De todos nós

 


Por Maria Lucia Solla

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Se você tem problemas, acredite, tem muita gente, mas muita gente mesmo passando pelo mesmo tipo de estrada: esburacada, escorregadia, íngreme, escura. Difícil! O país está perdendo as cores, escorregando nos índices e caindo no buraco.

 

Gente de toda raça, credo e de todo nível social. Do Norte e do Sul, onde o céu é mais azul, do Leste e do Oeste, onde ninguém está livre do mosquito e da peste.

 

‘Somos todos UM’ não é só afirmação de um grupo esotérico. É a mais pura verdade, tanto de um lado como do outro da moeda, porque ‘Somos todos UM’ também quer dizer que somos ÚNICOS. Ora, no meio da população planetária que já sai pela culatra, sermos únicos ser um fato? A Criação é incrível!

 

Assim, cuidado para não cair na armadilha do ‘nós’ somos melhores do que ‘eles’, ou vice-versa. É tática antiga de dominação: você se dá muito bem com os dois lados, mas atiça A contra B, tirando vantagem de todos e de cada um. O Tinhoso adora discórdia, percebe a mínima brecha, entra para ganhar e põe lenha na fogueira.

 

Problemas não nascem da diferença de cor, de nível social, intelectual ou ideológico. Isso é pega-ratão, é enganar o bobo na casca do ovo. É alimentar o fanatismo e o ódio. Hitler já fazia isso. Não é novidade. É aberração. Nasce da intolerância e da ganância.

 

Mas voltando ao ‘Somos todos UM’, nossa igualdade mostra a cara quando filhos remediados, pobres e ricos matam os pais, e vice-versa. Tem ladrão de galinha e ladrão do povo, ladrão desalmado e ladrão refinado. E tem gente fazendo o bem, também. De todas as cores, de todas as raças, de todos os credos.

 

Não se fala muito nisso, atualmente, mas é do que precisamos. Saber que o lado bom ainda existe, e sentir que todos somos iguais e merecemos respeito. Cada um no caminho que escolheu seguir.

 

Não há certo nem errado, depois que a escolha foi feita. A escolha se transforma no caminho, e é ele que trilhamos, até que nova transformação ocorra, e acordemos a tempo de curtir a paisagem, seja ela qual for. Por isso, compaixão é fundamental, pois a dor de viver é igual em todos nós.

 

E eu, confusa! me pergunto: como será que serei e onde será que estarei depois de superar este trecho esburacado e conseguir, claramente, novo caminho enxergar?

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De ‘politicamente correto’

 


Por Maria Lucia Solla

 

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Título não é aval de importância, competência ou caráter. É sugestão de excelência.

 

Título é circunstância. Hoje você é miss, amanhã não é mais. Um dia estudante, no outro delinquente.

 

Tem vezes em que o sujeito se encaixa na função com tanta harmonia, que enobrece o título. Noutras o rebaixa.

 

Sujeito? Nós, ora!

 

Somos nós que enobrecemos ou conspurcamos o cargo que ocupamos. Onde quer que seja. Nós que o levamos às alturas, ou o lançamos na lama, como têm feito os políticos brasileiros.

 

Quando digo ‘nós’, me refiro ao ‘nós’ tradicional, que quer dizer inclusão de cada ser humano vivente, e quiçá os não tão viventes assim. O ‘nós’ de antes do advento do ‘politicamente correto’, um arroubo autoritário, preconceituoso e burro, na minha humilde opinião. Quem é que não concorda que favela dá samba e comunidade esconde a verdade?

 

Estou certa de que não sou a única a encarar metamorfose atrás de metamorfose nestes tempos difíceis de dificuldades financeiras, emocionais e que-tais.

 

Não somos nunca o eu de ontem.

 

E por falar em ontem, enfrentei a cozinha e o fogão. Uma varrida, um pano passado com o rodo… não limpa! Aí tem que atacar de jeito o que pedia para ser atacado. Balde, vassoura, rodo, escova, sabão, água sanitária, amaciante para atenuar o perfume do coquetel, um par de luvas que ganhei da Rose, e encaro a tarefa. Aprendo no percurso. Reinvento a roda.

 

Que falta faz uma empregada doméstica! Saudade de quem salvou o funcionamento da minha casa para eu poder trabalhar. Naquele tempo, empregada doméstica dava título à pessoa capaz de realizar os serviços domésticos, como cozinhar, lavar, passar, varrer, esfregar o chão, esticar um olho nas crianças e emprestar ouvidos aos queixumes e à confidência de cada morador da casa incluindo cachorro e papagaio.

 

O título era ‘Empregada Doméstica’ porque a pessoa era empregada por uma família, não por uma empresa. Descrição perfeita. Alguém que contava com a confiança dos moradores da casa, como se fosse da família. Do túnel do tempo!

 

E, já que falamos delas, vivam as empregadas domésticas!, especialmente as que são mães. Negras, brancas, amarelas, gordas, magras, altas, baixas, que deixam seus filhos em casa ou na creche, para dar atenção aos nossos. Que fazem o que não sabemos ou não podemos fazer.

 

Né?
Levanta teu brinde, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

De troca de casca

 

Há três meses esperava por esta oportunidade: voltar a publicar os textos de Maria Lucia Solla no blog. Como você sabe, caro e raro leitor, este é um espaço aberto a colaboradores. Escrevem aqui amigos, colegas e ouvintes por vontade própria. Solla foi a primeira, lá em 2008, a enxergar no Blog oportunidade de conversar com as pessoas. Abriu a porteira para tantos outros que tiveram vontade de se expressar, alguns dos quais estão até hoje ao nosso lado. Ficamos muito felizes de tê-la de volta:

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Olá,

 

faz tempo que não me traduzo em palavras.

 

São sensíveis, as palavras, como notas musicais. Se rebelam e se escondem quando mais precisamos delas.

 

E quando estamos confusos, então!, entram em cena na marcação errada, tropeçam umas nas outras e desafinam na tradução da nossa percepção da vida.

 

Quanto à minha percepção, anda tentando se entender com as palavras, para entrar em sintonia com elas. Tem dias que, de boa vontade, as duas chegam à mesa de negociação; mas se dispersam na boca miúda e não chegam a conclusão aceitável para lado nenhum. A percepção enlouquece e se descabela tentando um acordo. As palavras encasquetam e não cedem. Cansadas das surras que têm levado!

 

Manifestam-se.

 

Nada de novo no que digo. Somos do mesmo roteiro. Estamos vivos. Todos. Aqui.

 

Eu ‘troco de casca’ periodicamente. É uma trabalheira danada. Todos trocamos; nem todos se dão conta, mas se descascar e depois se acostumar com a nova casca é tarefa para ninguém botar defeito. É dor de parto. A gente chora, esperneia, emburra, mas é igual nascer de novo, cada vez. Para uma nova vida. Não é trajeto macio. Ao menos não tem sido, para este ser que vos fala, mas é o começo de um novo caminho, de novas conquistas, de mais gratidão e esperança.

 

O horror e desgraças que temos presenciado aqui lá e acolá, não nasce do aumento da abobrinha, do tomate, da insatisfação do trabalhador dos dois lados do balcão, do mosquito da dengue, da chuva ou da seca. Nasce da diminuição do respeito, da educação, do caráter, da – o que na minha época se chamava – formação do cidadão. Traduzindo para os dias de hoje, preparação para viver em sociedade.

 

Bem, é hora de acordar e mudar o foco. Cada um se expressando pelo seu melhor. Escolhendo o positivo, a gratidão, a generosidade. Os quatro elementos já deram o que parece ser o último aviso. A Água, a Terra, o Ar e o fogo. Pelo planeta inteiro.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Obrigada a você “caro-e-raro-leitor”
Obrigada, Mílton Jung.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

Aproveite que o ano começa agora e encontre seus objetivos!

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

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É incrível! A frase pronta “O Brasil só começa depois do Carnaval” é cada vez mais levada a sério em nosso país. Ainda que este ano o Carnaval aconteceu no meio de fevereiro, o que nos leva a começar o ano antes de março. O feriado do Carnaval, assim como os de fim de ano, são os mais desejados pelos brasileiros, tanto que as diárias de hotéis e bilhetes aéreos têm seus preços multiplicados, tornando-se até abusivos. Ir para o Rio de Janeiro, por exemplo, fica mais caro do que passar alguns dias (em alto estilo) em Paris. Lei de oferta e procura? Sim! Também não podemos negar que o Brasil é um país que encanta e não apenas aos brasileiros. Vêm estrangeiros de diversas partes do Mundo.E isso tem seu preço!

 

Fora essa questão, há um aspecto moral bem interessante: após o Carnaval, as pessoas começam a (tentar) por em prática suas promessas, aquelas feitas durante o Ano Novo: fazer dieta, encontrar o amor da vida, trocar de emprego…enfim, inúmeros desejos que somente poderão ser almejados com muito esforço da própria pessoa. Profissionalmente, como coach, ou apenas pela curiosidade que tenho no ser humano, faço muitas análises e observações. E aproveito o texto de hoje para comentar algo que tem me feito pensar nestes últimos dias.

 

Estamos cada vez mais apegados a modismos e, por exemplo, adoramos as soluções propostas por sucos detox (que eu tomo, frequentemente). Não percebemos ainda que o necessário é um “detox” interno. Autorreflexão, autoconhecimento, análise do valores de vida e o questionamento desses valores, a busca por se tornar uma pessoa melhor … e, principalmente, se convencer de que não bastam reclamar e prometer mudanças. É necessário ser coerente consigo mesmo. Tantas pessoas se dizem tão abertas para o que buscam, mas não basta buscar. É essencial identificar suas qualidades e, também, seus pontos de melhoria. É necessário agir como seus pensamentos, ir ao encontro de seus objetivos e, se não souber quais são eles, procurar a ajuda de um profissional. Dependendo do nível da questão, pode ser um terapeuta, um coach, um profissional de consultoria ou mentoring. Pessoas que vão ajudá-lo nessa caminhada, agora que o ano começou no Brasil!

 

O luxo no mundo contemporâneo é cuidar do SER, com muito mais valor que o TER.

 

Agora sim: Feliz 2015!

 

Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

De ah!

 

Por Maria Lucia Solla

 

ah, quanto eu gostaria
de poder escrever
só palavras
de pura alegria

 

o que seria
na verdade
um tédio só
pura fantasia

 

ah, quanto eu gostaria
de ser sempre bem-posta
e que a vida não se oferecesse
tantas vezes
como uma cega aposta.

 

Mas sou tão pequena
uma das menores células
da Humanidade
do que eu tenho ciência
desde tenra idade

 

Agradeço sempre
por tudo o que tenho
por tudo o que sou

 

E peço ao Criador
que na Sua Grandeza
que me dê força para continuar
no Caminho que escolhi para mim
seja ele de alegria ou de dor

 

Para um domingo de manhã
já é filosofia demais
Aproveita o teu dia
e por que não?
faz você, a tua poesia.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De aniversário de casamento

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Hoje, 25 de janeiro de 2015, meus pais, Oswaldo Rocco Solla e Clélia Calò Solla, comemoram setenta anos de casamento, onde quer que estejam, já que se foram deste planeta sem comunicar seus destinos.

 

Como todos os que se vão daqui, imagino que nasçam em novo lugar, para nova vida, em dimensão e vibração muito diferentes das nossas. Mas quem é que sabe…

 

A gente não sabe o porquê nem para que veio, e vive na ignorância do que virá. Mas vive. O propósito é esse, e pronto. Dia a dia, dor a dor, riso a riso.

 

Me afasto do assunto.

 

Meus avós paternos, Pedro Rojo Sola, espanhol, e Deolinda D’ Assumpção Marcello, portuguesa, criaram a metade homem, muitíssimo bem assessorados pela Bisa Maria da Luz; e meus avós maternos, Vito Calò e Grazia Giannuzzi Calò, ambos italianos, a metade mulher.

 

Oswaldo – e dois irmãos – nasceu e cresceu pobre, numa família ‘esquentada’. Estudou pouco na formalidade das escolas, mas atingiu o doutorado na vida. Trabalhou quase sessenta anos na mesma empresa, desde os quatorze anos. Começou cedo, e atesto que isso não fez mal a ele. Ao contrário, ajudou a forjar sua auto-estima e o seu caráter. Recebeu muitos prêmios, construiu sua casa, comprou seus carros e, principalmente, assegurou-se de que seus filhos não cresceriam sem o melhor estudo e o melhor código de honra que ele pudesse oferecer. Agora, o que fez de melhor foi proteger a Clélia. Contra tudo e contra todos, fazia tudo por ela. Ela era a Rainha do Lar – dirigida pelo Rei, é óbvio! Bibelô… mas tudo tem seu preço.

 

Clélia – e dez irmãos – vivia bem nesta nova e promissora terra brasileira, até completar nove anos. Nove! Foi então que o vovô Vito resolveu nascer, ele também, para uma nova vida, deixando a família que protegia, alimentava e acarinhava – todos dizem que ele era carinho puro -, nas mãos de D’eus.

 

Imagina a situação da vovó Grazia? Vivia as vinte e quatro horas do dia cuidando da casa e da família e de repente se viu sozinha e responsável pelo sustento da casa. Doze bocas para alimentar, doze de tudo! Nem quero nem pensar.

 

Pois ela pensou, e bem rapidamente: foi trabalhar numa fábrica de charutos e deu conta do recado, muito bem.
Por que eu conto tudo isso? Porque que me orgulho da minha família. Me orgulho de ser um pedacinho dela. Fruto dela. Dos seus erros e dos seus acertos, das suas brigas e da sua paz. O seu não-estar estando para sempre.

 

Obrigada, mamãe, obrigada papai, pela minha vida.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. É colaboradora do Blog do Mílton Jung

De vó Clélia

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Hoje, 22 de dezembro de 2014, nasceu para uma nova vida, a minha mãe, a Dona Clélia Calò Solla. Eu sentia ter duas mães, a minha verdadeira e a minha sogra, e as duas resolveram partir quase quase juntas.

 

Dona Ruth, minha sogra, que se foi há dois dias, era uma mulher de estrutura e estatura grande e forte, decidida e independente. Ao contrário dela, minha mãe sempre foi recatada, de estrutura e estatura delicadas, e de fala mansa. Artista e cozinheira de mão cheia.

 

Tenho quase quase certeza de que a vó Ruth se desligou do corpo que a prendia ao leito e foi, como vão as almas quando se soltam da prisão do corpo, até onde estava a mamãe. Já chegou lá animada, chamou a mamãe e disse: segura na minha mão, Clélia, e vem comigo para a liberdade.

 

A mamãe, que pouca intimidade teve com a liberdade, durante toda a vida, sorriu ao rever a amiga distante, em quem confiava, deu a ela a mão, e se foram. Soltaram as amarras que ainda as prendiam a este planeta e saíram voejando, como voejam as almas.

 

A mamãe faria, em 28 de março, 88 anos. Casou-se aos dezoito, com seu primeiro e grande amor, e foi a ele e à família que dedicou cada dia da sua vida. Começaram a namorar num baile, dançando ‘ Eu sonhei que tu estavas tão linda, de Altemar Dutra. A mamãe era muito bonita: olhos verdes, com os quais presenteou meu filho mais novo, alourada, pele branquinha e muito, muito delicada. Falava baixinho e era discretíssima. Nem poderia ser diferente, com meu pai sempre controlando cada detalhe da vida.

 

A mamãe casou menina, e eu nasci quando ela ainda não tinha deixado a meninice. Deve ter cortado um doze comigo, que sempre fui, como dizer, um pouco diferente da maioria das meninas da minha idade. Ela encarou o desafio. E qual seria a outra alternativa? Depois, bem depois, 14 anos depois chegou meu irmão Oswaldo, mesmo nome do meu pai, e foi aí que se deu o encontro de duas almas gêmeas. Ela e meu irmão.

 

Desde o primeiro contato foram unidos, cúmplices, apoio um para o outro. Sempre! E meu irmão foi dedicado a ela, sem trégua, até o derradeiro momento.

 

Obrigada, mãe, pela minha vida, por seus cuidados e pelo exemplo de generosidade, humildade e o trato amoroso a todos que passaram por tua vida.

 

Paz, Luz, Amor de verdade e muita alegria junto ao vovô Vito Calò, à vovó Grazia, ao papai e todos os que formarão o teu novo mundo.

 

Gratidão! Amor!

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De vó Ruth

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Agora há pouco, sábado, dia vinte de Dezembro de dois mil e quatorze, nasceu para mais uma vida, a minha sogra, a Dona Ruth Kroeff.

 

Nem se preocupe pensando que este texto será um texto triste.

 

Absolutamente!

 

Da Dona Ruth só memórias boas e principalmente apetitosas, porque ela cozinhou a vida toda, como ninguém! E para um batalhão de locais e agregados, como se diz por lá. Ela sempre perguntava: ‘quantos dezoito somos para o almoço?’ Era a senha para a sua entrada na cozinha.

 

A cozinha dela, aquela diária e corriqueira, sempre incluía um assado, que era uma de suas especialidades, uma linda salada, (quando eu andava por lá, ela sempre me chamava para enfeitar o prato da salada), arroz, feijão, alguns tipos de misturas e muita, mas muita sobremesa.

 

Tive outros maridos, mas uma sogra só a quem sempre amei = admirei e respeitei. E com esse seu novo nascimento, não muda nada. Ela continuará, para sempre, a minha sogra querida, e eu para ela, a sua norinha querida. A sua Lu, a sua Luzinha.
Aprendi tanto com ela! Do seu vocabulário único e delicioso e só dela, mesmo morando na cidade há anos e anos, aprendi que carteira era guaiaca e dentadura cremalheira. Só para dar uma amostrinha.

 

Me lembro do tempo em que a Dona Ruth já dizia que não iria a festa nenhuma, porque estava com tremedeira miúda. Eu entendia tão bem a minha sogra! Somos muito parecidas (hoje eu tenho tremedeira miúda!). Ela me ensinava do seu próprio manual de sobrevivência e estava sempre sempre do meu lado, principalmente quando algum perrenguezinho desandava.

 

Sogra de olhar de cumplicidade, que bota paninhos quentes em lugares que estavam gritando por eles, mas ninguém mais percebia; que sorri com os lábios e com o olhar quando a gente chegava, só gente muito sortuda como eu, para ter.

 

Vai em paz, Dona Ruth, que seu posto já está sendo preparado desde há muito.

 

Nós ainda ficamos mais um tanto, com o coração apertadinho agora, mas cheios de gratidão por ter participado da tua vida aqui e por tê-la compartilhada, pela senhora, com todos nós, os locais e os agregados, fossem eles quem fossem.

 

Meu amor continua com a senhora. Intocado.

 

Com meus filhos e netos e com todos os familiares e amigos, faço parte da corrente que vai conduzi-la, quem sabe, até o portal da sua nova morada.

 

Vó Ruth, eu te amo!

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De viagem, vida e leveza

 

Por Maria Lucia Solla
(escrito em 2008)

 

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Imagina que está arrumando as malas para passar um mês num país distante.

 

Calcula o tempo necessário, pensa se começaria a separar o que pretende levar com antecedência, ou se faria tudo de véspera. Imagina também que você mora sozinho e é o único responsável pelos pagamentos de contas e tudo o que envolve a administração da casa. Não estou de brincadeira, não, faz isso por alguns minutos. Elenca mentalmente o que levaria e como deixaria as coisas organizadas, para não ser surpreendido na volta pelo caos. Garanto que o exercício vale a pena. Sente o que não daria para deixar para traz. Que livros, roupas, jóias e o computador. Os brinquedinhos de cada um. Analisa tua personalidade, se é mais para o social ou esportivo. Da tua casa só dá para levar duas malas que precisam se encaixar nas medidas e no peso determinado pela companhia aérea, e é com isso que você vai viver, por um mês.

 

Eu já deixei minha casa para traz mais de uma vez para morar longe, e da última foi por um tempo bem longo. O interessante desses deslocamentos é dar-se conta de como é preciso pouco para viver e ser feliz. Em casa, no que chamamos de ‘minha casa’, tendemos a criar raízes e achar que tudo em volta é nosso, e que não se pode viver sem nem um alfinete que seja. Engano agudo, se por sorte não for crônico. Dá para viver, sim, e muitíssimo bem. O fato de dispor de espaço limitado e ter que escolher o que levar, leva a pensar, a optar por isso em vez daquilo, e avaliar a necessidade.

 

Cada um é diferente, e não há receita de tamanho único.

 

A única coisa da qual tenho certeza, e que poderia oferecer como receita, é que o melhor é viajar leve nas viagens e na vida. Se carregamos muita coisa, nos transformamos em seus escravos, tendo que arrastar um peso enorme e cuidar para que ninguém nos tire o que chamamos de nosso.

 

Nas viagens e na vida.

 

Sempre que meus filhos viajam, repito o mesmo conselho, feito disco riscado. Digo, filho, abre bem os olhos do corpo e os olhos da alma.

 

Fotografar faz parte da nossa cultura, mas muitas vezes, enquanto a gente se preocupa em enquadrar bem uma cena, está perdendo tudo o que está fora do quadro. Equilíbrio é fundamental, e as fotos não devem exceder, em número, as situações em que a gente se deixa encharcar pelo momento. Aquele momento em que se agradece pai e mãe por estar vivo e poder vivenciar a beleza, o sabor e a alegria de cada nova experiência.

 

Quando viajo, começo a descarregar meus pesos antes da partida. Levo comigo o mínimo possível e parto de mãos dadas com a curiosidade que é assim comigo: unha e carne. Quero viver a vida do povo do lugar, comer suas comidas, entender sua maneira de pensar e de sentir, e principalmente falar a sua língua. Observar e aprender.

 

Levo muito mais o que mora em mim, do que aquilo que considero meu. Levo pensamentos, sentimentos, e emoções. Levo muito pouca saudade dos que ficam, porque na realidade, aqueles que amo não ficam. Estão comigo sempre, onde eu estiver.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De achismo

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Foi amizade à primeira vista. Eu esperava pelo elevador de serviço, com a Valentina, para caminharmos lá em baixo, e para esticarmos as patinhas, namorando o Mar, mas ele não chegou vazio. O elevador. Elas estavam lá. Mônica e sua filha com um sorriso e um batom vermelho de arrasar quarteirão. Eu não as conhecia. Perguntei se se importavam que minha Valentina entrasse – quem a conhece sabe que ela é sedutora até não poder – e elas imediatamente agacharam para brincar com ela. Imagina, amamos cachorros; responderam.

 

Começou o papo.
Contei a elas que antes da Valentina eu jamais imaginava ter um cachorrinho. Tive cachorros grandes, que ficavam do lado de fora da casa e faziam a ronda nos protegendo, ou eu assim acreditava. Nosso contato não era próximo. O Doberman, que ficava no sítio, era alto e forte, e um pulo dele em mim seria um desastre, mas era eu que cuidava dele e o alimentava. Nosso relacionamento era muito bom, e ele era muito gentil comigo. Fazia festança com os maiores e mais fortes, lambia meus filhos que quase caiam de tanto rir e baixava a cabeça quando vinha me encontrar, para que eu lhe fizesse uma coleirinha na cabeça.

 

Contei também que quando eu via na rua alguém levando seu cachorrinho passear na calçada ou no parque, eu ‘achava’o ó! Sem preconceito, mas não podia me imaginar naquela situação. Eu? Nem pensar! Cachorro dentro de casa? Quarto? Cama?????

 

Isso foi assim, até a Valentina me encontrar, pular no meu colo, colocar seu inexistente focinho no meu pescoço (é uma Shi Tzu) e me conquistar para todo o sempre. Ela faz de mim, a cada dia, uma pessoa melhor.

 

E o papo incendiou e continuou na barraca da praia mais tarde: encasquetamos com o verbo ‘achar’e chegamos à conclusão de que está aí um verbo, num de seus sentidos mais populares, que deve ser mantido longe, ou de preferência aniquilado logo de uma vez.

 

Personagem 1: – Viu como ela anda de nariz empinado?

 

Personagem 2: -Vi e ‘acho’ que ela ‘acha’ que é melhor do que os outros.

 

Realidade: Ela se submeteu a uma cirurgia na coluna e ao se curvar, sente dor.

 

Pronto. Decretamos nossa ação contra o ‘achismo’

 

E você, ‘acha’ muito?

 

Pense nisso, ou não, e até breve.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung