Para pessoas com deficiência, São Paulo sempre para

 

Ao mesmo tempo em que milhares de paulistanos se lamentavam por não conseguirem se deslocar na cidade devido as enchentes, nesta terça-feira algumas dezenas de pessoas estavam no auditório do WTC, em São Paulo, onde discutiam temas ligados a questão da acessibilidade, no Encontro Internacional de Tecnologia para Pessoas com Deficiência.

Nos corredores, a caminho do plenário, uma série de equipamentos expostos chamavam atenção dos visitantes. Cadeiras de roda dos mais variados modelos e para distintas doenças, móveis compostos por uma complicada engenharia capaz de oferecer autonomia ao usuário com restrição nos movimentos e demais traquitanas desenvolvidas para dar mais conforto em casa ou no tratamento de pessoas com deficiência.

Todos estes produtos surpreenderam um dos convidados para o debate, Aílton Brasiliense, conhecedor dos males provocados pelos acidentes de trânsito. “Somos capazes de desenvolver estas máquinas para ajudar pessoas com deficiência assim como para deixá-las com sequelas ou matá-las”, comentou em referência ao número de motociclistas mortos no País: 10 mil, no ano passado.

No painel para o qual fui convidado a mediar, “Transformação: uma cidade para todos”, Brasiliense descreveu cenas comuns dos pedestres na capital paulista e repetiu a tragédia que se transformou nosso trânsito – não pelos congestionamentos, mas pelos assassinatos.

Calçadas sem prumo, piso irregular e todo tipo possível e imaginável de obstáculos que o ambiente urbano, da maneira como foi construído por nós, impõe ao cidadão também foram destacados. E soluções para este cenário, apresentadas. Lá estiveram, ainda, prefeito, vice e secretário de três cidades paulistas (Jaú, São José dos Campos e capital, respectivamente) que dedicaram seu tempo a mostrar tecnologia e políticas implantadas em seus municípios. Nada muito além daquilo que já conhecemos e identificamos como necessidade na busca de uma cidade inclusiva.

A vereadora Mara Gabrilli, de São Paulo, foi quem mais chamou atenção para recursos tecnológicos que podem facilitar a comunicação de pessoas com deficiência. Um microfone que a conecta com o sistema de som de qualquer plenário, a máquina que lhe permite votar na câmara apenas pelo piscar do olho e a necessidade de as emissoras de TV implantarem sistema de audiodescrição, são alguns dos exemplos.

A mim coube a tarefa de responder uma pergunta do meu colega de programa, Cid Torquato: “Uma cidade inclusiva é possível ?”. Fui o mais pessimista dos participantes ao dizer que não tenho esta ilusão, não neste momento, apesar de me orgulhar de fazer parte da geração que inicia esta construção de consciência cidadã.

Repito aqui o que disse logo na abertura do evento: o dia para o debate – apesar de muitos terem se ausentado pelos problemas no trânsito – foi simbólico. Boa parte do paulistano, ilhada, não teve acesso ao trabalho, a escola ou ao lazer por quase um dia inteiro. Direito castrado de centenas de pessoas com deficiência por quase toda a vida. Que faça desta experiência motivo de reflexão sobre o quanto precisamos investir em conhecimento e inteligência para transformarmos o ambiente urbano em um espaço para todos.

3 comentários sobre “Para pessoas com deficiência, São Paulo sempre para

  1. Talvez seja interessante submeter políticos, empresários e funcionários públicos de vários níveis e esferas a uma simulação que os faça sentir na pele os desafios enfrentados por deficientes.
    Não me lembro ao certo, mas numa exposição sobre decoração, talvez a Casa Cor, os expositores enfocaram os idosos e suas necessidades especiais dessa forma: colocar pesos em punhos, tornozelos, membros e tronco de maneira a fazer com que os visitantes jovens experimentassem as dificuldades motoras dos já não tão jovens. Lembro-me de profissionais da área aparentarem um choque após a vivência, por confessarem não pensar em soluções apropriadas e seguras visando as limitações/possibilidades da fatia mais velha da população.
    Essa mesma idéia seria interessante: sem direito a alternativas ou atenuações, subjugar os insensíveis à experiência, para que saibam da forma mais real possível a dureza cotidiana de quem lida com a impossibilidade ou limitação e as supera, ou não. É o motoqueiro que larga a moto na área zebrada ao lado de uma vaga para deficiente, o trintão descolado que acha graça ocupar vaga de idoso, o motorista agressivo, o arquiteto que desconhece funcionalidade, o funcionário público que acha uma babaquice fiscalizar e regular obras e transportes.
    Infelizmente só os solidários têm capacidade de se colocar no lugar do outro sem obrigação disso. Aos demais “distraídos” e ignóbeis, um pouco de “terapia de choque” sirva para literalmente “se colocar no lugar do outro”. Fica a minha sugestão para um próximo evento do gênero, para que leve e faça participar quem hoje tem sorte de não estar na condição restritiva de muitos.

  2. Milton, sua experiência em moderação abrilhantou o evento. Fui aquele que propos que a CBN defendesse propostas de calçadas acessíveis e arborizadas, tendo como um de seus pressupostos o enterro da fiação, como ocorre em outros e bons países. Se houver interesse, posso lhe encaminhar uma proposta mais completa com muitos argumentos, embasados em minha experiência no meio ambiente e na militância de pessoa com deficiência.

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