De Maria

Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

tenho, desde 2008, dois ícones gregos representando

 

a madona que acolhe seu filho
a virgem
imaculada
Maria
mãe de Jesus
Filho de Deus
e como poderia ser diferente?
Madona

 

 

No ano passado ganhei da Mariajose, amiga-leitora que mora na Itália, mais uma Madona. Dessa vez acompanhada por dois anjos e pintada por mãos e olhares florentinos. Linda! Sempre lindos e alegres, esses ícones. São coloridos, emanam paz, conforto, abraço, completude. Para mim a Mãe e seu Filho representam a integralidade da vida, todos os seres e suas forças, cada partícula, som, imagem, aroma, realidade e sonho, uma vez que o Criador é impensável, indescritível, indizível, irreproduzível e impossível de ser antropomorfizado.

 

Maria é o elemento feminino que acalenta seu Filho, e ele o elemento masculino que a completa. Forças de igual intensidade contendo, cada uma, uma porção da outra.

 

Ave Maria

 

yin e yang
a base da vida
claro escuro
sol e lua
o todo
em todas as suas formas

 

Agora, me espanta e amedronta o desequilíbrio energético no qual temos vivido. O elemento feminino anda muito fraco. A mulher sonha ter, além de todos os direitos conquistados, também o corpo do homem e a bunda da saúva. Tem exercido muito pouco o feminino: o abraçar, embalar, cuidar, brincar com a alquimia da cozinha e alimentar. Faz falta. Para mim faz. O mundo está assim e pronto, não há muito que discutir, mas sinto que erramos na dose, nós as mulheres. Queimamos os sutiens em praça pública, saímos às ruas em passeata, fizemos revoluções nem tão pioneiras assim, alargando a trilha no caminho que já vinha sendo traçado, de almejada igualdade ao que não é igual, e corremos tanto atrás de direitos, que nos afastamos da essência. Direitos que podem se transformar em senhores de nossas almas. Implantamos silicone, malhamos tanto que muitas de nós já são mais musculosas que seus homens, e se orgulham disso. Temos pernas musculosas de jogadores de futebol e batemos com força na mesa.

 

é um tipo de desequilíbrio
inédito
no planeta
imagino

 

É fácil perceber que a água também está em desequilíbrio. Água é Yin, feminino, emoção, recepção, entrega e tem rareado para matar a nossa sede, mas tem se atirado do céu com força de destruição paralela à do fogo, elemento yang, masculino. Coincidência?

 

E então, mulheres, vamos salvar o planeta? Já conseguimos tanto, já sabemos do que somos capazes, então vamos meter a mão na massa, literalmente.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De planejamentite

 

Por Maria Lucia Solla

 

Relevo

 

A cozinha da minha avó era uma cozinha mediterrânea, e a da minha mãe também era até sermos todos inoculados com um vírus norte-americano que viajou instalado num seriado chamado Papai Sabe Tudo, irritantemente perfeito, que andou pela televisão por pouco tempo. O seriado escancarava boa parte do sonho americano, no dia a dia de uma família de classe média, entre os anos 1950 e 1960. Mostrava o que queria mostrar, e mostrava bem mostrado, influenciando e contorcendo nosso modo europeu de sentir, de viver e de pensar. Nós brasileiros, que damos pouco valor a memória, tradição, ao próprio coração, escolhemos como modelo o estilo de vida americano. Tudo o que vinha da terra do tio Sam era chique. Nos afastamos das raízes, nos deixamos levar pelo enlatado, pelo congelado, pelo sonho alheio, pela vida que aparecia na TV. E não fazemos ainda?

 

O caso é que de repente a cozinha da minha mãe se transformou numa cozinha americana. Era chamada assim, explicitamente. Depois a Kitchens chegou dominando e deu nome à cozinha americana por muito tempo, até que foram brotando outras que planejam as cozinhas. Hoje elas são cozinhas planejadas.

 

Saudade dos armários de copos das vovós. Saudade das xícaras de chá penduradas na cristaleira. Saudade da criatividade, da arte na cozinha. Saudade da cozinha, a senhora da casa!

 

Minha mãe era uma mãe mediterrânea que passou a cozinhar numa cozinha americana. Quando a vovó Grazia vinha enriquecer o almoço lá de casa, então, parecia um filme rodado na locação errada. As entranhas da cozinha tinham sido proibidas para os olhares humanos. Tanta louça bonita! Tudo guardado e escondido. Mantimentos, então, rebaixados e estocados num cômodo especial para isso. Está aí um exemplo de parte da herança que não deixamos para trás; a fragilidade frente à ideia da guerra ainda nos faz estocar. Eu, do time da segunda geração no Brasil, ainda tenho mania de sempre ter um quilo, uma lata, um vidro fechado, seja do que for, guardado na despensa. Haja espaço, e haja planejamento.

 

Saudade da cozinha maior do que a sala, com uma grande mesa de tampo de mármore, boa para esticar a massa da macarronada, enquanto os amigos faziam o molho, bebericando vinho, e a casa se enchia de riso de grandes e pequenos, de vozes e aromas. A casa inteira.

 

Bendita a cozinha!

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De Einstein

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

O exercício de desapego e escolha me leva a recomeçar mais uma vez. Não quero dizer com isso que vá tentar apagar a vida vivida para recomeçar do zero, porque é impossível; bom motivo para nem tentar. Gosto de cada
minuto que tenho vivido, e não pretendo virar as costas para nem um desses minutos. Nem dos claros, nem dos escuros. É a vida, dizia a mamãe, a cada acontecimento.

 

Sei que sou, também, o resultado de tudo o que vivi e de como vivi, e gosto de quem sou. A vida tem me levado a rir a chorar, e tenho aprendido com os dois movimentos dela, que às vezes são rápidos demais para eu
absorver e crescer, e outras vezes um arrastar sem fim, quando sinto que remo sem parar, e não saio do lugar. Mas, enquanto há vida, há chance de viver de peito aberto, de aprender e crescer. De aproveitar a viagem. E
assim vou atrás do estar-bem. Do meu e do mundo que me cerca.

 

Ainda envolvida com o este-vai-este-fica de papéis e livros, espirro, lavo as mãos um exagero de vezes e rasgo pilhas, em tiras e mais tiras. Não os livros, é claro. Num dos papéis encontrei um texto com minha letra de menina, escrito com tinta verde, com a caneta que ganhei do meu pai quando entrei no ginásio, sem fazer o quinto ano. Tinha um exame chamado muito propriamente de Exame de Admissão, logo depois do quarto ano primário. A gente passava por uma tensão parecida com a do vestibular, e eu passei direto. Ganhei uma Sheaffer e usei tinta verde, por muito tempo. Mas enfim, o texto era um fragmento do livro “Como vejo o mundo” de Albert Einstein, lançado em 1953.

 

Fala o mestre!

Educação em vista de um pensamento livre

Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma
máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um
sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido,
daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se
assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado
do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida.

Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas
angústias, para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus
próximos e à comunidade.

 

Se você quiser ler o texto todo, encontrei o livro inteirinho disponibilizado na Biblioteca Virtual Espírita.

 

Dá para guardar na biblioteca do seu leitor de livros. Encontrei o trecho que copiei em priscas eras, como diria minha amiga Maryur, na página 16 do livro.

 

É isso.

 

Bom domingo, bom feriado, diminue a velocidade nas curvas, e até a semana
que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De alquimia

 

Por Maria Lucia Solla

 


Olá,

 

a mim faz bem enxergar que sou também o que como. É verdade que não temos
cada um o seu pedaço de terra, e nem tempo para plantar e colher o que comemos. Vivemos num retalho de tempo diferente. Como sempre foi. A sociedade muda e a gente se adapta a ela, ou fica comendo pela beirada. Quem quer o bom leva o pacote, lembrando que não existe perfeição na nossa classe. Uma classe que abriga o adiantado, o interessado, e aquele que não entende patavina, cabula, cola ou dorme atrás do cara da frente. Como em toda classe.

 

Mas eu pensava nas ervas e na volta de cada vez mais gente, ao interesse pelo alimento saudável e pela magia que brota da terra. Pensava na herança dos curandeiros do passado remoto, no cuidado com a saúde e em como faz bem ver quanta gente se oferece o prazer da volta à cozinha, que faz uma falta danada na área social de qualquer casa. Meus amigos sentam na cozinha, e papeamos enquanto preparo o café. Na casa do meu pai, tudo acontecia na cozinha. A sala de jantar era usada para eventos sociais e refeições de domingo. Ele e o seu Carlito, um dos seus melhores amigos, sempre tinham pão, queijo, salame e vinho, na mesa das suas cozinhas. Era chegar, sentar papear e comer. O café chegava em menos de cinco minutos depois que alguém chegava. A qualquer hora, em qualquer dia. Ali era a sala de visita dos de casa.

 

Não sou saudosista. Minha lua é hospede de Aquário. Olho para frente, mas
convenhamos… passamos do colher o que plantávamos – minha bisavó tinha um galinheiro enorme em casa, e eu adorava alimentar as galinhas – para a fast killing food e o refrigerante. Entregamos os nossos corpos a grandes empresas que se vendem, e nos vendem no pacote, para fundos de investimentos que não temos a mínima ideia de quem são. Não vou entrar no mérito da questão, porque é eca demais, assim como é eca o mundo do comércio e da indústria focar na criançada, poque ainda tem muito tempo para continuar a consumir. É um bom alvo, literamente. Planilha do Excel.

 

Fico contente de ver que crece um movimento não-xiíta na direção do bem-estar, do sentir-se bem, do relacionar-se bem, dormir bem, comer bem, falar bem, pensar bem…

 

…você também?

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De definição

 

Por Maria Lucia Solla

 

Flores

 

Dizemos que o que se planta, se colhe; e ao mesmo tempo mora na mente a crença na sorte e no azar. Eu colho o que planto e vira e mexe me vejo de mãos dadas com uma ou o outro. Quando passo um tempo com um deles, depois da festa ou do sofrimento, me dou conta de quanto aprendo, de quanto cresço, de quanto tenho e do pouco que preciso. Tem também o fato de que o que é sorte para um pode ser azar para o outro. De qualquer ângulo que eu olhe, dentro ou fora do cerco, esses dois aparentados me dão a oportunidade de me tornar mais humilde e de me levar a entender que estar no comando do barco é uma função que se curva frente à força do mar. Sinto que vale mais o que tenho, do que o que não tenho.

 

Na verdade é preciso ter coragem para seguir o coração e para perceber a oportunidade que a sorte carrega. É pegar ou largar. Sorte e azar são duas faces da moeda, como tudo neste planeta de contrastes. Sorte vem vestida de alegria, satisfaz; azar vem devastando na porta de entrada. Agora, que a moeda cai de um lado ou do outro e vira a vida de pernas para o ar, isso não dá para negar.

 

Tenho aprendido que não é a sorte que vem até mim, mas sou eu que percebo o caminho até ela e decido ficar ali o maior tempo possível. Cada um escolhe o seu caminho, ou não…

 

“A definição está sujeita a revisão; é um ponto de partida, não algo esculpido em pedra para ser defendido até a morte.” Daniel C. Dennet, no livro que ganhei do Dimas e do Zeca, Quebrando o Encanto.

 

Até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De nada

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

Comecei a escrever sobre saquinho de supermercado, mas acabei dando num beco escuro, que atiçava as borboletas no meu estômago, e parei. Fui pensar e fazer coisas que também estavam na lista de urgência, e que me davam prazer. Criei, cozinhei, fotografei, dei uma olhada na logística dos meus planos, e recomecei a escrever no dia seguinte.

 

Estação de chuvas, você sabe, fica difícil desviar o pensamento. Para onde você olha está cinza, nebuloso, ameaçador, ou despejando água e soprando ventania que dá medo. A gente vê, lê e ouve sobre muita gente desabrigada e dolorida; gente que tenta não perder o pouco que acredita ter, enquanto a Natureza tenta reaver o que é seu de origem. Dizer o quê? Repetir a ladainha? Que a malha de canos que mora sob o solo já vem pipocando há muito tempo, mas outras prioridades mais cintilantes tomam o lugar da necessidade básica? Somos um país de terceiro mundo e novo rico. Fazemos plástica e implante de silicone, mas não cuidamos do que não é visível. Casaco de veludo e bunda de fora, como sabiamente diz a minha sogra, a dona Ruth.

 

Mas sabe como é o pensamento, você pensa que já espantou, e vem ele de volta querendo ser pensado. Me recusando a voltar à história do saquinho plástico, peguei um atalho e me dei conta de que no passado, nem tão passado assim, já que eu consigo me lembrar, a gente levava duas cesta de vime para as compras e vinha faceira da feira, do fruteiro, ou do armazém, com as cestas cheias e coloridas. Duas cestas porque temos dois braços. A gente comprava o que podia carregar.

 

Mas falar sobre o quê? Ligo a tevê e fico sabendo de uma pesquisa que diz que nós jogamos fora metade dos alimentos, in natura, processados e muitos ainda enraizados. Dizem que muitas vezes nem vale a pena colher o que não tem boa aparência porque o público alvo só compra o produto bonito. Vai fora um tanto tão escandaloso que poderia alimentar toda a população que passa fome no mundo.

 

Então pensei: vou falar sobre nada. Só que acabei me lembrando de um padre de Hamburgo Velho, no Rio Grande do Sul, perto de Porto Alegre, que eu não cheguei a conhecer, mas sobre o qual sempre falavam os meus sogros. Contavam que ele tinha um forte sotaque alemão e que nos enterros, quando jogava a terra sobre o caixão, dizia pô, pô, têra, têra, falando de morte e vida; da terra de onde vem o nosso corpo, e que nos alimenta e abriga, e da nossa volta a ela, literalmente em pó, para alimentá-la em retribuição. Eu acredito.

 

Acredito no ciclo da vida. Acredito que assim na terra como no céu, que assim fora como dentro. É só prestar atenção. Ou a gente presta atenção, ou não… e até a semana que vem.

 

Em tempo: Alguém sabe me explicar por que mulato virou pardo?

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De politicamente correto

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

O que quer dizer politicamente correto? O advérbio que dá qualidade a um adjetivo é um fator excludente na comunicação. Se eu digo que estou fisicamente cansada, excluo o cansaço mental, ou de outro tipo. Descrevo meu cansaço. Agora, correto é correto e pronto. De novo me lembro das coisas que meu pai dizia. Quando alguém comentava que fulano era muito honesto, ele interferia: não existe ninguém muito honesto, nem pouco honesto. Ou você é honesto ou não é.

 

O governo anterior fez uma tentativa parcialmente fracassada, de uniformizar parte da língua pátria. Ela não vingou legalmente, mas infelizmente de certa forma vingou porque está minando a fala da mídia, que leva a cartilha a sério. O falar e o escrever dos seus funcionários estão banhados nela. Mais grave ainda é o que está acontecendo com a linguagem e as ideias na literatura infanto-juvenil.

 

Mas você deve lembrar de:

 

Atirei um pau no ga-to-to
Mas o ga-to-to não mor-reu-reu-reu
Dona Chi-ca-ca ad(i)mirou-se-se
Do ber-ro, do ber-ro que o gato deu.
Miau!

 

Pois bem, já tem muita gente ensinando as crianças a cantarem:

 

Não atire o pau no gato-to
Porque is-so-so
Nao se faz-faz-faz
O gatinho-nho
É nosso amigo-go
Não devemos maltratar os animais
Jamais! (em algumas versões você encontra Miau!)

 

Odeio o politicamente correto. É preconceituoso, totalitário, prepotente e burro. Sou pelo respeito. Essa maneira de tentar amordaçar línguas e mentes, e salientar diferenças em vez de igualdades, me lembra a época do colégio, quando a gente tinha que encapar os livros malditos pelo regime da época.

 

E por falar nisso tudo, a presidente Dilma foi vaiada ao se referir a presentes na 3ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência como pessoas “portadoras” de deficiência. Foi vaiada pela platéia. Depois se corrigiu dizendo: Desculpa, pessoas com deficiência. Entendo vocês, porque portador não é muito humano, não é? Pessoa é”. E foi aplaudida.

 

Socorro!

 

“O politicamente correto é a negação da própria vida,” diz Ilan Brenman no seu livro “A condenação de Emília: O politicamente correto na literatura infantil”, editora Aletria, que nasceu da sua tese de doutorado em Educação, pela USP. Recomendo.

 

Então começo a treinar. No Rio Grande do Sul brigadeiro é negrinho. Quer dizer que daqui para frente vou ter que pedir, na doceria, um afro-descendentezinho? E você, imagine-se lendo para os pimpolhos, na cama antes de dormirem, A Euro-Caucasiana e os sete verticalmente comprometidos…

 

… ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De dois mil e treze

 

 

Estava com um texto quase pronto, contra o poliiticamente correto, quando dois mil e treze me pegou pelo pescoço e me fez mudar de direção. Me dei conta de que 2013 promete uma estrada amorosa, porque a soma de 2 + 0 + 1 + 3 é 6, e seis é o número que simboliza o amor, que vibra com o planeta Vênus, exala paz, arte, maternidade, compaixão, reação e a essência feminina.

 

Além disso, me chamou a atenção que o número da vibração em que vivemos, o número que representa a matéria, é a do número nove. Assim, entra ano sai ano, o nove estará presente enquanto vibrarmos predominantemente na matéria. Ele rege nosso presente nível de evolução.

 

O nove tem essência masculina, de guerra, de conflito e agressão, ação. O número da matéria vibra com o planeta Marte. Então, 2013 chega com os opostos nas prateleiras do imponderável, oferecendo farta oportunidade de buscarmos um patamar melhor de equilíbrio. Amor e conflito, paz e agressividade estarão aqui como sempre estiveram, mas se mostram, eu vejo assim, como oportunidade de caminharmos mais perto do outro e de chegarmos mais longe do desconforto em que temos vivido.

 

Neste ano que chega daqui a pouco, seis e nove reinam parceiros. Se completam. 69. O símbolo do signo de Câncer, a Grande Mãe. A Mãe do Mundo. A Lua. Um número contém a possibilidade do outro. Yin e Yang. Há respeito, há reconhecimento mútuo da força. Espelham-se. Simbolizam Pai e Mãe.

 

Você já se deu conta de que o nove multiplicado por qualquer número dá um resultado que somado dá nove? Por exemlo: 9 X 4 = 36. 3 + 6 = 9. 436 X 9 = 3924. 3 + 9 + 2 + 4 = 18. 1 + 8 = 9. Ah, e que tal a soma dos algarismos: 1+ 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 + 8 + 9 = 45. 4 + 5 … Os números encantam. Que os usemos mais responsavelmente no ano que vem, e que a vida não caiba só em cartōes de crédito.

 

No fim do ano passado lexigramei o nome deste ano, então fiz o mesmo com o nome do ano que está chegando. O que será que dois mil e treze tem para dizer com as letras do seu nome? Encontrei diversas palavras, que exponho abaixo, e construí algumas frases, mas antes de finalizar com meus votos de um ano gostoso, quero agradecer ao nosso amigo blogueiro, Mílton Jung, pela confiança e pela acolhida de todos estes anos. Agradeço também aos amigos que me escrevem no blog ou no email e me fazem companhia, e aos “raros e caros” leitores, que dão vida ao que escrevo.

 

Divirta-se, e Feliz Ano Novo!

 

O delito no deleite, e o direito dorme. / Solte o medo. / Semeie o riso. / O metro da elite é mistério. / Modele-se o setor de trem. /Deitei no leito do mistério. / Temor de tiro. / Rezo / Sorte / LER.

 



Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De desapego e liberdade

 

Por Maria Lucia Solla

 

Carmen Miranda – E o mundo não se acabou por thevideos no Videolog.tv.

 

Final de ano é como semana de véspera de prova; a gente estuda tudo o que não estudou durante o ano. É muita pressa. É engolir sem mastigar. Na contramão do fluxo, vou devagar. Remexo meus guardados para limpar, me desfazer, me desapegar, e me vejo cercada de papel por todos os lados. Adoro papel e me apego a ele. A limpeza é das boas. Papel é só o começo da saga, e me dou conta, no processo, de que não sou apegada, grudenta, mas estou apegada a um anel aqui, umas peças trazidas de viagens que só me trazem lembrança e sensação boas e uma coisa ou outra. É isso. Só as boas. E papel.

 

 

Sentei no chão, e dei de cara com o que não esperava encontrar. Assim de primeira, tirei um maço do meio de uma das pilhas e ganhei meu presente de Natal. Encontrei textos escritos por participantes de um trabalho de consciência, comunicação e expressão, em Extrema, Minas Gerais, e de outro aqui em São Paulo. Comecei a ler um por um, um daqui, outro de lá, lembrando da imagem de muitos deles, alguns sem associar o rosto ao nome, e fui me emocionando, fui crescendo, de fora pra dentro, de cima pra baixo e de baixo pra cima.

 

Com essa história que a gente vira e mexe constrói de acaba ou não acaba o mundo, a gente acaba se esquecendo de viver. Na opinião abalisadíssima da minha amiga Tânia, os Maias não escreveram mais porque acabou a tinta. Encurtaram a história, e pronto. Claro que comprei essa possibilidade, na hora, mas o fato é que a gente sempre inventa uma coisa ou outra para não se dar conta da vida que jorra, que se doa. Doa a quem doer.

 

No trabalho de encerramento daqueles eventos, pedi que os participantes olhassem para suas vidas aos oito anos e depois aos oitenta, e que escrevessem o que tinham visto, em muito poucas palavras.

 

Quanto ao passado, teve quem daria um dedinho para retocar, e teve quem se satisfez com o que viu e viveu; mas com o futuro foi diferente. O futuro mostrou satisfação, paz, celebração, realização de sonhos, certeza. No futuro tinha família, amigo, amor, aceitação do passado, que incluia aquele agora de cada um, naquele momento. Tinha consciência da colheita, tinha experiência de farol, tinha sonho, projeto e esperança. Sempre. Fruto de cada presente, de cada pensar, de sentir diferente do que se fez até então, a cada dia. Dá para reajustar esse brinquedo chamado Tempo, aceitando que ele não é linear, mas concomitante; e que podemos ter acesso a tudo isso agora, hoje, como presente, na hora, e sempre que quisermos. É só treinar.

 

Ou não.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De vida

 

Por Maria Lucia Solla

 

Amo a Vida.
Sou profundamente grata por ela
e hoje partilho esse amor
através da voz de quem sabe
como e o que dizer.

 

 

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo

 

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el oído que en todo su ancho
Graba noche y día grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado

 

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él, las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano
Y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando

 

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio

 

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros

 

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto

 

Gracias a la vida, gracias a la vida

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung