Chegam a inflação e os “estrangeiros”, em Santo André

 

As décadas de 80 e 90 foram de grande transformação no transporte da cidade do ABC Paulista. Em mais este capítulo em homenagem ao aniversário de Santo André, você vai ver acompanhar a história desde a chegada de empresários de fora e a municipalização do setor até a retomada da privatização.

FOTO 8 - Viação Padroera do Brasil com ônibus dispensado pelo Rio de Janeiro


Por Adamo Bazani

De Thiago e Gustavo Vaz, filhos de Ozias Vaz, tradicional empresário do setor na Capital Paulista e Guarulhos, a Viação representou um fenômeno que se iniciou nos anos de 1980: a entrada de empresários de ônibus de outras regiões no ABC Paulista.

A crise inflacionária de 1980 prejudicou demasiadamente os transportes em todo o país e com Santo André não foi diferente. Com a inflação, veio a recessão, a perda de emprego e os salários achatados. Muita gente passou a andar a pé ou de bicicleta para não pagar a passagem que aumentavam a todo momento.

As empresas se queixavam que apesar dos aumentos não conseguiam cobrir o custo da operação, pois combustível, peças e veículos ficavam cada vez mais caros.

A renovação da frota ficou comprometida. Em 1993, por exemplo, a EPT – Empresa Pública de Transportes, ainda operava com modelos Caio Gabriela II, fabricados no final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980, que pertenciam a Viação Alpina. Quando havia renovação, era aparente. Carros usados de outras cidades serviam a região. A linha intermunicipal 151 da Viação Padroeira do Brasil, por exemplo, entre o Bairro Paraíso (Santo André) e a Fábrica Troll (São Paulo) começou a rodar com ônibus Ciferal Padron Alvorada, dispensados pelo Rio de Janeiro.

As greves de motoristas e cobradores de ônibus também marcaram a região do ABC Paulista. A categoria reclamava dos salários defasados. Foi um momento de muita tensão.

Famílias tradicionais retraíram os seus investimentos. Apesar de diversos planos econômicos, a inflação chegava a 211% em 1983 e 224%, em 1984. Os números operacionais da cidade também eram extraordinários, mas no sentido contrário. A frota de Santo André caiu 13%, a quilometragem percorrida baixou 21% e a demanda de passageiros sofreu, em 1984, queda de 9,4 %.

Muitos empresários antigos não resistiram. Desfizeram-se de parte de seus negócios ou venderam tudo. Foi mais um “filtro” na organização entre os donos de empresas de ônibus em Santo André.

O espaço aberto pelas famílias tradicionais foi logo ocupado por empresários de outras regiões do país, que aos poucos entravam em São Paulo.

Destaque para Ronan Maria Pinto, que investiu em linhas municipais, em Santo André, e intermunicipais por São Caetano do Sul, e Baltazar José de Souza, que também se associou a proprietários de empresas tradicionais, como as Viações Padroeira do Brasil e São Camilo, e criou ou comprou empresas de outras cidades da região, principalmente em Mauá, vizinha de Santo André

Os “novatos” viam oportunidade de negócio e crescimento, apesar da crise. A população era uma das mais adensadas do país e os deslocamentos eram necessários. Os empresários que vieram de fora não mudaram apenas as diretorias e comandos das empresas de ônibus. Trouxeram a Santo André uma nova postura empresarial, mais aguerrida, negociadora e mais exigente, demonstrando força e poder de influência maiores. O diálogo com o poder público mudou. Dificilmente saiam das conversas sem que suas demandas fossem atendidas.

Além da mudança do controle de algumas empresas e das marcas deixadas pela inflação, no fim da década de 80, Santo André deixava de ser pólo predominantemente industrial. O desemprego da indústria representou mais uma perda de demanda para os transportes e um outro desafio, enfrentado em diversas regiões do país: o aparecimento do transporte clandestino. Desempregados usavam o dinheiro dos direitos trabalhistas, compravam kombis e vans e passavam a transportar passageiros em áreas carentes de transporte de ônibus, porém com demanda.

Atribuir ao desemprego industrial a única causa do aparecimento dos clandestinos, seria uma leviandade. O sistema de ônibus ainda estava longe do ideal e os transportadores clandestinos aproveitaram-se dessa brecha.

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De donos de jardineiras a empresários de ônibus

 

Na série de reportagens em homenagem aos 457 anos de Santo André, você vai saber como se iniciou o processo de profissionalização do transporte de ônibus na região e a mudança no comportamento dos donos das empresas.

FOTO 6 - Ônibus da família Setti

Por Ádamo Bazani

O negócio das Jardineiras se desenvolveu nos de 1930 com o crescimento da população e o desenvolvimento econômico, na região do ABC Paulista. O número de passageiros aumentava e os proprietários das jardineiras passaram a investir em mais veículos e linhas. Foi neste período, que eles começaram a se unir a parentes ou pessoas de confiança para criar as viações, ainda com estruturas acanhadas.

Os fundadores de uma linha de ônibus se associavam a empreendedores de outras linhas, para evitar a concorrência predatória e se fortalecerem no mercado. Este movimento marcou o início das principais empresas da época que a medida que se desenvolviam encapavam grupos menores. Exemplos deste novo perfil de investidores no setor foram as Auto Viação São Bernardo Ltda e Auto Ônibus Santo André, de 1931.

Em 1935, Antônio Brunoro, que já era comerciante, comprou da Companhia Geral de Transportes de São Paulo linha que saía do Parque Dom Pedro II, centro da capital, até Santo André. O serviço prosperou e três anos depois ele se associou a outros empreendedores, como Ésio Girelli, Luiz Brunoro, Luiz Flogli e Francisco Coelho formando das mais importantes viações intermunicipais do ABC, entre as décadas de 30 e 50, a Empresa Capuava de Auto Ônibus.

Nesta época, era comum o dono de uma única jardineira vender seu tímido patrimônio para os novos empresários. Sabia que não sobreviveria a concorrência imposta pelos maiores do setor e se via tentado pela boa proposta financeira que recebia. Dois casos que exemplificam isso são os serviços de ônibus na Vila Assunção e na Vila Pires, área de Santo André.

Em 1937, a Empresa Auto-Ônibus Vila Esperança fazia a ligação entre a Vila Assunção e a Estação de Trens, na região. A empresa pertencia aos irmãos Emílio e Virgílio Gambá. Bem antes disto, porém, na virada da década de 20 para a de 30, jardineiras já transportavam passageiros entre o bairro, um dos mais tradicionais do ABC Paulista, e a linha da então SPR. Inicialmente, prestavam o serviço as jardineiras do Seu Soares e de Romeu Splendori. Eles foram sucedidos por um tradicional morador, apelidado Zé Bucho. Ele era auxiliado pela mulher, Maria Aparecida, a Cidinha Há relatos de que ela tenha sido a primeira motorista e cobradora de ônibus de Santo André. Cidinha também limpava a jardineira e auxiliava na contabilização da féria do dia.

Na Vila Pires, em 1928, foi inaugurado um serviço de jardineira que também foi comprado por um empreendedor do ramo dos transportes. Mais uma vez a ligação entre o setor imobiliário e o de transportes. O simplório ônibus pertencia a Gabriel Pio Magalhães, que tomava conta da Chácara dos Cocos, quando a Vila Pires era loteada. O bairro, distante da ligação de trens, precisava de um serviço de transportes para se tornar atraente. A jardineira ficou com Gabriel Pio até 1938, quando Antônio Bataglia comprou a linha Vila Pires–Estação. Antônio Bataglia tinha participação na EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André, fundada em 1939, depois de já ter existido uma Empresa Auto Ônibus Santo André, em 1931. A família dele seguiu no ramo e se tornou uma das maiores investidoras em linhas de ônibus da cidade do ABC Paulista, fundando grandes empresas.

Aliás, uma característica importante a ser destaca na formação dos transportes em Santo André e nas demais áreas do ABC Paulista era a forte presença familiar nos negócios.

Isso havia sido herdado dos pioneiros donos de jardineiras. Lembra do exemplo do Zé Bucho, dono de um veículo que ligava a Vila Assunção à Estação, cuja mulher também dirigia, limpava e cobrava ? Pois é, guardadas as devidas proporções, as empresas de ônibus, em sua formação, envolviam quase todos os familiares dos donos no andamento dos negócios.

Um caso interessante é o de Manoel Maria Coelho. Em 1941, ele comprou uma jardineira que, também, rodava entre Vila Pires e Estação. Mas seus negócios realmente cresceram quando se uniu a toda família. Em 1943, juntaram-se a Manoel, Adriano e Lúcio, que operavam individualmente, e fundaram a Empresa de Auto-ônibus Manoel Coelho e Filhos Ltda. O que antes era apenas uma ligação entre a Vila Pires e a Estação de Santo André se transformou em outras várias linhas. Com a nova razão social, a família servia linhas da Estação de trens para a Fazenda da Juta (atual Parque Novo Oratório), Parque das Nações, Jardim das Maravilhas, Arraial de Santo Antônio (hoje Vila Camilópolis) e Vila Metalúrgica.

Nos anos de 1940, com estrutura familiar ou por sociedade, as empresas de ônibus já estavam consolidadas, em Santo André, apesar de ainda existirem serviços individuais.

De acordo com dados do poder público municipal, em 1942, estavam registradas as seguintes empresas: Empresa Auto- Ônibus Santo André, Empresa Capuava de Auto-Ônibus, Empresa de Auto Viação São Bernardo Ltda, Empresa Auto-ônibus Parque das Nações, Empresa Auto Viação Vila Pires Ltda, Empresa Auto_Ônibus Setti & Tosi, Empresa Auto Ônibus Irmãos Pezzolo, Empresa Auto Ônibus Vila Assunção Ltda, Empresa Auto Ônibus Vicente Merlino, Auto-Ônibus José Ângelo, Auto Ônibus Alfredo Veronesi, Empresa Serafim Constantino, Empresa Antônio Fonseca Sobrinho, Empresa Mário Guindani e Empresa Vila Valparaíso Ltda.

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Santo André, 457 anos contados a bordo do ônibus

 

Neste 8 de abril, a cidade de Santo André, no ABC Paulista, completa 457 anos, e o “Ponto de ônibus” inicia uma série de reportagens sobre a influência do transporte de passageiros para o desenvolvimento desta região, uma história que começa no trilho do trem, em 1867.

FOTO 2 - Paranapiacaba no final dos anos de 1890

Por Ádamo Bazani

O ABC Paulista não se tornaria um gigante populacional e econômico não fosse o sistema de transporte público. Até a segunda metade do século 19, a região tinha pequenos núcleos de moradias tipicamente agrícolas com áreas plantadas e criação de animais. Época em que o cultivo de café reinava absoluto na economia do estado de São Paulo.

A grande dificuldade dos produtores, também exportadores, era escoar a produção para o Porto de Santos, no litoral paulista. Problema solucionado com a construção da ferrovia Santos-Jundiaí, linha que passava pela Capital e ABC. Interligação ferroviária que nasceu com Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, em 1859.

Após convencer o governo imperial, o Barão levou o projeto a um dos maiores especialistas em ferrovia do mundo, o engenheiro britânico Jaime Brunlee, que veio ao Brasil e constatou a viabilidade da proposta. Era necessário, porém, encontrar uma pessoa disposta a desenvolver tecnicamente o traçado e a forma de operação desta ferrovia. Encontraram o engenheiro Daniel Makinson Fox que já tinha experiência em implementação de ferrovias em áreas de serra – importante pois a partir de Paranapiacaba a linha enfrentava pedaço íngreme da Serra do Mar. Desafio aceito, foi criada The São Paulo Railway Company Ltda (SPR) e as obras se iniciaram a todo vapor.

No alto da serra, a Vila de Paranapiacaba servia de acampamento para os operários. A ferrovia foi feita pelas mãos de milhares de trabalhadores, muitos perderam a vida devido às instabilidades do terreno. As rochas eram abertas com cunhas e pregos. Encostas desabaram e para evitar desastres maiores foram levantados paredões de até 20 metros de altura.

Depois de muita luta e de uma engenharia inovadora para os padrões da época – e surpreendente até os dias de hoje -, a linha Santos-Jundiaí foi inaugurada, em 16 de fevereiro de 1867.

A alta demanda de transportes gerada pelo café fez com que em 1895 se iniciasse a construção de uma nova linha, paralela a antiga. E foi nesta época que a região ainda não batizada de ABC Paulista começava a mudar. A ferrovia, além de levar café, atraiu estrutura e desenvolvimento urbano. O governo provincial criou colônis agrícolas nas áreas servidas pela estrada de ferro. Com os agricultores vieram comerciantes, loteadores, artesãos e operários.

A freguesia de São Bernardo, que correspondia a quase toda área atual do ABC, é elevada a município, pelo Governo Republicano, entre 1889 e 1890. Empreendimentos industriais passaram a ocupar a região mudando o perfil rural. Em 1890, perto do córrego Ypiranguinha, na área de Santo André, é inaugurada a tecelagem Silva Seabra e Co. Logo em seguida, veio a Streiff, fabricante de móveis, na região da Rua Coronel Oliveira Lima.

As indústrias também cresciam na Capital. Os terrenos próximos das fábricas se valorizavam muito e a maioria das pessoas que chegava a São Paulo e vizinhança não tinha dinheiro para comprar lotes perto dos pólos geradores de renda. A opção foi buscar cidades no entorno da Capital.

As áreas atendidas pelos trens, como a estação de São Bernardo (hoje, estação Prefeito Celso Daniel, de Santo André), recebiam uma estrutura diferente da época predominantemente agrícola. Tais locais também se valorizavam e somente empresas ou famílias ricas conseguiam comprar os terrenos. Os núcleos populacionais tipicamente urbanos se afastavam das linhas do trem. Os bairros surgiam cada vez mais distantes da Villa e da estação de São Bernardo. A necessidade de transporte ligando estes bairros ao centro, às linhas de trem e à capital era um fato.

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Bike Bus não é apenas para o lazer, diz secretário

 

Bike Bus em São Paulo

O Bike Bus, que você viu aqui Blog do Mílton Jung, foi apresentado à prefeitura de São Paulo pela Concessionária Sambaíba, que atende a zona norte, e começará a ser testado no dia 17 de abril. O equipamento permite o transporte de até três bicicletas instaladas pelo próprio ciclista em uma operação que não deve passar de 1 minuto e meio, segundo o secretário municipal dos Transportes Alexandre de Morais. O disposito tem uma tranca acionada pelo motorista que, além de transportar a bicicleta de forma segura, impede que ela seja roubada.

Em resposta a comentários feitos por ouvintes-internautas do Blog, Alexandre de Morais disse que não pretende restringir o uso do Bike Bus a linhas que circulem por parques municipais e fins de semana, apesar de ser isto o que vai ocorrer no período de teste. Ele afirmou que se for aprovada, a intenção é que todas as concessionárias passem a usar o equipamento, atendento as pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte diariamente, não apenas como lazer.

Ouça a entrevista de Alexandre de Morais ao CBN São Paulo, nesta quarta-feira.

As imagens do Bike Bus, mostradas em primeira mão no Blog do Mílton Jung, foram feitas pelo colaborador e ouvinte-internauta Luis Fernando Gallo.

Acidente de carro vira briga eleitoral, no Blog

 

Um acidente de carro e a intolerância política transformaram a notícia do primeiro capotamento no trecho sul do Rodoanel, na segunda-feira, em um embate sem eira nem beira. Ou com beira no absurdo, aqui no Blog.

A informação publicada em primeira mão, ontem, e a reclamação de Elaine Utiyke que se sentiu vítima das condições da estrada passaram a ser atacadas por leitores que entenderam haver conotação eleitoral no conteúdo divulgado. Houve quem suspeitasse até do número de vezes que o veículo rodou na pista.

Teria a motorista forjado o acidente para manchar o bom nome do Rodoanel ?

Imagens feitas pela repórter Cátia Toffoletto, divulgadas no site da CBN, e entrevistas publicadas em vários veículos de comunicação mostraram motoristas desorientados fazendo manobras perigosas, nestes primeiros dias.

Estariam eles a serviço de algum partido político, também ?

Claro que não, e talvez até tenham sido desatentos ou descuidados. Mas não se pode reduzir toda a discussão a preferências partidárias. É evidente que houve falhas de comunicação e há dúvidas em relação a segurança do trecho sul, apesar do esforço da Dersa em garantir que não há qualquer perigo na pista.

Isto é tão claro quanto o fato de que haverá redução no trânsito da Marginal Pinheiros e na avenida Bandeirantes, ao menos até o início da cobrança do pedágio, ano que vem. Ou até a frota de carros e caminhões alcançar novamente a capacidade máxima destas vias que estão dentro da cidade de São Paulo.

Qualquer argumento, porém, perde o sentido para quem pensa que o mundo gira em torno de PSDB e PT.

Se estes sintomas “eleitorais” se agravarem, em breve o Rodoanel será reservado aos tucanos, e a avenida Bandeirantes, aos petistas. Quanto aos demais, ficaremos em casa assistindo ao espetáculo que se desenrola no palanque.

São Paulo testa ônibus para bicicleta

 

Bike Bus em São PauloÔnibus e bicicleta nunca se deram bem na cidade de São Paulo. E o prejuízo maior, claro, sempre é de quem pedala. Por isso, chama atenção a iniciativa da Secretaria Municipal dos Transportes, flagrada pelo ouvinte-internauta Luis F. Gallo, nesse início de semana, diante da sua sede, na Rua Boa Vista, centro.

O ônibus tem na parte dianteira um equipamento capaz de transportar até duas bicicletas. O “Bike Bus” seria usado em linhas que passam pelos parques da cidade, permitindo que o ciclista se desloque até lá com mais facilidade, utilizando os dois modelos de transporte, principalmente nos trajetos mais longos.

Veja mais fotos do “Bike Bus” em São Paulo no Flickr do CBN SP

Outras iniciativas no mundo

Double deck com bicicletaUm sistema semelhante é usado há cerca de 10 anos em cidades do Canadá, conforme mostramos no post “Ônibus e bicicleta, uma antiga relação de amor”, em 02.10.08, com a colaboração do nosso busólogo Ádamo Bazani (hoje ele está com tudo aqui no blog). Na reportagem dele, vimos, inclusive, uma das primeiras experiências – e bem mais complexa – registrada na inglesa Dartford, em 1963, com a adaptação de um ônibus de dois andares, no qual os passageiros viajavam na parte de cima e as bicicletas na de baixo (foto ao lado).

A pressão das montadoras e o desenvolvimento do “ônibus limpo”

 

Em mais uma parte da entrevista com a executiva da Eletra, Ieda maria Alves de Oliveira, a reportagem traça as barreiras corporativas para o desenvolvimento de tecnologia limpa e a perspectiva de crescimento deste setor.

Primeiro ônibus elétrico híbrido

Por Adamo Bazani

“As grandes montadoras internacionais impedem suas filiais de desenvolver tecnologias limpas para ônibus antes de suas matrizes”. Seja por questões culturais ou prioridade de investimentos é o que acontece no mercado, segundo a gerente geral da Eletra, Ieda Maria Alves de Oliveira. Resultado deste comportamento é o desperdício de oportunidade de crescimento do Brasil. Aqui, há profissionais capacitados em condições de desenvolver projetos de tecnologia limpa, conta a representante de uma das companhias nacionais com maior capacidade no setor.

“As montadoras não colaboram com quem produz sistemas de tração limpa. Não há uma política de compensação de preços. Por exemplo, para embarcar num ônibus o motor e a tração elétrica e híbrida, compramos chassis praticamente pelados. Dispensamos o motor e também a transmissão (o câmbio e o equipamento de embreagem). Isso reduz em até 40% o valor do chassi, mesmo assim, temos desconto de apenas 5% a 10%. E não há nenhuma atitude do poder público para compensar isso”.

Assim, em vez de os chassis se adaptarem à alta tecnologia de tração, o que seria bem mais fácil e mais barato, são as empresas de tecnologia que têm de se adaptar aos chassis nacionais. Para isso, é investido um montante muito grande para alterar motores, sistemas de geração e funcionamento dos ônibus limpos.
“Temos de alterar potência de motor, número de componentes, baterias armazenadoras, equipamentos eletrônicos. Se houvesse essa sinergia, sairia mais barato para todo o mundo”. – explica.

Ieda conta que hoje não existe um chassi específico para trólebus no Brasil. É necessário pegar um ônibus convencional e adaptá-lo, seguindo suas normas técnicas e limites. Esse também é um dos motivos de um trólebus com baterias armazenadora fabricado no Brasil não ser usado aqui e operar na Nova Zelândia. Com a bateria, o trólebus ficaria mais pesado e necessitaria de um chassi mais reforçado, com um eixo mais forte, o que não existe no Brasil para este tipo de aplicação.

“A Nova Zelândia, que se beneficia das baterias que dão autonomia aos trólebus brasileiros que operam lá, não precisou fazer um super chassi. Eles apenas colocaram um eixo traseiro a mais, deixando o ônibus trucado. Um aumento de custo irrisório frente ao benefício de eficiência energética gerado por este sistema de baterias” – garante José Antônio do Nascimento, também da Eletra.

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Pauta do dia no #cbnsp 31.01.2010

 

6341Rodoanel e o impacto – O trecho sul do Rodoanel será aberto às seis horas da manhã dessa quinta-feira, 1º de abril. E no CBN SP discutimos sobre o reflexo que esta obra pode ter no trânsito da capital paulista. Duas opiniões totalmente diferentes.

O professor das faculdades de Arquitetura e Urbanismo da USP e Mackenzie João Sette Whitaker entende que a obra terá alguma impacto em até um ano, no máximo: “O aumento da frota de carros logo trará de volta os congestionamentos”. O professor também alerta para o impacto ambiental que o Rodoanel irá gerar na região dos mananciais.

O secretário estadual de Transportes Mauro Arce defende que mesmo com a cobrança de pedágio o volume de caminhões que deixará de circular por dentro da cidade será suficiente para amenizar o impacto no trânsito. Ele entende que o Governo criou mecanismos para impedir o adensamento na área do Rodoanel e preservação do meio ambiente.

Ouça aqui as duas entrevistas sobre o novo trecho do Rodoanel e outras informações.

M’Boi Mirim e trânsito – A SPTrans implantou uma faixa reversível para reduzir o tempo de viagem dos ônibus na estrada do M’Boi Mirim, na zona sul de São Paulo. Porém, conforme informações levantadas pela repórter Mônica Pocker a medida não foi suficiente para melhorar a situação dos passageiros. Há duas semanas, moradores promoveram protestos na região contra a falta de qualidade do serviço de transporte público.

Sujeira na Mooca

Cidade e sujeira – A região central de São Paulo tem vários pontos tomados pelo lixo, como constatou em reportagem Cátia Toffoletto, nesta manhã. Um dos locais nos quais encontrou “montanhas” de sujeira e entulho foi a rua  Diogo de Mendonça com a avenida Presidente Wilson que você vê na foto.

Esquina do Esporte – O São Paulo erra ao ter como meta o empate contra o Monterrey, no México, pela Libertadores. A opinião é de Deva Pascovicci que debateu o assunto com Marcelo Gomes, no CBN SP. Ouça aqui.

Falta de visão prejudica tecnologia limpa, no transporte

 

Executiva da Eletra avalia os investimentos no sistema de ônibus e aponta equívocos nas políticas públicas de transporte de passageiros em entrevista exclusiva ao “Ponto de Ônibus”

Trólebus Caio Millenium II - Mercedez Benz/Eletra

Por Adamo Bazani

O Brasil erra e erra feio quando o assunto é política de transportes. A opinião é da gerente geral da Eletra, Ieda Maria Alves de Oliveira, companhia nacional especializada em fabricação de ônibus com tecnologia limpa. Para ela, há uma visão imediatista num setor que necessita de soluções emergenciais, é verdade, mas também de planejamento para que o serviço alcance níveis de excelência, economia e velocidade, além de benefícios ambientais.

“Hoje houve uma mudança de comportamento da sociedade. A questão ambiental, antes esquecida, agora é uma cobrança e as autoridades devem corresponder a isso. Os gastos com poluição são enormes e a queda de qualidade de vida é notória. Assim, na hora de optar por um sistema convencional e de tecnologia limpa, não basta ver qual é o simplesmente mais barato, mas o mais vantajoso. O dinheiro que se gasta na adoção de um sistema de trólebus ou de ônibus híbrido, retorna através de gastos menores no sistema de saúde, economia operacional maior e vida útil mais longa dos veículos”

Ieda disse ter visto exemplos claros de como a aplicação em tecnologias poluentes tem impacto não apenas ambientais, mas na estrutura das economias locais, também.

“Um dos casos que mais me chamaram a atenção foi no corredor da Avenida Santo Amaro (zona Sul da Capital Paulista). Há alguns anos, foi retirada toda a rede de trólebus e as operações começaram a ser somente com veículos a diesel. Muitos estabelecimentos comerciais que mexiam com alimento, simplesmente fecharam suas portas. Com o número maior de veículos a diesel, as pessoas não suportavam se alimentar com tanta fumaça e calor no ar. Os comércios que vendiam roupas também foram prejudicados. Donos de lojas de roupas me disseram pessoalmente que não davam conta de limpar os produtos. Passava um pano, um espanador, uma hora depois estava empoeirado. Assim, tecnologia limpa em relação a transporte público, não é somente um papo de ambientalista. Representa qualidade de vida e melhoria econômica”

A gerente da empresa afirma, no entanto, que a questão ambiental é grave, mas não tem sido vista de maneira séria pelo poder público.

“Um veículo a diesel produz por litro de combustível consumido aproximadamente 2,7 kg de carbono que são jogados na atmosfera. Isso tudo vai para o pulmão das pessoas. E nesse caso, a poluição é democrática. Ela atinge tanto o rico, dentro de seu carro, proporcionalmente mais poluidor que o ônibus diesel, como o pobre. Agora, vamos fazer a conta, se um ônibus convencional urbano roda cerca de 6 mil quilômetros por mês, e o consumo de diesel é de cerca de 1,8 km por litro, imagine quanto carbono é lançado na atmosfera. Por isso, as medidas devem ser levadas a sério, o que não acontece.

A qualidade do diesel produzido no Brasil é um exemplo disso:

“Atualmente, os motores têm de seguir o Padrão Euro III, com menos emissões. Mas nosso diesel, em todo o País, não é de qualidade. O que adianta termos motores bons com combustível ruim. É só olhar para o escapamento de um ônibus novo. Perceba a fumaça que ele solta. Nunca que este veículo está seguindo os padrões mais modernos. O que acontece, no meio ambiente e no transporte, é que se pratica a política do faz de conta. Trazem à população uma informação, uma ilusão, mas a realidade da rua, de quem respira o ar das grandes cidades, é totalmente diferente”.

Ieda Maria Alves de Oliviera ao lado do colega José Antônio do Nascimento, da Eletra

Nem a forma de concessão para explorar o serviço de transporte, escapa do olhar crítico de Ieda Maria Alves de Oliveira:

“A maioria dos contratos se dá de forma emergencial e é dado pouco prazo de concessão para o operador. Sem a certeza de que vai continuar em determinado mercado por um bom tempo, o dono de empresa de ônibus não vai investir num veículo como o trólebus, que pode durar até 30 anos, mas é mais caro. E se no final do contrato ele não consegue renovação? O que ele vai fazer com um veículo que ainda vai durar um bom tempo, mas não tem mercado de revenda? Assim, contratos por períodos curtos, de sete, dez anos, não dão estabilidade para investimentos maiores” .

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Trólebus mais moderno chega 2a. às ruas de São Paulo

 

Novo ônibus elétrico sai as ruas semana que vem com gerenciamento eletrônico das operações, telas LCD para informações a passageiros e motoristas

Trólebus mais moderno (Foto de Alexandre Bernerdes)

Por Adamo Bazani

Um novo modelo de trólebus, mais leve, mais tecnológico e mais econômico sairá às ruas de São Paulo, nessa segunda-feira, 29.03, em mais uma etapa do teste que se realiza, neste momento na garagem da Viação Himalaia, na zona leste de São Paulo. O “Ponto de Ônibus” teve acesso em primeira mão ao novo veículo.

Para rodar em São Paulo, o trólebus transportará galões de água ou sacos de areia que simularão o peso dos passageiros e permitirão melhor avaliação do comportamento dele em parte das linhas existentes.

O veículo é resultado de parceria entre a TuttoTrasporti, que desenvolveu o chassi, a Ibrava, responsável pela carroceria, a WEG, pelo motor de tração, além da Iluminatti e da Bosch, que ficaram com o gerenciamento, sistema de operação e integração do conjunto.

De acordo com o diretor comercial da Iluminatti Tecnologia, Edson Corbo, o trólebus paulistano traz inovações nunca antes usadas no Brasil. Por exemplo, o sistema de refrigeração de tração a água, em vez de ar: “Isso traz um enorme ganho operacional ao veículo. Em primeiro lugar, com este sistema ele pesa menos 400 quilos em relação aos trólebus mais modernos já desenvolvidos no Brasil. A ausência deste “peso morto” faz com que as operações sejam mais rápidas, o consumo de energia melhor e possibilita que o veículo leve mais passageiros, pois além de mais leve, o sistema de refrigeração a água ocupa menos espaço no trólebus”.

A lógica é que com menos peso do equipamentos, o ônibus precisa fazer menos força para se locomover, gasta menos energia e tem um desempenho em arranques e velocidades melhorados.

O novo trólebus também conta com uma inovação batizada Multiplex – um computador a bordo que gerencia a parte técnica e operacional embarcada na carroceria, como nivelamento do veículo, funcionamento de dispositivos (entre eles, as portas ) e sinalização e aceleração, por exemplo. A vantagem é que o sistema, além de permitir melhor controle sobre o ônibus, elimina o excesso de fios dos componentes por ser uma rede microprocessada.

Outra inovação, apresentada pela Iluminatti é a tecnologia IHM – Interface Homem X Máquina. No painel, o motorista contará com uma tela de LCD, que acionada apenas pelo toque dos dedos, mostra toda a performance do veículo, para que o motorista possa operá-lo melhor. “Assim, qualquer possível problema pode ser detectado de maneira rápida e corrigido ainda durante a operação” – garante Edson. O IHM também tem uma memória sobre o histórico de operação do dia do ônibus. Frenagens bruscas, defeitos no sistema e pontos de consumo maior de energia fazem parte dos registros. Isso facilita a manutenção do ônibus e permite traçar parâmetros operacionais para uma condução mais econômica e viável por parte do motorista.

Segundo Edson Corvo, diretor Comercial da Iluminatti Tecnologia, o ônibus elétrico é monitorado o tempo todo: “O sistema Multiplex  permite o gerenciamento por computador de bordo, o IHM, o gerenciamento total das operações, com registros de desempenho e forma como o veículo foi conduzido, além disso, o trólebus tem um sistema de GPS, que permite monitoramento em tempo real por profissionais na garagem, enquanto o veículo estiver nas ruas. Hoje o grande diferencial da indústria e da economia é a informação. E este trólebus foi concebido para privilegiar a informação em diferentes níveis”.

O passageiro também será privilegiado com informações a bordo, de acordo com o gerente comercial. Em parceria com a Bosch foi desenvolvido um sistema de comunicação, com telas de LCD dentro do ônibus, para os passageiros verem qual o próximo ponto de parada, o trajeto do serviço, horários e informações de utilidade pública ao longo da viagem. A parceria com a Bosch possibilitou a instalação no veículo de câmeras internas e externas para aumentar a segurança e ajudar a monitorar os serviços.

Edson adiantou que há estudos para que mais trólebus deste modelo contem com baterias armazenadoras da energia absorvida da rede aérea e produzida pela frenagem do carro: “Em caso de queda de energia da rede, queda do pantógrafo ou mesmo para deslocamentos pequenos dentro da garagem, o trólebus poderá funcionar independentemente da rede aérea por alguns quilômetros, dependendo do tipo de bateria instalada. Isso, além de deixar o tóolebus mais flexível no trânsito, vai permitir que se construam garagens de trólebus mais baratas, com redes aéreas menos complexas. Se depender da indústria nacional, o trólebus que já é ambientalmente mais vantajoso e tem uma durabilidade maior, vai se tornar um veículo menos caro e mais atraente para o frotista e gerenciador público”.


Leia também: “Tecnologia nacional faz transporte coletivo mais limpo”

Adamo Bazani é busólogo e jornalista da rádio CBN. Escreve, originalmente, às terças-feiras no Blog do Mílton Jung, mas nunca perde o bonde da história.

N.B: A imagem foi feita por Alexandre Bernardes