É hora do setor imobiliário apresentar o seu Propósito

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Parque da Luz em foto de Renata Carvalho

 

De acordo com alguns professores da FAU-USP, a cidade de São Paulo está prestes a mais uma vez ser vítima dos interesses do setor imobiliário, em função de propostas apresentadas na Câmara Municipal.

 

Através do site LabCidade da FAU-USP, as professoras Raquel Rolnik, Paula Freire e o aluno Pedro Mendonça analisaram o PL 225/2020 do vereador Eduardo Tuma-PSDB, e o PL 217/2020 do vereador Police Neto-PSD, que propuseram “Ações Emergenciais” e “Plano Emergencial de Ativação Econômica” no intuito de enfrentar as consequências do Covid-19.

 

O texto do LabCidade sinaliza que tanto o Plano Diretor Estratégico de 2014 quanto a Lei de Zoneamento de 2016 poderão sofrer alterações, nos mesmos moldes do pretendido em 2018, além de uma tentativa de redução de 50% de desconto na Outorga Onerosa. Arquitetos e moradores impediram naquela ocasião o que seria uma verdadeira “Black Friday” para o mercado imobiliário. E um desastre pois o Plano e o Zoneamento são o mínimo a ser cumprido, pois não são um modelo exemplar de preservação de qualidade de vida.

 

A matéria ressalta a oportunidade perdida do momento de Convid-19, propício para se apresentar medidas que facilitem o acesso da população à moradia, e não se amplie a concentração construtiva nem as áreas das habitações, favorecendo classes menos abastadas.

 

Como agravante, uma das origens dos recursos para o atendimento das emergências decorrentes do vírus, tem vindo do Fundurb-Fundo de Desenvolvimento Urbano, que recebe os rendimentos da Outorga Onerosa do Direito de Construir, onde se propõe agora a redução de 50% e a suspensão do pagamento antecipado.

 

Há também na matéria, minuciosa especificação de alterações inseridas nas propostas para beneficiar o setor construtivo.

O vereador Police Neto reagiu e nominou a crítica da FAU como meia verdade, citando entre outras a questão do Fundurb, em que os recursos absorvidos pelo Convid-19 não serão reduzidos como relatado, tendo em vista que a utilização se deu do volume já arrecadado. Ao mesmo tempo argumentou que os benefícios pleiteados como isenções, reduções e postergações sobre os impostos tem como objetivo acelerar a retomada da indústria da construção civil, que afinal de contas é a maior empregadora de mão de obra.Neto discute também a questão das mudanças no Plano Diretor e no Zoneamento, que segundo ele se trata de ações provisórias e não leva em conta a dinâmica inexorável da cidade.

Enfim, este conflito de posições a respeito da urbanização de São Paulo, é um excelente pretexto para introduzirmos um importante aspecto do mundo corporativo, que é a busca do Propósito dos negócios, das marcas e dos setores de atividade.

 

Nos tempos atuais, e já há tempos, o Propósito tem sido tema dos mais evidenciados e enunciados. Neste contexto o consumidor é colocado na centralidade de tudo, para que se defina a razão de ser de atividades, empresas, marcas, produtos e serviços.

 

No foco das previsões do futuro pós Covid-19 há convergência no aspecto de que as mudanças que ocorreriam em anos estarão acontecendo dentro em pouco.

 

Neste sentido parece que é hora de definir o Propósito da indústria de construção civil. Afinal de contas, diferentemente de outros setores da economia, não se tem conhecimento que o setor esteja tão preocupado com os preceitos de centralidade no consumidor, incluindo aí a sustentabilidade, visto em boa parte das empresas modernas.

 

Aproveitamos então para sugerir que a centralidade esteja no consumidor e na cidade que habitam.

 

E plagiando os vereadores: que façamos “Ações Emergenciais” através de um “Plano Emergencial de Ativação Econômica Sustentável”

 

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

O princípio do fim: no Morumbi é permitido degradar

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Terreno na Avenida Morumbi próximo a rua Leonor Quadros (foto de CMG)

 

Em 2016, na reunião a respeito do zoneamento da cidade, atendendo o Plano Diretor, a Prefeitura em cumprimento da lei reuniu os moradores e proprietários de imóveis da região do Morumbi, em São Paulo, para decidir os parâmetros para o zoneamento da área.

 

Com marcante atuação,  especificamente de proprietários de grandes áreas situadas na Avenida Morumbi, e por meio de agressivas sustentações, tiveram satisfeitas suas proposições. O objetivo deles era ter seus interesses comerciais atendidos, bem distantes dos desejos de moradores, cuja meta era a preservação do meio ambiente.

 

A alegação básica dos proprietários apontava para o fato de que ninguém mais queria morar na Av. Morumbi, e eles não tinham como comercializar os terrenos dos quais eram os donos.

 

Cabe lembrar que nesta avenida está situada a maior mansão do município. Nela também moram personalidades ilustres da cidade, a começar pelo Governador do Estado, assim como banqueiros e empresários renomados.  E não se tem notícia de que eles estejam mudando de endereço.

Historicamente, a Av. Morumbi abriga a Casa da Fazenda, um símbolo da cidade que remete a origem da plantação de chá, no século XIX; a Capela do Morumbi, que fazia parte da fazenda que deu origem ao nome do bairro; a Fundação Oscar Americano com museu e rico acervo de arte, além do local da residência projetada por Oscar Niemayer e Burle Marx para Francisco Matarazzo Pignatari. Baby Pignatari, como ficou conhecido aqui no Brasil, nasceu em Nápoles, na Itália, foi influente industrial de cobre, prata e aviões Paulistinha, que morou com a princesa Ira Von Fürstenberg, após raptá-la, protagonizando um pitoresco caso do jet set internacional.

Os proprietários dos grandes terrenos da Avenida Morumbi também alegaram tráfego intenso de veículos e excesso de linhas de ônibus que deixam a área em comunicação com toda a cidade. Fatores que, somados ao meio ambiente preservado, tornam a avenida uma mina de ouro para os primeiros empreendimentos imobiliários que ali se instalassem.

 

A sequência do processo que atendeu aos proprietários dos grandes terrenos fez com que a Av. Morumbi passasse a ser categorizada no zoneamento como ZCOR Corredor Comercial  —  chegando a ZCOR3 em vários trechos. Os moradores que vieram para a Avenida Morumbi em busca das características originais de urbanização passaram a correr o risco da descaracterização ambiental. Avenida degradada e probabilidade de contaminação das áreas próximas.

 

Foi o que começou a acontecer a partir de 2018. Iniciaram-se as derrubadas da flora — até com aspectos surpreendentes. No dia da posse do Governador João Doria, por exemplo, um terreno, a uma quadra do Palácio dos Bandeirantes, recebeu multa por tráfego de toras de parte das 100 árvores cortadas e depositadas em cima da calçada. Veja bem, multa da CET e não da Secretaria do Meio Ambiente. Atente também que nenhum dos convidados percebeu o desmatamento, apenas o fiscal de trânsito.

 

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Árvores que foram cortadas para “limpar” terreno na avenida (foto de CGM)

 

A propósito, este terreno devastado completamente pela derrubada de todas as árvores  até hoje está absolutamente vazio e sem indício de operação. As placas de “autorização” para o “desmatamento” foram retiradas e o solo, agora sem sustentação, ameaça a casa vizinha.

 

Hoje, já podemos concretamente, sem trocadilho, vislumbrar na ZC  Zona de Centralidade definida pelo novo Zoneamento, situada na esquina da Morumbi com a avenida Comendador Adibo Ares, um robusto canteiro de obras preparando para a elevação de torres de moradias de alto padrão. Em sentido amplo. Preço e altura, o que contradiz e ao mesmo tempo reafirma a alegação de que ninguém quer morar na Av. Morumbi por causa do trânsito.

 

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Obra na Avenida Morumbi com a avenida Adibo Ares (foto de CMG)

 

Neste momento, ao longo da Av. Morumbi, outros terrenos de porte em trechos absolutamente residenciais, estão também sendo preparados para grandes construções, cuja operação se inicia com o corte de todas as árvores. É uma estranha equação, pois esses empreendimentos irão oferecer as vantagens existentes de infraestrutura e do meio ambiente da Av. Morumbi, mas começam por destruir o meio ambiente.

 

Até quando vamos atender aos interesses de empresários do mercado imobiliário?
Até as próximas eleições?

 

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

 

Revisão do Código de Obras de SP pode beneficiar infratores

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Assim como a Revisão do Plano Diretor e da Lei de Zoneamento, na cidade de São Paulo, irão anistiar infratores e punir o meio-ambiente, a Revisão do Código de Obras poderá seguir o mesmo caminho.

 

O Executivo apresentou à Câmara Municipal substitutivo da Comissão de Política Urbana e Meio Ambiente que foi aprovado por unanimidade em primeira instância. Segundo o vereador Arselino Tatto (PT)  e líder do governo, em entrevista ao jornal SP Zona Sul, a Revisão proposta vai desburocratizar os processos de licença, facilitando quem reforma ou constrói.

 

Tudo indica que a recente trajetória seguida no Plano Diretor e na Lei de Zoneamento, nos quais predominaram os interesses econômicos e comerciais, através de lobistas privados e ilusionistas públicos, será a mesma.

 

Naquela ocasião, não fosse a atuação enérgica de moradores e cidadãos pró meio ambiente, o desastre teria sido irreversível. Ainda assim, anistia a infratores e campo aberto para avanços em áreas de preservação não foram de todo evitados. A cidade ficará, por lei, mais adensada e menos arborizada, mais congestionada e menos preservada.

 

Hoje, com a população mais atenta a percalços governamentais, talvez os governantes fiquem inibidos de cometer atos desabonadores à sociedade, repelindo agentes econômicos com escusos interesses pecuniários.

 

O Prof. Leandro Karnal (UNICAMP) em roteiro sulista já está dando a sua contribuição lembrando em boa hora:

 

“Não existe país com governo corrupto e população honesta

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

SP Zoneamento: lei será votada na quinta-feira

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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À véspera da votação da Lei de Zoneamento, surgiram 188 emendas. Onde se identifica algumas proposições que desvirtuam o mérito, enquanto outras se aprofundam na permissibilidade à preservação ambiental da cidade de São Paulo.

 

Vamos a elas.

 

1. Autorização específica do aumento do ruído urbano de 45 decibéis para 50 decibéis.

 

2. Diminuição do valor da multa do PSIU aos infratores. O valor máximo de R$ 38 800,00 passará parar R$ 8 000,00.

 

3. Manutenção de usos impactantes nas ZCor (zona corredor).

 

4. Aumento do gabarito construtivo que já tinha aumento de oito para 14 andares, extrapolado para 16 andares.

 

5. Retirada de 3,2 milhões de metros quadrados de áreas marcadas como zonas de proteção ambiental.

 

6. Liberação à construção civil de 1,4 milhão de metros quadrados de áreas de proteção aos mananciais.

 

7. Permissão para edificação de imóveis de cinco andares nas ZCor residenciais.

 

Todas estas medidas oferecidas à cidade se juntam aquelas específicas para as ZERs (zona estritamente residencial), liberando atividades comerciais em suas áreas até então preservadas.

 

Não bastasse isso, uma manobra política permitiu que a votação fosse feita com um quórum mínimo de 33 vereadores. Quando o normal para uma Câmara de 55 membros, é o quórum mínimo de 37 vereadores.

 

Suspeita-se que 33 é a quantidade de votos que Haddad tem para aprovar o Projeto.

 

Ontem, na Câmara Municipal de São Paulo os vereadores decidiram que a votação deste Projeto de revisão da Lei de Uso e Ocupação do Solo, será realizada amanhã, quinta-feira, 25.

 

Se este Zoneamento for aprovado, “SÃO PAULO NÃO PODE PARAR” de tanto orgulho em um passado recente, terá que adotar o “SÃO PAULO NÃO PODE RETROCEDER”.

 

NON DUCOR DUCO, a luta continua.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

SP Zoneamento: fio de esperança ou desconfiança?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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As 40 entidades que representam as ZERs foram surpreendidas segunda-feira pela reportagem da Folha que informava alteração na lei de zoneamento, ao restringir restaurantes, bares e bufês apenas aos Jardins, Pacaembu e Lapa.

 

Este era um dos pleitos de todas, de forma que a matéria intitulada como lobby de poucas entidades e endossada pelo vereador Andrea Matarazzo-PSDB, requeria esclarecimentos.

 

Pelo “lobby” e pelo vereador.

 

Matarazzo sempre se mostrou atento às solicitações que preconizavam a manutenção das ZERs indistintamente. Diante disso, vários representantes das Sociedades de Moradores em ZERs foram ao relator Paulo Frange-PTB para apresentar a estranheza sobre a discriminação pretendida pelo Prefeito e a inconformidade à argumentação ao atribuir diferenças entre as ZERs.

 

A justificativa apresentada pela maior distância do centro da cidade entre as ZERs centrais e as demais, é impertinente, pois o conceito de zonas exclusivamente residenciais,não tem nada a ver com distâncias.

 

Esses 4% de área da cidade em que as ZERs estão localizadas, são habitados por moradores que não desejam comércio na porta de casa. Independentemente se vivem no
Jardim da Saúde ou no Jardim América. Se assim desejassem, estariam morando nos 96% restantes.

 

O Prefeito, que tem mostrado inflexibilidade nos sistemas implantados na cidade, fazendo faixas de ônibus iguais sem respeitar as diferenças regionais, assim como ciclo faixas uniformemente espalhadas, de repente apresenta flexibilidade surpreendente.

 

Será que esta maleabilidade pode ser um fio de esperança às demais ZERs que não foram beneficiadas, e terão as benesses de um sistema inteligente mantendo o conceito básico, mas se adaptando às peculiaridades de cada região?

 

Andrea Matarazzo respondendo minha indagação sobre o material publicado pela Folha afirmou que não foi consultado, e não postulou medidas exclusivas àquelas regiões. E, vê uma possível ponta de esperança a favor de todas as ZERs, como sempre postulou. É a primeira vitória.

 

Haddad pode estar se modernizando guardando sua implicância apenas aos carros. É o que esperamos.

 

A luta continua.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

São Paulo respira, mas perigo permanece: lei de Zoneamento ficou para fevereiro

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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A cidade de São Paulo ganhou um fôlego a mais ao ter protelada a votação da lei de Zoneamento.

 

Como se sabe, os 4% de áreas preservadas foram visados por interesses diversos para abrir ocupações não exclusivamente residenciais.

 

Como também se sabe, o prefeito Fernando Haddad, cujo conceito de urbanismo é peculiar e esdrúxulo, haja vista o critério da implantação das ciclovias e da redução das velocidades, chegou a reconhecer que o lado minoritário está perdendo para a maioria.Entretanto, acredita que as mudanças propostas e aceitas reduziram a distorção, e apenas 0,1% das vias da capital tiveram sua ocupação alterada. Conclui então, que fazendo alguma flexibilização neste espaço a população estará atendida.

 

Na realidade a lógica é oposta, pois em área tão pequena não há razão para mudanças. É aí que entra a visão estrábica do alcaide, que a demonstra em entrevista à jornalista Juliana Diógenes do Estado:

 

“Aquele comércio e serviço que funciona à noite com moderação, você evita que ao anoitecer a avenida perca completamente as suas características do dia e se transforme em alguma coisa completamente diferente do que era. As grandes metrópoles precisam disso”.

 

Haddad realmente é um exemplo típico do fenômeno brasileiro atual, quando políticos e líderes nacionais tergiversam, para dizer o mínimo. Tanto é que Juliana, após ouvi-lo, resumiu a nova lei nos seguintes pontos preocupantes à cidade:

 

Residências x Comércio – permissão de Zonas Corredores em ZERs
Verticalização – locais formados por casas receberão torres sem limite de altura
Imóveis tombados – descongelamento após o prazo de dois anos
Prédios mais altos – nas vias de centralidade, a permissão será de prédios de 28m/8 andares para 48m/14 andares

 

Se no âmbito federal a protelação de importantes decisões políticas, econômicas e morais foram um mal à Nação, nesse caso do município paulistano pode ter sido uma chance de retroagir para manter o equilíbrio ecológico da cidade.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Senhor Prefeito: nossos bairros são nossos Parques!

 

Por Regina Monteiro
Arquiteta e urbanista
Artigo escrito para o Blog do Mílton Jung

 

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São Paulo não tinha um Plano Diretor até 1971 e a cidade cresceu a partir dos proprietários de glebas que abriram ruas e venderam lotes sem planejamento e regras de usos para os imóveis que surgiam. A falta de critérios urbanísticos levou a Cia City e outras proprietárias de grandes áreas, que se preocupavam com a qualidade urbanística dos seus empreendimentos, a fazer projetos de BAIRROS JARDIM nos moldes das Cidades Jardim Europeias.

 

Para atrair compradores de terrenos na década de 20, distantes do burburinho do centro antigo, as companhias loteadoras investiram em projetos com padrões urbanísticos diferenciados. As ruas deveriam ser sinuosas com pouca largura, já com a preocupação de impedir o fluxo intenso de trânsito por se tratar de bairros para moradia, contrapondo o traçado ortogonal imposto então pelas leis municipais da época.

 

As calçadas deveriam ser largas com faixas verdes impermeáveis e as ruas densamente arborizadas. Para a salubridade e permeabilidade dos lotes, as loteadoras exigiram recuos dos vizinhos, altura máxima das casas, áreas que não deveriam ter nenhuma construção, não poderiam ser construídos prédios que permitissem mais de uma família no mesmo terreno e dependendo das características de cada bairro planejado era exigido um tamanho mínimo generoso para cada lote.

 

Para garantir aos compradores que os investimentos poderiam ser feitos e que as regras exigidas não seriam mudadas, as companhias aprovaram os projetos de loteamento na Prefeitura e as plantas e os memoriais descritivos com as regras exigidas foram averbadas e registradas em cartório.

 

Todas as escrituras dos compradores deveriam conter todas as regras estabelecidas e desta forma foram consolidadas, o que hoje conhecemos como “restrições contratuais”. Ou seja, ninguém seria enganado. Os compradores já sabiam de antemão que o seu terreno era diferenciado, tinha regras claras e específicas e fazia parte de projeto urbanístico e contido em um BAIRRO JARDIM.

 

Os anos passaram e o novo conceito urbanístico foi um sucesso e assim nasceram o Jardim América, Alto de Pinheiros, Jardim da Saúde, Jardim da Aclimação e muitos e muitos outros. O que mais impressiona é que até a primeira lei de zoneamento os BAIRROS JARDIM foram preservados por todos. Quando o primeiro Plano Diretor foi aprovado em 1971 e a primeira lei de zoneamento em 1972, 40 anos depois do surgimento dos consagrados BAIRROS JARDIM, os legisladores entenderam a importância histórica, urbanística e ambiental e criaram então zonas especiais para estes verdadeiros parques e chamaram de Z1. E mais, criaram um artigo na Lei só para as regras exigidas pelas loteadoras e foram registradas nos cartórios que faço questão de transcrever:

 

“Art.39 – Ficam mantidas as exigências de dimensionamento, recuos, ocupação e aproveitamento do lote, estabelecidas em documento público e devidamente transcritas em Registro de Imóveis, para arruamentos aprovados pela Prefeitura, sempre que as referidas exigências sejam maiores do que as fixadas na Lei nº 7.805, de 1º de novembro de 1972, e as da presente lei.”

 

Foi aí que tudo começou. Parece que bastou dizer que não pode, para atiçar o mercado imobiliário. São Paulo tem 1.509km², mas há 40 anos que querem comer pelas bordas os 4% de BAIRROS JARDIM. Desde então a sociedade mobilizada luta contra os especuladores que querem adensar a cidade e vender a VISTA PARA A ZONA 1.

 

Tivemos então que apelar para os órgãos de preservação do Município e do Estado e conseguimos de forma inédita o tombamento das características urbanísticas de alguns BAIRROS JARDIM. Nestes últimos 40 anos, vai governo, vem governo, grupos se mobilizam para mudar o zoneamento dos BAIRROS JARDIM e acabar com as regras registradas no cartório.

 

Os BAIRROS JARDIM são hoje, mais do que uma referencia histórica de padrões urbanísticos consolidados. São UNIDADES AMBIENTAIS fundamentais para nossa cidade.

 

A carta da temperatura da superfície do Atlas Ambiental da cidade de São Paulo demonstra as ilhas de calor e mostra claramente que os BAIRROS JARDIM possuem pelos menos 6° C a menos que as demais regiões. No mesmo Atlas Ambiental notamos que as poucas regiões da cidade com alguma cobertura vegetal são exatamente os BAIRROS JARDIM.

 

A Prefeitura esta neste momento revisando o zoneamento da cidade. Em vez de propor novos BAIRROS JARDIM para diminuir as ilhas de calor e aumentar a área permeável da cidade, espalhando qualidade de vida de forma justa para todos, adivinhem o que estão propondo? Uma tal de Zona Corredor que como uma faca corta os tecidos consolidados dos BAIRROS JARDIM.

 

Por conta da falta de uma hierarquização viária séria e “deixando” uma Companhia de Engenharia de Trafego jogar carros, caminhões circulando por dentro dos BAIRROS JARDIM, (lembrando que o viário lá na década de 20 foi feito justamente para impedir o tráfego intenso), em nome do progresso, que a cidade esta mudando e que precisamos aproximar a moradia do trabalho, a Prefeitura inventou a tal Zona Corredor que vai permitir o comércio permeando os BAIRROS JARDIM, premiando quem já esta lá irregularmente e atraindo evidentemente mais trânsito que é o grande vilão das características urbanísticas de preservação.

 

Senhor Prefeito, um apelo sincero. Não deixe que os seus técnicos, de forma dissimulada acabem com os BAIRROS JARDIM de São Paulo. Ao contrário, crie mais BAIRROS JARDIM. Faça com que os Jardins Ângela da cidade tenham as características urbanísticas e ambientais do Jardim Paulista.

 

Prefeito, atente: os BAIRROS JARDIM são os nossos Parques! Nós vamos brigar muito por eles!

 

São Paulo: a cidade viva que queremos

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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A nova Lei de Zoneamento que afetará os moradores da cidade de São Paulo nas próximas décadas está próxima de uma definição.

 

Mais do que uma expectativa normal de mudança aos 11,5 milhões de habitantes, ao menos para a parcela de paulistanos ciente do plano já elaborado, surge uma consciente certeza da necessidade de reformular vários pontos.

 

Em linhas gerais nota-se que a Prefeitura enfatiza o aumento de áreas verdes, a redistribuição de áreas comerciais, e as vantagens de adensamento e mobilidade.

 

Outra visão é apresentada pelos líderes de moradores diretamente afetados pelas irregularidades existentes e pelas que estarão expandidas e legalizadas se aprovada a atual proposta.

 

A AME JARDINS, em manifesto distribuído segunda-feira, chama a atenção aos Corredores das ZER zonas exclusivamente residenciais, onde serão permitidos serviços de saúde, profissionais, especializados, e de hospedagem e moradia (este inclusive dentro das ZER) e comércio de alimentação. Nos Corredores das ZPR zonas predominantemente residenciais a proposta é permitir centro de compras e confecção de vestuários e acessórios bem como fabricação de artefatos de papel, entre outras. Pontualmente chama a atenção à transformação da Rua Groenlândia e da Rua Sampaio Vidal em corredor.

 

A Chapa CIDADE VIVA* está se apresentando à eleição do próximo dia 3, no Conselho Municipal de Política Urbana. A participação no Conselho abre a oportunidade para o cidadão se manifestar e se aproximar dos processos decisórios no planejamento urbano, como ora e sempre se faz e fará necessário.

 

À AME JARDINS e CIDADE VIVA se juntam mais de 60 entidades de bairros preocupadas com a minuta da nova lei, que deverá ser apresentada em março. Com a expectativa que sejam contempladas as mudanças por elas sugeridas.

 

Até lá, ainda haverá reuniões como as de hoje na Câmara para uma “Rede de Conversa sobre a Nova Lei do Zoneamento” a convite de Friedenbach, Matarazzo, Natalini, Police, Vespoli, e Young, para arquitetos, urbanistas e lideranças comunitárias.

 

*Chapa CIDADE VIVA
André Sibinelli – SAB Sociedade amigos bairro city Boaçaba
Ângela Campo – AMADA Associação dos moradores e amigos do Sumarezinho, Vila Madalena e região.
Gabriel Oliveira e Heitor Marzagão – AMJS Associação moradores do Jardim da Saúde
José Braz – SAPP Sociedade dos amigos do Planalto Paulista
Maria Laura Fogaça – ASSAMPALBA Associação amigos e moradores pela preservação do Alto da Lapa e Bela Aliança
Nelson Barth – AABCC Associação amigos do bairro city Caxingui
Sergio Reze- AMAPAR Associação moradores e amigos do Parque Previdência

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Falta de educação: o tênis no Ibirapuera e o Carnaval na Vila Madalena

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Sábado no ginásio do Ibirapuera, o tenista italiano Luca Vanni, que disputou uma emocionante semifinal com o brasileiro João Souza (Feijão), foi visivelmente prejudicado em determinados momentos pela má educação de alguns torcedores. Menos mal que venceu a partida.

 

Domingo e segunda, os brasileiros moradores da Vila Madalena foram enormemente perturbados por conterrâneos.

 

Em comum, a falta de educação!

 

No jogo de tênis, menos pela exigência de alto custo para a sua prática e mais pelo necessário silêncio para sua boa execução, a pretensão de massificação fica necessariamente descartada. Embora em grandes partidas sempre há a possibilidade da importação de público não habilitado ao esporte.

 

No bairro da Vila Madalena, tradicional pela vocação artística e pela mistura de residências, lojas, restaurantes e bares, tão defendida por alguns urbanistas que buscam a redução da mobilidade, o tumulto prova, ao menos, que tal modelo urbano não exporta mas importa mobilidade.

 

Para o tênis a sugestão é melhorar o sistema de controle do espectador com câmeras e pessoal treinado.

 

Para a Vila Madalena, as câmeras e a polícia deveriam resolver o problema. O que devemos temer é que a Prefeitura faça o que sempre tem feito. Quando a degradação começa, ao invés de coibir, regulariza.

 

Assim tem sido quando se trata de zoneamento. A nova lei pretendida não só vai regularizar o que foi degradado como criará potenciais zonas em locais que hoje são ilhas de conforto e qualidade de vida. Se duvida, visite a Avenida Morumbi em trechos ainda totalmente residenciais e, principalmente, a Alameda das Begônias. Ambas com proposta de corredor comercial.

 

Talvez tenha sido uma boa esta arruaça carnavalesca da Vila, se servir de alerta à Proposta de Zoneamento que será votada em breve.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

O vídeo que ilustra este post foi gravado pelo SOSego Vila Madalena. O grupo que incita à violência é o bloco Anti-Acadêmicos do Baixo Pinheiros.

Budweiser ativa Spider e detona Morumbi

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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A madrugada de sábado certamente foi inesquecível aos moradores do Morumbi. Ao menos para aqueles que moram nas cercanias do Palácio dos Bandeirantes e da Casa da Fazenda. Vizinhos da Capela do Morumbi e da Casa de Vidro de Lina Bo Bardi.

 

O fato é que a vitória de Anderson Silva não trará saudades para quem vive no entorno daquilo que a Budweiser chamou de BUDWEISER MANSION. Pelo incômodo e pelo desprezo com o bairro e com a cidade, que nem com 461 anos se faz respeitar. Não só por alguns habitantes, mas também pela Prefeitura.

 

A Avenida Morumbi 5429 onde está situada uma residência de alto padrão foi transformada em casa de show para exibição de DJs. Sem nenhuma característica e condição para receber um espetáculo que requer cuidados específicos. É inacreditável, que enquanto uma casa de show construída para tal tem que cumprir rigorosamente todos os pré-requisitos técnicos, legais e ambientais, de repente se crie em região de área preservada dentro de um imóvel feito para moradia, um espetáculo promocional e comercial com venda de ingressos ao público em geral.

 

Às vésperas da votação final da lei de zoneamento, a Avenida Morumbi está prestes a perder seu atual status. Deverá se transformar em corredor comercial de zona de preservação em toda a sua extensão. Mas, nem nesta condição futura, o evento da BUD MANSION seria possível se tivéssemos uma Prefeitura com orientação de sustentabilidade.

 

Caberia mais à Budweiser esta preocupação, embora pelas declarações de Diana Maranhão, gerente de marketing da marca, esta faceta nem passa pelo seu departamento.

 

Resta alertar ao consumidor que pode ser um dia morador. Que é quem, no balanço final, se prejudica. Paga a conta, mas não é levado em conta.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.