Baltazar, do Centro-Oeste do Brasil para São Paulo

Por Adamo Bazani

(continuação da terça-feira, 03/02)

Baltazar é empresário em Mauá

Anos 70, época da Ditadura Militar. As ordens austeras, que influenciavam na liberdade do povo e da imprensa, vinham de Brasília. O Distrito Federal, que na época de Juscelino Kubitschek de Oliveira era considerado a imagem da esperança e do “novo amanhã”, se tornou na imagem do Poder Irrestrito. “A situação do Centro-Oeste estava ruim demais. Mas eu sabia que essa era a oportunidade de crescer, porque pior não ficaria. O essencial era ligar essa região ao Sudeste, onde estava o dinheiro da Nação”.

Depois de comprar mais empresas em Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso e Distrito Federal, Baltazar quis penetrar mesmo no coração do Centro-Oeste justamente para fazer essa ligação que considerava essencial.

Era 1973, o presidente, Emílio Garrastazu Médici. Duas estradas tinham sido concluídas. Uma em Brasília e outra, a BR 040, que fazia parte do Plano Nacional de Viação. A rodovia liga Brasília ao Rio de Janeiro, passando pelos estados de Goiás e Minas Gerais. Logo após sua inauguração, o grupo da Viação Itapemirim assumiu as operações em boa parte da rodovia.

Baltazar, no entanto, percebeu que as estradas serviam apenas alguns municípios do Centro-Oeste e de Minas Gerais: “O miolo mesmo tinha sido deixado de lado”.

Ele visitou cidades mineiras, goianas e do entorno do Distrito Federal como Cocos, Montes Calros, Januária, Barreiras, Dianópolis, Arinos, João Pinheiro, Montalvana, Pirapora Calheiros, e constatou uma situação deplorável no transporte. “Simplesmente não havia estrada, eram caminhos de chão batido e as pessoas se locomoviam com animais ou no máximo, com Toyotas Bandeirantes que aguentavam a terra e iam apinhados de gente. Então pensei, essa é prá mim”.

O empresário entrou em contato com o Ministério dos Transportes várias vezes. Teve ajuda do advogado e amigo João Pimenta da Veiga para chegar a altos escalões. A proposta era operar nas cidades que não eram servidas pelas rodovias e chegar a Brasília pelo interior de Minas e pelo coração do Centro-Oeste. Os primeiros contatos com o então DNER – Departamento Nacional de Estradas e Rodagem – forma decepcionantes.

Primeiro acharam que era loucura passar por ônibus naquelas cidades que não tinham sequer estradas. Baltazar disse que havia também a pressão das empresas de ônibus que iam do Sudeste à Brasília, mesmo que os itinerários fossem completamente diferentes. Mas quando a população das cidades desprezadas pelo poder, perto da Capital do Poder, soube que poderia ter as primeiras linhas de ônibus interestaduais, se alvoroçou. Foram mapas, projetos, assinaturas de moradores, fotos, tudo apresentado para o Departamento. A ideia eram duas linhas que ligariam Brasília a Montes Claros por caminhos diferentes, praticamente sem trafegar pelas recém-inauguradas rodovias. Os vários pedidos foram indeferidos. O projeto já estava sendo engavetado, quando, um passageiro que sempre ia de Arinos, em Minhas Gerais, até o Distrito Federal bateu um papo com Baltazar.

“Eu o via todo dia. Às vezes ele nem viajavam mas pedia prá deixar umas frutas e verduras do sítio dele no centro de Arinos. Então, levava de graca a carga no ônibus”.  Na conversa, Baltazar contou sobre seu projeto. O passageiro, que ele até hoje não lembra o nome, era  funcionário do gabinete do presidente Médici. Foi até a garagem, pegou os vários indeferimentos do DNER e os rasgou, para dias depois, aos 26 anos, se apresentar, pessoalmente, ao general. Ele explicou a ideia de cortar Minas e parte do Centro Oeste por dentro do perímero abrangido pelas rodovias e o presidente aprovou.

“Foi uma honra…não estar na frente do presidente, mas conseguir realizar um sonho”

O sonho do empresário era o sonho de muita gente também. Primeiro, porque as estradas entre Patos de Minas e Brasília foram praticamente abertas pelos ônibus. Onde os veículos passavam, meses depois se estabeleciam comércios, escolas, casas, pequenas manufaturas. Vilas artesanais  se transformavam em bairros. “No início não foi fácil. Ônibus quebrado, terra, lama, acidentes, mas vi a região do norte de Minas e de parte do Centro-Oeste se desenvolver após minhas linhas. Não tenho dúvida em dizer que, como empresários e visionário, fui um desbravador do Centro-Oeste” – orgulha-se o empresário.

A conquista de São Paulo

Nos anos 80, com mais de 10 empresas, Baltazar estava em Minas Gerais, parte do Centro-Oeste e Nordeste, com transportes intermunicipais e interestaduais, além do transporte urbano do Distrito Federal. Ele também, sempre negociador e aproveitando as oportunidades das empresas que estava entrando em falência, tinha conseguido um patrimônio considerável no Rio de Janeiro, com empresas como Rio Ita, Transbus, Evanil, Transmil, Expresso Rio de Janeiro, Auto Diesel, Litorânea. Mas o sonho de qualquer empresário era atuar na Região Metropolitana de São Paulo e capital paulista.

Baltazar tentou várias vezes, mas os anos 80 estavam difíceis para as empresas. O valor da passagem era alto para o trabalhadcor e baixo em relação aos custos, por causa da assustadora inflação. Muitas empresas no ABC Paulista estavam em situação difícl. Falta de caixa e greves de trabalhadores com salários defasados que duravam mais de 10 dias. Em uma das tentarivas propôs sociedade na Viação São José, de Santo André, mas o negócio não deu certo.

Como já tinha grande experiência em analisar empresa, em 1984, consegue comprar a Viação Barão de Mauá, uma tradicional empresa da cidade de Mauá, mas que estava tão mal que o ônibus mais novo tinha 15 anos. A empresa fundada em 1966 pela família Didone e por Guido Bozzato  foi vendida para Baltazar. “Olha, quase me arrependi. Operar na Grande São Paulo era totalmente diferente e olha que eu já tinha experiência”.

A demanda de passageiros era muito grande. A correria para servir os desembarques dos trens da CBTU – Companhia Brasileira de Trens Urbanos – que passavam por Mauá e, hoje,  são operados pela CPTM era algo nunca visto. A cidade crescia, mas não de forma organizada. No centro ainda havia ruas de terra e os bairros pobres, que ficam em morros, se transformavam em verdadeiros conglomerados de favelas.

“O número de passageiros crescia e os ônibus diminuíram. A inflação, o crescimento sem desenvolvimento, foi tudo difícil de administrar”. Mas o que era dificuldade, mais uma vez se tornou oportunidade.

Duas empresas apresentavam problemas financeiros: a Januária, fundada em 1972 pela família Caixeta, e a pioneira no transporte de passageiros entre a capital e o ABC, a EAOSA (Empresa Auto ônibus Santo André), criada em 1931 pelos próprios motoristas de jardineiras Armando Martins Silva, José Manoel Silva, Benedito Ferreira da Costa, Pedro Pioli e Otto Schuett.

Além de empresas em Mauá, Baltazar identificaca a fragilidade de outras viações no ABC Paulista com as quais se associava. Foi o que aconteceu com empresas tradicionais, muitas já extintas, como Viações São Camilo, São Luiz, Humaitá, Ribeirão Pires, Riacho Grande, Triângulo, Imigrantes, Utinga , Padroeira do Brasil e Expresso Santa Rita, além de companhias na Capital Paulistas, como Viação Vila Ema e Tupã de Guarulhos. Muitas destas sociedades foram desfeitas, mas o patrimônio do empresário é incalculável.

“Fui tudo com muito suor. Mas isso me ajudou muito. Não sou só empresário, eu entendo de ônibus, devido ao meu início, o que me facilita. Vi a região metropolitana crescer e quase entrar em colapso com a saída das indústrias, mas sobrevivemos. Bairros pobres  viraram favelas, a guerra contra os perueiros foi um momento difícil. Pequenas ruas, viraram avenidas, mas pertinho dessas avenidas, ainda há muita pobreza e rua de chão batido. Isso na Capital e no ABC. Me sinto um ente ativo em tudo isso, porque como os transportes mexem com gente, participei de todas essas fases”.

Adamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Às terças, conta as aventuras de quem fez a história do transporte de passageiros no Brasil

19 comentários sobre “Baltazar, do Centro-Oeste do Brasil para São Paulo

  1. O que melhor esse empresário faz é contratar pessoas com mobilidade reduzida ,,pois acho que as empresas dele ,pelo menos aqui em Mauá , tem vários funcionários com mobilidade reduzida , e mais uma vez parabenizo ao Adamo Bazzani e você Milton Jung .

  2. Olha muito legal ouvi a historia de uma pessoa, que começou do nada e hoje tem um patrimonio incalculavel, pena que muita dessas empresas estão em situação deploravel.parabenizo você Adamo pois você representa nós, gosto muito de escutar você e Milton Jung na CBN e na Globo. Um abração.

  3. Agora eu digo com certeza que Baltazar josé de Souza faz parte dos nomes que construiram nosso país. Ele deve ser sempre lembrado por seu pioneirismo e firmeza na gestão de suas empresas. Ele enxergou opotunidades, e cresceu fazendo o que gosta de fazer. Gosta e entende de ônibus. Parabénz Milton Jung, e parabénz Ádamo, como já foi dito, nós busologos estamos bem representados.

  4. A história de vida dele é um exemplo para todos nos, com muita luta e esforço ele alcançou tudo o que ele sonhava em ter na vida, fez parte da historia do Brasil e ainda faz.
    Mas depois de tanto lutar e alcançar o que ele tato sonhou ele se acomodou e deixou de fazer um bom serviço com suas empresas, como por exemplo a tão conhecida EAOSA que está com os ônibus velhos que na minha opinião não deveriam estar mas rodado, agora que ele colocou alguns ônibus novos, mas ainda falta melhorar muito, sei que não é fácil administrar uma Empresa tão grande mas tb não é difícil renovar a frota quando preciso, por que dinheiro ele tem e muito, basta vontade.

    Fica aqui meu comentário espero que gostei
    Até uma procima

    um abraço

  5. Uma grande história do Sr. Baltazar José de Souza. com certeza, é um exemplo para todos, pois mesmo que as dificuldades sejam enormes, não devemos desistir de nossos sonhos. É verdade que suas empresas deixam um pouco a desejar no que se diz ao serviço prestado, mas a própria história dele relatada neste trabalho do Adamo, mostra que ele enfrentou muitas dificuldades, trabalhou com linhas bem complicadas e conseguiu vencer. Acredito que a história possa se repetir e estes problemas que vemos hoje em suas empresas possam se tornar em breve coisa do passado. Se existe alguém capacitado para virar este jogo, este alguém é o Sr. Baltazar José de Souza. Parabéns pela matéria Adamo!

  6. Esta reportagen do sr Baltazar jose de souza deveria sim ser materia de capa de todas revistas nacionais, para gue o povo brasileiro pudessen te-la como cartilha neste momento em gue so se fala em crise,usa,etc,….. pois bem na suposta crise e gue se ganha,se progride,utilizando-se o metodo simples de uma pessoa simples como e o sr Baltazar,e pode se ter certeza, o Brasil e feito de outros e outros Baltazares mais infelismente como sao simples e lutadores nao sao divulgados nao sao manchetes,imaginen so, gtos empregos gtas familhas este senhor iluminado por DEUS,viven de suas Empresas……….Parabens,pela repotagen…..ADAMO BAZZANO e MILTON JUNG…..

    WAGNER A CLEMENTI

  7. É patrão o senhor tem razão quando diz que “a guerra contra os perueiros foi um momento difícil”; eu não só concordo, como assino embaixo, mas nós vencemos NÃO É???

  8. bom dia para todos. sou morador de embu das artes, cidade que fois servida por uma das empresas de baltazar, a viação campo limpo, que foi extinta em 2007 pela emtu, por não ter nenhuma condição técnica, operacional e financeira de operar na regiçao metropolitana de são paulo.bom, a história pregressa deste empresário eu não conhecia, mas pude perceber, ano após ano. o declínio dessa empresa até seu fechamanto.descaso dele próprio? não sei,só sei que ela, com suas linhas. era ,com certeza, uma empresa rentável.

  9. Bazani, parabéns pelas matérias. Afinal, passei a maior parte da minha vida andando de ônibus. Hoje mais do que qualquer outra época, prefiro andar de ônibus por causa do tumultuado transito da cidade. Ligo meu radinho (na CBN é claro) e vou circulando pela cidade sem estresse entre um ônibus e outro. Tenho saudade do Fofão que circulava na Vila Maria (zona Norte). É um ônibus de dois andares tipo aqueles londrinos que a gente vê em filmes. Quando puder faça uma matéria sobre o FOFÃO, apelido carinho que foi dado na época, talvez por causa daquele Fofão grandão que passava na Globo.

  10. Só quem mora em mauá sabe de toda a verdade deste cidadão…

    Já deveria ter juntado suas economias e deixasse nossa cidade para quem quisesse fazer um transporte com qualidade por aqui…

  11. Bela reportagem desse senhor que hoje deve milhoes ao INSS, FGTS, rescisórias trabalhista não pagas, indenizações não pagas, bens bloqueados pela JF e mais de 200 processos judiciais, inclusive criminais.

  12. Sr. Antony Michel, me desculpe mas vc. não sabe do que esta falando, quando ofende o Sr. Baltazar dessa forma, vc. deve ser algum frustrado que não deu certo na vida, vai trabalhar meu filho pra tentar ser um pouquinho inteligente e brilhante como o Sr. Baltazar, seu inbecil ignorante….

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