De céu e terra

 

Por Maria Lucia Solla

*Foto de Mário Castello

 

A síndrome da distância está minando e se alimentando da nossa sociedade. Imagino e espero que a doença tenha atingido seu pico, porque já nos tem divididos, nas duas margens de um rio imaginário, entre rico e pobre, Corinthians e Palmeiras, culto e inculto, branco e preto, gay e hétero, gordo e magro, alto e baixo, assaltado e assaltante, local e imigrante. Cada um tão cheio de preconceito pelo outro, que não tem tempo para mais nada, a não ser para alimentar o mal que se agiganta. Sem meio termo, sem darmos, cada um, um passo à frente. Estamos inimigos no mesmo campo, entrincheirados, armados do mesmo idioma, desconfiados da própria sombra, isolados na manifestação, implodindo na razão, no cárcere da certeza.

 

Para alimentarmos essa poderosa e maligna carcereira, justificamos o golpe baixo no nosso vizinho, com o golpe baixo no nosso quintal. Deixamos que ela tome mais espaço, e se-ele-rouba-ela-já-roubou, um-é-bandido-mas-o-outro-também-é, se-ele-entra-eu-só-saio-porque-já peguei-tudo-o-que-coube-no-balaio acabam se transformando em samba enredo da tua vida e da minha. Passamos tanto tempo engolindo o rouba-mas-faz, é-burra-mas-é-gostosa, faz-mal-mas-faz, que acabamos achando que a vida é assim, e pronto.

 

Não é.

 

Aqui já reinou monarquia, já dominou um partido só – o que dá na mesma chamar de monarquia ou comunismo. Tanto faz. É totalitarismo, onde só um lado tem as armas do poder. Nós, os menos informados politicamente, percebemos que tanto faz, porque não nos perdemos no intrincado de normas que mudam a cada piscadela de cada monarca, de cada onda de cada oceano. Não nos enredamos nos tentáculos da propaganda na tevê, lançados pelo tirano do dia. Nós, os politicamente incultos percebemos que existem regras que são ideadas para torcer o braço de regras anteriores. Percebemos que nosso barco singra levado por ventos de siglas e polpudas contribuições, não por ventos que podem levar o país a crescer, sem precisarmos ser cobaias, nem troféus, do monarco-cientista da vez, e sem precisarmos sustentar a sandice alheia. O que entra desfaz e desdenha tudo o que foi feito até então, para agigantar sua promessa de obra egocêntrica, que se alimenta do teu voto e do meu. Da tua alma e da minha. Nos pondo uns contra os outros, por nossa diferença. O côncavo rejeita o convexo.

 

Dá para ver?

 

Quem de nós conhece as siglas dos partidos? E seus integrantes, que deveriam ser o raio X do ideal do seu ‘partido’, dançam o ‘samba do crioulo doido’, pondo-se ‘no mercado’, vendendo seus passes, que são comprados com o teu dinheiro e com o meu, você sabe quem são, hoje?

 

Para você, os fins justificam os meios?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De novembro

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

Leveza foi o que me veio à cabeça quando pensei na palavra novembro. De onde tirei isso? perguntei e respondi. Sei lá, acordei em Novembro sorrindo, leve e contente, e isso me intriga porque à primeira vista o mês começa com o número nove, que abre as muralhas para que o velho saia com o mesmo impulso com que entrou, sem ficar empatando, é sair saindo, para dar lugar ao novo que está pronto para entrar. O número nove não pede licença; chega chegando e mudando os móveis de lugar, sem consultar.

 

Novembro convida para um desapegar-se corajoso e libertador, que objetiva a simplicidade na medida de cada um, em cada fase da vida de cada um. Sempre. Só que em novembro é vai, ou vai, solta ou solta. Via de mão única. É ir em frente que atrás vem gente.

 

Novembro tem mero e tem mono, mas sem nem um pingo de monotonia, porque tem o novo, esqueceu? Mas o novo que chega é simples: é o boné, no lugar do chapéu.

 

Novembro é bom, se você se move. Ele convida com a palavra vem, estampada no nome, e com verbo e mover. Tudo soletrado.

 

Novembro tem bom e bem.
Quer mais?

 

Tem nero, o que me preocupa, já que a sandice tem imperado, a ganância e a prepotência têm abundado, mas roubo perdeu o ‘u’ para dar lugar a robô. Meno male. Um convite para mergulhar na tecnologia.

 

Tem voo e o convite: voe, no singular, e tem voem também, para não ficar ninguém de fora.

 

Tem room, que em inglês quer dizer espaço. Assim, não será por falta dele, ora.

 

E novembro sugere postura nobre; que não nos vendamos por meio cobre, nem por cobre e meio

 

E então, como vão as coisas?

 

estão boas
então
dá pra melhorar

 

não têm como estar pior

dá pra melhorar

 

melhor estraga
tolinho

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De renascimento

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

É mais fácil viver com saúde do que sem ela, sorrir e sonhar quando os que amamos estão bem, caminhar sob sol ameno, em terreno plano e arborizado, do que subir uma lomba escorregadia de terra batida quando chove canivete aberto, de sandália de dedo.

 

Não que essa tenha sido minha mais incrível descoberta, mas é como se fosse. Sempre é. Toda vez que o céu da minha vida clareia, as pedras rareiam e as flores campeiam, tenho esta reação revolucionária que sacode a caixinha onde vivo e muda tudo de lugar. Novo tudo. Dentro e fora. Não sei dizer quantas vezes a primavera na minha vida coincidiu com a primavera do planeta, mas desta vez percebo a coincidência e me animo. Deixo a alma liderar e viro menina outra vez.

 

Receita? Impossível. Dicas, talvez. Meu ‘De bem com a vida, mesmo que doa’ hoje poderia se chamar ‘Preparado para o inverno’ ou ‘Se chover, um par de galochas’, ou ainda ‘Como enfrentar o inverno na tua vida’, e ainda assim não poderia oferecer receita, mas dica do tipo ‘Para-mim-deu-certo-não-custa-experimentar’. O título já tenho; falta o livro.

 

Agora, não adiantam as receitas quando tem ano em que a primavera não vem nem com convite protocolado. Ignora você. Passa batida. Tem tempo que engripa no nublado, e você vai encolhendo e diminuindo o contato com o mundo, como árvore, frondosa ou mirrada. Meus ciclos são assim.

 

Acredito que não é castigo de Deus quando as ondas encrespam, não é olho gordo de invejoso, trabalho feito nem encosto, e nem você rezou demais ou de menos. É o ritmo da vida! Só isso.

 

Nos invernos da vida, esquecemos de lembrar que as raízes continuam lá, invisíveis, mas vivas, enterradas, alimentando-se da terra e bombeando energia para o tronco, mesmo quando a flor virou fruto, a folha caiu e um ou outro galho secou e quebrou. Vida fervilha, se reorganizando como em dia de faxina. Fica tudo de pernas para o ar, mas a gente enfrenta o balde, o rodo e a vassoura, acreditando, sem vacilar na fé, que tudo vai voltar, cada coisa para o seu lugar. Muda um abajur de lugar, mexe daqui e retoca dali, mas continua sendo a tua casa. Renovada. Mais limpa e cheirosa.

 

Nós é que temos dificuldade de perceber o milagre do renascimento em cada ciclo. Em cada faxina. Tic tac, e mais um pedacinho de vida passou. Se transformou, e plantou transformação.

 

página em branco
caderno novo
fase

 

caneta
macia
colegas
vida

 

sapato
lustrado
primavera
vocabulário

 

ânimo
aprendizado
recuperação

 

Você percebe? Não? Então perceba, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De câncer social

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

No meu tempo de criança a gente não dizia a palavra câncer. Tinha uma amiga dos meus pais, muito frágil, que visivelmente sofria e definhava mesmo aos olhos de uma criança, mas eu ouvia dizer que ela tinha ‘aquilo’ ou ‘aquela doença’. Fui ouvir o nome da doença pronunciada com todas as letras, muito tempo depois. E fui ligar os pontos, ainda mais tarde. Para se referir a ela, levavam uma das mãos à boca e baixavam o tom da voz. Ainda era comum franzir a testa, inclinar a cabeça para um lado, erguer o ombro correspondente e olhar com cumplicidade mórbida, dando uma fungada profunda, longa e ritmada em sinal de lamento.

 

O que se passava no íntimo dessas pessoas, e o significado de tantos gestos simbólicos, se traduz numa palavra: preconceito. E é o mesmo preconceito que nos acompanha em tudo, desde sempre e ainda hoje. Inconformismo frente às curvas da vida, preconceito, medo, birra infantil fora de época, sofrimento frente ao novo, desconfiança do desconhecido, medo, preconceito. E mesmo querendo evoluir, andamos na direção oposta fortalecendo o medo, que é solo fértil para o caos estéril.

 

Branco tem preconceito de negro, negro tem preconceito de branco, e os cínicos têm preconceito da palavra negro e da palavra branco. Nos Estados Unidos, durante o julgamento de um branco que matou um negro – George Zimmerman X Trayvon Martin – só o que se ouvia, para se referir a ‘negro’, era ‘the N-word’, ou seja: a palavra que começa com ‘n’. Uma apresentadora de tevê acabou profissionalmente destroçada por ter usado a palavra ‘negro’, no ar. Ela explicou que cresceu usando e ouvindo as palavras negro, branco e índio – quando as palavras e nós éramos mais livres – durante toda sua vida, e que às vezes deslizava. Eu também deslizo.

 

pobre tem preconceito de rico
inculto de culto
medo

 

vice
versa
medo

 

quem acorda cedo
de quem abre os olhos
tarde
medo

 

o agressivo
de quem
é suave
o que não sua
do que sua

 

e onde fica o
cada um na sua
?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De Criador e Sua criação

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Adão e Eva, criados no sexto dia da Criação segundo Moisés, viviam felizes no Paraíso, num Jardim chamado Eden. Só existiam eles, mas não sentiam solidão. Eram cercados de Bem e de Paz – não tinham ideia do que fossem Mal e Dor – e dividiam o espaço harmonicamente com animais e plantas de todas as espécies. Moisés ainda explica que havia duas árvores dignas de destaque: A Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. O Criador proibiu as duas novas criaturas de se servirem dos frutos da segunda, e não me lembro se Ele explicou a razão, ou não.

 

De qualquer modo, enquanto obedeciam, recebiam o benefício de viver no Paraíso. Também não me lembro se tinha a parte de: se vocês não obedecerem, serão castigados. O fato é que apareceu uma serpente que veio plantar a semente da discórdia. Convenceu Eva a provar a maçã, e Eva saiu correndo para contar a Adão que ela comera o tal do fruto, a maçã era uma delícia, e nada de mal lhe acontecera. Adão foi na conversa da mulher, e o resto da nossa história é considerado castigo do Criador, que nos expulsou do Paraíso.

 

Confesso que essa história, traduzida ao pé da letra, nunca me convenceu. Para dizer a verdade, sofri muito com ela, quando era menina. Eu lembrava da história e pensava: não é possível. Um Criador Perfeito e Único não seria autoritário, insensível, intimidador e vingativo. Além disso, o detalhe da ‘caída’ do Homem na Terra me dava uma sensação horrível. O céu é em cima, a terra embaixo, imaginava o Criador atirando os dois para baixo. Violência, mais um atributo que serve a um destruidor, não a Ele.

 

Tolinha. A segunda colherada é servida quando o bebê está pronto para ela. É tudo símbolo. E por que símbolo? Porque ele pode ser compreendido a cada estágio do Homem, à medida que estivermos preparados para isso. Como tudo. Para cada um ainda hoje.

 

Até a parte das duas Árvores principais, a da Vida e a do Conhecimento do Bem e do Mal, tudo certo; o Criador disse a Adão e Eva que poderiam comer os frutos de todas as árvores, menos os da Árvore do Conhecimento, mas disse também que um dia poderiam se servir dela, só que ainda não estavam preparados para entrarem em contato com aquela substância. Disse também que se comessem o fruto, morreriam.

 

Aquele fruto abria as portas para que eles mergulhassem na polaridade, na materialidade. É como se a substância contida nele provocasse uma queda energética no cidadão, e o Criador estava apenas alertando. Sem nenhum autoritarismo, mostrando o caminho que Ele podia ver porque o tinha criado. Talvez quisesse nos poupar, ou quem sabe tudo estava nos planos d’Ele. E Adão e Eva morreram mesmo, para o estado de consciência em que viviam, e para onde um dia voltaremos.

 

Aqui neste plano da Terra enfrentaram uma realidade mais lenta, densa, instável, conheceram o dia e a noite, o frio e o calor, a fome e o sono, o amor e o desamor, o Bem e o Mal. Caíram do plano etérico para o material. Essa foi a queda. Para uma biblioteca e um cardápio vastos demais para nós naquele estágio. E continuaremos perdidos na biblioteca e no cardápio, enquanto não compreendermos o nosso propósito.

 

Meu filho me disse uma frase que me ajudou a ajustar meus sensores de Bem e Mal. Ele disse: ‘Não sofro pelo que os outros não fizeram por mim, mas sou feliz pelo que eu já fiz pelos outros’.

 

Assim, o resto da nossa história não é castigo do Criador.

 

CQD

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De espaço

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Espaço é um pedaço de espera a ser preenchido.

 

Esperança e espaço parecem não ter nada em comum, a não ser uma ou outra letra do alfabeto alinhada na mesma direção, mas esse olhar é o da falta de atenção. Espaço e esperança vivem por aí, de mãos dadas, independentes do tamanho.

 

Já tive muito espaço disponível que era pura esperança e tive esperança tão desmesurada que não havia espaço que a acolhesse.

 

Queria uma poltrona no meu quarto, e uma luminária que incidisse sobre a leitura, e só sobre ela. O que não aconteceu porque o espaço encolheu.

 

O espaço externo encolhe, diminui, se acanha, enquanto o interno se alarga irritante, assustadora e indefinidamente. Tão indefinidamente que me perco, e não me encontro em mim.

 

Perco-me na solidão que insiste em se apoderar do espaço, e me procuro na forma disforme, invisível e inatingível da esperança.

 

Não encontro nada.

 

Talvez porque sempre tenha mantido o olhar nas estrelas, enquanto meus pés mal tocavam o chão.

 

Já me despojei do espaço, agora só falta mandar embora a esperança.

 

Por falta de espaço.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De tempos difíceis

 

Por Maria Lucia Solla

 

photo

 

Toda dor passa? Passa, mas deixa cicatriz.

 

Não acredito em dor grande, média ou pequena. Já tive dor de todo tipo, uma danada dor de dente que levou a intervenção no seio da face, uma cirurgia na coluna e, ai que dor! morfina por três dias. Tive dor de parto e de partida, de fratura e contratura, de incompreensão e solidão. Toda dor é simlesmente dor. Material e imaterial.

 

Já tive muita dor de amor e pouca dor de cabeça, sofri a dor da insegurança, das duas faces do ciúme, da indiferença, de maus-tratos e preconceito. Sofri a dor da traição, tanto de amor quanto de amigo, a do desdém, da descrença, da maledicência e do abandono.

 

Agora, levando em conta a tradição céu-terra-inferno, ou a dor passa aqui na terra, ou a gente perde a parada para ela e se joga, não na vida, mas para fora dela. Fica pulando entre inferno e terra, cada vez mais longe do céu.

 

O que fazer? Onde se apoiar? Na comida, na bebida, nos amigos, nos amores, na promessa do céu? Não. O apoio não está longe e muito menos fora. Está dentro. Mas onde? Como deixar irem as crenças embaladas desde o berço? Virar tudo de cabeça para baixo? Aceitar a situação em que o mundo se encontra, vivendo desencontros e desencantos?

 

Não sei. Confesso. Enquanto se está neste lugar de dor, fica tudo turvo, sem sentido.

 

Diz-se que é preciso dar valor a cada dia que costura os viezes da existência, que é preciso ter fé, é preciso meditar, comer bem, malhar, tomar vitaminas e regulador de humor, não descuidar dos afazeres nem dos amigos verdadeiros, aceitar as falhas alheias e as nossas, com uma boa pitada de humor.

 

Será?

 

Freud diz que humor é preciso, porque é o princípio do prazer que combate a crueldade das circunstâncias reais, mas o fato é que a cada dor que passa, outra chega, como se estes tempos estivessem mais inclinados à dor do que ao amor.

 

E então? Qual a saída quando a dor insiste em não dar trégua?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De luxo

 

Por Maria Lucia Solla

 

Flor

 

Olá,

 

luxo? me perguntei, sequestrada pelo título do artigo de Ricardo Ojeda Marins.
Parei tudo, foquei o máximo que tenho conseguido focar numa coisa de cada vez e me dei conta de que tenho vivido o luxo a vida inteira. Já tive, já não tive, vivi na abundância, no aperto, amei, desamei, ri e chorei como todo mundo, de toda raça, de todo credo e de de todo tamanho de conta bancária. Fui e deixei de ser tanta coisa, vivi papéis variados, mas o luxo dos luxos ainda acho que é reconhecer o luxo do dia a dia.

 

Ter amigos que valem a pena e reconhecer que nem sempre se é o amigo que vale a pena, é luxo. Luxo é receber o telefonema de um amigo querido dizendo que vem te ver, e ele vem. Ter pouquíssimos ingredientes na cozinha e preparar um prato divino, é luxo. Luxo é não querer parecer o que não é e não sentir insegurança de mostrar o que é.

 

Viver é luxo. Fazer parte do elenco da maior novela já encenada, é puro luxo. Luxo é excelência sob medida em cada fase da vida. Comer pastel na feira com quem a gente quer bem, num papo firme daqueles, é luxo. Luxo é bolinho de chuva, é milho na espiga na praia num dia de sol, caminhada e silêncio; é a caixa de bolinhas de chocolate recheadas de licor, esvaziada durante a projeção de Meia Noite em Paris. Luxo é o vestido de couro italiano estampado comprado na Neiman Marcus em Nova Iorque e o Cornetto comprado no boteco da esquina em São Paulo para acompanhar mais um episódio de House.

 

Luxo é prestar atenção no outro. Paz e a simplicidade do Papa Francisco são luxo.
Luxo é saber se comportar sem luxesa, mas com finesa. Acordar e saber que os filhos estão vivos e bem, é luxo. Luxo é ser capaz de reconhecer o luxo disfarçado de trivial.
E você, se pergunta?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

PS: Bem vindo Ricardo Maríns. Parabéns pelo excelente texto. Um luxo.

 

Maria Lucia Solla escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung. Tê-la aqui desde o início deste blog é um tremendo luxo.

De incerteza

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

peço licença para compartilhar um texto que escrevi em agosto do ano passado, aqui para o blog do Mílton Jung. Como as ideias insistem em me boicotar, fui espiar para saber por onde se embrenhava minha reflexão, há um ano. Sabe como é, olhar no espelho do tempo faz bem. A percepção também é íntima dele.

 

Nós, filhos dos homens, nascemos e renascemos infinitas vezes numa vida só. Sempre sós. Todos nós. Ressuscitamos como nos fez ver o filho Dele, e a cada ressuscitar temos oportunidade de ver o novo a piscar. Tudo sempre novo. É paralisar, ou experimentar e enfrentar. Nos esforçamos no entanto para acreditar que tudo continua como era, pelo medo de soltar o velho, de deixar ir a dor e o prazer conhecidos, mas nada continua. Nada permanece. Vida é pura, e simplesmente, impermanência. Repetimos o que ouvimos, dizendo que vida é movimento, do mesmo modo que rezamos o Pai Nosso e a Ave Maria, como dizemos eu amo você, como dizemos quase tudo o que dizemos. Sem sentir. Sem verdade. O som corneteia pela boca, acostumado e apressado que é, e amordaça a alma. Usamos frases já feitas para não corrermos o risco de aceitar que nada é como antes, não é, Mílton Nascimento?

 

Rugas redesenham nossos corpos, a pele cansada de se agarrar em nós se afasta e a gente renasce. Sempre. Tem quem coleciona dores, tem os que preferem amores, os que miam e os que criam, os que param enquanto outros se preparam e os que se queixam, com medo de continuar, com medo de se olhar de perto. Param no ponto.

 

Passa uma, passa outra oportunidade, e nos esquivamos delas com medo de embarcar em mais uma viagem divina, aqui na Terra. Mas está ali, ao alcance da mão, sempre. Se a gente consegue se distanciar um pouquinho que seja do próprio ego, percebe que a certeza é só fumaça aprisionada por ele, fumaça que asfixia a incerteza, parteira do renascer.

 

É isso.

 

Entendi que fui até ali só para lembrar que certeza é fumaça aprisionada pelo ego.
Até a próxima inspiração, ou não…

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De nada

 

Por Maria Lucia Solla
De nada

 

Tem vezes que nem dá tempo de sentar para escrever, que uma cachoeira de ideias se atira

 

louc
a busca
ndo
olhar a
tento
ou
vido a
finado
cor
ação
a
berto

 

E quem é que não está em busca de olhar, ouvido e coração… cada um do seu jeito, na medida do momento, mas é o que buscamos. Sermos vistos, ouvidos e reconhecidos.

 

no
fundo
e na
superfície
é a oportunidade de nos reconhecermos
olhando no sentido inverso

 

Tem vezes que a inspiração preenche o vazio deixado pela expiração do que não dava mais para segurar

 

e
tem vezes que é assim
plenitude
de vazio
nada
a dizer.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung