Conte Sua História de SP: A chácara do Seu João das Vacas

 

Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da CBN

 


 
Se existir o paraíso ali foi o da minha infância.
 

 

Na época, que minha recordação consegue as primeiras lembranças, eu um garoto de apenas cinco anos e aquela chácara um mundaréu de terreno que não tinha mais fim, onde eu, se sozinho, poderia me perder com facilidade e nunca mais ser encontrado. Hoje lá existe uma pequena vila residencial de não mais que um alqueire e a grande maioria de seus moradores nem sabe que ali foi o paraíso.
 

 

Cortada de ponta a ponta por um córrego de águas cristalinas que serpenteava por entre os eucaliptos e as árvores frutíferas e que em determinados pontos ampliava-se formando singelos lagos. Nestes lagos a garotada e principalmente eu e o meu amigo Giba demos os nossos primeiros mergulhos e primeiras braçadas desengonçadas ao que dizíamos estar nadando.
 

 

Bater peneira ou na falta desta bater saco, uma forma de pesca em que dentro do riacho com a peneira ou com o saco de estopa, raspávamos o fundo do rio em direção as bordas e levantávamos nossos instrumentos até a flor d’água por debaixo das ramadas e delirávamos com os guarús, lambaris, pequenos carás e muitos girinos.
 

 

O pé de caqui chocolate, daqueles legítimos, que mesmo verdes por fora eram marrons por dentro. Ali ficava nossa torre de observação, pois do alto de seus galhos podíamos ver a chácara toda, inclusive a casa do Seu João, e ao menor sinal da saída do velho de dentro da casa nós já dávamos o alerta, pois ele andava sempre com uma espingarda velha carregada com sal e prometia atirar na garotada que roubava suas frutas.

 

Um dia ele nos pegou roubando, ou melhor, colhendo suas pêras sem autorização. Não deu tempo de fugir nem mesmo de descer da pereira. Seu João com a espingarda na mão ameaçando a mim e ao Clóvis. Ficamos tão assustados que deixamos cair todas as pêras e prometemos a ele que nunca mias iríamos apanhar suas frutas. Ele falou que contaria até cem para que nós descêssemos da árvore e sumíssemos de sua frente, pois a partir dos cem atiraria na gente. Provavelmente antes de ele contar até vinte já estávamos em casa.
 

 

Ali montei as minhas primeiras cabanas de índio armadas com varas de cana do reino e trançadas com folhas de taboa e dentro delas muita conversa de moleque e planos para grandes aventuras produzidas por nossa fértil e pura imaginação.

 

Já moleques mais velhos beirando a fase dos doze anos lá era o esconderijo onde amarrávamos os cavalos das olarias que fugiam e apareciam na redondeza e desta forma garantíamos montaria para todos podermos nos aventurar em passeios e explorações mais distantes montados a pêlo.
 

 

Construímos armadilhas para pegar lobisomem, laços para pegar pássaros, caçamos muitos preás com ajuda de nossos fiéis cachorros vira-latas. Brincamos de índio e mocinho, tiramos guerra de estilingues com mamonas até que um dia fomos interrompidos pelo ruidoso barulho de um motor gigante que mais parecia um destes monstros de filmes japoneses. Um monstro devorador de árvores, arbustos, riachos, cabanas e armadilhas.

 

A chácara foi planada, loteada e sem nosso consentimento destruíram o quintal de nossa infância. Tentamos protestar e por algum tempo durante a noite destruíamos as pequenas paredes que começavam a serem erguidas, porem no dia seguinte lá estavam elas novamente brotando do chão regadas pela energia das águas cristalinas de nosso córrego que hoje corre apenas em minhas lembranças.
 

 

A  Chácara ficava em Itaquera muito próximo onde hoje está sendo construído o Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em audio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Um passeio pelo inverno de São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

 

Vá passear no centro de São Paulo e se deixe envolver pela atmosfera de nostalgia criada pelas ruas e costruções antigas e pelos monumentos históricos. A região da Praça da Sé que ainda mantém marcas da época em que era impulsionada pela exportação do café hoje tem perfil bastante diferente. Sua economia é movida pelas muitas lojas, restaurantes e cafés que atraem pessoas de vários lugares do país. Por dia, em toda a área do centro paulistano circulam cerca de dois milhões de pessoas e em torno de 400 mil moram por ali, números calculados pela subprefeitura da Sé.

 

Gosto de caminhar nessa região e encontrar algumas surpresas como o café no Pátio do Colégio, local em que a cidade foi fundada. Além da exposição que conta parte da história de São Paulo e peças do século 16, há espaço para sentar e contemplar, que oferecem conforto aos visitantes. O charme do centro também está no Mosteiro São Bento e no café Girondino, que tem a decoração inspirada no começo do século 20. A praça em frente a Bolsa de Valores de São Paulo tem uma doceria bem charmosa e cheias de clientes ávidos por doces. E em todas as ruas e vias, encontra-se muita gente, que surge de todos os lados, que vem de todos os cantos, que lota as calçadas, toma as ruas, se transforma em um formigueiro.

 

 

Mesmo em uma semana gelada como a que tivemos na cidade de São Paulo, impossível sentir frio em meio a esta multidão. O calor humano prevalece e a visão da história nos aconchega. Para compartilhar com você parte desta sensação, apresento ao longo deste post imagens que fiz ao passear pelo centro paulistano. Faça bom proveito.

 

Dora Estevam é jornalista e escreve de moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

“Obrigado por tudo Juvenal, nós te amamos…”

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O Juvenal da frase é o Juvenal Juvêncio e a frase é da torcida do Corinthians, exibida há uma semana numa faixa no Pacaembu, por ocasião da final da Recopa. O fato é que o presidente do São Paulo é autor e ator da moderna saga do Morumbi, que colocou o Clube, antes visto como um dos mais competentes do futebol brasileiro, na pior fase de sua história. As derrotas substituíram as vitórias que escassearam, chegando ao ponto inédito de sete seguidas. A democracia instituída por eleições a cada três anos foi substituída por oito anos de poder ditatorial, origem evidente de todos os problemas atuais.

 

A permanência prolongada nos cargos de comando quer governamentais, quer esportivos, geram administrações ineficientes e, em alguns casos, corruptas, coercitivas e até mesmo caricaturais. E, não por acaso, o Bem Amado de Dias Gomes tem sido associado à figura de Juvenal.

 

Correlação que pessoalmente discordava, pois se na forma a comparação fosse perfeita, no conteúdo Odorico Paraguaçu me parecia bem mais eficiente do que o presidente são paulino. Juvenal brigou com o melhor cliente, tirou jogador de concentração por suposto erro em jogo, delegou o futebol a diretor sem tato e sem contato com o time, demitiu jogadores por derrotas nas quais eles não participaram, trocou técnicos como se fossem os responsáveis pelas derrotas e, acima de tudo, criou um mundo de fantasia, onde passou a viver.

 

Hoje, após o episódio de domingo, quando a convite de Juvenal, a torcida Independente participou de um churrasco com a diretoria na sede social do clube, certamente para pagar a blindagem que tem sido dada à imagem do presidente, já não dá para discordar da semelhança de Sucupira com o atual Morumbi. Com direito inclusive a ataques físicos a adversários políticos. Odorico com certeza faria tal qual Juvenal, trocando apenas os Independentes pelas Cajazeiras. As irmãs que serviam, e de quem se servia.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Avalanche Tricolor: somos um bando de loucos

 

Grêmio 1 x 1 São Paulo
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Calma, lá, caro e raro leitor gremista deste blog. Vou, sim, falar do Grêmio neste post, apesar do título lembrar o apelido de outra torcida. Aliás, sequer vou me ater ao comportamento de nossos torcedores que ganharam o direito de ocupar seu espaço na Arena, mesmo que permaneçam restrições à avalanche. Apesar do atraso na publicação deste texto provocado pelo horário do jogo, compromissos profissionais e familiares, quero, hoje, reproduzir a sensação que tive ao ver nosso time em campo.

 

Assisti à partida deitado na cama, em silêncio total, sem nem mesmo ouvir o que diziam narrador, comentarista e repórteres na televisão. Prestei muita atenção na formação inicial escalada por Vanderlei Luxemburgo e tentei entender a estratégia dos três atacantes, o deslocamento dos laterais, o posicionamento dos zagueiros, a ação dos volantes e a articulação do meio de campo – ou do que havia no meio do campo no primeiro tempo (no caso, Zé Roberto, isolado, obrigado a conduzir a bola em busca de algum companheiro). Vi as mudanças no intervalo, a boa entrada de Elano, a presença de Guilherme Biteco e a chegada de Ramiro. Como nada ouvi, fiquei sem saber se Elano entrou no segundo tempo devido a desgaste físico ou para atender o esquema do técnico.

 

Confesso que não sou craque em identificar esquemas táticos como costumam fazer muito bem colegas como o Mário Marra, da CBN. Sempre tive dificuldade para contar o 4-4-2, o 3-5-1 ou o 4-2-1-3, que me parece foi o usado na partida de ontem. Por isso analiso o futebol muito mais pelas sensações do que pela razão. E meu sentimento, em meio as dificuldades para chegarmos ao gol adversário, era de que não passávamos de um bando de louco, dispostos a vencer, mas sem ter planejado o caminho da vitória. No segundo tempo em especial, foi possível até mesmo se emocionar com o esforço de alguns para mudar o placar. Era evidente, porém, que tudo ocorria de forma voluntariosa, do jeito que desse, torcendo para dar certo. Aquele chute do Werley, longe do gol, quando havia atacantes a espera do lançamento dentro da área, sinalizava bem este espírito. Aliás, nosso gol de empate, aos 42 minutos do segundo tempo, com a bola empurrada para dentro, na cabeçada de Kleber, também foi resultado disso tudo.

 

Ainda bem que estas loucuras de vez em quando dão resultado, nem que este resultado seja um simples empate dentro de casa.

 

Quem será capaz de colocar só um pouco de razão diante desta alucinação?

Histórias por trás da tela do cinema

 

Por Marília Taufic

 

 

Com apenas sete anos, os fins de semana do pequeno Noel Taufic, neto de libanês, já eram tempo de fazer negócios. Rodava quase 200 quilômetros com o pai, Kamel, da pacata Leme, no interior de São Paulo, até a capital, para voltar na bagagem com mercadoria valiosa. Era início da década de 1960 e, naquela época, eles precisavam ter um produto diferente para oferecer aos clientes em cada dia da semana. “Segunda era dia de comédia, terça podia rodar um drama, as quartas eram tradicionais dos namorados, sexta a galera curtia um bang bang, sábados e domingos passavam comédia, romance, tínhamos que pensar em sessões para toda a família”. Pai e filho viajavam juntos para tratar da diversão de tantas pessoas que se emocionavam no cinema da cidade.

 

As películas começaram a rodar no sangue dos dois quando Kamel ainda era adolescente. Herdeiro do prédio onde ficava o primeiro cinema de Leme, o Cine São José, Kamel não esperou atingir a maioridade para assumir os projetores. Ainda na juventude, subia com os equipamentos e as histórias em um caminhão e rodava as fazendas da região para iluminar muros ou um lençol com seus filmes. Em 1948, assumiu o São José e, claro, como um bom filho de libanês, os negócios iam bem e tinham que crescer. Onze anos depois, no dia do aniversário da cidade, em 29 de agosto de 1959, nascia o Cine Alvorada com 1.180 lugares para oferecer alegria a todos. O futuro parceiro de viagens de Kamel e com bom tino para programação da telona chegou pouco tempo antes, em abril de 1955, para nunca mais sair do cinema. “Virou um vício”, conta Noel, como se aquele espaço, as relações humanas e a emoção que ele proporciona, nunca mais pudessem sair de sua vida.

 

“O cinema é onde a pessoa conheceu a namorada, deu o primeiro beijo, riu com os amigos, foi um lugar legal na vida dela. Aqui você vende alegria, emoção, é um negócio muito gratificante”. E quem conhece o empresário de 58 anos com histórias para contar que parecem que foram por mais de 100 anos no comando de cinemas, sabe que ir a uma sala com a presença do Noel é prazer na certa. Ele está na bilheteria, na bomboniere, dá uma espiadinha para ver se a projeção, o som e o ar condicionado estão bons e se rolar algum problema é correria até a sala de projeção, dinâmica que aprendeu com o pai e com tantos outros companheiros de cinema.

 

 

Em meados do século passado, quem rodava pelas ruas do centro de São Paulo poderia ver um cinema por quarteirão. “Na Avenida Rio Branco eram quatro, só entre o Largo Paissandu e a Duque de Caxias. E só no Largo Paissandu eram outros quatro: Cine Olido, Art Palácio, Cine Paissandu e o Cine Ouro”, lembra Noel, que andava pela capital como se estivesse em uma sala de aula. Na época, o Brasil chegou a ter mais de cinco mil salas, número bem maior do que as pouco mais de três mil de hoje. “Tinha muito cinema na periferia, ao ar livre, auto cine, a maior sala de São Paulo era na zona leste, o Cine Mundo, com quase quatro mil lugares. E a família Ferrador era dona da maior rede, com um grande circuito: Cine Ipiranga, Majestic e tantos outros. Mas não existia uma marca. Os cinemas tinham nome”, fala Noel fazendo referência às atuais grandes redes.

 

Nesta época quem via um filme na telona, só poderia ter o bis na TV cinco anos depois, janela que diminuiu para dois anos no governo Collor e que foi diminuindo cada vez mais até culminar para um futuro, que é o que ocorre hoje, de muitas pessoas terem acesso ao filme antes mesmo dele ser lançado, por meio das cópias piratas e dos downloads na internet. Noel conta que, eventualmente, filmes de sucesso eram reprisados em meses diferentes. “Eu cheguei a exibir Uma Linda Mulher cinco vezes, Dio Come Ti Amo, exibi umas dez vezes. Também foi assim com Marcelino Pão e Vinho, os bang bangs italianos, como Django, o original (de 1966), claro”. Mas este hábito não era simples, porque ele causava um problema que quem já trabalhou em uma cabine de projeção conhece bem: as películas quebradas. “A cópia vinha meio estragada e tinha que arrumar. Às vezes as distribuidoras davam duas cópias diferentes para emendar”, lembra com gosto, como se isso também fosse normal para se divertir com os negócios. “Faz parte!”.

 

Mas ao mesmo tempo que o público tinha acesso a um filme diferente a cada dia da semana, os grandes lançamentos às vezes traçavam uma história diferente nos cinemas nacionais. As primeiras risadas das comédias de Mazzoropi, por exemplo, aconteciam, em sua maioria, no Cine Art Palácio. Toda semana do 25 de janeiro, data do aniversário de São Paulo, um novo filme do comediante era lançado no cinema do Largo Paissandu e lá ficava por mais de um mês para depois poder ser lançado em outros lugares. “Aqui no interior a gente preferia colocar na época da safra da cana-de-açúcar, em maio, quando o público do Mazzaropi estava com mais dinheiro”, explica Noel.

 

Aos 15 anos, o filho de empresário já fazia a programação dos cinemas do pai sozinho. Cinco filmes por semana, 20 por mês, cartazes e trailers escolhidos e depois de muita conversa, Noel voltava com o ônibus cheio de história para projetar. Apesar de jovem, ele já sabia atrair alguém para uma sala de cinema, contando sobre um filme, sem nem ao menos tê-lo visto. Não foi por pouco que na mesma época foi emancipado pelo pai para abrir seu primeiro cinema na cidade vizinha, Pirassununga, e por aí traçou sua própria história em muitas outras cidades: Araras, Porto Ferreira, Espírito Santo do Pinhal, Mogi Guaçu, Itu, Tietê, Tatuí, Patrocínio, Araxá, Itaúna, Divinópolis, Campinas, Peruíbe, Mongaguá, Itanhaém, Guarujá, Pedreira, Vinhedo e Santa Rita do Passa Quatro, tiveram cinemas em seu comando. Noel viu o auge e a decadência dos cinemas de rua.

 

“As pessoas dão vários motivos, mas para mim, os maiores culpados para a queda do cinema foram os próprios donos, porque as salas foram se tornando ruins, o público precisava de algo novo”. Para Noel, a rede Cinemark trouxe um novo conceito para o Brasil que deu certo. “O cinema stadium (o da plateia em degraus) agradou e os exibidores começaram a prestar atenção nesta mudança. Nos Estados Unidos já existia TV a cabo e o cinema andava e aqui não, precisava de algo diferente”, acredita ele.

 

Além da novidade estrutural, as novas salas também saíram das ruas para os shoppings, trazendo maior sensação de segurança e comodidade, com estacionamento, refeição e todo um complexo de compras e outros serviços. “A sociedade capitalista tem que consumir né?”, conclui ele.

 

 

Noel também não pôde investir o bastante para fazer todas essas mudanças que a sociedade desejava. Seus cinemas foram fechando e para construir o novo conceito, ele voltou para Leme. Na Avenida de entrada da cidade, está o Cine Avenida, com pouco mais de 180 lugares, stadium e som Dolby Digital. Segundo Noel, as pessoas procuram hoje o cinema para fazer festa, assistir a um show, um jogo de futebol e até a final da novela. “Hoje o cinema não é apenas um local para exibir filmes, é uma casa de espetáculo”. O último capítulo do sucesso global Avenida Brasil, lotou o cinema lemense e como um fiel e fanático corintiano, não poderia deixar de passar a final da Libertadores com o Timão. “Demos sorte!”, lembra orgulhoso. Tais oportunidades, explica ele, ficarão ainda melhor com a projeção digital. “As pessoas poderão assistir a eventos ao vivo pela telona, é um futuro diferente, porém fantástico”, fala o exibidor, que acredita que a magia está dentro do cinema, independentemente do que estiver acontecendo diante dos olhos dos espectadores.

 

O recomeço do exibidor já é um sucesso reconhecido inclusive entre estudantes de administração. No último dia 3 de junho, Noel recebeu, além de outros dois empresários, o prêmio “Empreendedor Nota 10”, realizado pelo Centro Universitário Anhanguera de Pirassununga, que teve como objetivo destacar os empresários que transformaram uma boa ideia, aliada a muito trabalho, em um negócio de sucesso com geração de emprego e renda na região. Para Noel, o prêmio representa uma história de ousadias. “Todos nós somos inteligentes, mas o empreendedorismo está no sangue daqueles que têm coragem de correr riscos. Já acertei muito e já errei, o importante é tentar”, ensina.

Centro de SP precisa é de Virada Social

 

Por Dora Estevam

 

 

A Virada Cultural aparece anualmente com anúncios na mídia oferecendo o que há de melhor no centro de São Paulo. Âncoras e colunistas se alegram em fazer chamadas das atrações. Atividades que prometem desde a descoberta de um novo artista, passando pelo melhor quitute e, até mesmo, o melhor show. Será que estes “coleguinhas” jornalistas andam pelo centro da cidade, local privilegiado para instalação dessas atrações? Não, não andam. Se andassem as pautas seriam bem diferentes e as prioridades seriam os casos sociais, graves, que circundam todos os locais programados para a realização da Virada Cultural, sem exceção.

 

As chamadas para o evento exercem um poder de sedução: vá ao centro da cidade que lá tudo é muito bonito. Ou, vá até lá conhecer onde tudo começou. Ou venha ao centro de metrô, use a bicicleta para chegar em alto estilo e gastando pouco. Ah! para que tamanha hipocrisia, gente? Estou há semanas circulando pelo centro da cidade e a realidade é muito, mas muito diferente deste discurso que tenho visto, assistido e lido. Não é nada disso. O centro está repleto de monumentos e patrimônios históricos graças a um pequeno grupo que se uniu para preservar o pouco que resta em pé. É impressionante o número de pessoas que circulam por ali sem eira nem beira, em busca de nada. Pessoas que vivem nas ruas, que moram nas ruas, que fazem das ruas e das praças seus dormitórios. É visível – e olfativo – o problema social que existe nesta região.

 

Vou dar um exemplo bem prático: na Praça da Sé, em frente, ao lado, nas costas, em volta, o que você imaginar, tem moradores de rua dormindo ou acordado, como preferir. Se acordados, os estragos vão longe; em uma das minhas aproximações para observar o que acontece lá por pouco não presenciei um incêndio: um indigente alcoolizado ateou fogo nos poucos cobertores que ele e os colegas faziam uso. A polícia, que fica bem em frente à Igreja, na praça, foi chamada. Mas o que fazer, não tem de onde tirar água para beber, o que dirá para apagar o fogo. Agora me responde: o que a polícia tem com isso? Alguma dúvida que este problema não é da polícia e sim social? Da polícia, começa a ser quando esta mesma pessoa que mora ali na rua, na praça, passa fome, aí tem uma Virada Cultural como essa que enche de gente e esta pessoa com fome vai lá e rouba o cidadão. Aí o problema deixa de ser social e passa a ser de polícia. Consequentemente do Estado. Meu Deus, isso tem fim?

 

 

Não dá para esconder tanta gente. O mau cheiro das ruas é uma coisa absurda. As pessoas andam fazendo caretas nas ruas, eu mesma não consigo respirar, me desculpe, mas é insuportável o cheiro. Sem falar na sujeira das ruas. Eu estava com uma garrafa de água nas mãos e um morador me pediu implorando por sede. Como um ser humano pode presenciar isso e não fazer nada. A poucos passos avistei o cenário em frente a Igreja da Sé com um imenso balão no qual vão projetar vários filmes; ao lado, banheiros químicos e, adornando o cenário, os moradores da praça. Revoltados com a movimentação de pessoas que insistiam em fotografá-los. Como não registrar as cenas surreais? As fotos que ilustram este post foram na Sé, na Quintino Bocaiúva, na Praça João Mendes…entre outras ruas.

 

 

Aproveito para registrar que não tem sequer um centro de informações na praça da Sé, quem tira todas as dúvidas das pessoas que passam por lá são os policiais militares. Eu fiquei atrás deles por vários minutos e presenciei a rotina dos dois policiais do posto: em 12 horas de trabalho, eles não têm banheiro à disposição e não tem água para beber. Usam os banheiros dos bares “podres” que existem nas redondezas e o tempo todo ficam respondendo perguntas das pessoas que passam por lá, sem parar: Ah, por favor, onde fica a rua tal? Onde fica o prédio tal? Como faço para chegar na avenida tal? Em média, estes funcionários atendem a 1.300 pessoas por dia. E ainda presenciei uma cidadã que não estava se sentindo bem e pediu para se sentar dentro da guarita. No mínimo, ela estava apavorada e em pânico com o movimento, sei lá. A prefeitura precisa providenciar uma central de informações (turísticas), urgentemente. Com dois militares na praça Praça da Sé, por onde transitam cerca de 700 mil pessoas por dia, como fazer o serviço de segurança funcionar? Centro de informações, urgente! Separar turismo de segurança, já! E os casos não ficam só nas perguntas sobre localização, não, vão além, há casais que brigam em casa e aparecem para dar queixa na polícia da praça. Pode?

 

Fazer Virada Cultural no Centro da cidade com este cenário é uma hipocrisia total. Desculpem-me o desabafo, mas não aquentei.

 

Dora EStevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, no Blog do Mílton Jung, aos sábados.

Um passeio pela história no centro de São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

Praça da Sé

 

Tenho andado pelo centro de São Paulo, em especial no que conhecemos por centro velho: praça João Mendes, praça da Sé, Largo São Francisco. Ali, tudo está muito próximo. E cada lugar com sua característica e peculiaridade. Todos imponentes: Catedral da Sé, Faculdade de Direito, Teatro Municipal. Tem ainda outros prédios que guardam na arquitetura a lembrança da São Paulo antiga e memorável. Será que os cidadãos que passeiam por ali têm ideia do significado desse patrimônio? Imagino que um estudante de arquitetura, sim. Em sua mais nova experiência de traçar as linhas para uma cidade contemporânea, deve ficar encantado e deslumbrado com tais monumentos, preciosos.

 

Santos de gesso

 

A Catedral Metropolitana, conhecida por Catedral da Sé, foi inaugurada em 1954, nas comemorações do quarto centenário de São Paulo. Passou por restauro, em 2002, respeitando as características originais da construção. Historiadores dizem que a Catedral é das maiores igrejas em estilo neogótico do mundo. Ali, nos jardins da praça, também fica o monumento “Marco Zero”, o ponto central da cidade. Para as famílias católicas há no entorno lojas especializadas em arte sacra que vendem diversos santos em gesso e vinho canônico.

 

Largo São Francisco

 

O que dizer da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, ou ainda “Arcadas” em alusão a arquitetura. Chama  atenção até dos mais apressados, é impossível passar pela frente e não fazer uma foto para registrar esse pedaço da história. A faculdade foi criada pela lei imperial em 11 de agosto de 1827, poucos anos depois da Proclamação da Independência, para mais tarde ser incorporada pela USP. É considerada a faculdade mais antiga de Direito no Brasil. Inicialmente quem estudava no Largo São Francisco eram os governantes e administradores públicos.

 

Portão do Teatro Municipal

 

Minha curiosidade foi até o Teatro Municipal, que está maravilhoso, imponente. Exala cultura, glamour e história.  O teatro surgiu para suprir a necessidade da elite paulistana, formada pelos “Barões do Café”, que exigia um local de alto padrão nos moldes europeus para abrigar os espetáculos e óperas da época. O arquiteto responsável pelo projeto foi Francisco de Paula Ramos de Azevedo, que, por sua vez, foi homenageado emprestando o nome à Praça Ramos de Azevedo.

 

Sem dúvida, há inúmeros outros locais a serem visitados por essa região: Mosteiro de São Bento, Pateo do Collegio e Mercado Central, entre tantos outros igualmente importantes para a história da cidade.

 

Quem sabe me atrevo a descrever alguns desses outros pontos em um próximo post. Enquanto isso não acontece, deixo minha sugestão para quem estiver passeando na cidade ou visitando o centro da Capital: conheça estes pontos e busque informações que mostrem o real valor de cada prédio, que vai além da beleza arquitetônica. Inclua as crianças que terão uma aula da história do Brasil e do desenvolvimento de São Paulo.

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Interlagos fora da pista?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

São Paulo é a cidade brasileira com mais tradição em automóvel e em competições automobilísticas. Creio eu, fluminense de Paraty, sem dúvida e sem bairrismos. O pioneirismo da indústria automobilística e, antes disso, o vanguardismo do autódromo de Interlagos, são provas reais desta vocação da cidade, efetivando uma cultura paulistana ligada à velocidade. Provavelmente por isto, a direção da F1 tem tido tanta paciência com os prefeitos paulistanos.

 

Se a cidade de São Paulo vier a perder a Fórmula 1 não será por falta de aviso, mas por falha de gestão. É preciso visão e determinação para trazer e manter eventos globais cobiçados pelas grandes cidades do mundo. Qualidades que foram demonstradas por Luiza Erundina em 1990, quando resgatou para o Brasil e para Interlagos o Grande Prêmio Brasil de F1. A Prefeita, mulher e nordestina, como se orgulhava de apresentar, teve que enfrentar inúmeros obstáculos. As duras investidas do PT, seu partido, e da oposição, redundaram em acusação de favorecimento à Shell, que tinha lhe dado um “cheque em branco” para iniciar o empreendimento. Erundina defendeu-se:
“Não favoreci ninguém, a não ser a cidade de São Paulo. Por contraditório que pareça, um Grande Prêmio de Fórmula – 1 favorece a periferia, o trabalhador pobre. Vou ter mais imposto com a F1 – milhões de dólares de ISS. Vou dinamizar o turismo, projetar a cidade para o mundo. Vou estimular os investimentos no setor. Vou ter um serviço médico em Interlagos que continuará funcionando o ano todo – para a população pobre da região. Vou ter uma oficina mecânica para ensinar uma profissão aos jovens das favelas. Como achava que a F1 era de absoluto interesse para a cidade, negociei com a Shell, assim como negociaria com qualquer outra empresa.”

 

Os cinco anos do contrato de Erundina seguiram e até hoje Interlagos teve o privilégio de sediar a F1, embora a Prefeitura venha sendo cobrada para efetivar uma reforma na estrutura do autódromo, que segundo os dirigentes da competição tem um dos mais perfeitos traçados de pista, se não o melhor.

 

Erundina investiu US$ 18 milhões e embora fosse pressionada pelo PT a utilizar a área de Interlagos para habitação popular, jamais cogitou em transferir o autódromo. As contas atuais estimam investimento em torno de US$ 120 milhões para as reformas necessárias de novos boxes, e sistema de esgoto para a região, dentre outras melhorias necessárias. Valor que agregado ao hábito em voga de inflacionar obras cogita-se em erguer um novo autódromo que de inicio custaria o dobro. Mas como já temos experiência, este valor deverá ser dobrado mais uma vez, ou até mesmo quadruplicado.

 

Será que São Paulo, que se curvou diante da FIFA, e atendeu a tudo, vai deixar de atender a FIA, que deseja manter Interlagos, preservando traçado e pista? Sem falar nos feitos de Emerson Fittipaldi, Antonio Carlos Pace, Nelson Piquet, Ayrton Senna, e Felipe Massa, gravados na memória de Interlagos?

 

Esperamos que Haddad não abandone Interlagos e o mantenha com a pista da F1.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.