Conte Sua História de São Paulo: para que lado fica a Rua Direita?

 

Por Eduardo Menezes
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Era 1989. Eu com 16 anos de idade. Iniciei minha carreira profissional em uma empresa de informática em Diadema, ABC paulista. O emprego era de office-boy e, logo nos primeiros dias de trabalho, minha chefe designou um dos office-boys mais velhos para nos ensinar o trabalho. Tudo foi muito bem na primeira semana, na parte teórica (se é que se pode dizer assim) e na semana seguinte partimos para a prática.

 

Andamos a pé desde a empresa na divisa da cidade com São Paulo, no Jardim Miriam, e chegamos ao ponto de ônibus, o que já tinha sido uma aventura e tanto para os meus padrões. Pegamos o ônibus com destino ao Metrô Paraíso e fizemos o restante do caminho a pé. Andamos toda a Paulista e meus olhos brilhavam com tanta grandiosidade, trânsito, gente importante e, o melhor de tudo, tantas meninas bonitas. Apesar de estar maravilhado, tinha um pouco de vergonha em usar o uniforme da empresa, mas fazia parte do trabalho.

 

Andamos por toda a Paulista com destino à Angélica, sempre parando em alguns escritórios e empresas. Descemos a Angélica até o Centro e seguimos para o Terraço Itália, na Av. Ipiranga. Foi aí que meu “mestre” na arte de andar por São Paulo, percebendo que eu era “esperto”, teve uma daquelas idéias geniais, que nunca deveriam ter sido executadas. Propôs que, para agilizar o nosso trabalho, nós dividíssemos o nosso trabalho e assim iríamos para casa mais cedo. Ele me ensinou como chegar da Av. Ipiranga até a Praça da Sé, local em que ele me encontraria em aproximadamente uma hora. Parecia muito simples, segundo ele, bastaria pegar a rua Barão de Itapetininga, atravessar o viaduto do Chá, pegar a rua Direita que já estaria na praça da Sé.

 

Que ideia brilhante!

 

Fiz o meu trabalho na Ipiranga e como o mestre havia explicado segui pela Barão, passando pelo viaduto do Chá e virei à Direita. Para meu espanto, havia uma praça, sim, neste caminho, mas não era a Sé. Fiquei confuso. Como qualquer office-boy que se preze, fui perguntar ao jornaleiro, que sem nem olhar mim, disse: “volte por esta rua e pegue a rua Direita”. Pois bem, voltei e pegue a rua logo a minha direita e novamente não deu em nada!

 

Resolvi voltar ao caminho original e ver se não tinha feito nada de errado, mas para meu espanto mais uma vez sempre que entrava a minha direita, após o Viaduto do Chá, não chegava na praça da Sé.

 

Quase desesperado, perdido, sem dinheiro, eis que olho uma placa na rua com o nome “Rua Direita”. Quase chorei de raiva, alegria, vergonha, sei lá. Sei apenas que virei piada no trabalho por muitos anos. Uma história sobre minha relação com esta cidade que aprendia a amar e respeitar seus nomes estranhos.

A pracinha em frente de casa e o Citroën de cano reto

 

Milton Ferretti Jung

 

Recém havia sentado e preparado o meu computador a fim de escrever o texto para o blog do Mílton, que não é uma obrigação,mas,isso sim, uma satisfação para um pai aposentado cujo único compromisso,nos últimos tempos,é visitar médicos das mais variadas especialidades. Aliás, são tantos que deixo parte da organização dessa tarefa à Maria Helena,minha mulher,filha de farmacêutico, que trabalhou alguns anos na farmácia paterna e é bem mais afeita,por isso, a lidar com os que cuidam da minha saúde. Este escriba de Facebook que,talvez,alguém leia,seja por curiosidade ou amizade,sempre acha assim tempo para redigir esta coluna,nem sempre nas quintas-feiras,conforme minha combinação com o filho,este sim um escritor de verdade. Por falar nisso,recentemente,ele lançou um livro em parceria com a fonoaudióloga Lenny Kyrillos,com este título:”Comunicar para liderar”.Recomendo a sua leitura e não é por corujice paterna,mas porque já o estou lendo e é muito bom.

 

Não era bem este o meu assunto,mas os caminhões que durante um dia inteiro subiram e desceram a rua onde moro. Acontece que os tais caminhões passaram fazendo isso por pelo menos dez dias. Retiravam terra e restos de árvores de um terreno baldio,o último existente, por sinal,na Dr.Possidônio da Cunha, em Porto Alegre. Um pensamento,às vezes,corre atrás do outro ou mesmo dos outros. Este me veio à cabeça ao assistir à azáfama dos caminhões,que chegavam vazios ao terreno que limpavam e saíam carregadíssimos,fazendo um barulho ensurdecedor. Não são eles,porém,os protagonistas da historiazinha que vou contar e da qual me lembrei quando escrevi que os monstrengos ruidosos levavam o que chegou a ser um espaço arborizado e não um simples barral. Ainda,no entanto,tergiverso e,com isso,deixo entrar no que interessa ou pode interessar.

 

Na minha infância e até casar,morei com os meus pais em uma rua que,bem na frente da casa paterna,se unia a outra. A minha era a 16 de Julho,a vizinha dela,Zamenhoff. As duas,por muito tempo,possuíam,entre as suas casas,terrenos baldios. Os terrenos baldios eram os locais onde brincávamos de esconde-esconde e,principalmente,jogávamos as nossas peladas.Para desespero dos nossos pais, chegávamos em casa com os sapatos em pandarecos. Naquela época não haviam ainda inventado sequer as alpargatas e os sapatos não eram baratos. Os espaço livres foram terminando.Recebiam casas modernas e acabavam, principalmente,com o futebol que a gente jogava. A única bola que usávamos – bola de tento – como eram conhecidas,tinha um dono,o Airton Stein. No bom do jogo,a mãe do dono da bola o chamava para tomar café ou dar um pulo no armazém para comprar isso ou aquilo.

 

Escrevi que os espaço livres para se brincar foram,aos poucos,virando casas.Sobrou a “pracinha” que ficava na junção das duas ruas a que já me referi. Em roda da “pracinha”,ficavam as casas mais próximas dela.Volta e meia,a bola do Airton ia parar dentro de uma dessas casas. E a bronca do residente era imediata. Alguns faziam de conta que nos deixariam sem bola.

 

Encontrávamos,entretanto,novos “esportes”. Bola de gude,bolinhas de tênis muito usadas,etc. A “pracinha”,que a prefeitura tentava transformar em praça de verdade, nunca passou do diminutivo. As flores da prefeitura nunca chegaram a crescer e inventávamos,a casa dia ou durante algum tempo,toda a espécie de “esportes”. Jogou-se nela desde futebol,vôlei e até tênis,com rede e tudo.

 

A “pracinha” teve,inclusive,os seus personagens. Um deles,de repetente,sofria um ataque e o remédio era lhe pôr na mão a bola do Airton. O outro menino problemático não jogava. Apenas nos olhava e segurava entre dois dedos folhas de trepadeiras e as sacudia incansavelmente. Era na minha casa que a turma pedia licença para beber água da pena. No Dia de São João,os esportes davam lugar a uma imensa fogueira. Lembro-me que o meu pai enchia de água a banheira,o tanque,enfim,todos os baldes da residência,temendo que a fogueira soltasse fagulhas capazes de incendiar a nossa casa.

 

Crescemos quase todos e continuamos morando nas casas que nossos pais haviam construído. Um vizinho,que morava no fundo da minha casa,numa rua paralela chamada São Pedro,bem mais velho do que eu,tinha comprado um Citroën e colocado nele um cano de descarga reto. Esse fazia um ruído tão encorpado que parecia uma Ferrari.Fiquei doidinho por ter um carro com tal tipo de descarga e consegui convencer meu pai a me deixar imitar o cano do Citroën que ele comprara direto da fábrica, na França e era igualzinho ao do Valnei Law. O cano reto foi um presente por eu ter passado de ano,no colégio. Eu retirava uma tampa da boca do cano reto (o original era mantido e ficava depois de uma curva que deixava a descarga fluir pelo lado esquerdo do carro). O meu pai me emprestava o Citroën para ir às missas dominicais. Nunca fui. Em um desses domingos um carro de praça (assim chamavam os carros de aluguel na época), em um cruzamento perto da minha casa, bateu no paralama traseiro do Citröen. Como não tinha carteira dispensei o taxista e fiquei sem poder dirigir por um bom tempo.

 

Contei todas essas histórias,a partir do dia de hoje e daí para trás por uma razão:não suporto mais ler ou ouvir notícias de crimes,estupros e de mortos por balas perdidas,afora o inesgotável Lava-Jatos e safadeza de políticos.

Cidade de meu andar, deste já tão longo andar!

 

Por Milton Ferretti Jung

 

A casa da rua 16 de Julho com destaque para a pracinha, em Porto Alegre

A casa da rua 16 de Julho com destaque para a pracinha, em Porto Alegre

 

Tivesse eu nascido,migrado, emigrado ou imigrado para a capital paulista,iria me candidatar ao “Conte sua história de São Paulo”,com leitura do Mílton e matéria por ele compilada em livro. Como sou caxiense de nascimento e porto-alegrense por adoção,resta-me acompanhar os relatos,sempre interessantes,de pessoas que,por vários motivos,saíram de outros lugares e fixaram residência em São Paulo.

 

O que eu posso fazer em troca da impossibilidade de escrever sobre a minha vida na Paulicéia Desvairada,para usar o titulo de um livro de Mário de Andrade – poeta,escritor,crítico literário e uma série de outras especialidades correlatas – é me contentar em produzir um texto acerca das minhas ruas preferidas no meu já “longa morar” nesta cidade que me acolheu ainda nenê. Mário Quintana,o meu poeta favorito, não vai ficar brabo por eu o ter, mais ou menos parafraseado,valendo-me daquela que é uma das minhas poesias favoritas de sua lavra.

 

A primeira rua da capital gaúcha na qual morei,a Conselheiro Travassos,só lembro pelas fotos da Agfa do meu pai,guardados em um álbum,em que apareço na janela da casa paterna e,pouco mais tarde,no meu primeiro aniversário. Nessa rua moravam também os meus tios e o meu primo Gildo,cinco anos mais velho do que eu. Formou-se em medicina e virou médico de toda a família. Quando ganhei a minha bicicleta Centrum,uma preciosidade sueca,visitava os meus tios – Alfredo e Gilda,esta irmã do meu pai – que,além de me hospedarem quando minha irmã Mirian pegava alguma doença infecciosa,ainda me davam a chance de ver uma jovem que eu tentava namorar. O meu primeiro namoro sério começou em uma quermesse da paróquia do Sagrado Coração de Jesus,então em construção. Foi numa dessas quermesses que conheci Ruth, aquela com quem casaria e se tornou mãe dos meus filhos. Eu era um dos locutores da Voz Alegre da Colina. Foi nas festinhas da igreja que decidi qual seria a minha profissão. Alguns anos depois fiz a minha estreia no metier que acabei exercendo,entre outros,durante 60 anos.

 

Na época em que comecei a namorar Ruth,morava na Rua 16 de Julho. Nessa,o meu pai construiu a sua primeira casa:um sobrado,com grande quintal e cheio de espaços vagos nos quais jogávamos futebol. A 16 de Julho se juntava com a Zamenhoff,em uma pracinha,na qual se jogou de tudo,situada bem na frente da casa paterna. Paralela,corria a Marcelo Gama,onde Ruth morou até que a sua família se mudasse para a Rua do Parque e antes ainda de nos casarmos. Nossa primeira moradia foi no andar térreo de um edifício construído na esquina da Paraná com a Cairu. Foi essa a primeira casa da Jacqueline. O Mílton,com um ano,foi morar naquela em que,hoje é habitada pelo Christian com a sua família,isto é,na Saldanha Marinho.

 

Ficou difícil de encaixar uma que foi muito importante na minha vida e onde não morei,mas,isto sim,trabalhei durante quatro anos:a Rádio Canoas,local do segundo estúdio dessa emissora,a Avenida Eduardo,cujo nome acabou dando lugar ao de um presidente dos Estados Unidos:Franklin Delano Roosvelt. Ruth e os seus pais,já escrevi,moravam na Rua do Parque. Eu ia de bonde até a Avenida Eduardo,se fosse trabalhar,ou descia mais adiante:bem na frente da residência dos Müller. Não perdíamos os bailes de carnaval,os adultos e os infantis,na Sociedade Gondoleiros. Essa,voltando no tempo,manteve piscina na qual nos banhávamos no verão. Já a Rádio Canoas costumava transmitir os bailes das debutantes e os comícios que,em épocas de eleições,eram realizados na Avenida Eduardo. À boca pequena diziam que a Canoas pertencia a Leonel Brizola.Recordo-me que Hermano Sperb era o gerente da Emissora,então instalada em um edifício da Avenida Eduardo. Seria um dos homens de confiança de Brizola.

 

A Avenida Eduardo era,igualmente,durante o carnaval,local de desfile das escolas de samba da Zona Norte da cidade. Ruth e eu sempre achávamos um jeito, também de passear por essa Avenida nas horas vagas. As lojas eram bem atraentes.Por isso,tirantes as ruas em que morei,repito,tenho como preferida pelo que representou para mim,a velha e querida Avenida Eduardo. Não me perguntem se ela mudou muito depois que deixei de a usar para namorar e trabalhar. Prefiro não saber o que fizeram da nossa Avenida Eduardo além de trocarem o seu nome,assim como os vereadores atuais resolveram fazer com a Avenida Castelo Branco.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publicas seus textos no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Onde estão nossas crianças?

 

Por Julio Tannus

 

Família de rua

 

Após passar por várias mães com crianças sentadas na calçada, desde bebês quase recém-nascidos até meninas e meninos de várias idades, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, não resisti. Resolvi fazer uma pesquisa:

 

Perg: O que a sra. quer?
Resp: Uma ajudazinha

 

Perg. Para que a sra. quer uma ajudazinha?

 

Resp: Para dar de comer para meu/minha filho(a)
Resp: Para ter dinheiro para ir embora daqui
Resp: Para comprar um sapato para meu filho
Resp: Para comprar uma roupa para meu neném

 

Perg: Posso tirar uma foto?

 

Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não

 

Até que finalmente consegui uma autorização, com a seguinte ressalva: “só pode tirar se não for sair na televisão”.

 

Perg: Onde a sra. mora?

 

Resp: Debaixo da ponte

 

Carlos Drummond de Andrade

Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta dágua, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte.

 

À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne.

 

Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.

 

Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte.
Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores.

 

Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.

 

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Vereador tem mais o que fazer …

Texto publicado no Blog Adote São Paulo, da Revista Época SP

 

A Câmara de Vereadores de São Paulo dedicou o primeiro dia útil da semana para votar 71 projetos que concedem nomes a ruas, vielas, praças e pontes, além de medalhas e homensagens a cidadãos paulistanos. O vereador Arselino Tatto (PT) foi autor de quase a metade desses projetos, todos dedicados a seu reduto eleitoral, na zona sul da capital. Assim que levei a informação ao ar, no Jornal da CBN, comecei a receber mensagens de ouvintes-internautas criticando o trabalho dos parlamentares. Houve quem de forma irônica dissesse que é melhor deixá-los fazendo estas homenagens, pois enquanto gastam seu tempo com medidas de baixo impacto deixam de aprovar leis que possam causar danos ao município. O problema é que mesmo as concessões de títulos acabam se transformando em prejuízo para o bolso do paulistano, pois são promovidas solenidades oficiais com realização de coquetel, entrega de certificado, bandeja de prata e placas – tudo regado com dinheiro público.

 

É importante ressaltar que batizar locais públicos faz parte das funções do legislativo. E morar em uma rua com nome pode mudar muito a vida de um cidadão, facilitar o acesso de outras pessoas, entrega de encomendas e, inclusive, ajudar no momento de fazer crediário na loja ou no banco. Já ouvi muito morador contando com orgulho o fato de a casa dele estar agora em uma rua com nome e sobrenome. O resultado para o vereador é tal que tem assessores de gabinete destinados apenas à função de procurar ruas sem nome. O problema começa quando este passa a ser o papel principal do parlamentar, é muito pouco para o cargo que ocupam e o dinheiro que ganham. Estão lá para debater temas fundamentais para a cidade, encontrar soluções para problemas frequentes e apresentar projetos inteligentes e criativos que realmente impactem o ambiente urbano e, destaque-se, a aqueles que agem desta maneira.

 

Sou a favor da ideia de tirar esta função dos vereadores e deixá-la apenas com a prefeitura ou subprefeitura. Um levantamento organizado seria suficiente para identificar quais ruas (ou avenida, ou pontes, ou vielas, ou seja lá o que for) precisariam ser batizadas. Consulta-se o grupo de moradores ou um banco de nomes à disposição da sociedade (que podem ser sugeridos por qualquer cidadão – inclusive os vereadores) e por decreto determina-se como o local passará a ser conhecido. Pode deixar para consulta pública por um determinado momento e se não houver qualquer rejeição o problema está resolvido. Sem muita politicagem, aproveitamento eleitoral e custo baixo.

 

E aí o gaiato sentado ao meu lado comenta: se não tiverem o direito de batizar rua, o que os vereadores vão fazer da vida? Tenha certeza, que eles tem muito trabalho e um desafio enorme a enfrentar. Àqueles que não entenderam direito estas responsabilidades, cabe o eleitor tirá-los do parlamento no voto ou, ao menos, interferindo no mandato deles através do seu poder de fiscalização. Quem sabe aceitando convite que faço há quatro anos: adote um vereador.

Canto da Cátia: Protesto contra o buraco do Kassab

 

Protesto no cone

 

Foi a Cátia Toffoletto quem encontrou nas ruas de São Paulo o cartaz com protesto contra os buracos na cidade. Na imagem, aparece o rosto do prefeito Gilberto Kassab (PSD) coberta pela placa de proibido e a frase: Buraco do Kassab. A pista lateral, por onde deveriam passar os ônibus, nota-se com clareza, está inviável. E não apenas pelos buracos, mas também pelas ondulações do piso.

Conte Sua História de São Paulo: Brincadeira de rua

 

As ruas de terra batida se transformavam em campos de futebol e para tanto bastavam alguns pedaços de pau que ganhavam o formato de gol e o desejo da criançada se divertir. É deste tempo que o ouvinte-internauta Sebastião Martins Vieira lembra em trecho do depoimento que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo. Seu Sebastião, pauslistano, nascido em 1941, gravou suas histórias no Museu da Pessoa.

 

Ouça a história de Sebastião Martins Vieira, sonorizada pelo Cláudio Antônio

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, a partir das 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade enviando texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa.

Rua Augusta e a Moda

 

Carlos Magno Gibrail

 

 

São Paulo assistiu à plenitude da Rua Augusta nos preparativos para a festa de Natal de 1973. A Lage & Damman, agência dos premiados publicitários Ronie Lage e Hans Damman exibia uma de suas artes ao acarpetar o asfalto para a campanha natalina com a frase: “O nosso visitante é tão ilustre que acarpetamos a rua”. Enquanto saudavam Cristo, personalidades da época eram frequentadores assíduos. Roberto Carlos, Wilson Simonal, Ronie Cord, Wanderléa, Ronie Von e Hervé Cordovil, autor da música “Rua Augusta”.

 

Definitivamente era um shopping center ao ar livre, pelas lojas de marcas famosas de moda, pelos restaurantes e lanchonetes, pelos cinemas e, principalmente, pela gente que circulava. Sem falar no auge dos sábados à noite, na tradicional subida e descida dos carros à procura de companhia, que sempre era recompensada.

 

A Augusta tinha desbancado a Rua Barão de Itapetininga, ícone da moda nas décadas de 50 e parte de 60, que abrigou a Casa Anglo Brasileira, posteriormente Mappin; a Galeria Califórnia projetada por Niemayer, local onde circulavam os astros do cinema nacional como Helio Souto e Aurora Duarte, que gravavam nos estúdios da Vera Cruz; e uma série inigualável de tradicionais lojas de moda.

 

A migração das butiques multimarcas da Barão de Itapetininga para a Rua Augusta, talvez para se aproximar dos moradores dos jardins, ou para centrarem as ofertas de moda em local mais nobre, fortaleceu a imagem da região. Além das lojas, incluindo a Galeria Ouro Fino, tínhamos o Ca’d’Oro primeiro hotel de luxo da cidade, que hospedou reis e presidentes, inclusive com a frequência de Tom Jobim, apreciador de seu restaurante com o especial Bolito servido pelo competente Ático, e a mesa permanentemente reservada aos Ermírio de Moraes; o sorvete de pistache da Bologna; o cine Astor com as imensas poltronas; a lanchonete Longchamps com um choppinho recomendável; o Frevinho com o insuperável beirute; o Flamingo do sorvete com farofa; e o Yara dos chás da tarde. Além de alfaiates e camiseiros dos mais habilitados.

 

A força como centro comercial de moda e de diversão para a classe abastada da cidade era tanta que os lojistas da Augusta não se interessaram pelo pioneiro projeto de Alfredo Mathias, que em 1966 abrira o Shopping Center Iguatemi, o primeiro no Brasil. A tal ponto que de forma pouco sagaz anteviam o insucesso para o empreendimento de Mathias: “Como alguém poderá encontrar prazer em comprar em um caixote fechado?”.

 

Talvez por isto, mas também pela crescente implantação de locais de diversões noturnas de menos qualificação, principalmente na parte mais central, as ruas transversais como a Oscar Freire, a Lorena e a Haddock Lobo começaram a receber novas lojas de moda. Já dentro dos modernos sistemas de monomarcas. Surgiram também as primeiras grifes internacionais.

 

Ao iniciar a década de 80, com a valorização das lojas de marca única e o avanço das marcas internacionais, o Shopping Iguatemi foi roubando o status da Rua Augusta. A excelência em Moda ganhava um novo endereço. O Iguatemi passava a receber a atenção da classe A de São Paulo, do Brasil e de todo o mundo. Hoje, boa parte dos grandes nomes da Moda está presente no Iguatemi, que embora no topo, divide as honras com a Rua Oscar Freire, o Shopping Cidade Jardim, e já esteve em ferrenha disputa com a Daslu.

 

À Rua Augusta resta esperar uma recuperação que São Paulo com toda sua pujança econômica ainda não viu. A cidade consegue reavivar o Mercado Municipal, a estação Sorocabana, a estação da Luz, mas quando depende da ação geral descarta o antigo e parte para o novo.

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas, no Blog do Mílton Jung

 

Jardim Ângela não é curral

 

Por Devanir Amâncio

Maria do Agameno

Maria do Carmo, de 62 anos, e seu marido João Lorenço, de 70 anos, do Jardim Nakamura, região do Jardim Ângela, zona sul, sugerem que os vereadores, o prefeito e o subprefeito do M’Boi Mirim subam de joelhos a rua Agamenon Pereira da Silva, rua interditada e abandonada pela Prefeitura de São Paulo. Dona Maria disse que está cansada de papo furado e que os moradores, injuriados, promentem escorraçar os oportunistas na eleição do ano que vem.

Maria do Agamenon

“Sempre são os mesmos, tratam o bairro como curral. Tem um que é cara de pau, chega como um cachorrinho. Dia desses foi vaiado no barrancão, do outro lado. Ninguém no bairro quer esmola, bloco, camiseta, bola… Pagamos impostos… Queremos uma solução para o nosso problema. Moramos aqui desde 1971. Muita gente paga IPTU. Há 8 anos eu pagava 180 , agora 1.440 reais… alguma coisa está errada.”