Conte Sua História de SP: o Centro dourado do meu avô

 

Por Mariana Pereira da Rocha Cruz
Ouvinte-internauta da CBN
 

 

 

 

Aos 85 anos foi meu avô quem me fez enxergar São Paulo da maneira que vejo hoje. João Baptista Pereira Netto não é simplesmente um joalheiro ou ourives. Dedicado, faz do trabalho um lazer, do pó a peça e das jóias, pequenas obras de arte que vende com preço justo e honesto, muitas vezes criticado por minha avó, dona Ofélia.

 

 
Nasceu no bairro Santa Cecilia, cresceu ao lado de seus sete irmãos. A educação se dividiu entre o jeitão descontraído da minha bisa italiana e do meu biso português, que até bebericava sua cachaça, mas por um pouquinho só não foi padre.

 

 
A Igreja Sagrado Coração de Maria foi pano de fundo de toda uma infância, pobre é verdade, mas nem por isso infeliz. São muitas as histórias que meu avô costuma me contar em sua oficina. Entre uma peça e outra, ele descreve o centro da cidade de São Paulo e as ruas onde costumava brincar ou ver os bondes passarem.

 

 
Com o rádio sempre ligado, aumenta o volume quando o assunto é Corinthians, grande paixão e ,possivelmente, um dos únicos assuntos que consegue tirá-lo do sério. Cresceu na Santa Cecília, construíu família em Pinheiros e devido a queda nas obras da linha Quatro do Metrô veio morar no Butantã, bem perto da minha casa.

 

 
Não reclama dos acontecimentos da vida, aliás não costuma reclamar. E eu devo confessar: só agradeço de poder estar ainda mais próxima de meu avô. Enquanto admiro seu trabalho de artesão ele me conta do dia em que foi escolhido para provar a Coca Cola quando chegou ao Brasil. Foi ali na Praça Ramos de Azevedo, no antigo Mappin. Também conta dos títulos da seleção brasileira via rádio, ou através de auto falantes que podiam ser ouvidos na Rua Direita, ou na Praça da Sé.

 

 
Anhangabau, Praça da República, Praça Ramos: aí passaram todos os principais eventos da vida de meu avô. Notícias, paqueras, trabalho… Hoje é um grande sacrifício para um jovem da minha idade se locomover até o centro. Pensa-se no trânsito, nos moradores de rua, na sujeira, nos usuários de droga, no preço dos estacionamentos. Pensa-se muito até a desistência.

 

 
Comigo é diferente. Ir ao centro da cidade com meu avô é descobrir uma São Paulo encantadora. Enquanto andamos na procura das pedras perfeitas ou vamos ao encontro de um antigo amigo dele, onde compra o ouro em pó, consigo vislumbrar São Paulo em sua mais perfeita elegância. Em um piscar de olhos, os postes são de ferro, os homens de chapéu, as mulheres de vestido… E o centro da cidade palpita …

 

 
João Baptista Pereira Netto, homem de fala mansa, trejeitos calmos e pacientes, é uma antítese em meio à confusão da cidade. Neste mundo em que todos trabalham demais, engolem a comida e ganham apenas o suficiente para pagar as muitas contas, ele é um dos poucos privilegiados que pode se dar ao luxo de viver da sua arte. Nas suas palavras, um verdadeiro presente de Deus.

 

 
Nas minhas palavras apenas posso agradecer por ter esse avô que me fez enxergar que a Vila Madalena, Vila Olímpia, Itaim, Moema, Jardins, são sim bairros lindos e jovens, cheios de restaurantes e lojas … mas que a história e o pulsar de São Paulo estão mesmo no centro dela.

 

 
 
Mariana Pereira da Rocha Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em audio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: do cheiro de café na padaria à serração

 

Lia Araujo
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

 

Tenho muito carinho em falar sobre a São Paulo querida dos paulistanos! Sempre que penso sobre minha cidade natal tenho um sentimento relacionado à infância. Acordando cedinho em casa, sentia o cheirinho  do café de coador e do filão de fresquinho da padaria mais próxima. Acompanhando minha mãe à feira livre, abarrotada de pessoas apressadas e feirantes animados. Parando na banca de pastel com garapa. Aos domingos, vendiam até frangos e pintinhos vivos.

 

Sou do tempo que era possível atravessar tranquilamente a praça da Sé ou o Vale do Anhangabaú ou a Praça do Patriarca, mesmo em altas horas da noite sem medo. Sim, São Paulo já foi uma cidade tranqüila durante à noite. Antes do metrô, os ônibus eram seguros e em número suficientes, também. A população era apenas a metade da atual.

 

Todas as manhãs e no inverno à noite, por conta da densa vegetação,  havia serração, às vezes acompanhada de garoa, a famosa garoa que caiu no esquecimento, após o advento da poluição proveniente de tantas indústrias e veículos. As indústrias já estão se diluindo pelo interior; enquanto os carros aumentam cada vez mais em número e modelos variados. Até o bonde agora é motivo de folclore na lembrança dos cinqüentões.

 

Impossível lembrar-se de São Paulo sem falar dos inúmeros migrantes e descendentes de imigrantes. Havia o bairro dos italianos, dos japoneses, dos árabes, dos judeus, dos libaneses, dos portugueses. Muito interessante como essa gente miscigenou-se e transformou São Paulo nesta terra tão pródiga para todos. A megalópole de milhões de habitantes. A cidade que não pára, não dorme, não cala.

 

Prezo em manter esta memória que passo para os jovens, divido com eles todo o encanto que um dia me proporcionou esta São Paulo.

 

Lia Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o Amarelinho da CET que ajudou meu filho nascer

 

Por Marcelo Parra Vallone
Ouvinte-internauta da CBN

 

O Amarelinho que nos ajudou no dia do nascimento de meu Filho.

 

Após três anos de casados, eu e minha esposa resolvemos ter um filho. E após nove meses de gestação, no dia 16 de fevereiro de 2001, minha esposa acordou com dores. Ligamos para o médico e ele disse que a hora havia chegado. Fomos às pressas para o hospital. Apressados mas cuidadosos. Morávamos em Mauá. Precavido, eu já havia feito todo o percurso até o hospital, o Santa Joana, na avenida Paulista, algumas vezes. A malinha do bebê já estava pronta a um mês. Acontece que meu filho resolveu dar sinais que ia nascer às sete da manhã de uma sexta-feira: hora do maior trânsito em São Paulo. Na avenida Vergueiro o tráfego parou de vez. Minha esposa sentindo aquela dor que só mulher sabe como é. Os carros não andavam. Eu buzinava com esperança de alguém abrir caminho. Não adiantava. Quando parecia não haver mais horizonte à minha frente, dei uma olhada no retrovisor e avistei um carro amarelinho, aqueles da CET. Não tive dúvidas, esperei a viatura ficar ao meu lado, desci o vidro e pedi ajuda ao senhor que estava na direção. Foi quando ele gritou: “vem atrás de mim, vou te ajudar”. Ligou a sirene, sai atrás dele e o caminho se abriu até o hospital. Coisa de dez minutos já estávamos na porta do Santa Joana. Agradeci ao moço da CET, abri a porta, peguei a malinha, dei entrada com minha esposa na maternidade e … Ufa, que sufoco! … meu filho nasceu lindo como o pai e a mãe e com muita saúde. Obrigado, Amarelinho da CET.

 

 

Marcelo Parra Vallone é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: A chácara do Seu João das Vacas

 

Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da CBN

 


 
Se existir o paraíso ali foi o da minha infância.
 

 

Na época, que minha recordação consegue as primeiras lembranças, eu um garoto de apenas cinco anos e aquela chácara um mundaréu de terreno que não tinha mais fim, onde eu, se sozinho, poderia me perder com facilidade e nunca mais ser encontrado. Hoje lá existe uma pequena vila residencial de não mais que um alqueire e a grande maioria de seus moradores nem sabe que ali foi o paraíso.
 

 

Cortada de ponta a ponta por um córrego de águas cristalinas que serpenteava por entre os eucaliptos e as árvores frutíferas e que em determinados pontos ampliava-se formando singelos lagos. Nestes lagos a garotada e principalmente eu e o meu amigo Giba demos os nossos primeiros mergulhos e primeiras braçadas desengonçadas ao que dizíamos estar nadando.
 

 

Bater peneira ou na falta desta bater saco, uma forma de pesca em que dentro do riacho com a peneira ou com o saco de estopa, raspávamos o fundo do rio em direção as bordas e levantávamos nossos instrumentos até a flor d’água por debaixo das ramadas e delirávamos com os guarús, lambaris, pequenos carás e muitos girinos.
 

 

O pé de caqui chocolate, daqueles legítimos, que mesmo verdes por fora eram marrons por dentro. Ali ficava nossa torre de observação, pois do alto de seus galhos podíamos ver a chácara toda, inclusive a casa do Seu João, e ao menor sinal da saída do velho de dentro da casa nós já dávamos o alerta, pois ele andava sempre com uma espingarda velha carregada com sal e prometia atirar na garotada que roubava suas frutas.

 

Um dia ele nos pegou roubando, ou melhor, colhendo suas pêras sem autorização. Não deu tempo de fugir nem mesmo de descer da pereira. Seu João com a espingarda na mão ameaçando a mim e ao Clóvis. Ficamos tão assustados que deixamos cair todas as pêras e prometemos a ele que nunca mias iríamos apanhar suas frutas. Ele falou que contaria até cem para que nós descêssemos da árvore e sumíssemos de sua frente, pois a partir dos cem atiraria na gente. Provavelmente antes de ele contar até vinte já estávamos em casa.
 

 

Ali montei as minhas primeiras cabanas de índio armadas com varas de cana do reino e trançadas com folhas de taboa e dentro delas muita conversa de moleque e planos para grandes aventuras produzidas por nossa fértil e pura imaginação.

 

Já moleques mais velhos beirando a fase dos doze anos lá era o esconderijo onde amarrávamos os cavalos das olarias que fugiam e apareciam na redondeza e desta forma garantíamos montaria para todos podermos nos aventurar em passeios e explorações mais distantes montados a pêlo.
 

 

Construímos armadilhas para pegar lobisomem, laços para pegar pássaros, caçamos muitos preás com ajuda de nossos fiéis cachorros vira-latas. Brincamos de índio e mocinho, tiramos guerra de estilingues com mamonas até que um dia fomos interrompidos pelo ruidoso barulho de um motor gigante que mais parecia um destes monstros de filmes japoneses. Um monstro devorador de árvores, arbustos, riachos, cabanas e armadilhas.

 

A chácara foi planada, loteada e sem nosso consentimento destruíram o quintal de nossa infância. Tentamos protestar e por algum tempo durante a noite destruíamos as pequenas paredes que começavam a serem erguidas, porem no dia seguinte lá estavam elas novamente brotando do chão regadas pela energia das águas cristalinas de nosso córrego que hoje corre apenas em minhas lembranças.
 

 

A  Chácara ficava em Itaquera muito próximo onde hoje está sendo construído o Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em audio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Um passeio pelo inverno de São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

 

Vá passear no centro de São Paulo e se deixe envolver pela atmosfera de nostalgia criada pelas ruas e costruções antigas e pelos monumentos históricos. A região da Praça da Sé que ainda mantém marcas da época em que era impulsionada pela exportação do café hoje tem perfil bastante diferente. Sua economia é movida pelas muitas lojas, restaurantes e cafés que atraem pessoas de vários lugares do país. Por dia, em toda a área do centro paulistano circulam cerca de dois milhões de pessoas e em torno de 400 mil moram por ali, números calculados pela subprefeitura da Sé.

 

Gosto de caminhar nessa região e encontrar algumas surpresas como o café no Pátio do Colégio, local em que a cidade foi fundada. Além da exposição que conta parte da história de São Paulo e peças do século 16, há espaço para sentar e contemplar, que oferecem conforto aos visitantes. O charme do centro também está no Mosteiro São Bento e no café Girondino, que tem a decoração inspirada no começo do século 20. A praça em frente a Bolsa de Valores de São Paulo tem uma doceria bem charmosa e cheias de clientes ávidos por doces. E em todas as ruas e vias, encontra-se muita gente, que surge de todos os lados, que vem de todos os cantos, que lota as calçadas, toma as ruas, se transforma em um formigueiro.

 

 

Mesmo em uma semana gelada como a que tivemos na cidade de São Paulo, impossível sentir frio em meio a esta multidão. O calor humano prevalece e a visão da história nos aconchega. Para compartilhar com você parte desta sensação, apresento ao longo deste post imagens que fiz ao passear pelo centro paulistano. Faça bom proveito.

 

Dora Estevam é jornalista e escreve de moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

“Obrigado por tudo Juvenal, nós te amamos…”

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O Juvenal da frase é o Juvenal Juvêncio e a frase é da torcida do Corinthians, exibida há uma semana numa faixa no Pacaembu, por ocasião da final da Recopa. O fato é que o presidente do São Paulo é autor e ator da moderna saga do Morumbi, que colocou o Clube, antes visto como um dos mais competentes do futebol brasileiro, na pior fase de sua história. As derrotas substituíram as vitórias que escassearam, chegando ao ponto inédito de sete seguidas. A democracia instituída por eleições a cada três anos foi substituída por oito anos de poder ditatorial, origem evidente de todos os problemas atuais.

 

A permanência prolongada nos cargos de comando quer governamentais, quer esportivos, geram administrações ineficientes e, em alguns casos, corruptas, coercitivas e até mesmo caricaturais. E, não por acaso, o Bem Amado de Dias Gomes tem sido associado à figura de Juvenal.

 

Correlação que pessoalmente discordava, pois se na forma a comparação fosse perfeita, no conteúdo Odorico Paraguaçu me parecia bem mais eficiente do que o presidente são paulino. Juvenal brigou com o melhor cliente, tirou jogador de concentração por suposto erro em jogo, delegou o futebol a diretor sem tato e sem contato com o time, demitiu jogadores por derrotas nas quais eles não participaram, trocou técnicos como se fossem os responsáveis pelas derrotas e, acima de tudo, criou um mundo de fantasia, onde passou a viver.

 

Hoje, após o episódio de domingo, quando a convite de Juvenal, a torcida Independente participou de um churrasco com a diretoria na sede social do clube, certamente para pagar a blindagem que tem sido dada à imagem do presidente, já não dá para discordar da semelhança de Sucupira com o atual Morumbi. Com direito inclusive a ataques físicos a adversários políticos. Odorico com certeza faria tal qual Juvenal, trocando apenas os Independentes pelas Cajazeiras. As irmãs que serviam, e de quem se servia.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Avalanche Tricolor: somos um bando de loucos

 

Grêmio 1 x 1 São Paulo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Calma, lá, caro e raro leitor gremista deste blog. Vou, sim, falar do Grêmio neste post, apesar do título lembrar o apelido de outra torcida. Aliás, sequer vou me ater ao comportamento de nossos torcedores que ganharam o direito de ocupar seu espaço na Arena, mesmo que permaneçam restrições à avalanche. Apesar do atraso na publicação deste texto provocado pelo horário do jogo, compromissos profissionais e familiares, quero, hoje, reproduzir a sensação que tive ao ver nosso time em campo.

 

Assisti à partida deitado na cama, em silêncio total, sem nem mesmo ouvir o que diziam narrador, comentarista e repórteres na televisão. Prestei muita atenção na formação inicial escalada por Vanderlei Luxemburgo e tentei entender a estratégia dos três atacantes, o deslocamento dos laterais, o posicionamento dos zagueiros, a ação dos volantes e a articulação do meio de campo – ou do que havia no meio do campo no primeiro tempo (no caso, Zé Roberto, isolado, obrigado a conduzir a bola em busca de algum companheiro). Vi as mudanças no intervalo, a boa entrada de Elano, a presença de Guilherme Biteco e a chegada de Ramiro. Como nada ouvi, fiquei sem saber se Elano entrou no segundo tempo devido a desgaste físico ou para atender o esquema do técnico.

 

Confesso que não sou craque em identificar esquemas táticos como costumam fazer muito bem colegas como o Mário Marra, da CBN. Sempre tive dificuldade para contar o 4-4-2, o 3-5-1 ou o 4-2-1-3, que me parece foi o usado na partida de ontem. Por isso analiso o futebol muito mais pelas sensações do que pela razão. E meu sentimento, em meio as dificuldades para chegarmos ao gol adversário, era de que não passávamos de um bando de louco, dispostos a vencer, mas sem ter planejado o caminho da vitória. No segundo tempo em especial, foi possível até mesmo se emocionar com o esforço de alguns para mudar o placar. Era evidente, porém, que tudo ocorria de forma voluntariosa, do jeito que desse, torcendo para dar certo. Aquele chute do Werley, longe do gol, quando havia atacantes a espera do lançamento dentro da área, sinalizava bem este espírito. Aliás, nosso gol de empate, aos 42 minutos do segundo tempo, com a bola empurrada para dentro, na cabeçada de Kleber, também foi resultado disso tudo.

 

Ainda bem que estas loucuras de vez em quando dão resultado, nem que este resultado seja um simples empate dentro de casa.

 

Quem será capaz de colocar só um pouco de razão diante desta alucinação?

Histórias por trás da tela do cinema

 

Por Marília Taufic

 

 

Com apenas sete anos, os fins de semana do pequeno Noel Taufic, neto de libanês, já eram tempo de fazer negócios. Rodava quase 200 quilômetros com o pai, Kamel, da pacata Leme, no interior de São Paulo, até a capital, para voltar na bagagem com mercadoria valiosa. Era início da década de 1960 e, naquela época, eles precisavam ter um produto diferente para oferecer aos clientes em cada dia da semana. “Segunda era dia de comédia, terça podia rodar um drama, as quartas eram tradicionais dos namorados, sexta a galera curtia um bang bang, sábados e domingos passavam comédia, romance, tínhamos que pensar em sessões para toda a família”. Pai e filho viajavam juntos para tratar da diversão de tantas pessoas que se emocionavam no cinema da cidade.

 

As películas começaram a rodar no sangue dos dois quando Kamel ainda era adolescente. Herdeiro do prédio onde ficava o primeiro cinema de Leme, o Cine São José, Kamel não esperou atingir a maioridade para assumir os projetores. Ainda na juventude, subia com os equipamentos e as histórias em um caminhão e rodava as fazendas da região para iluminar muros ou um lençol com seus filmes. Em 1948, assumiu o São José e, claro, como um bom filho de libanês, os negócios iam bem e tinham que crescer. Onze anos depois, no dia do aniversário da cidade, em 29 de agosto de 1959, nascia o Cine Alvorada com 1.180 lugares para oferecer alegria a todos. O futuro parceiro de viagens de Kamel e com bom tino para programação da telona chegou pouco tempo antes, em abril de 1955, para nunca mais sair do cinema. “Virou um vício”, conta Noel, como se aquele espaço, as relações humanas e a emoção que ele proporciona, nunca mais pudessem sair de sua vida.

 

“O cinema é onde a pessoa conheceu a namorada, deu o primeiro beijo, riu com os amigos, foi um lugar legal na vida dela. Aqui você vende alegria, emoção, é um negócio muito gratificante”. E quem conhece o empresário de 58 anos com histórias para contar que parecem que foram por mais de 100 anos no comando de cinemas, sabe que ir a uma sala com a presença do Noel é prazer na certa. Ele está na bilheteria, na bomboniere, dá uma espiadinha para ver se a projeção, o som e o ar condicionado estão bons e se rolar algum problema é correria até a sala de projeção, dinâmica que aprendeu com o pai e com tantos outros companheiros de cinema.

 

 

Em meados do século passado, quem rodava pelas ruas do centro de São Paulo poderia ver um cinema por quarteirão. “Na Avenida Rio Branco eram quatro, só entre o Largo Paissandu e a Duque de Caxias. E só no Largo Paissandu eram outros quatro: Cine Olido, Art Palácio, Cine Paissandu e o Cine Ouro”, lembra Noel, que andava pela capital como se estivesse em uma sala de aula. Na época, o Brasil chegou a ter mais de cinco mil salas, número bem maior do que as pouco mais de três mil de hoje. “Tinha muito cinema na periferia, ao ar livre, auto cine, a maior sala de São Paulo era na zona leste, o Cine Mundo, com quase quatro mil lugares. E a família Ferrador era dona da maior rede, com um grande circuito: Cine Ipiranga, Majestic e tantos outros. Mas não existia uma marca. Os cinemas tinham nome”, fala Noel fazendo referência às atuais grandes redes.

 

Nesta época quem via um filme na telona, só poderia ter o bis na TV cinco anos depois, janela que diminuiu para dois anos no governo Collor e que foi diminuindo cada vez mais até culminar para um futuro, que é o que ocorre hoje, de muitas pessoas terem acesso ao filme antes mesmo dele ser lançado, por meio das cópias piratas e dos downloads na internet. Noel conta que, eventualmente, filmes de sucesso eram reprisados em meses diferentes. “Eu cheguei a exibir Uma Linda Mulher cinco vezes, Dio Come Ti Amo, exibi umas dez vezes. Também foi assim com Marcelino Pão e Vinho, os bang bangs italianos, como Django, o original (de 1966), claro”. Mas este hábito não era simples, porque ele causava um problema que quem já trabalhou em uma cabine de projeção conhece bem: as películas quebradas. “A cópia vinha meio estragada e tinha que arrumar. Às vezes as distribuidoras davam duas cópias diferentes para emendar”, lembra com gosto, como se isso também fosse normal para se divertir com os negócios. “Faz parte!”.

 

Mas ao mesmo tempo que o público tinha acesso a um filme diferente a cada dia da semana, os grandes lançamentos às vezes traçavam uma história diferente nos cinemas nacionais. As primeiras risadas das comédias de Mazzoropi, por exemplo, aconteciam, em sua maioria, no Cine Art Palácio. Toda semana do 25 de janeiro, data do aniversário de São Paulo, um novo filme do comediante era lançado no cinema do Largo Paissandu e lá ficava por mais de um mês para depois poder ser lançado em outros lugares. “Aqui no interior a gente preferia colocar na época da safra da cana-de-açúcar, em maio, quando o público do Mazzaropi estava com mais dinheiro”, explica Noel.

 

Aos 15 anos, o filho de empresário já fazia a programação dos cinemas do pai sozinho. Cinco filmes por semana, 20 por mês, cartazes e trailers escolhidos e depois de muita conversa, Noel voltava com o ônibus cheio de história para projetar. Apesar de jovem, ele já sabia atrair alguém para uma sala de cinema, contando sobre um filme, sem nem ao menos tê-lo visto. Não foi por pouco que na mesma época foi emancipado pelo pai para abrir seu primeiro cinema na cidade vizinha, Pirassununga, e por aí traçou sua própria história em muitas outras cidades: Araras, Porto Ferreira, Espírito Santo do Pinhal, Mogi Guaçu, Itu, Tietê, Tatuí, Patrocínio, Araxá, Itaúna, Divinópolis, Campinas, Peruíbe, Mongaguá, Itanhaém, Guarujá, Pedreira, Vinhedo e Santa Rita do Passa Quatro, tiveram cinemas em seu comando. Noel viu o auge e a decadência dos cinemas de rua.

 

“As pessoas dão vários motivos, mas para mim, os maiores culpados para a queda do cinema foram os próprios donos, porque as salas foram se tornando ruins, o público precisava de algo novo”. Para Noel, a rede Cinemark trouxe um novo conceito para o Brasil que deu certo. “O cinema stadium (o da plateia em degraus) agradou e os exibidores começaram a prestar atenção nesta mudança. Nos Estados Unidos já existia TV a cabo e o cinema andava e aqui não, precisava de algo diferente”, acredita ele.

 

Além da novidade estrutural, as novas salas também saíram das ruas para os shoppings, trazendo maior sensação de segurança e comodidade, com estacionamento, refeição e todo um complexo de compras e outros serviços. “A sociedade capitalista tem que consumir né?”, conclui ele.

 

 

Noel também não pôde investir o bastante para fazer todas essas mudanças que a sociedade desejava. Seus cinemas foram fechando e para construir o novo conceito, ele voltou para Leme. Na Avenida de entrada da cidade, está o Cine Avenida, com pouco mais de 180 lugares, stadium e som Dolby Digital. Segundo Noel, as pessoas procuram hoje o cinema para fazer festa, assistir a um show, um jogo de futebol e até a final da novela. “Hoje o cinema não é apenas um local para exibir filmes, é uma casa de espetáculo”. O último capítulo do sucesso global Avenida Brasil, lotou o cinema lemense e como um fiel e fanático corintiano, não poderia deixar de passar a final da Libertadores com o Timão. “Demos sorte!”, lembra orgulhoso. Tais oportunidades, explica ele, ficarão ainda melhor com a projeção digital. “As pessoas poderão assistir a eventos ao vivo pela telona, é um futuro diferente, porém fantástico”, fala o exibidor, que acredita que a magia está dentro do cinema, independentemente do que estiver acontecendo diante dos olhos dos espectadores.

 

O recomeço do exibidor já é um sucesso reconhecido inclusive entre estudantes de administração. No último dia 3 de junho, Noel recebeu, além de outros dois empresários, o prêmio “Empreendedor Nota 10”, realizado pelo Centro Universitário Anhanguera de Pirassununga, que teve como objetivo destacar os empresários que transformaram uma boa ideia, aliada a muito trabalho, em um negócio de sucesso com geração de emprego e renda na região. Para Noel, o prêmio representa uma história de ousadias. “Todos nós somos inteligentes, mas o empreendedorismo está no sangue daqueles que têm coragem de correr riscos. Já acertei muito e já errei, o importante é tentar”, ensina.