionais, a maioria levando em tempo real material colhido pela CNN. 

Nas ruas, o pedestre tem atenção despertada pelo anúncio do painel eletrônico: “Terroristas arremessam aviões sobre WTC”. Na tela do telefone celular, o texto do serviço de mensagem informa: “Torres gêmeas em fogo, após ataque terrorista”. O pager na cintura da calça chama: “Terror no ar: avião com passageiros atinge Pentágono”. Jornais e revistas mobilizam redações para rodar o mais cedo possível uma edição extraordinária – prática abandonada desde o advento da internet.

A sociedade informativa, fenômeno na virada do Terceiro Milênio, acorda para viver o dia que ainda não acabou. 

MAIS UM DIA DE TRABALHO 

O CBN São Paulo, programa que apresento desde 1999, estava apenas começando. Era hora de falar do esporte com os destaques dos clubes. Antes, já havíamos passado em revista a tropa de repórteres. Cada um apresentando a informação que cobriria naquela manhã. Meteorologia, trânsito, estradas e aeroportos, informações da cidade – este é o nosso foco das 9h30 ao meio-dia, horário destinado ao noticiário local na rádio CBN, que tem boa parte da programação dedicada aos temas nacionais e internacionais.

Logo cedo, após ler um jorna diário, assistir aos telejornais da manhã e ouvir um trecho da programação da rádio, havia negociado com a produção, pelo viva-voz do celular no carro, a pauta do dia. A produtora Fabiana Boa Sorte, na redação, havia feito o balanço das reportagens que poderiam estar gravadas; conversado com o chefe de reportagem para saber quais assuntos seriam cobertos pelos repórteres; e feito varredura nos demais jornais impressos. Também já recebera, pelo correio eletrônico, sugestões de ouvintes e assessores de comunicação.

Ao entrar no ar, duas entrevistas estava fechado — ou seja, os convidados estavam disponíveis para falar sobre o tema nos horários propostas. Ainda se aguardava o retorno de um terceiro entrevistado. Não tinha sido encontrado pela produção até aquele momento. Alguém da assessoria dele ficara de telefonar de volta.

Os comentaristas tinham assuntos decididos. Os cartuchos com reportagens, sonoras e teasers gravados, estavam separados, cada um com sua devida cabeça redigida em laudas de computador. Ao operador de áudio Paschoal Júnior, que comanda a mesa de som responsável por levar a rádio ao ar, havia sido passada as orientações do que seria apresentado. Ele, por sua vez, havia feito algumas sugestões a partir de notícias que lera no jornal ou ouvira na programação da rádio, desde às seis horas da manhã. O pessoal da área técnica é parte integrante da equipe de jornalismo, e tem de ser consultado. Essa interação facilita o andamento do trabalho.

Teaser é um pequeno trecho de entrevista, normalmente de dez segundos, que pode ser usado como destaque durante a programação ou para ilustrar um tema discutido no programa. Cabeça é nome de batismo do texto que serve para chamar uma reportagem, geralmente redigido em cinco ou seis linhas, que apresenta o assunto ao ouvinte.

Em geral, buscamos tratar de questões relacionadas à vida do cidadão. Fatos que influenciam com o dia a dia do paulistano. Ações de participação da comunidade, à medida em que a parceria com o poder público deve ser incentivada. Também orientam nossa pauta denúncias contra desrespeito aos direitos humanos e a fiscalização do que as autoridades públicas fazem com nosso dinheiro. 

À minha frente, o computador recebia mensagens de todo o tipo. A quantidade de spams (material enviado para os correios eletrônicos sem autorização nem utilidade) é enorme e atrapalha a avaliação criteriosa daqueles que merecem alguma atenção. Já desperdicei meu tempo levantando a seguinte estatística: de cada vinte e-mails que aterrissam na caixa de correio eletrônico, cinco merecem ser abertos, dos quais três têm de ser respondidos e apenas um tem direito e respeito para ser registrado no ar. Além do correio eletrônico, navegava na internet em busca de informação e acessava as agências de notícias. Um televisor sobre a mesa, ao lado do computador estava ligado na Globonews, canal de notícias 24 horas, da Rede Globo de Televisão. 

Entrávamos no ar para mais um programa. Mas era 11 de setembro de 2001. 

Ouça o Plantão CBN que marcou o início da cobertura dos atentados, nos Estados Unidos:

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Há 99 anos, o Brasil olhava para o futuro.

imagem arquivo, autor desconhecido

Imagine-se visitando uma dessas feiras de informática. Centenas de pessoas cruzando os corredores e você lá no meio, com os olhos arregalados para os equipamentos de última geração, duvidando que um dia se tornem acessíveis ao público.

Lembro do sucesso que fez a edição do Jornal 60 Minutos, da TV Cultura de São Paulo, quando durante a transmissão conversei ao vivo, através de um videofone, com um repórter que participava de uma exposição de tecnologia. O equipamento era novidade, isso pouco antes do fim do século XX.

Cito essa passagem para convidá-lo a voltar quase um século no tempo e se pôr no lugar das pessoas que, em 7 de setembro de 1922, tomaram as dependências do pavilhão da Exposição Internacional do Rio de Janeiro. O ambiente era festivo, o país comemorava o centenário da Independência. Pelos alto-falantes era possível ouvir transmissões feitas à longa distância, sem fio – ou wireless, para usar expressão da moda. O mesmo som chegava a receptores espalhados em outros pontos da Capital Federal, além de Niterói, Petrópolis e São Paulo.

Roquette-Pinto esteve por lá e se encantou com o que ouvia, apesar de ser ruim o som que saía dos alto-falantes instalados na exposição. O barulho era infernal, com muita gente falando ao mesmo tempo, e a música e os discursos reproduzidos arranhavam os ouvidos. No meio da multidão também estava Renato Murce, que dedicaria a vida ao rádio. No depoimento registrado no livro Histórias que o rádio não contou (Harbra,1999), de Reynaldo C. Tavares, Murce afirma ter percebido logo que algo novo surgia. Menos preocupado com a confusão, viu a curiosidade e a desconfiança dos rostos ao redor.

A primeira pessoa que falou ao microfone de rádio, em uma estação instalada no Sumaré, pela Western Eletric, foi o presidente Epitácio Pessoa. E o povo, que se juntava na exposição do centenário, uma multidão incalculável, era pior do que São Tomé. Estava vendo, ouvindo e não acreditando. Como que em um aparelhinho, pequenino, lá longe, sem nada, sem fio, sem coisa nenhuma, podia ser ouvido à distância? E ficava embasbacado. Mas não nasceu para o Brasil propriamente o rádio, porque não havia ainda quase nenhuma rádio receptora. Era de galena, muito complicado. E quase ninguém podia ouvir a não ser aqueles que estivessem ali presentes. E os que ouviram, ouviram o Guarani, de Carlos Gomes, irradiado diretamente do Teatro Municipal. Esta foi a primeira experiência do rádio no Brasil.

(os negritos são do autor do blog)

Vale ressaltar: há quem defenda que a primeira emissora do Brasil foi a Rádio Clube de Pernambuco, fundada por jovens do Recife, em abril de 1919. Apesar de os registros mostrarem que a experiência estava mais próxima da radiotelefonia, não deixe de citar o fato, principalmente se falar de rádio por aquelas bandas. A propósito, como veremos a seguir, a história da radiodifusão é marcada por dúvidas e controvérsias.” (from “Jornalismo de rádio” by Milton Jung)

O texto acima foi escrito originalmente para o livro Jornalismo de Rádio, que lancei em 2004, pela editora Contexto. Lembrei-me dele, hoje cedo, quando iniciamos a transmissão do Jornal da CBN, neste 7 de setembro, dia em que parcela da população sai às ruas, de São Paulo e Distrito Federal, especialmente, para defender o presidente Jair Bolsonaro. Se no centenário da Independência, o Brasil olhava para o futuro. A um ano do bicentenário, temos um presidente que nos leva a olhar para o passado.

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Sua Marca: a arquitetura das marcas evita o surubranding

(Foto: CB Insights)

“A arquitetura das marcas foi feita para eliminar o surubranding, que é quando as marcas são complicadas e não sabem muito bem a relação que têm com as outras”

Jaime Troinao

Marcas podem ser independentes. Podem respeitar a paternidade. Manterem um só padrão Ou adicionar-se a outras. O importante é que a gestão dela seja bem planejada dentro de quatro dos modelos de arquitetura de marcas usadas pelos profissionais de branding. E, antes que a frase que abra esse texto cause confusão, o surubranding —- nome cunhado pelo sempre provocativo Jaime Troiano — não é um dos modelos a serem considerados. É o que tem de ser evitado. 

“Antes de falar dos modelos, vale conceituar que esse tema da arquitetura interessa a qualquer empresa que tenha mais de uma marca em seu portfólio. A partir do momento que ela tem duas marcas, já vale pensar que modelo é o mais adequado”.

Jaime Troiano

Um dos modelos é o da paternidade. E um bom exemplo é o que faz a Nestlé, com produtos lançados sempre levando em consideração referências da marca-pai ou da marca-mãe: Nescafé, Nescau, Nestea, Nespresso, apenas para lembrar algumas. Neste modelo as marcas de produtos ou serviços têm uma clara associação e subordinação à marca principal.

A arquitetura pode ser de independência, com cada marca tendo vida própria, apesar de pertencerem a um mesmo grupo empresarial. É o caso de Pedigree e MM. Sim, você imaginava que as duas —- uma, ração animal, e a outra, doce para humanos —- estão sob a mesma propriedade? A Mars as mantém independentes, “incomunicáveis”, porque a proximidade, neste caso, passa a ser prejudicial. 

“A primeira estratégia da paternidade, cria esses laços, otimiza investimentos mas quando algo dá errado com uma marca, todas são contaminadas. No modelo de independência, ao contrário, tem uma gestão mais cara mas garante que cada marca siga contando sua própria história, sem precisar prestar contas às demais” 

Jaime Troiano

Alguns desses modelos de arquitetura podem ser radicalizados. É o caso do primeiro, que tratamos aqui nessa conversa: o da paternidade que se transforma, então, em monolítico. Todos os produtos ou serviços da marca levam o nome principal. Caso do Google: Google Acadêmico, Google Hangouts, Google Calendar, Google Ads, Google Maps e por aí vai. 

“Você olha para todas as marcas e automaticamente as relaciona. São de uma mesma família, de uma mesma origem. Novamente, aqui temos uma rentabilidade de investimentos, mas limitamos a narrativa. Todas têm de alguma forma ser obedientes a uma padrão e não há espaços para algo que fuja disso, para alguma promessa de marca mais disruptiva”

Cecília Russo

Há um quarto modelo de arquitetura de marca que costuma ser usado em fases de transição, quando há uma mudança de uma marca para outra ou uma aquisição de marcas fortes. O modelo aditivo é muito usado no setor de bancos e temos dois exemplos bem claros, aqui no Brasil: HSBC-Bamerindus, que se transformou depois apenas em Bamerindus, e Itau-Unibanco, hoje conhecido apenas pelo primeiro nome. Escritórios de advocacia tomam emprestado esse modelo, o usam por questões regulatórias e o nome dos sócios é adicionado à marca.

“Escolher o melhor modelo de arquitetura de marcas é uma decisão que envolve entender o negócio e seus planos de expansão e vai muito além de uma simples organização estética”. 

Jaime Troiano

E, claro, evita-se o surubranding!!!

Ouça o comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso que vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN

Conte Sua História de São Paulo: a volta ao passado, no Beco do Batman

Maria de Lourdes M. Ferreira Martins 

Ouvinte da CBN

Foto Arquivo Pessoal

Fiquei muito tempo isolada e após tomar a segunda dose da Coronavac, do Instituto Butantã, meus filhos me levaram até a Vila Madalena para conhecer o Beco do Batman, na intenção de me distrair um pouco. Descobri que ficava bem próximo do cemitério São Paulo, onde meus pais estão sepultados. Após um breve pensamento em reverência a eles, adentrei pelo famoso beco. Fiquei admirada com as belezas dos grafites, sendo surpreendida por um que apresentava um grande jacaré com uma vacina na mão. Acima dele, o registro do autor da obra, que coincidentemente também era ligado ao bairro do Butantã. 

Naquele momento, os caminhos que percorri em meus 86 anos de vida confluíram para aquela pintura de tema bem humorado. Eu estava num beco que não é um beco, de um homem-morcego que nada tem de sinistro. Achei divertido: o local tem um colorido que retrata bem o espírito animado da Vila Madalena. E eu estava ali, no bairro em que nasci, imunizada com uma vacina feita no bairro em que cresci e onde frequentei a escola, na década de 1930. 

Na minha infância, caminhava mais de seis quilômetros para ir do bairro Ferreira, na zona oeste, até a escola que ficava no instituto Butantã —- era a única que existia na região. E nos ensinavam além de ler, escrever e calcular, a cultivar a terra para fazer hortas. Para chegar lá, subia e descia morros no Bonfiglioli. Passava pela igreja do Mercadinho, no Rio Pequeno, perto do terreno em que meu pai, João Martins, e minha mãe, Victória, criavam vacas. Mais tarde o local se tornou parte da Cidade Universitária. 

Em 11 de setembro de 1954, casei-me com Helio Ferreira, filho de Desidério Ferreira, que teve uma mercearia, conhecida como “Venda do Ferreira”, a qual deu origem ao nome do bairro em que vivi.

Nos conhecemos no Mercado Municipal, do Largo da Batata, já que trabalhávamos no comércio do bairro. Como filha mais velha de dez irmãos, mesmo adolescente, ajudava meu pai a plantar, transportar e vender verduras. Era eu, também, quem fazia muita força para girar o motor do caminhão velho dele, virando uma manivela. 

Depois trabalhei como enfermeira na Cruzada Pró-Infância e operadora de caixa na Casa Pequena, perto da igreja de Pinheiros, onde o bonde fazia o retorno a caminho do centro. Vivenciei a transformação do bairro, com o aumento do comércio em suas ruas. Surgiram pastelarias, mercados, lojas de móveis … Eu sempre levava meus irmãos e meus filhos até as ruas Cardeal Arcoverde e Teodoro Sampaio para comerem pastel e tomarem garapa. Com a chegada das grandes lojas, mesmo sem dinheiro, gostava de passear no Bazar 13, Mesbla, Eletroradiobraz, no Shopping Iguatemi, o primeiro da cidade …

Quase ninguém mais sabe o que se passou no Largo da Batata ou como era de fato Pinheiros. Pouco se preservou da memória. Ficaram apenas a igreja e algumas ruas e árvores como testemunhas de muitas vidas. Hoje, carrego dores e limitações —- consequência do trabalho duro e dos anos vividos. E sou feliz com tudo que fiz e com a família que Deus me deu.

Nasci na Mourato Coelho, na Vila Madalena, criei-me no Butantã, trabalhei e me casei em Pinheiros e moro no Ferreira. Faço parte de um pequeno pedaço de São Paulo que ajudei a construir e hoje me ajuda a viver, seja com uma vacina, seja com lembranças positivas e saudosas, seja com uma alegria por admirar as cores vivas na vila em que nasci.

Maria de Lourdes M. Ferreira Martins é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie você também seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Camila Farani diz porque para o empreendedor desistir não é uma opção

foto: camilafarani.com.br

“Empreendedor não tem nada de romântico. Empreendedor, o que eu costumo dizer, é GSS — é gastar sola de sapato”.

Camila Farani

A primeira meta com a qual se comprometeu, não alcançou. O que não significa que a frustração a tenha impedido de seguir em frente. Até porque sua chefe percebeu o esforço que fez para chegar onde havia prometido e decidiu pagar-lhe uma parte do lucro alcançado. A funcionária que assumiu o risco ao propor inovação no cardápio de uma cafeteria era Camila Farani. A chefe era a mãe dela. Essa história em família marcou o início da carreira de uma empreendedora que hoje se dedica a investir em novos empreendedores.

Camila é sócia-fundadora da butique G2 Capital e uma das maiores investidoras-anjo do Brasil, que ganhou popularidade como jurada da versão brasileira do programa Shark Tank, do canal Sony. Na entrevista ao Mundo Corporativo, ela contou o caso vivenciado aos 20 anos para explicar o primeiro gatilho que teve no sentido de enxergar a carreira a seguir. A mãe aceitou premiá-la a despeito de não ter conseguido aumentar em 30% o faturamento da loja de café. Primeiro porque o resultado ficou bem próximo —- o aumento foi de 28%. E, segundo, porque aquele foi o primeiro aumento nominal registrado pela loja em quatro anos de funcionamento:

“Foi aí que eu tive a certeza que, se eu fizesse um benchmark ou olhasse o que estava acontecendo no Brasil, no mundo, nas redondezas, e eu fizesse diferente, mas que eu tivesse atitude para implantar, porque senão seria só uma sonhadora, eu podia fazer alguma diferença. E esse foi meu primeiro gatilho empreendedor”.

Foram necessários outros tantos anos para que o aprendizado sobre empreendedorismo a transformasse em um sucesso. Antes disso, novas frustrações surgiram na jornada de Camila. Uma delas foi entre 2015 e 2016, quando estava disposta a desistir de levar a diante a rede de cafeteria que havia criado, a partir daquela experiência em família. Foi o bate-papo com uma amiga e atleta profissional de esgrima que a impediu de abandonar aquela carreira. 

“Camila nós atletas, a gente, sempre está competindo; a gente está sempre machucada de alguma forma; com alguma lesão e a gente compete mesmo assim”

Foi o que Camila ouviu da amiga e a convenceu a seguir em frente. Também foi uma das inspirações para escrever o livro “Desistir não é opção — o caminho mais rápido entre a ideia e os resultados se chama execução” (Editoria Gente). O livro é resultado de um movimento que lançou no início da pandemia, usando a força de seu nome em rede social, e mobilizando 720 mil empreendedores

“Eu peguei a câmera e falei assim: é o seguinte, você que tá aí pensando em desistir, eu vou falar para você que desistir não é uma opção para gente, porque você, agora que é empreendedor, agora é o momento de você falar a que você veio”.

Na conversa com outros empreendedores, Camila fala de estratégias que precisam ser consideradas na abertura de um negócio e de riscos que existem nessa jornada. Como se percebe na frase que abre este texto, Camila faz questão de desmistificar a imagem do empreendedor ao ratificar a ideia de que não se deve romantizar a atividade. Diz que, primeiro, é preciso evitar o que identifica como “egolândia” do empreendedor; segundo, estar atento aos números, sem ser aficcionado neles, para que esses não o impeçam de adotar medidas necessárias; e, terceiro e mais importante, é você deitar a cabeça no travesseiro e se sentir realizado.

“A gente fala sobre felicidade, de fazer o que gosta. Acho que há. momentos em que você vai, inevitavelmente, fazer o que você não gosta, vai estar em posição que você não quer … A gente não pode fazer o que a gente gosta 150% do tempo. Eu tenho a responsabilidade de mostrar às pessoas os desafios para empreender para que achem que é fácil, porque é difícil pra dedéu”.

Para a entrevista ao Mundo Corporativo, Camila deu a entender que teve de interromper um desses trabalhos chatos do empreendedor, em especial aqueles que como ela têm a responsabilidade de avaliar cuidadosamente as propostas de negócios, as ideias em desenvolvimento e os projetos de empresas que aparecem sobre a mesa. Sabe que a vida nem sempre será o glamour que assistimos no programa de televisão em que participa, com iluminação própria, cabelo bem feito e maquiagem irretocável. Tem de estar com o pé no chão (ou em cima da mesa, como ela descreveu a cena antes de iniciar a gravação) e o olho nos dados e informações. Foi assim que construiu o portfólio da G2 que hoje tem cerca de 40 startups investidas, em um total de R$ 35 milhões, e a fama de ser a melhor investidora-anjo do Brasil. Muito de tudo isso resultado de algo que ela identifica ser uma das suas característicasL a inquietude.

“Então, o segredo da inquietude é que a inquietude ela vai nos levar a lugares onde os acomodados nunca vão estar. É a gente usar a inquietude, né, não como uma forma negativa. Porque a inquietude ela vai te levar aquele lugar. Agora, é óbvio que você tem que pegar ela, drenar essa energia positiva que você tem e drenar para os seus objetivos. E foi isso que eu fiz”

Antes de voltar aos seus projetos, Camila deixou três dicas para quem pretende crescer como empreendedor —- seja naquela papel tradicional de quem toca uma empresa ou realiza um serviço, seja sendo protagonista da sua própria carreia como profissional dentro de uma emrpresa:

Você não sabe tudo

Você não tem como executar tudo ao mesmo tempo

Você precisa ter humildade para entender que a vida é “dia a dia”.

Assista ao Mundo Corporativo com Camila Farani:

O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, 11 horas, no site, no Youtube e no Facebook da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo.

Conte Sua História de São Paulo: a cidade que não me deixa partir

Por João Marcelo Queiroz

Ouvinte da CBN

Foto de Mariana Tarkan, ouvinte da CBN/Flickr CBNSP



Cheguei a São Paulo em uma madrugada de sábado, com três bagagens e nenhum saber sobre o futuro. Era o ano de 1999. Era o meu ano 26 de vida. Vim de Salvador para morar com um amigo de infância que havia passado em concurso público. A ideia era alugarmos um apartamento de dois quartos. O que ele encontrou foi lugar em um enorme condomínio de prédios, no Parque Dom Pedro.

Tentava me convencer de que seria legal. Teríamos a liberdade de dois jovens, na maior metrópole do país, para crescer profissionalmente. E fazer farras homéricas. Eu vinha, tal qual Caetano, de “outro sonhe feliz de cidade” e os meses seguintes me ensinariam “a chamar-te (São Paulo) de realidade.

Minha bolha social de filho classe média privilegiada se rompia naquele janeiro chuvoso. Não tinha mais carro emprestado do pai para a farra ou a praia; não tinha mais jantares na casa de parentes; ou festas nos amigos. Tinha pouco dinheiro no maior centro financeiro do Brasil. A cidade não sabia quem eu era. Não queria saber.

As semanas passavam na mesma velocidade da vida paulistana. Pegava metrô, descia na estação Dom Pedro, baldeava na Sé e seguia até a São João. Trabalhava no escritório de uma empresa na Maestro Cardin. Os fins de semana faziam pouco sentido para um amante da praia obrigado a andar a esmo no parque do Ibirapuera. As farras e ficantes, nos forrós universitários, traziam um pouco do meu mundo de volta.

O jeito com que alguns se relacionavam comigo me devolvia à realidade. Sentia-me “a gente feia e os ignorantes”, cantados pelo Ira. Sentia a xenofobia dos grandes centros do sudeste quando lidam com nordestinos. A cada alfinetada, o refrão se repetia:

“Não quero ver mais essa gente feia

não quero ver mais os ignorantes 

Eu quero ver gente da minha terra

Eu quero ver gente do meu sangue”.

Pobre Paulista, IRA

O nordestino, é antes de tudo, um forte —- e reescrevo assim frase de Euclides da Cunha, em Os Sertões, a despeito de sua segunda parte ser outro exemplo de racismo. A perseverança em desconsiderar insultos, a maioria velados, e seguir na construção de um carreira começou a render frutos. A compra do primeiro carro com meu próprio dinheiro foi um marco. Depois, a mudança para um apartamento alugado, no Campo Belo. Ainda assim, eu me sentia como um homem que virou suco. Tinha sido esmagado e todo meu sumo tirado pela selva urbana e sua impessoalidade. 

No dia do meu aniversário, bebendo uma cerveja no Borracharia Bar, na Vila Madalena, decidi ir embora. Deixei São Paulo! A cidade nunca me deixou partir por completo. Desde a primeira metade da década de 2000, volto a trabalho, quase que semanalmente, e aprendo a ver São Paulo por uma ótica mais leve.

Se por um lado surge uma chama de pequenas dores vivenciadas, por outro sobra o reconhecimento que viver na cidade me ajudou a amadurecer. São Paulo me abriu caminhos para ser o profissional que sou e confrontou muitas certezas e a soberba da juventude para me tornar mais humano. Quando a cidade tirou meu mundo de privilégios, me retribuiu, ensinando a ver as dores e as dificuldades alheias, criando em mim um olhar mais inclusivo. 

João Marcelo Silva Queiroz é personagem do Conte Sua História de São Paulo e autor de um livro: “um surfista no mundo corporativo”. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: sem se ver e juntas, desde os tempos da escola

Rosiléne da Costa Ferreira

Ouvinte da CBN

Cena do filme São Paulo Sociedade Anônima de 1965

Ainda no ano dourado de 1965, éramos 17 adolescentes cursando o terceiro ano clássico (TAC) num tradicional colégio para meninas, em São Paulo. Unidas nos sonhos, brincadeiras, projeções para o futuro, com muito estudo, disciplina e severa vigilância das freiras — o que não nos impediu de paquerar os rapazes da faculdade em frente.

Formadas, cada uma seguiu seu caminho. Tornamo-nos profissionais de respeito, esposas, mães e, mais tarde, avós e aposentadas. Algumas mantiveram contato entre si através de encontros casuais e cartas mas não nos vimos mais.

Em agosto de 2019, uma delas, com um esforço digno de detetive profissional, investigou o paradeiro de cada uma e conseguiu reunir onze através do celular: São Paulo, Ubatuba, Recife , Rio de Janeiro, até Nova Zelândia!

Com a pandemia ficamos mais unidas, numa comunicação diária sempre ansiada, preocupadas umas com as outras, dando força na tristeza, risos nas conquistas, flores virtuais, receitas, fotos de família e pequenos mimos guardados com cheiro de lembranças.

Hoje, somos senhoras de 73 anos ou mais. Nos apelidamos de “joaninhas”. Nos unimos numa folha para salvar aquela que está em perigo. Rimos e choramos juntas, sem perspectiva de nos encontrarmos novamente, ao menos por enquanto.

É um alento nesses tempos de reclusão e solidão contarmos umas com as outras todos os dias graças ao meio virtual, sem nos vermos há 55 anos, com muitas saudades. É muito tempo. 

Quem sabe um dia?

Que delícia viver e reviver!

Rosiléne da Costa Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Paula Harraca, da ArcelorMittal, defende que é preciso inovar a forma de inovar

“A inovação está nas pessoas. São as pessoas que ousam criar algo novo. São as pessoas, inclusive, que trazem a tecnologia para alavancar as soluções que estão sendo desenvolvidas”

Paula Harraca, ArcelorMittal

Na porta do escritório —- se escritório houver —- deve estar escrito Diretoria de Estratégia, Inovação e Transformação. Seja pela extensão do nome seja porque somos craques em chamar as coisas pelo que realmente significam, do cafezinho —- vazio pela pandemia —- às conversas organizacionais, todos preferem chamar de Diretoria do Futuro. E parece que é assim que Paula Harraca, da ArcellorMittal,  gosta de ser identificada. Foi a impressão que tive na entrevista que fiz com ela no Mundo Corporativo.

Paula é argentina, integrou uma das melhores seleções de hóquei sobre grama do mundo, quando sofreu uma lesão, que interrompeu sua ascensão na carreira esportiva e a levou focar na formação acadêmica. Em 2003, conseguiu seu primeiro emprego, na ArcellorMittal — para ser preciso, em uma subsidiária da empresa, a Acindar.  Era apenas a segunda mulher no setor de aciaria —- a unidade em que sucata e ferro são transformados em aço. Dentre 400 funcionários havia apenas mais uma, que cuidava da limpeza dos escritórios, e era terceirizada. Desde então, tem sido pioneira nas vagas que ocupa na empresa, com a missão de abrir espaço para outras mulheres:

“Fui, também, a primeira diretora C-Level —- ao assumir a diretoria de negócios de aços longos da América Latina. Nunca encontrei obstáculos pessoalmente porque eu tive uma base segura que foi minha mãe, me círculo de ajuda que me alavancou. Para eu estar onde estou, muitos mulheres me ajudaram a chegar aqui”. 

Ao deixar a Diretoria de Pessoas e Bem-Estar para ser Diretora de Estratégia, Inovação … ops, Diretora de Futuro, foi substituída por outra mulher, a segunda entre oito cargos C-Level que a empresa mantém, na América Latina:

“Temos um compromisso mundial de termos 25% de mulheres na liderança  … Hoje, a empresa tem várias iniciativas em nível mundial de mentoria não apenas para incluir mais mulheres, mas para ajudar que elas subam ao longo de sua jornada porque sabemos que ainda socialmente é um desafio que precisamos endereçar juntas”. 

De volta ao futuro. Ou a diretoria que Paula Harraca assumiu há cerca de três anos quando a empresa entendeu que precisava “inovar a forma de inovar”. E a busca pelo novo foi que deu origem ao AçoLab, um centro de inovação aberto a presença de startups e outros parceiros de negócio, considerado o primeiro hub da indústria mundial do aço, que fica. em Belo Horizonte.

“Nós criamos nesse espaço, com um pequeno time, e uma estratégia que deu lugar a uma nova forma de inovar com startups, junto com o ecossistema de inovação. E em um movimento diferente de fazer as coisas que é a co-criação, a experimentação, a prototipagem de soluções que se dão nesse ambiente de uma maneira muito estruturada mas que tem um componente de assumir risco que nos permite ir alem”.

Um bom exemplo de inovação que surgiu no AçoLab, considerado por Paula como emblemático, foi quando a empresa compartilhou com a sociedade uma ineficiência no processo produtivo que atinge toda indústria do aço e leva ao desperdício de cerca de 30% da produção de carvão vegetal. Esse “desafio aberto” propiciou um trabalho conjunto com o Sebrae e o Senai —- que têm recursos destinados a projetos inovadores —, que permitiu investimentos em oito startups, que estão trabalhando com a ArcelorMittal em busca de uma solução.

A inovação não anda sozinha. Não por acaso a diretoria do futuro leva junto os conceitos de estratégia e transformação. Três temas que têm profunda conexão, segundo Paula Harraca. Ela explica que a estratégia tem a ver com onde estamos, onde queremos chegar e como chegaremos lá; a inovação é o caminho que permite, não apenas melhorar aquilo que existe, mas também criar aquilo que não imaginamos; e a transformação do negócio tem a ver com esse movimento que está acontecendo no mundo e precisa ser considerado pelas organizações para que mantenham relevantes sua proposta de valor para os clientes e à sociedade.

Para ser uma “líder do futuro”, Paula diz que é preciso ter mentalidade de aprendiz e adaptabilidade, porque os negócios não são mais lineares. Entende que precisamos ter humildade para aprender, generosidade para compartilhar, responsabilidade para se comprometer e coragem para ousar. 

“Humildade é a escuta. A gente tem de escutar só com a curiosidade de aprender e não querendo responder para o cliente ou querendo oferecer o que a gente tem na cabeça. Escute seu cliente, viva seu cliente, esteja presente dentro do mundo dele, porque no exercício dos cinco sentidos, e de muita empatia, é que se consegue observar aquilo que está acontecendo”

Assista à entrevista completa com Paula Harraca, da ArceloMittal

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site da CBN, no perfil do Facebook e no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Colaboram com o programa: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Pricila Gubiotti.

Conte Sua História de São Paulo: os robôs que humanizaram o atendimento hospitalar na pandemia

Lilian Ishida Arai

Ouvinte da CBN

Foto: Divulgação

Sou médica otorrinolaringologista e uma das fundadoras do Hackmed, uma startup de fomento à inovação em Saúde. Em janeiro de 2020,  quando ainda era possível fazer uma aglomeração, organizamos um grande evento com referências das áreas de saúde, tecnologia, governo e academia para discutir inovação em saúde. Para abrir a atividade, produzimos um vídeo que ilustrava algo futurístico, simulando uma rotina de robôs circulando pelos corredores de um hospital, onde todos interagiam de forma natural. 

Em março de 2020, veio a pandemia.  O Hospital das Clínicas transformou o Instituo Central em um covidário com 600 leitos de enfermaria e 300 de UTI para pacientes de média a alta gravidade. Os pacientes chegavam de ambulância. Grande parte deles, em isolamento e bastante debilitados. Sem direito a um contato sequer visual com a família. O HC não tinha WIFI aberto. E a maioria dos pacientes não tinha plano de dados para internet.

Foi quando me pediram para encontrar robôs de telepresença. Uma empresa emprestou três deles. Dois especialistas se voluntariaram a ajudar na implantação do programa. Médicos se uniram para incluir os demais colegas no sistema. Ainda desenvolvemos um suporte para 40 tablets e trabalhamos com alunos voluntários para que as televisitas ocorressem.

….

Um senhor que já estava com diagnóstico de câncer terminal e pegou COVID, estava internado. Há dias ele só dormia. Pedimos que a família mandasse um áudio gravado. A filha gravou uma música cantada por ela. Enquanto reproduzíamos o áudio, ele abriu os olhos como que procurando alguém. E com a mão limpou as lágrimas que corriam no rosto.

Uma senhora prestes a ser internada recebeu a televisita da filha que trazia palavras de esperança e alegria. Nem mesmo a dificuldade de respirar, impediu-a de dar gargalhadas naquele momento.

Uma mãe, que chorava muito e mal conseguia falar com seu filho devido a falta de ar, usou os robôs para se despedir. E como toda mãe, mesmo em dificuldade, estava preocupada com o filho: “amanhã, acorda cedo porque tem aula virtual”.

…

Foram três meses de trabalho voluntário e exaustivo até que todos os protocolos da televisita fossem validados. Aquela visão futurística de janeiro de 2020, se fez presente.  Por mais contraditório que possa parecer, os robôs humanizaram o atendimento. E se o fizeram é porque seres humanos estavam por trás deste projeto. Gente como Spencer Santos, Marcius Wada, a turma da Hackmed, Pluginbot e Voice Technology. E todos os demais voluntários, estudantes e profissionais da área de saúde, que tornaram possível essa realidade.

Lilian Ishida Arai é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto, também, e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.