De luz

 

Por Maria Lucia Solla

Por dois ou três minutos vou me esvaziar de mim e, durante esses cento e tantos segundos, deixar-me invadir por uma luz que ilumina sem brilhar e conforta sem subjugar. Mas é preciso que eu tenha cuidado para não me render à tentação de pensamento e emoção que brotam do ego, e para não enfiar em cada canto disponível a fissura por controle e julgamento.

Vou percebendo a luz se alastrar num raio desmedido, sem freio nem direção, tocar tudo o que encontra pela frente e transformar tudo o que é tocado. Colher lágrima de dor e semear alento, distribuir compaixão e coletar solidão, cansaço e descrença. Ela vai apagando a certeza, depondo a razão, apagando dos olhos e da memória do homem a mentira e desmentindo a fé que precisa de guia para chegar ao Criador.

Ela vai fazendo o que lhe é próprio fazer, tocando cada canto esquecido de cada esquina de espaços que desconheço e apagando a lembrança dolorida, o sonho fracassado, a frustração pelo que passou e a incerteza pelo que ainda nem chegou. Vai alcançando cada um: letrado e desletrado, enricado e empobrecido, diplomado e tatuado, o calmo e o arretado, o querido e o detestado, e vai sinalizando o caminho para o fim de tanto sofrimento.

Vou me aquietando enquanto ela põe rédeas na minha mente que mente, que mente, que mente, que me leva pela estrada errada que vem prometendo o cetro e a coroa desde a materialização do nosso chão e do nosso céu, que nem mesmo nossos são.

Ela vai convencendo a mim, e a quem puder alcançar e tocar, de que é melhor deixar ir o que nunca foi e nunca será meu, que nem sempre quem ama é amado, e que para o amor não há regra e nem livro editado. Vai afastando de mim, e de quem puder alcançar e tocar, os rebentos da carne e do coração, como faz a macieira que permite que a maçã se solte e siga o próprio destino. E ela, a luz, ainda vai desativando bombas criadas para destruir, e vai levando dos nossos corações o impulso de matar e de morrer e plantando, em seu lugar, coragem de viver, mansidão e leveza de simplesmente ser.

Que o toque da luz nos faça esquecer o que precisa ser esquecido, administrar o possível e aceitar o impossível.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e escreve, aos domingos, no Blog do Mílton Jung

De violência

 

Por Maria Lucia Solla

Vai lavar louça dona Maria!
Sai da frente idiota; mas é buuurro…
Amor eu não a-cre-di-to que você fez isso!!
Ah, já chegou é… aposto que esqueceu…
Larga isso laaarga!
Deixa que eu faaaço!

De violência
Ou seja:

Sua idiota, abre alas que eu vou passar, e vai lavar louça que é coisa de mulher! Sai da frente que a frente é minha! Você se superou, rapaz, conseguiu fazer pior do que eu imaginava você capaz. Para ganhar, é só apostar contra você. Eu não esperava nada diferente! Pelo amor de Deus, não toca nisso, seu zero à esquerda. Droga!

Abre-isso-fecha-aquilo não-faz-assim-faz-assado, a violência só faz crescer, e a gente só faz se esconder. Voz de deboche, olhar de esguelha, tudo juiz, esconde-esconde, ataque e conta-ataque o-tem-po-to-do. Predador e presa. Assim se vive em desaconchego na família, entre amigos, na escola, no trabalho, na rua, na fazenda e nos escombros da casinha de sapé.

Sem mapa nem manual, tateamos a vida, aprendendo a viver a cada dia vivido e à medida que vivemos, um por um dos nossos dias. E cada um só sabe do seu viver, da sua dor, da alegria do crescer, do cair, do sofrer, do rir e chorar. Digitais, DNA e a retina que podem servir de código de segurança porque ninguém no mundo tem igual, e ainda assim somos da mesma espécie, gostamos de ser bem tratados, de respeito e gentileza. Se sofremos com a dor, o outro também sofre, na medida dele é claro, mas somos basicamente iguais. Queremos respeito, aceitação, sucesso e aplauso. Fazemos cara de sem-jeito na hora do parabéns-a-você, mas adoramos o aplauso.

Injustiça, deselegância, desafeto, desamor, tortura maquiada, o atrair para trair, e a cada dia nos protegemos mais, atrás de muros que dão choque, de portões que se abrem com senha, de vidros escuros, de homens enfatiotados que num arremedo de faroeste sacam walk-talkies quando sentem medo. Focamos na desgraça grande, na violência evidente, para disfarçar a virulência que corrói o pensamento e o diálogo, destrói o discurso e o silêncio. Por onde anda o coração? Pobres de nós


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De ressonância

 

Por Maria Lucia Solla

Céu de SP

Você já passou por uma ressonância magnética? Quem passou deveria ser carimbado na testa; para o quê eu ainda não sei, mas tenho certeza de que um dia saberemos.

Cheguei ao hospital focada, era preciso encontrar a entrada do pronto socorro onde eu tinha sido atendida sete dias antes, resgatar o RX do meu ombro esquerdo e pedir o encaminhamento do ortopedista para fisioterapia. Só isso. Tudo dava certo desde que acordei. É meu dia de sorte, pensei. Saí de casa um pouco antes das dez, as ruas estavam cheias, mas o tráfego fluía em ritmo de valsa, suavizando o desconforto causado pelo ajuste do encosto do banco do meu carro num ângulo de noventa graus para acomodar costas e ombro esquerdo.

Não errei uma virada do caminho, nem a entrada do estacionamento. Ponto para mim. Ao pedir informação na recepção, fui atendida com sorriso e boa vontade. Ali eu só retirava uma senha e preenchia uma ficha, mas não demorou nada entre isso e a chamada para o atendimento médico. Para dizer a verdade demorou o tempo necessário para eu reencontrar uma querida amiga de muitos anos, que eu não via há outros tantos. Trocamos número de telefone, e fui chamada ao consultório nove. A gentileza do dia continuava a me mostrar seu sorriso branco e brilhante, dente a dente.

O médico atencioso e cuidadoso recomendou dez sessões de fisioterapia e pediu um exame que eu nunca tinha feito, uma ressonância magnética. Perguntei se o hospital tinha um departamento de exames, e ele me indicou o quarto andar. Antes de ir até lá resgatei meu RX, e então cheguei à recepção do laboratório. É preciso agendar? Tem chance de um encaixe? A moça que me atendeu disse que tinha sim, e que só precisava fazer meu cadastro e consultar o plano de saúde. Será que dá tempo de tomar um cafezinho e comer alguma coisa antes? Sempre preciso de uma pausa assim. Dá tempo sim. Tome seu café sossegada.

Na lanchonete do hospital pedi um café com leite e um super pão de queijo. De quebra comprei um jornal e me deleitei fazendo uma das coisas de que mais gosto: tomar um café bem quente com um lanchinho e boa leitura, na falta de boa companhia.

Voltei para o quarto andar e então passei pela experiência mais bizarra da minha vida, uma ressonância magnética do ombro esquerdo. A senhora se deita aqui. Tá muito frio. Não demora muito. São só uns dez minutos de exame. Meu Deus! Meu Deus! O que é isto?

Ainda estou em choque. Nunca mais vou ser a mesma. Mudou a estrutura do meu DNA. Eu mudei. Passei por tecnologia de ponta com ranço e roncares da Idade da Pedra. Feito nós. Faz sentido.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De esperança

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

sou avessa a dor
mas prefiro dor a dores
que a palavra no plural se pulveriza
clona a si mesma
se banaliza

saudades não me caem bem
mas se inevitável
que venha a saudade
pura sem gelo
já que você não vem

aos ciúmes sou avessa
mas tem hora que não dá para evitar
e acabo topando
com ele
o ciúme singular

Andamos íntimos demais da dor. Com quem falo quem encontro está doendo de mal do corpo ou de mal do amor. Uns mais, outros menos mais. Hóspedes do planeta dor, temos explorado os seus caminhos, andarilhos e curiosos que somos, mas neste ponto do tempo parece que chegamos ao seu ponto central, e é ali que estamos agora, eu doendo aqui, você doendo ali, e a dor do outro sempre parecendo mais branda que a nossa. Pimenta no olho do outro pode não arder na hora, mas acaba respingando na gente, e a pimenta de agora não é fraca não.

Quanto à minha coleção de perrengues, se é aprendizado, resgate ou acerto de contas, se é praga, trabalho-feito ou mau-olhado, depois de espernear, acabo agradecendo por falta de alternativa melhor. Fico “de bico”, que não sou santa e nem de ferro, mas já aprendi que se não impuser resistência, é como picada de injeção, dói menos.

anda duro de roer o osso
pela perda
do que nunca tivemos
pela posse
do que nunca foi nosso

hoje dói é certo
mas o lugar não é ruim não
para onde quer que você vá
se afasta do olho do furacão

amanhã traz nova chance
que é a sua função
a nossa é encarar a fraqueza
a preguiça e a solidão

ontem olhei pela janela do quarto
e vi estrelas no céu
quem sabe meu deus
nem tudo está perdido
no cardápio dos teus sonhos
e na receita dos meus

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Deslizando na arrogância

 

Esqui

Esquiar sempre foi considerado tarefa impossível para mim. Imaginava minha falta de habilidade e a neve lisa conspirando contra meu orgulho. Exceção feita ao surfe, que ao menos servia para tomar banho após a rebentação, os esportes radicais nunca foram meu forte. Lá em casa – entenda-se por Porto Alegre – quem era adepto às práticas mais arriscadas sempre foi o caçula, meu irmão Christian. Desde dirigir Kombi até andar de skate. Causava-me inveja vê-lo sair com os amigos para o Parque Marinha do Brasil, onde havia uma pista daquelas que mais se parecem com uma gigantesca e tortuosa piscina de cimento. Minha preferência era pelos esportes com bola, o futebol e o basquete, especialmente – apesar de que encarar alguns grandalhões no garrafão bem que poderia ser caracterizado como algo bastante radical.

Dito isso, fica claro que jamais pensei ser capaz de ficar em pé sobre aqueles dois pedaços de prancha usados para deslizar na neve, quanto mais deslizar na neve com os dois pedaços de prancha. Por isso, a viagem a uma estação de esqui, no Chile, estava sendo encarada como um desafio. Afinal, se você não esquia o que fazer por lá? Comer, rezar e amar. E beber, claro.

No primeiro dia de aula, a companhia dos dois filhos tornou a tarefa ainda mais constrangedora. Enquanto eles já sinalizavam habilidade natural, eu mais parecia um bebê cambaleante em seus primeiros passos. Pior, o olhar deles não era de solidariedade. Era de pena. Não abandonei meu propósito porque tirar as botas de esqui seria ainda mais complicado. Não sei se você já teve oportunidade de calçá-las, se não, pense que são ideais para presos em liberdade condicional. Impossível ir muito longe com aquilo nos pés.

Algumas horas depois, unhas do pé ardendo e uma comichão subindo as pernas comecei a me entusiasmar, apesar da insistência do treinador em franzir a testa e sacudir a cabeça enquanto me assistia. Aos berros de “cunha, paralelos, cunha, paralelos” ele tentava me convencer de que era possível fazer certo. Estar em pé e descer as primeiras rampas sem despencar para mim era suficientemente certo.

Foram oito horas de aula divididas em três dias. O suficiente para superar parte de meus medos, andar para um lado e outro da pista e ter a ideia de que esquiar era possível. Nem mesmo calçar as botas era mais problema, apesar da unha do pé dar sinais de que a situação ficaria preta, literalmente. Convidado por amigos aceitei ir mais alto, usar uma pista um pouco mais desafiadora para minha (in)experiência. Foi incrível a sensação proporcionada pelo domínio do equipamento, o controle da velocidade – “cunha, cunha” -, a possibilidade de mudar de direção conforme a posição das pernas e meu desejo. E de repente: um tombo espetacular deixa meu braço fora de seu lugar de origem e com uma dor que só foi maior no orgulho perdido.

Poucos dias de esqui são suficientes apenas para você aprender que a prepotência jamais será perdoada. Na primeira ilusão de que você domina alguma habilidade, a realidade o desmente. O tombo é inevitável, a dúvida é a dimensão dele. Quanto maior a soberba, maior o prejuízo. O que, convenhamos, não é preciso arriscar-se na montanha de neve para descobrir. Basta viver.

De dor

 

Por Maria Lucia Solla

No assado

Aqueles ali na frente se arrastam na inundação; uns perdem tudo, outros perdem todos. Os do lado esquerdo morrem do calor que mata gente, mata bicho e planta. Tudo morre, ou chega perto. Os da direita se debatem na neve. Tem vulcão enfurecido, e tem mar dando mostra do que é capaz de fazer. Gente da polícia mata criança e ladrão merreca ataca com arma de brinquedo. Ladrão merreca e meia vai de fuzil e dinamite, e ladrão merrecão, com cheque quente no talão, com pinta e título falso de doutor, ataca de celular e caneta. Tudo covarde. Uma merrecada só; boa de botar numa gaiola bem grande e jogar no mar, já que o rei das águas está acostumado a receber, de nós, o lixo.

E tem mais isso e tem mais aquilo, e nem vale a pena desfiar o rosário inteiro. É um tal de como vai? tá difícil! é… aqui também; ela está doente, ele em depressão; ele mente, ela trai. O pai de um tem Alzheimer, a mãe do outro também. E você quer saber? A epidemia de Alzheimer faz sentido. Ninguém está mais a fim de lembrar de tudo. Tem coisa boa, é claro, mas é tão pouca que a gente marca um par de dias por ano para fazer festa, acender velinha, bater palma e ficar contente.

Agora, honestamente? Não é culpa do povo do lado de cá nem do lado de lá, não é ele e nem é ela, somos nós, é o teu pensamento negativo e o meu, tua soberba e a minha que desembestam feito besta de dente afiado, e depois voltam para nós, seus amos e senhores. Portanto, não adianta pôr a culpa em Plutão e Saturno, os duros na queda, não adianta pedir clemência divina, buscando fora o que está dentro, que se chama consciência e que nunca se desligou da origem. Não nos servem mais as profecias, que só chegam até ali na esquina, porque a continuação da nossa história é responsabilidade nossa. Podemos rasgar os dogmas porque é aqui, neste ponto da existência, que nossa raça chega ao ponto central, de fim e de início, de morte e de vida. Ou resgata e desperta a consciência, ou não.

Confesso que tenho vivido uma luta de foice no escuro atrás da outra. Aprendo um pouco, subo um degrau e escorrego três para trás. E dá-lhe lambada! mas quem é teimosa sobrevive. O encontro com a gente mesmo, quando a gente se olha como olha o outro, não é fácil, mas quem disse que a vida é fácil? e quem prometeu um jardim de rosas? Portanto, força aí que eu vou me segurando aqui, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De lexigrama

 

Por Maria Lucia Solla

Lexiograma

Através do lexigrama eu mergulho no mistério das palavras. Não existe nome ou título que resista, e eu me esbaldo.

Hoje resolvi mergulhar no mistério de duas palavras que não querem largar de mim, e das quais não faço o mínimo esforço para me soltar.

Tudo começou há uns dois dias, quando eu assistia à novela das seis. Linda. Quando dá, assisto e me regalo; mas um personagem disse uma frase que sequestrou um pedaço de mim. Ele disse: A cerca que protege é a mesma que aprisiona.

Senti uma folia no plexo solar, mas continuei a assistir e a curtir a magia da arte que se consegue orquestrar num simples capítulo de novela. Eu não conseguia prestar atenção na trama porque ficava pensando na frase que já se reduzira, para mim, a proteção/prisão.

Vai dia vem dia, e me veio de lexigramar o que andava martelando na minha cabeça, fazendo meu corpo vibrar, exigindo minha atenção. Proteção/prisão. E é um pouco da viagem que fiz, nesse binômio de aparência paradoxal, que vou revelar a você.

Lexigrama é a técnica de encontrar no nome, frase, título, tantas palavras quantas se conseguir, combinando suas letras e se deixando maravilhar por revelações ávidas por se oferecer.

Em Proteção e Prisão encontro todo tipo de palavra, mas percebo que além do verbo no infinitivo, como castrar e casar, encontro muitos verbos na primeira pessoa do singular como rocei e pastei, ou aposto e arrisco, e entendo que esse binômio mostra a importância da responsabilidade na ação, palavra que também encontro ali.

encontro acerto e erro
presa e preso
porta e portão
mas não encontro
o fecho nem o desfecho

dou de cara com aposto e arrisco
ator e arisco
razão e reação
oração creio e Cristo

encontro traição e tropeço
corpo e procê
tesão parceiro e pato
mas para encontrar coração
falta o cê

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung. Este texto foi escrito durante as férias do Blog e por isso está sendo publicado somente agora

De móveis

Por Maria Lucia Solla

Móveis, mesa e refeição

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

Noutro dia, falando com um amigo, sobre um evento de 1982, me dei conta de que os móveis falam. Não falam como fala o carrinho no filme Se o Meu Fusca Falasse; móveis, assim como os ambientes onde moram, gravam acontecimentos, registram tudo: imagem, som, emoção, colorido, o tempo todo e depois repetem tudo, inaudível mas claramente, se você se dispuser a ouvir. Vou mais longe: além de falar são discretos a toda prova, só se abrem para aqueles que viveram os momentos em que registrou os fatos. São aliados; não espiões.

Minha mesa de jantar morreu não faz muito tempo. Essa sim, manteve um arquivo expressivo e impressionante; tão impressionante que basta que eu me conecte com ela em pensamento, que ela desfia o seu rosário de histórias. Quando veio morar comigo já era bem antiga. Foi amada por todos, os de casa e os de fora. Vestida das mais lindas flores, portava dignamente vinhos e queijos, e farelos de pão. Em volta dela, em mais de um endereço, comia-se bem e principalmente comia-se junto na maioria das vezes. Era grande, e ainda assim se desdobrava para acolher com conforto família e amigos. Acolhia grupos dos bons, e chegou a acolher inimigos declarados, com a sabedoria diplomática de sempre. E se mantinha firme, oferecendo tudo e exigindo muito pouco. Teve discussão, em volta daquela mesa, que acabava neutralizada por amor, por amizade, e cumplicidade regada de muita risada.

A morte da mesa da sala me pegou de surpresa, mas na verdade foi morrendo pouco a pouco, e eu não queria ver. Uma mudança aqui, um armazenamento acolá, um marceneiro intervinha com um parafuso maior do que a encomenda, o outro, preguiçoso, incompetente, cravava nela um prego assassino. E eu, envolvida com idas e vindas, a lida e a vida, dava por certa a sua imortalidade. Amarga ilusão. Ela arriou aos meus pés. Esperou um momento em que estava vazia, a fiel companheira, e não quebrou um prato, não desperdiçou uma folha de alface. Fez ginástica para não me machucar fisicamente, e caiu tão elegantemente quanto se manteve em pé.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung. Este artigo foi escrito durante as férias do Blog, por isso está sendo publicado apenas hoje.

De simplicidade

 

Por Maria Lucia Solla

Salada

A dança da simplicidade não tem volteio; vai de um ponto a outro e pronto. Soa fácil? Rá!A simplicidade é sofisticada até não poder; mora na verdade e no real, de onde a gente insiste em fugir. Nos afogamos na elucubração que enche nossa mente e confunde nosso coração.

Focada na tal da simplicidade, aprendi que quanto mais a persigo, mais longe ela fica de mim. Como tudo na vida, nada deve ser perseguido como se fosse tábua de salvação. O caminho das pedras é decidir a proposta e deixar que o resto vem por si. De todo modo vejo a simplicidade como algo que mais se aproxima da perfeição, e inevitavelmente caio no binômio de aparência impossível: como é que alguma coisa pode ser simples e perfeita ao mesmo tempo? O nó é que é difícil encontrar bom-senso no emaranhado de condicionamento que somos, para arriscar uma resposta à pergunta. Somos um emaranhado de nós apertados pelo tempo, pelo esforço de sermos vistos e reconhecidos pelo outro; pela insegurança, pelo egoísmo, pelo impulso de nos sobre-sairmos, e isso tudo de simplicidade não tem nada. Talvez porque não sejamos treinados para sermos simples. Somos treinados para termos razão e sem simplicidade nos afastamos cada vez mais da felicidade; do bem-estar.

No amor, onde está o bem-estar, se cada um tenta aprisionar o outro? se os casais vivem de mentiras, na maior parte do tempo, o tempo todo? Na maioria dos relacionamentos, a simplicidade não tem espaço, é preciso mentir, é preciso fingir, é preciso seduzir para podermos acreditar que possuímos o impossuível: o outro.

Na moda, o estilista que alcança a harmonia da simplicidade de conceito e de linhas, faz sucesso que dura, dura por gerações. Vem modismo vai modismo, o simples volta e fica, chega e arrasa em qualquer situação. Na música, a harmonia descomplicada é eterna. Acalenta.

Sempre que me sento no banco da praça onde chego depois da escolha de uma estrada na minha vida, me dou conta da confusão. Olho em volto e vejo que tenho mais do que preciso, escondo mais do que externo, pretendo mais do que ajo. Sem drama. Tudo sempre dá certo no fim; e se ainda não deu certo é porque… …você conhece o final.

Que tal pensar nisso e dar uma revisada, cada um no seu tanto de emaranhado? É sempre um bom começo.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.

De favela

 

Por Maria Lucia Solla

Favela no horizonte

Ouça “De Favela” na voz e sonorizado pela autora

Quando a gente não consegue mudar a realidade, muda o termo, torce a língua, tira e põe acento, mexe, remexe, e nada acontece. Favela é um bairro pobre, criado sem permissão nem conhecimento de órgão público que, recheado de servidor público, não percebe quando um morro começa a ser ocupado irregularmente, ilegalmente, por gente que prefere comprar terreno e casebre, de bandido declarado, a comprar de bandido amoitado.

Uma palavra nasce com DNA próprio; tem suas razões para nascer e vingar. Favela nasceu e vingou, correu mundo, e em cada rincão foi cantada em verso e prosa, nos mais diferentes sotaques. Hoje a palavra é considerada politicamente incorreta porque dá nome a um bairro pobre, criado clandestinamente à luz do sol e da lua, por gente e mais gente que descia e subia o morro carregando cimento, tijolo, folha de zinco, panela, pote e pinico, criança, velho, sem que ninguém visse!

Enquanto a instituição pública e seus motorneiros fingiam que não viam, e os futuros favelados fingiam que não eram vistos, tudo corria solto. Enquanto o mundo se encantava com a criatividade do homem sem diploma, sem carteira de trabalho e sem estudo, esse mesmo homem, calejado e malhado pela subida e descida do morro, foi percebendo que a instituição pública lhe voltava as costas à medida que ela, a favela, crescia, formava corpo; criava raiz, a pústula. O negócio ilegal também crescia e se organizava, pelo mesmo homem sem lenço nem documento que enfim conseguia morar, acampado entre bons e ruins, no mesmo canto do mundo onde morava o homem estudado, entre bons e ruins.

Quando o mundo inteiro já estava voltado para aquilo que a instituição local não via, procurou-se esconder o fardo, e o homem público gaguejou e ainda gagueja ao tentar explicar como bairros de proporções municipais tinham sido plantados, regados, cultivados, sem serem notados, dentro de bolsos e debaixo de narizes que se regalavam com o produto da ilegalidade.

mas o bicho homem é poeta por natureza
e cantava a favela em verso e prosa
sua alegria
colorido
o homem de coração sofrido

Tentou então a instituição cobrir o sol com a peneira e ergueu uma barreira de prédios horrendos, levando um punhado de favelados a habitarem seus cubículos empilhados, a fim de esconder a poesia nefasta.

E a gente foi levando: um fingindo que não via, o outro que não era visto, até que os bairros-municípios não pararam de crescer, de tomar espaço de quem podia e queria pagar, e o bicho começou a pegar. O ilegal começou a matar a se armar, e o legal a se armar a matar. Arma mata mata arma, e o mundo todo a olhar. A ilegalidade não se escondia mais, já que o jogo de ver e não ver já não dava mais prazer. Estávamos tão craques no jogo da cegueira coletiva e seletiva, que os legais e ilegais trocavam de lugar, num tira-põe-deixa-ficar, e a gente nem notava.

foi então preciso
como faz ladrão
e bandido
mudar o nome para camuflar a identidade
e favela virou comunidade

favela rima com amor por ela
favela rima com batuque na panela
e eu o que faço
vou lavar minha louça e
no cordão do tênis
do pé esquerdo
dar um laço

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung