História dos ônibus: a cidade cresce e surge a CMTC

 

Na segunda parte da série sobre a história do ônibus na cidade de São Paulo, a reorganização do sistema de transporte coletivo na capital e o surgimento da CMTC são os destaques. Os bondes haviam ficado para trás.

FOTO 5- Ônibus norte-ameticano importado pela CMTC

Por Adamo Bazani

Em menos de dez anos, a frota de ônibus na cidade de São Paulo cresceu de 400 carros, em 1932, para 3 mil, em 1941, ano em que já havia 90 linhas regulares. A frota de bondes se mantinha em 500 veículos.

As concessões e permissões para as empresas atuarem eram dadas pelo poder público, mas muitos ônibus clandestinos circulavam na cidade. O serviço de transporte e o trânsito começaram a sair do controle das autoridades. Empresas se digladiavam pelas linhas mais rentáveis enquanto as regiões com população menor e mais afastadas sofriam com a carência de transporte coletivo. Há relatos de ameaças entre donos de ônibus interessados em explorar linhas nos bairros mais interessantes.

Mesmo sendo um transporte por asfalto, era necessário colocar os ônibus nos trilhos.

Ainda havia um agravante. A Light mostrava-se desinteressada em explorar os transportes na cidade frente a concorrência dos ônibus. O bonde não trazia mais o mesmo lucro. O sistema de ônibus era caro para ser implantado. Investia-se tempo e dinheiro numa linha e da noite para o dia aparecia o dono de um ônibus para explorar o mesmo trajeto.

A Light queria deixar as operações de transportes em 1941, término de seu contrato inicial, mas por determinação do Governo Federal, devido a escassez de petróleo, gerada pela Segunda Guerra Mundial, foi obrigada a prestar serviços até 1946.

Devido a desorganização do sistema de ônibus, o abandono dos bondes e o trânsito caótico, o prefeito Prestes Maia criou a Comissão de Estudos de Transporte Coletivo do Município de São Paulo – CETS. Em 1943, a comissão entregou o primeiro “raio x” do setor e, em função do panorama traçado e do fim das operações da Light, sugeriu-se o monopólio governamental do Sistema de Transportes Coletivos. Além de o poder público municipal assumir os bondes, deveria racionalizar as linhas de ônibus evitando trajetos sobrepostos e atendendo bairros desassistidos.

Desenhava-se a criação de uma empresa de transporte coletivo municipal, o que foi ocorreu alguns anos mais tarde.

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A história dos ônibus na cidade de São Paulo

 

Em comemoração aos 456 anos da cidade de São Paulo, o Ponto de Ônibus do repórter Ádamo Bazani terá uma edição especial com reportagens diárias sobre a história do transporte público na capital paulista. Na primeira parte você acompanhará a migração dos passageiros de bonde para os ônibus.

FOTO 1 - ônibus Yellow Cocah da Light

Por Adamo Bazani

Quando se fala na cidade de São Paulo, se fala em ônibus. E isso não é papo de busólogo. Os números e a história de como se deu o desenvolvimento urbano da Capital mostram essa realidade. E nada melhor do que na época em que a cidade faz 456 anos, relembrar a fase que esse modal de transporte se consolidou na cidade, entre 1940 e 1950.

A SPTrans, responsável por gerenciar o transporte coletivo na cidade de São Paulo, as catracas dos ônibus foram rodadas 2 bilhões, 627 milhões, 234 mil e 312 vezes. Só de ônibus municipais, são 14 mil 935 veículos, que prestam serviços em 1.346 linhas. Os dados são de janeiro a novembro de 2009  e mostra por que São Paulo também é a maior capital da América Latina quando o assunto é ônibus.

Esta história começou nos anos 20, quando pequenos empreendedores e desbravadores urbanos entenderam que a cidade haveria de se transformar em metrópole. A maneira como a capital se desenvolveu e a crise de energia elétrica tornaram os ônibus o meio de transporte coletivo mais importante. Até então, os bondes é que transportavam passageiros.

A primeira linha de bonde elétrico que se tem registro na cidade de São Paulo é de 7 de maio de 1900, inaugurada pela Companhia Viação Paulista. Um ano depois, a empresa que ligava Barra Funda ao Largo São Bento faliu e  a Light & Power Co. assumiu o posto. A cidade tinha 240 mil habitantes e a população estava em pleno crescimento devido ao perfil industrial que atraia muitos trabalhadores

Inicialmente, as indústrias eram construídas na região atendida pela linha de trem da São Paulo Railway, que ligava Santos  a Jundiaí, passando pelo ABC Paulista e capital. Idealizada por Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, e engenheiros ingleses, a linha de trem foi inaugurada em 16 de fevereiro de 1867. Tornou-se o principal meio de escoamento da produção agrícola para Santos.

Com a São Paulo Railway, a cidade se tornava interessante para a indústria. Com a indústria, a cidade se tornava interessante para migrantes. E com a população maior, a cidade se tornava interessante para outros meios de transporte.

Os terrenos próximos do parque industrial ficavam mais caros e os bairros com características urbanas se afastaram das margens das estações de trem e do centro da cidade, tornando necessária a ligação por transporte coletivo entre as zonas residências e o local de trabalho. Nas duas primeiras décadas do século 20, os bondes davam conta da demanda, mas os trilhos tiveram de alcançar áreas cada vez mais distantes. A cidade crescia de forma desorganizada e em velocidade que superava a capacidade de implantação de mais trilhos. Eram locais distantes e, muitas vezes, om relevo que dificultavam a passagem dos bondes.

Ganharam espaço, assim, os auto-ônibus, modalidade mais flexível, que apesar de enfrentarem ruas estreitas e de terra tinham capacidade para chegar  onde os trens não alcançavam. Além disso, era mais barato colocar um ônibus a circular do que abrir caminho para os bondes.

Foi nesta época que o serviço de auto-ônibus se consolidou em São Paulo, mas este já existia antes dos anos 20. Em 1910, a indústria de carruagens Irmãos Grassi construiu para a Hospedaria dos Imigrantes uma carroceria de auto-ônibus sobre um chassi francês Dion Bouton, que levava os imigrantes recém chegados ao Brasil das estações de trem até a Hospedaria. Em 1911, foi inaugurada a primeira empresa de ônibus registrada na cidade de São Paulo que se tem conhecimento: a Companhia Transportes Auto Paulista que tinha um veículo de carroceria de madeira com mecânica Saurer. O pequeno ônibus transportava até 25 passageiros, sem itinerário e horário fixos. No mesmo ano, há o registro de um serviço de auto-ônibus que pela manhã transportava passageiros que utilizavam a Estação do Brás e, à tarde, realizava viagens para o Parque Antártica e Avenida Paulista. Havia apenas dois mil carros na cidade.

A maior parte das experiências de transporte por auto-ônibus antes dos anos 20 era tímida: as linhas curtas, os veículos bem primitivos e os serviços duravam pouco tempo.

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Passagem a R$ 2,70 só em 2010 custou R$ 783 milhões

 

Transporte de ônibus em São Paulo (Foto: Marcos Paulo Dias)

E por falar em comunicação, a nota que recebi da prefeitura de São Paulo explicando o aumento no valor da passagem de ônibus tinha 25 linhas e nove parágrafos para apenas no último anunciar que a o paulistano iria passar a pagar R$ 2,70, a partir de 4 de janeiro de 2010.

O congelamento da tarifa neste ano foi promessa de campanha do prefeito Gilberto Kassab e para que esta fosse cumprida foram repassados para as empresas de ônibus R$ 783 mi – dinheiro que, lógico, saiu do cofre público. Mas isto não está na nota oficial da prefeitura.

Leia a justificativa oficial:


“A Prefeitura da Cidade de São Paulo concluiu, com o apoio da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), os estudos para definição do novo valor da tarifa de ônibus municipal, após três anos sem reajuste algum.

A partir dos diversos estudos, a Prefeitura optou pela aplicação da alíquota de 17,4%, que corresponde apenas à defasagem provocada pela inflação desde novembro de 2006, quando foi feito o último reajuste.

Nesse período em que a passagem de ônibus permaneceu com o mesmo valor, a Prefeitura e a SMT promoveram uma série de benefícios para os usuários do transporte público.

Renovação de mais da metade da frota, com a substituição de 8.100 ônibus por novos, mais confortáveis, seguros e maiores, o que gerou uma maior oferta de lugares, tornando-se, assim, a mais nova frota da história de São Paulo.

Aumento da frota acessível. Hoje São Paulo conta com 3.675 ônibus acessíveis distribuídos por todas as linhas que circulam na cidade;

Extensão da validade do Bilhete Único de 2 para 3 horas, possibilitando que mesmo aqueles que moram nas áreas mais distantes possam completar a viagem pagando apenas uma tarifa;

Criação do Bilhete Amigão, que permite ao usuário do Bilhete Único fazer quatro viagens de ônibus em até oito horas, aos domingos e feriados.

Na sexta-feira, dia 18 de dezembro de 2009, conforme determina a Lei Orgânica Municipal, o secretário Municipal de Transportes, Alexandre de Moraes, entregou pessoalmente ao presidente da Câmara Municipal, ofício assinado pelo Prefeito Gilberto Kassab com as informações e planilhas detalhadas.

Com esse reajuste, o valor da passagem passará para R$ 2,70 (dois reais e setenta centavos), a partir do dia 4 de janeiro de 2010, O valor do Bilhete Único que faz integração com o Metrô passará de R$ 3,65 para R$ 4,00”

Passarelli e a tecnologia no transporte de passageiros

 

Por Adamo Bazani

No terceiro e último capítulo da história do empresário Sebastião Passarelli, fundador de grande parte das empresas de ônibus do ABC Paulista, você acompanhará a evolução tecnológica dos ônibus e os caminhos que levaram o setor a investir em corredores exclusivos.

Importação de ônibus

O investimento em tecnologia e inovação transformou o setor de transportes de passageiros e obrigou os empresários a mudar a forma de gerenciar seu negócio. Houve evolução dos sistemas operacionais como a alimentação elétrica (trólebus) e o desenvolvimento de corredores para atender a maior demanda que exigiam veículos articulados e biarticulados.

Para Sebastião Passarelli, 81 anos, “o desenvolvimento tecnológico trouxe benefícios e ônus para os empresários”. Um serviço de maior qualidade, veículos mais seguros, econômicos, com maior capacidade, diversidade de encarroçadoras e montadoras estão na lista dos benefícios. Na dos ônus:

“Quem não investiu nas novas tecnologias e não abriu a mente no sentido de que não dava mais para operar ônibus de forma artesanal por causa da grande demanda de passageiros e exigências legais, ficou para trás”

Uma das marcas desta nova etapa foi o desenvolvimento de novas carrocerias. Quando a família Passarelli, nos anos 1930 e 1940, começou a trabalhar no setor os ônibus “jardineiras” tinham carroceria de madeira sobre chassis de caminhão, fabricados pela Ford e General Motors.

O Brasil teve sua primeira encarroçadora de ônibus profissional em 1920, a Grassi dos  irmãos Luiz e Fortunato Grassi. A empresa foi fundada em 1904, na Rua Barão de Itapetininga, 37. Em 1910, fez para a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, sobre um chassi de Dion Bouton, de fabricação francesa, o primeiro ônibus com capacidade para 45 passageiros. Em 1920, se dedicou exclusivamente à construção de carrocerias para ônibus. Até então, todas de madeira.

Os avanços tecnológicos no exterior, como os modelo Coach dos Estados Unidos, e a maior exigência dos consumidores internos, fizeram esta indústria evoluir. Em 1945, Mário Sterka, ex-diretor da Volvo, fundou a Carbrasa (Carrocerias Brasileiras S.A.) e fez o primeiro ônibus de aço coberto de alumínio. A Carbrasa foi inaugurada no Rio de Janeiro, ao lado da Volvo, fabricante de chassi e motores.

Em 1948, a General Motors produziu a primeira carroceria metálica 100% brasileira. No mesmo ano, a Carroceria Metropolitana do Rio de Janeiro, fundada por João Silva, Waldemar Moreira, e Fritz Weissman, começou a empregar alumínio nas carrocerias.

Já em 1960, a Companhia Industrial Americana de ônibus, a Caio, fundada em 19 de dezembro de 1945 por José Massa, apresenta a primeira carroceria de ônibus tubular, a Caio Bossa Nova.

A Ciferal, fundada em 11 de outubro de 1955 foi uma das primeiras empresas a usar o duralumínio, material muito mais leve e flexível e se transformou em fornecedora exclusiva da Viação Cometa, com o tradicional modelo Dino, inspirado nos ônibus americanos da Greyhound.

Mas as inovações não paravam aí.

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Congestionamento: não saia de casa com ele

 

Por Carlos Magno Gibrail

http://www.flickr.com/photos/olhopreto/

O Movimento Defenda São Paulo, o prof. Cândido Malta e o vereador Ricardo Teixeira, tem idéias e sugestões semelhantes sobre um dos problemas principais da cidade de São Paulo. Para resolvê-lo só falta combinar com os russos.

Os russos são os cidadãos paulistanos e os governos Municipal e Estadual.

É o que depreendemos da entrevista de Ricardo Teixeira, que não é o da CBF, mas do PSDB, dada ao jornalista Milton Jung, e da conversa que tivemos com o arquiteto Cândido Malta e a arquiteta Lucila Lacreta do MDSP.

Teixeira insiste no benefício aos alternativos meios de transporte, depois de punir os automóveis com dois dias de rodízio. Última medida que efetivamente reduziu o congestionamento.

– Reescalonamento de horários; transporte solidário, faixas exclusivas para motocicletas melhorando as 600 mil viagens diárias; faixas exclusivas para bicicletas nas 300mil viagens diárias, incluindo estacionamento; tarifas mais baixa para táxis.
– Proibição de estacionamento para automóveis e aumento do rodízio de um para dois dias da semana.

Lucila enfatiza a posição do MDSP que mira nos transportes coletivos, na continuidade dos planos tipos corredores de ônibus e transportes em trilhos, bem como na desistência das obras paliativas que ignoram a demanda reprimida.

O Professor Malta lembra o trinômio problemático da cidade, ou seja, o congestionamento, as enchentes e a habitação. Além de interdependentes, bem atual, na medida em que ontem tivemos colossal paralisação da cidade revertendo no final do dia a zero km de congestionamento, graças a tragédia anunciada mais uma vez da enchente que viria e mataria mais alguns paulistanos. Enquanto Prefeito e cidadãos, míopes ou estrábicos dirigem as análises para dispersas soluções. A busca de votos por um lado e a ignorância pela ilusão de ótica e pelo egoísmo leva a uma necessidade de conscientização da população ludibriada pela propaganda do carro e dos candidatos. Senhores absolutos.

Cândido Malta enfático sobre a impossibilidade da solução pelo transporte individual traz o seguinte raciocínio aritmético usado pelos técnicos: dado os 600mil veículos vendidos anualmente na cidade e considerando 5m para cada carro, precisaríamos de 125 avenidas Paulista com quatro faixas para abrigar esta quantidade. A demanda reprimida coloca apenas 25% destes carros na rua e ainda assim precisaríamos de 31 avenidas Paulista.

A limitação é inevitável, pois o número de carros é maior do que a oferta de espaço. A solução está menos nos números que são irrefutáveis mas que por razões emocionais ou mesmo de desconhecimento não estão sendo digeridos pela população.

O pedágio urbano uma das alternativas é veementemente rechaçado pelos cidadãos que insistem no direito de ir e vir, de carro. Como se este estabelecimento democrático tivesse sido criado na época do automóvel, ou como nascêssemos de carro.

No momento em que a Economia brasileira e a paulista dão sinais de força e crescimento não é admissível apostar apenas no tempo de maturação para que população e governo se dêem conta de que congestionamentos de trânsito podem brecar o progresso. Precisamos de ordem, ordem e progresso.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, às quartas escreve no Blog do Mílton Jung e sabe que o congestionamento custa bem mais caro que o pedágio.


Visite a galeria de fotos de Olho Preto, no Flickr

Vereador explica rodízio de 2 dias

 

A falta de discussão em torno do projeto de lei que aumenta a restrição de circulação de trânsito na capital paulista incomoda o vereador Ricardo Teixeira (PSDB), autor da ideia. Ele disse que nas audiências públicas faltam questionamentos pelo cidadão e não há apresentação de proposta para melhorar o texto aprovado em primeira votação.

Teixeira explicou ao CBN São Paulo como funcionaria o rodízio de carros em dois dias da semana, com restrição de circulação para quatro finais de placa a cada dia. Além disso, falou sobre outras medidas propostas como a criação de ciclofaixas interligando todos os parques da cidade, faixa com prioridade para motos e carros com mais de um passageiro, e a mudança no horário do comércio para evitar o deslocamento no horário de pico.

Ouça a entrevista do vereador Ricardo Teixeira (PSDB) ao CBN SP

Sebastião Passarelli, a história do transporte

 

Por Adamo Bazani

A família dele fundou a maior parte das empresas de ônibus que serviu o ABC Paulista. Desde cedo, desbravou cidades e ajudou no desenvolvimento viário de parte do interior do Estado e da região metropolitana. Com tanto a se contar, a história de Sebastião Passarelli será apresentada em capítulos a partir de hoje.

Viação São José, nos anos 60

O setor de transportes de passageiros passou por várias fases ao longo da história. A começar pela época em que os donos de ônibus, a maior parte pequenos empresários, tinham de colocar a mão na graxa e dirigir os próprios veículos, além de abrir com enxadas e com as rudimentares jardineiras, pequenos caminhos no meio do mato, que depois se tornaram estradas importantes, e ajudar a povoar pequenos vilarejos, muitos dos quais conhecidos bairros da região.

Depois, veio a fase do crescimento industrial, no qual o setor enfrentou duas realidades: a da modernização das cidades e frotas e uma organização trabalhista mais forte, que exigia dos donos de viações, agora não mais pequenos empresários, poder de negociação. Isso tudo até chegar a fase do empresário que não suja a mão na oficina mas que é mais exigido nas negociações com autoridades públicas para a prestação de serviços e que também é obrigado a se adaptar as mudanças que ocorrem numa velocidade muito maior que a época dos desbravadores. A cada ano são apresentados modelos novos e de um ano para outro um ônibus pode se tornar obsoleto, tanto por causa das exigências legais, como das necessidades operacionais. E nada melhor do que quem viveu e vive estas etapas para contá-las melhor para a gente.

Um dos personagens que presenciaram e participaram desta história é o empresário Sebastião Passarelli, hoje com 81 anos. Só no ABC Paulista, ele fundou e adquiriu pelo menos 16 empresas de ônibus, entre elas Viação São Lucas, Viação São Victor, Viação São Luis, Viação Humaitá, Viação Campestre, Viação Bartira, E.A.O.S.A.- Empresa Auto- Ônibus Santo André -, Viação Ribeirão Pires, Viação Barão de Mauá, Viação Santa Terezinha, Viação São Camilo, Penha, Viação Tucuruvi, Viação Santa Paula, Viação São José, Expresso Guarará, entre outras.

O dom de transportar está no sangue dos Passarelli há várias gerações. Nos anos 30, o pai, Antônio, e o avô, Andrea, já atuavam no ramo de passageiros e de carga. Em 1938, o pai de Sebastião fundou a primeira linha de ônibus, época das jardineiras entre São José do Rio Preto e Araçatuba. A jardineira comprada na antiga concessionária Ford, Germano Sestini, de São José do Rio Preto, cortava pequenos caminhos de terra. Não havia, em muitos trechos, vias públicas. A jardineira tinha de cruzar sítios e fazendas, com a permissão dos donos. O pequeno veículo dividia espaço com rios, nascentes e rebanhos, sempre rodando em baixa velocidade. As dificuldades de trajeto na região eram grandes. Os atoleiros em dias de chuva, inevitáveis.

E foi neste contexto que Sebastião Passarelli cresceu.

“Vi o meu pai e meu avô desbravarem a região chamada de Alta Araraquarense. Era difícil, mas muito gostoso também. Comecei a admirar ainda mais meu pai e meu avô, dos quais não herdei apenas a vocação pelos transportes, mas a vontade de fazer as coisas, que é genética, e a capacidade de acreditar. Hoje, há muitas pessoas que não tem essa capacidade, de crer, de acreditar e superar as adversidades” – conta Passarell, com disposição e bom humor de dar inveja a muitos jovens. Ele nunca chega depois das 8 da manhã ao Terminal de Vila Luzita, do qual é proprietário do único sistema de corredor segregado de ônibus do serviço municipal de Santo André.

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O ônibus que foi Miss

 

Por Adamo Bazani

O sucesso e o carisma de Martha Rocha, nossa Miss Brasil dos anos 50, foi enorme a ponto de uma encarroçadora ter fabricado um modelo especial com o nome dela para destacar a beleza e o charme do ônibus.

Marta Rocha Rodoviário

Muitos conhecem a história de uma das figuras da moda e beleza mais marcantes do país: a bahiana Martha Rocha. Em 1954, após ser Miss Bahia, ela ganhou o concurso nacional e foi para os Estados Unidos bastante cotada para conquistar o Miss Mundo. A decepção do Brasil foi grande. Apesar de todo o favoritismo, a jovem conseguiu apenas o segundo lugar, perdendo para a americana Miriam Stevenson.

Na época, para “consolar a nação”, que torcia por Martha como se fosse final de Copa do Mundo (de futebol), jornalistas brasileiros disseram que ela perdeu por causa de duas medidas a mais nos quadris. Algo que foi desmentido depois, de acordo com revistas especializadas. Marta só teria perdido porque os organizadores queriam resgatar o interesse dos americanos em concursos de beleza. As TVs e imprensa nos Estados Unidos investiam muito nestes eventos e queriam algum retorno

Cá entre nós, ganhar de uma brasileira em beleza não é tarefa fácil. Mas nosso espaço é para relatar novidades e histórias sobre transporte coletivo e você deve estar se perguntando: o que tudo isso tem a ver com ônibus?

Muito. É que a figura de Martha Rocha foi tão significativa por sua beleza e charme – e um pouco pelo sentimento de injustiça que dominou os brasileiros na época – que a miss ganhou enorme projeção. Seu nome virou marca, referência de beleza, referência de Brasil.

E a Caio – Companhia Industrial Americana de ônibus, fundada em 19 de dezembro de 1954 por José Massa (avô do piloto Felipe Massa) -, não perdeu tempo. A empresa tinha no papel um projeto de ônibus a ser lançado nos anos 50: grande, com linhas belas para época, de duralumínio. Casou o útil ao agradável. A Caio batizou seu ônibus com o nome da nossa Miss Brasil (e Miss Mundo de coração).

Marta Rocha Elétrico

O desenho novo para época, a qualidade dos materiais e a versatilidade fizeram do ônibus um dos maiores sucessos dos anos 50, sendo comprado por diversas empresas operadoras. E o apelo do nome ajudou bastante. O modelo, projeto para ser rodoviário, logo foi usado como urbano, interurbano e até trólebus.

O caso ressalta aspecto sempre presente neste Ponto de Ônibus. De diferentes maneiras é possível ver refletida no transporte de passageiros a realidade social, política, urbanística, cultural e, também, comportamental do País – nem que seja da beleza da mulher brasileira.


Adamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Às terças-feiras estaciona seu ônibus aqui no Blog do Mílton Jung sempre de olho nas belezas que rodam nas cidades brasileiras.

Uiraquitan, inovação nos anos 70

 

Por Adamo Bazani

Modelo desenvolvido em São Bernardo do Campo para Curitiba, que tinha motorista em “mirante” sobre os passageiros, assustou indústria na época, mas deu importantes lições para novos modelos e sistemas de ônibus

Uiraquitan. Você já ouviu falar deste modelo de ônibus? Pois, foi uma das oportunidades da cidade de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, ter tido influência direta na implementação do sistema de ônibus expresso Segregado, de Curitiba, inédito no País. Mas as inovações propostas na época pelo DEPV – Departamento de Pesquisa de Veículos, da FEI – Faculdade de Engenharia Industrial da Fundação Educacional Inaciana de São Bernardo do Campo assustaram e o modelo não passou de uma miniatura e vários desenhos. O projeto foi encomendado pelo IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), no início dos anos 70, que na contramão dos investimentos ferroviários, decidiu, de maneira bem sucedida, investir em linhas de ônibus de grande demanda, troncais, em corredores exclusivos, e linhas alimentadoras, que serviram de modelo até para outros países, como a Colômbia que implantou o Transmilênio.

O Uiraquitan, desenvolvido pelos engenheiros da FEI, de São Bernardo do Campo, já revolucionava pela posição do motorista, que ficava numa alta cúpula de vidro, acima dos passageiros. Isso mesmo, se hoje, vemos alguns ônibus panorâmicos com o salão de passageiros sobre os motoristas, no projeto do ABC para Curitiba, o motorista que ficava em cima do passageiro. O objetivo do “mirante” era oferecer maior visibilidade tanto para motorista como para passageiros.

Não bastasse essa inovação, a acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, que hoje é obrigatória em todas as carrocerias produzidas desde julho de 2009, já foi preocupação dos engenheiros da época, que planejaram o Uiraquitan para que o salão de passageiros ficasse a 20 centímetros de altura em relação ao solo.

O modelo, projetado em 1973, teria também painel eletrônico (algo adotado recentemente nos ônibus urbanos), que informava, além de itinerário e número de linha, quantos assentos estavam desocupados. Os engenheiros da FEI também tinham preocupação ambiental. Projetaram uma série de filtros no motor que já nos anos 70 reduziriam em até 50 por cento os níveis de poluentes.

A capacidade para transportar passageiros sentados, de acordo com o projeto, seria maior que um articulado de hoje: 80 sentados. Os articulados tem, aproximadamente, 60. Isso seria possível porque o posto do motorista ficaria acima do salão de passageiros e pelo fato de os bancos serem longitudinais. Os corredores também seriam mais largos.

No entanto, o ônibus não saiu da fase de miniatura, por vários motivos, entre eles, o desenho inovador para época, dificuldade de fabricação de alguns equipamentos e necessidade de uma barra de direção muito longa, por conta do “mirante do motorista”

Fracasso? Não, apesar de o Uiraquitan não ter sido fabricado. Assim como no mundo da moda, onde vemos roupas inimagináveis de serem encontradas nas ruas, mas que ditam tendências, o Uiraquitan apontou caminhos que depois de adaptados à realidade da indústria nacional de carrocerias viriam solucionar vários problemas, alguns ainda recorrentes, como a necessidade de ônibus acessíveis e menos poluentes.

De pronto, o Uiraquitan deixou a herança da maior visibilidade para motoristas e passageiros e de um salão de passageiros com melhor aproveitamento. Logo após a recusa do Uiraquitan, depois de analisar projetos de encarroçadoras como Nimbus, Marcopolo e Caio, o Instituto de Pesquisa e Planejamento de Curitiba, escolheu o modelo Marcopolo Veneza Expresso, com grande área envidraçada na carroceria. O IPPUC fez questão de exigir algumas características do Uiraquitan, como a visibilidade, o desenho diferenciado e o motor mais silencioso, traseiro, com no mínimo 200 cavalos de potência.

Com um pouco do Uiraquitan, em 22 de setembro de 1974, começam a circular os Marcopolo Veneza Expresso trazendo ao setor, o conceito de BRT – Bus Rapid Transit -, os ônibus rápidos de corredor segregado, termo usado em todo o mundo.

As propostas do Uiraquitan também foram usadas por outras encarroçadoras que aos poucos vinham assimilando os conceitos apresentados pela FEI. Alguns destes conceitos viraram obrigação por órgãos concedentes e fiscalizadores e opção de modelo de encarroçadoras, que o desenvolveram.

Por isso, dizer que o Uiraquitan foi um fracasso da engenharia do setor de transportes é um equívoco. Talvez, sem as idéias, consideradas loucuras na época, de seus projetistas, a indústria de ônibus nacional, uma das mais respeitadas do mundo, não teria chegado ao atual patamar.

O Uiraquitan pode ser visto apenas em miniatura, como na foto de nosso acervo publicada na abertura deste post. Já o Veneza Expresso, deixado de lado nos anos 80, por conta da maior demanda de passageiros e novas necessidades, teve um exemplar restaurado em 1999, com o uso de três carrocerias abandonadas, achadas em ferro velho de Curitiba e vários dias de trabalho.

Adamo Bazani é jornalista da CBN e busólogo. Toda terça-feira, escreve no Blog do Milton Jung

Mudou muito, mas ônibus já transportaram porco e galinha

 

Por Adamo Bazani

Dois amigos unidos pelo ônibus relembram passagens curiosas e falam das mudanças profundas que ocorreram no transporte de passageiros, na segunda parte desta reportagem

SÃO CAMILO 147

Lázaro Barbosa da Silva, 44, e Márcio Antônio Capucho, o Miranda, 37, se dizem testemunha ocular da evolução do transporte de passageiros, tanto em relação aos modelos dos ônibus, como às cidades e às operações.

Na Viação Cacique, tinha uma linha que ia até um bairro de São Bernardo do Campo, chamado Represa. “Era praticamente uma zona rural dentro da cidade grande. O ônibus ia até uma rua asfaltada, o restante do bairro era de ruas de terra e lama quando chovia. Os passageiros, educados, diferentemente de muitos de hoje, iam com um sapato até o ponto de ônibus. Lá, eles trocavam de calçado, sujo de barro, para entrar no ônibus. Muitos trocavam até as roupas de cima. Parecia um passageiro até o ponto e outro dentro do ônibus. Mas era inevitável, os ônibus sempre acabavam ficando sujos por dentro”, conta Lázaro.

E na época das festas de fim de ano ?

“O pessoal ia com animais vivos dentro do ônibus, para depois servirem de almoço nas festas. Quantas vezes eu trabalhei com cacarejo de galinhas na minha orelha. Um dia, me lembro como hoje, um passageiro entrou com um porco dentro, isso no início dos anos 80. O bicho se soltou, começou a correr no veículo e os passageiros também. Foi uma bagunça só, o porco no chão e os passageiros subindo nos bancos. Fora a sujeira e o cheiro dentro do carro” , diverte-se Lázaro.

O que faz Miranda lembrar as dificuldades da região do ABC Paulista no início da sua carreira eram as ruas de terra e cascalho, desafios para os motoristas. “Eu ainda novo, quis pegar o ônibus de um motorista chamado Marcondes. Então, ele ficou ao meu lado enquanto eu dirigia. Numa ladeira de terra, no Jardim Itapoá, região do Parque Capuava, em Santo André, me desesperei. Simplesmente o carro, um Caio Amélia, começou a deslizar na ladeira. Eu queria devolver a direção para o Marcondes, mas ele, dizia: ‘Não dá, não dá pra parar, agora você tem de ir até o final da ladeira’. A traseira puxava para um lado e a frente para o outro, os pneus não seguravam na via, mas no final, depois de muito susto, deu certo”

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