Conte Sua História: Pó, graxa e infância

Por Cesar Cruz
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto Pó, graxa e infância com sonorização de Cláudio Antonio

Fui provocado assim que pisei na calçada:

– Esse pisante aí ta dando medo, hein tio?

O menino, de uns oito anos, sotaquezinho e jeitão cariocas, surgiu sabe-se lá de onde. Era como se ele estivesse à minha espera atrás do tapume daquela obra e, agora, enquanto eu descia a rua em direção ao meu carro, ele seguia colado em mim, lado a lado, me olhando e esperando uma resposta àquela sua provocação.

“Mas o que foi mesmo que ele disse?” Só então atinei com as idéias: “Pisante, é claro!” Ele se referira ao meu sapato. Estanquei o passo e olhei para baixo. O garoto tinha razão, estavam mesmo de dar medo. Nojentos e asquerosos, para dizer a verdade. É que eu havia acabado de sair de uma visita do tipo mais imundo que conheço: visita a canteiro de obras; e aquela era mesmo uma obra sujíssima! Isso aconteceu ali na zona sul, no bairro da Saúde, travessinha calma da Av. Jabaquara.

– O que tem meu sapato? – indaguei para testar o menino.

– Pô, brother! Tá nojento!

Não dava mesmo pra negar…

– É… você tem razão, amiguinho – concordei -… é que saí da obra e…

– Vamos engraxar, então, tio? – interrompeu-me, prático e determinado.

A densa poeira parecia ter oxidado o meu cérebro, pois só então reparei que o menino carregava uma caixa de engraxates pendurada em um dos ombros. Estava tudo explicado. Era um engraxate mirim. Coisa raríssima de se ver, assim, solitário, numa rua qualquer, já que hoje eles trabalham em grupos, bolsões organizados, muitas vezes com o amparo de adultos. Mas esse era independente e autônomo! E muito perspicaz! Eu tinha que admitir que a jogada de marketing do guri era de fato muito boa, ele merecia crédito! Seria uma desonra da minha parte resistir a ele… Além do mais, meus
pisantes estavam mesmo de dar medo.

Eu topo. – disse. E quem é o artista da graxa, você? – desafiei-o, com um falso ar de desdém.
– Opa, tio! – admirou-se ele – Você vai ver só a minha sshcova nerrvosa
– Vamos ver então!

O problema é que eu não tinha onde me sentar. E eu não estava disposto a me
postar em pé, recostado no muro duma casa, em plena calçada, como ele tinha
me sugerido. Não, isso não.
.
A única possibilidade seria usarmos o meu carro. Então abri a porta do
passageiro e sentei-me virado para o meio-fio, com os pés apoiados, um no
chão, outro sobre a caixa de madeira do guri.

Nos minutos que se seguiram, fiquei ali, na incômoda posição de um rei com
um súdito prostrado aos seus pés.

O delgado e ágil Elton (era esse o seu nome) esmerou-se em velozes e lépidas estaladas de flanela e ritmados giros de escova. Obediente às eventuais batidas secas que soavam na caixa, fui alternando o pisante esquerdo e o direito sobre o apoio. Elton usava uma garrafinha plástica para borrifar sobre o couro, vez por outra, uma aguinha misteriosa, mas logo voltava a “flanelar” o calçado, extraindo dele um brilho quase metálico.

Enquanto o menino trabalhava, me contava sua vida. Contou-me que morava com a mãe e dois irmãos na periferia, todos mais velhos. Vieram do Rio, havia dois anos, tentar a sorte em São Paulo. Um dos irmãos era ladrão e estava preso. A mãe sentia um grande desgosto por isso.

Os outros dois irmãos, uma menina de onze anos e um rapaz de dezoito, moravam com eles. Também trabalhavam e entregavam religiosamente todo o dinheiro recebido à mãe. Fiquei curioso para saber em que uma menina de onze anos poderia trabalhar, mas achei melhor não perguntar, já que o próprio Elton, bem mais novo, vivia pelas ruas, curvado aos pés de adultos desconhecidos, como eu.

Ele me contou ainda que guardava parte do que ganhava para comprar uma moto quando fizesse dezesseis anos. Tentei lhe explicar que moto só se pode pilotar depois dos dezoito, mas ele me disse que no seu bairro, com quinze, dezesseis anos, todos já pilotam uma.

Terminado o serviço, fiquei surpreso ao saber que aquele belo trabalho me custaria apenas três reais. Dei-lhe dez, não por que sou muito generoso, não! Foi por puro merecimento! Sugeri ao Elton que guardasse o troco para a compra da moto, mas o fiz prometer que só o faria aos dezoito anos e que compraria também um bom capacete. Ele concordou com um sorriso maroto… Fiquei na dúvida se cumpriria mesmo a promessa…

Enquanto eu tirava o carro da vaga, fiquei olhando-o pelo retrovisor. Voltou para a frente da obra e se encostou no tapume. Dali a pouco, certamente outro incauto deixaria a obra e seria provocado pelo menino engraxate: “Esse pisante aí ta dando medo, hein tio?”.



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Conte Sua História: São Paulo de todos nós

 

Por Carlos Silva
Ouvinte-internauta

Ouça o texto de Carlos Silva sonorizado por Cláudio Antonio

Quem dera mergulhar em águas imaginárias e, ao emergir, fixar meu olhar no ponto onde tudo começou.

Quem sabe meus pés calcassem então o solo enlameado e virgem de projetos e edificações.

Quem sabe dissesse ao colonizador: “O que estás ajudando a construir hoje tornar-se-á, no futuro, o espaço das grandes concentrações voltadas para o lazer, a informação e a cultura. Enfim, para a vida…

Aqui, onde depositas a pedra fundamental, milhares de passos passarão pisando.
Talvez alheios a tudo que hoje aqui ocorre.

Noutros, porém – sobretudo aqueles com olhares poéticos,lúdicos e boêmios, repousarão inspirados versos,cantigas,contos e cantorias. E, mesmo que não verbalizem um agradecimento sonoro que se faça ouvir em toda a plenitude, tenham a certeza de uma coisa: no íntimo de cada ser, desses capazes de enxergar com a ótica poética, haverá ao menos um filete de regozijo e satisfação por estar aqui.

Teus olhos, ó idealizador, obviamente já tragados há muito pelo solo – pois isso dar-se á daqui a mais de quatro centenas e meia de anos – não verão nada disso.

Desde já conforta-te, porém, em saber que tu serás lembrado.

E quando as cortinas do sol abrirem-se no horizonte, e quando vários poetas estiverem reunidos, então saberei que neste dia os calendários do nosso solo paulistano estarão marcando 25 de Janeiro de 2009.

Teu gesto então será celebrado por aqueles que carregam no coração o amor por esta mãe-metrópole tão receptiva e hospedeira.

Que não faz distinção de raça, cor, credo.

E que a todos se dá, sem nada esperar em troca.

A não ser o gozo pela vida e pela preservação de sua própria história.



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Conte Sua História: O sorriso da alma

 

Por Suely Schraner
Ouvinte-internauta

Ouça o texto Sorriso da Alma de Suely Schraner, sonorizado por Cláudio Antonio

Conta-se que Santa Apolônia, a padroeira dos dentistas, foi mártir da Igreja Católica e que, para manter sua fé, foi torturada, sofreu fraturas no rosto e teve os dentes quebrados.

O dentista garante a integridade dos dentes, a limpeza e profilaxia. Hoje prevenção, ontem extração. Hoje restaurações, clareamento, implantes, essas coisas “high tec”. Ontem, soluções caseiras: pinga no buraco do dente, 1 minuto, remedinhos “tiro e queda”. Panela no dente instalada, era só extrair e pronto.

Para ele, ser dentista era a razão de ser. Atendia ouvindo ópera. Vê se pode. Quando não, a Voz do Brasil. Tem notícias interessantes, dizia ele.

Pacientemente, naqueles idos de 70, no Bairro de Campo Grande, avenida Nossa Senhora do Sabará, laborioso nesta São Paulo desbocada. Entre resinas almagmas e dentaduras postiças, seguia amealhando clientes e amigos. Agumas bocas ficaram famosas. Ana Paula Arósio que o diga.

Bom atendimento e parcelamentos na base da palavra dada, que SPC não tinha não.

O instante das coisas. O tempo de uma piscadela e a maturidade se instalando junto com a aposentadoria. A vida correndo como as águas deste verão que se encerra.

O outono da existência, um troféu das experiências vividas.

O cuidado com as bocas. O sorriso que motiva, ensina, encanta. Sorriso da alma.

Na sala do Telecentro Malba Tahan, no Jardim Suzana, Diodi Okamoto, dentista aposentado, aprende informática e também escreve sobre a cidade de São Paulo e sua gente.


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Conte Sua História: Cenas paulistanas

 

Por Emily Rodrigues Cardoso:

Ouça o texto de Emily Rodrigues com sonorização de Cláudio Antônio que foi ao ar no CBN SP

“A dona da casa se encontra?”

Vendedores de cartões de crédito, via telefone, já fazem parte da rotina paulistana. Descobri que uma das maneiras de tentar (eu disse “tentar”) livrar-se deles é assumirmos uma segunda personalidade.
– Eu gostaria de falar com a senhora Emília.
– Quem é?
– Aqui é do Banco Etceteraetal.
– Ela não está.
– Com quem eu falo?
– Com a diarista.
Outra modalidade de venda:
– Bom dia – sete da matina. Esse “cumprimento matinal” é uma maneira infalível de reconhecer telemarketings.
– Bom dia – impaciente, tonta de sono.
A dona da casa se encontra?
– Quem quer falar?
– Aqui é da Cartões de Crédito…
– Como vocês conseguiram esse número?
– Ah, senhora. Nós temos um cadastro com nomes e telefones…
– ??!!
Uma amiga adotou esse hábito de se fazer passar por uma segunda pessoa.
– Boa noite – Mas até à noite? – A senhora Eliana se encontra?
Todos a chamam de Lia, em vez do nome de batismo…
– Não, ela não se encontra.
– Com quem eu falo?
– Com fulana de tal.
– O que a senhora é dela?
???????!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Minha amiga diz que um dia vai responder “o que ela é da dona da casa”:
– Amiga bem próxima. Tão próxima que ela tá aqui do meu lado. Ou melhor: bem próxima da alma…



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Senhoras da Penha falam do bairro

 

“A história oral é o testemunho vivo da memória de um povo”, diz Douglas Nascimento do blog São Paulo Restaurada para justificar trabalho realizado no bairro da Penha de França, zona leste, com um grupo de senhoras que se reúnem na paróquia da região. Elas participam do grupo Raio de Sol e as histórias contadas para o blog servirão para projeto a ser desenvolvido em universidades com o objetivo de mostrar aos jovens o que pode ser apreendido com o pessoal da terceira idade. Para ouvir parte dessas histórias acesse o post Unidas pela memória de um bairro

Foto-ouvinte: Crepúsculo paulistano

 

Crepusculo de São Paulo

“Uma lua no imenso céu tendo somente uma estrela ao seu lado, durante o nascer do sol” – cena que ela própria descreve – inspirou a ouvinte-internauta Sílvia Maria Vasconcelos a encarar os quilômetros de congestionamento e o tempo seco que marcaram o início da semana na capital paulista. Ao fotografar o horizonte ela se questionou se “o paulistanos param por alguns minutos para observar as coisas que a natureza oferece em meio a tantos prédios”.

Conte Sua História: Lembrança de Santo Amaro

 

Por José Roberto Leone
Ouvinte-internauta

Ouça o texto de José Roberto Leone com sonorização do Cláudio Antônio

Nascido em São Paulo. Sou de 1946. Muitos dessa época devem se lembrar do respeito aos mais velhos, às instituição. Lembram das boas escolas públicas e dos professores dedicados e competentes.

Estudei no Grupo Escolar Paulo Eiró e no Instituto de Educação Professor Alberto Conte, na época considerado o melhor colégio estadual do Brasil. Os dois ficam bem no centro de Santo Amaro.

O Paulo Eiró teve seu prédio, uma verdadeira relíquia dos santamerenses, derrubado na gestão Paulo Maluf, e seu espaço ocupado por um camelódromo. Em lugar do murmurio dos alunos na hora do recreio, na entrada e saída das aulas, ganhou-se o mau cheiro, a imundície e um barulho de poucas referências.

Do Alberto Conte restou pouco daquele que conheci. Parece um galinheiro, frequentado por alunos da região.

Sinto saudade do bondinho que nos transportava para bairros próximos, como Brooklin, Piraquara, e Campo Belo. As pessoas tinham aspecto diferente, eram habitantes de um país civilizado, com todos seus problemas, é lógico. Mas naquela época eram felizes, sim.

A gente podia andar sem medo pelas ruas, frequentar festinhas e ao chegar à noite em casa, encontrar a porta da sala “encostada com uma cadeira”. As crianças podiam ir à padaria, no empório, brincar no parque infantil sem qualquer risco. Uma das diversões mais esperadas era a aguardar a boiada que chegava de trem, acompanhadas pelos boiadeiros através do bairro até o matadouro local. Era uma festa quando um animal se desgarrava do grupo e promovia um verdadeiro show.

Com o passar do tempo, já quase adolescente, trabalhando e indo a todos os lugares da cidade como office boy, me encantava todos os dias com as coisas mais simples, como cartazes de filmes dos cinemas do centro, as belas vendedoras do Mappin , da Mesbla, aquela das Lojas Americanas (aquelas sim, exemplo de beleza natural e educação). Não essas que nos atendem mal, que usam tatuagem, piercings e todo tipo de maquiagem de péssimo gosto, além da natural deselegância.

Lembranças, apenas lembranças, de uma época que, tenho certeza, vai ficar na saudade.



Participe do Conte Sua História de São Paulo. Envie um texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa vai ao ar, sábado, às 10h30, no CBN SP

Conte sua história de São Paulo

 

Um programa, um livro e uma série de post neste blog foram os resultados do Conte Sua História de São Paulo que surgiu no CBN SP, em 2004. Ouvintes-internautas enviaram centenas de relatos por e-mail descrevendo coisas do passado e fatos recentes que marcaram suas vidas. No início, ao vivo e diário, hoje o programa Conte Sua História de São Paulo vai ao ar às 10 e meia da manhã, todo sábado, dentro do CBN São Paulo.

Os textos que continuam a chegar no contesuahistoria@cbn.com.br ganham alma na sonorização do radialista Cláudio Antônio, técnico de primeira que está por trás da Charge do Jornal, que vai ao ar às 8h43, e da Rádio Sucupira, que encerra a edição de sexta, no Jornal da CBN.

Após ouvir reclamações de ouvintes-internautas que participaram do quadro e de outros que gostam de ouvi-lo, me comprometi a publicar todos os textos e gravações aqui no Blog. Desde 2007, quando o blog se iniciou, tenho postado alguns destes trabalhos, mas não com a frequência desejada. Alguns, infelizmente, se perderam com a extinção da Globolog e migração para o WordPress. Espero ter fôlego para cumprir com esta promessa pública. Para mostrar minha disposição, pretendo publicar um texto por dia, durante esta semana. E o farei até ter todos as gravações à disposição publicadas.

Conto também com a sua participação, enviando novos textos ou arquivos de áudio descrevendo uma momento vivido na capital paulista. A ideia de ter as história gravadas pelo próprio autor surgiu há dois anos, quando abrimos um estúdio de gravação no Pátio do Colégio, no dia do aniversário da cidade. Em 2008 e 2009, os ouvintes-internautas puderam gravar, em viva voz, sua própria história. Algumas foram realmente incríveis.

Apesar da possibilidade de publicar esta gravação no CBN São Paulo, poucas pessoas aproveitaram a oportunidade. Não desperdice a chance de ser o narrador de mais um capítulo da nossa cidade. Grave no seu computador ou qualquer outro arquivo de áudio e mande para contesuahistoria@cbn.com.br. Se for mais fácil, mande seu texto que eu terei o maior prazer em interpretá-lo.

Conte Sua História: Nariz de palhaço

 

Por Tony Marlon
Ouvinte-internauta

Ouça o texto de Tony Marlon sonorizado por Cláudio Antonio para o CBN SP

Quinta-feira. Ônibus Paraíso – Parque do Engenho. Caminho Avenida Paulista. Meu amor.

Depois de noite mal dormida, o primeiro banco vazio era um, antes da catraca. Ali mesmo me sentei. Próximo ao Shopping Eldorado entra uma menina. Eu tenho quase certeza que ela era uma princesa daquelas bem lindas que gostam de se disfarçar pra ver o que anda acontecendo no seu reino.

Entrou, e com o ônibus cheio, ofereci meu lugar. Sua mãe a pegou, e a colocou no trono. No banco. Encostei na porta do outro lado do ônibus, bem longe dela, séria. Muito séria. De repente, um restinho de olhar passou rápido por mim. Pensei: opa. Eu vi direito?

Ela olhou de novo. Tentou disfarçar, mas não deu tempo. No canto da boca um sorriso bem do arteiro. E eu entre jogadas de corpo e desvios de puro reflexo da porta que não parava de abrir, pensei: é agora. Os olhares se intensificaram. Os sorrisos também, praticamente num filme de Chaplin: tudo em silêncio em nossa relação.

De repente, a mãozinha acena para que eu atrevesse o ônibus. Atravesso; pedido dela é uma ordem.

– Qual é o seu nome?
– Tony.
– Ah. Toony?
– Isso. E o seu?
– Maria Eduarda.
– Que lindo nome, Maria Eduarda.
– É. Eu sei.
– Quantos anos você tem?

Neste momento desaparece o som. Quem fala agora é a mão: quatro dedinhos convictamente estendidos.

Me afasto. Volto pro meu lugar. Longe. Sem som. E as brincadeiras continuam. Ela e eu vivemos uma realidade que não é a mesma do restante do ônibus. Nela, eu sou motorista até mesmo sem colocar a mão no volante.

– Tony, deixa eu ver sua mão?
– Claro. Olha.
– Nossa. Sua mão parece de mulher. Olha a sua unha!
– Mas é bonita?
– É. Muito bonita.
– Então melhor assim, né?!
– É. Olha a minha.
– Linda também.
– É. Eu sei.

E tudo para de novo. Cada um pro seu canto. E vamos brincar de Chaplin; num silêncio cheio de coisas mágicas que somente ela e eu entendemos. E ela ri muito.

De repente meu nariz imaginário cai. Procuro desesperado naquele chão sujo do ônibus e não o encontro. A minha cara de preocupação e choro encontra o rostinho da Maria Eduarda, também preocupado. Deve estar pensando ela: como este menino perde o nariz dele assim? No meio do ônibus? Que desastrado.

Passa um senhor de cabelo longo em minha frente e eu, claro, desconfio que ele pode ter achado meu nariz. Procuro até dentro de seus cabelos e nada. Ela, igual a mim, também começa a ficar preocupada. E o rostinho dela fica realmente.

Achei! Achei! Estava ali, perto da lixeira. Como é que eu não vi ? Olho e ela está sorrindo lindamente com cara de aliviada. Comemoro o meu achado. Tanto que meu nariz acaba escapando da minha mão e caindo nas dela. Que menina cuidadosa, segurou firme. E um lindo sorriso de quem acaba de salvar o mundo surge no seu rosto.

Peço que me jogue o nariz. Afinal de contas, é imoral ficar andando por aí sem nariz, não é verdade Wellington? Ela se prepara e joga o nariz.

– (em slow) Nããããão!

Lá se vai meu nariz de novo. Alguém muito distraído esqueceu a janela do ônibus aberta. De dentro do ônibus eu vi meu nariz pingando como bolinha de borracha no chão da Avenida Rebouças.

Olho e ela está com uma carinha de preocupação que mal cabe em seus quatro anos. Deve pensar: o que eu fiz com o nariz do Tony, meu Deus? Serei presa e castigada por isso.

Como eu sou uma alma bondosa, além de muito vergonhosa pra ficar lá nu de nariz imaginário, digo em silêncio que vou resolver. Alguém lá em cima ouve, e o ônibus para em seguida para subida de um passageiro. Dou uma piscada pra ela. E enquanto o passageiro entra no ônibus, eu estico meu corpo pro lado de fora e…e…e…pego meu nariz! Volto eufórico, antes que a porta feche e eu perca também a parte de cima do corpo. Ela sorri aliviada! Um sorriso sincero e lindo!

Ficamos intermináveis horas de segundos comemorando meu ato heróico. E o sorriso da Maria Eduarda mal cabia nela mesma. Até ameaçar uma dança de comemoração ela ameaçou, mas os buracos da Avenida Rebouças mostraram que precisamos repensar sobre cinto de segurança nos ônibus.

E as brincadeiras seguiram, Wellington. Quase todas em silêncio. Próximo à Avenida Paulista, ela se vira totalmente pra mim. Depois olha pra mãe e diz:

– Ele é engraçado, né, Mãe?
– É, né?!
– É. Muito.

E assim, com espírito de quem vai contar o maior segredo do mundo, coloca as mãos em forma de concha. As alinha junto à boca. Assim, deve pensar ela, ninguém ouve o que vou dizer. Respira fundo. Olha pros lados. Olha pra mim. Com voz de sussuro, diz:

– Tony?
– O quê?
– Porque você não vira um palhaço?
– Virar um palhaço? Você acha que ia ser legal?
– Ia. Você é muito engraçado, sabia?
– Hum! Então eu vou virar um, tá?
– Tá.

As mãos se desfizeram do segredo. E o sorriso dela também por alguns instantes. Sua mãe a pegou, e a fez descer do banco. Pela porta dianteira, foram saindo. Maria Eduarda se virou. Me deu tchau. Com um sorriso lindo de quem aprontou uma daquelas.

– Dá tchau pro seu amigo, filha?
– Tchau, Tony.
– Tchau, Maria Eduarda. Foi um prazer te conhecer.
– Imagina. O prazer foi meu.

E foi se sumindo. Sumindo. E a Avenida Paulista, em meio ao caos, fez silêncio nascer. Somente para acompanhar esta história. Somente para acompanhar esta história.


Você pode participar do Conte Sua História de São Paulo enviando texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. O programa vai ao ar sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP.