História dos ônibus: a cidade cresce e surge a CMTC

 

Na segunda parte da série sobre a história do ônibus na cidade de São Paulo, a reorganização do sistema de transporte coletivo na capital e o surgimento da CMTC são os destaques. Os bondes haviam ficado para trás.

FOTO 5- Ônibus norte-ameticano importado pela CMTC

Por Adamo Bazani

Em menos de dez anos, a frota de ônibus na cidade de São Paulo cresceu de 400 carros, em 1932, para 3 mil, em 1941, ano em que já havia 90 linhas regulares. A frota de bondes se mantinha em 500 veículos.

As concessões e permissões para as empresas atuarem eram dadas pelo poder público, mas muitos ônibus clandestinos circulavam na cidade. O serviço de transporte e o trânsito começaram a sair do controle das autoridades. Empresas se digladiavam pelas linhas mais rentáveis enquanto as regiões com população menor e mais afastadas sofriam com a carência de transporte coletivo. Há relatos de ameaças entre donos de ônibus interessados em explorar linhas nos bairros mais interessantes.

Mesmo sendo um transporte por asfalto, era necessário colocar os ônibus nos trilhos.

Ainda havia um agravante. A Light mostrava-se desinteressada em explorar os transportes na cidade frente a concorrência dos ônibus. O bonde não trazia mais o mesmo lucro. O sistema de ônibus era caro para ser implantado. Investia-se tempo e dinheiro numa linha e da noite para o dia aparecia o dono de um ônibus para explorar o mesmo trajeto.

A Light queria deixar as operações de transportes em 1941, término de seu contrato inicial, mas por determinação do Governo Federal, devido a escassez de petróleo, gerada pela Segunda Guerra Mundial, foi obrigada a prestar serviços até 1946.

Devido a desorganização do sistema de ônibus, o abandono dos bondes e o trânsito caótico, o prefeito Prestes Maia criou a Comissão de Estudos de Transporte Coletivo do Município de São Paulo – CETS. Em 1943, a comissão entregou o primeiro “raio x” do setor e, em função do panorama traçado e do fim das operações da Light, sugeriu-se o monopólio governamental do Sistema de Transportes Coletivos. Além de o poder público municipal assumir os bondes, deveria racionalizar as linhas de ônibus evitando trajetos sobrepostos e atendendo bairros desassistidos.

Desenhava-se a criação de uma empresa de transporte coletivo municipal, o que foi ocorreu alguns anos mais tarde.

A criação da CMTC

O ano foi 1946, quando se tomou a primeira medida drástica para organizar o setor de transporte de ônibus, em São Paulo. O prefeito Abrahão Ribeiro assinou o Decreto Lei 365, de 10 de outubro daquele ano, e constitui uma empresa de transportes coletivos dirigida pelo poder público. Surgia a CMTC, Companhia Municipal de Transportes Coletivos.

No ano seguinte, em 1947, o prefeito determinou que o patrimônio da Light, bondes, auto-ônibus, rede elétrica aérea, trilhos e equipamentos passasse para a CMTC, também responsável pela operação dos bondes. Quanto aos ônibus, a medida foi radical. Todas as linhas de bairros próximos ao centro e da região central da capital passaram a ser exploradas pela Companhia. Os empresários só tinham autorização de operar fora do perímetro urbano, em linhas bairro a bairro.

Assim, pensava-se em terminar a briga entre bonde e ônibus, permitindo que um modal complementasse o outro e não disputasse como vinha ocorrendo. Várias empresas de ônibus foram encampadas. Diversos donos de ônibus faliram, mudaram de ramo ou, então, passaram a atuar de maneira diferente no setor.

Exemplo claro disso é a Auto Viação Jabaquara que havia se consolidado entre os anos 20 e 30. Fundada em 1932, pelas famílias Mascioli,  Brandi e Havelange, a empresa, nesta época, perdeu a concessão do trajeto entre o bairro do Jabaquara e o centro da cidade. Os controladores mudaram do serviço urbano para o rodoviário. Em 1947, compraram uma empresa que já existia desde 1943, a Auto Viação São Paulo-Santos Ltda. Como havia um cometa na pintura da empresa, em 7 de maio de 1948, Tito Mascioli, os Brandi e os Havelange mudam o nome da empresa para Viação Cometa, que mais tarde incorporou diversas outras empresas e começou a fazer ligações não só mais para Santos, mas para o interior do Estado de São Paulo e outros estados do Sudeste.

A mudança do sistema de transportes nos anos 40 , não só foi um baque para donos de ônibus. O poder público municipal fez o que chamou de atualização nos valores tarifários. As passagens de ônibus e bondes subiram 100%. A alta das tarifas, bem maior do que os aumentos salariais, revoltaram a população. O dia primeiro de agosto de 1947, foi marcado por um quebra-quebra de grandes proporções que destruiu dezenas de ônibus e bondes e deixou várias pessoas feridas no confronto com a polícia.

Há duas versões: alguns historiadores dizem que o protesto ocorreu por vontade popular, pela revolta em relação aos aumentos; outros, que o evento ocorreu por incentivo de empresários que haviam perdido as linhas, pois a maioria dos veículos danificados era da frota da CMTC.

FOTO 4 - Trolebus da CMTC no início das operações

A reorganização do sistema com a criação de uma das maiores empresas de ônibus municipais da América Latina, deu à CMTC poder econômico e tecnológico. A partir de 1949, foi a companhia que inaugurou o primeiro sistema de trólebus brasileiro. Uma tecnologia jamais vista no Brasil, que abriu as portas para outras cidades interessadas no uso da tecnologia limpa e com maior rapidez de operação.

A CMTC adquiriu até os anos 50 tanto poder, que ela, além de ser uma das maiores compradoras nacionais de ônibus, importava veículos e produzia, além de ônibus convencionais, trólebus.

Uma das inovações compradas pela CMTC eram os GM Coach, totalmente diferentes do que até então eram os ônibus urbanos, em sua maioria carroceria para passageiros montada sobre chassis de caminhão. Os veículos tinham direção hidráulica, sistema de suspensão a ar, isolamento térmico e acústico, motor traseiro, freios a ar comprimido e transportavam com mais conforto 70 passageiros, dos quais 40 sentados.

Os GM Coach começaram a operar no segundo semestre de 1947. Eram inicialmente 10 veículos que chamavam a atenção pelo desenho americano e conforto, que serviam a linha Centro – Jardim América.

Muitas linhas de ônibus tinham no nome do itinerário a expressão Cidade em lugar de Centro – como se os bairros não pertencessem a capital. Era uma forma de facilitar a vida dos passageiros falando a língua deles. Na época era costume dos moradores dos bairros dizerem que “vou à cidade” quando tinham compromisso no centro.

Para ter ideia do poder que a CMTC havia conquistado nos anos 50, dados da prefeitura mostram que, em 1954, a Companhia Municipal operava 90 por cento do transporte coletivo da cidade, entre bondes, trólebus e ônibus – que eram a maioria.

A inauguração de linhas

Nos anos 50, a CMTC, totalmente estruturada e forte, chamava a atenção pelo volume de ônibus comprados com o objetivo de atender a demanda crescente de passageiros. Era o período do desenvolvimento industrial brasileiro.

A cidade de São Paulo e os municípios vizinhos, já pela estrutura de vias e transporte, que facilitavam o escoamento da produção e os deslocamentos dos trabalhadores, atraíam mais investimentos industriais e mais pessoas que vinham de todo País.

Foi quando se deu o surgimento de novos bairros, muitos de periferia, pois havia uma mão de obra com pouca qualificação e menor renda, mas também atraída pela indústria e construção civil. Essa massa de trabalhadores ocupou as regiões mais afastadas do centro. Foi uma nova onda de crescimento acelerado que São Paulo vivenciava, numa intensidade bem maior que nos anos 20/30.

Novamente os trilhos dos trens e dos bondes não conseguiram acompanhar este ritmo e foi a flexibilidade dos ônibus que mais uma vez tentou suprir a demanda. Às vezes de maneira satisfatória, outras, nem tanto.

Com mais passageiros, duas coisas eram necessárias: mais ônibus e mais linhas.

Os lotes de compra da CMTC eram de deixar qualquer fabricante satisfeitos. De uma só vez, a Companhia Municipal de Transportes Coletivos comprou, em 1950, dos Estados Unidos, 200 ônibus Twin Coach.
As linhas tinham de ser mais planejadas. Não bastava ligar um bairro a outro. Era necessário estudar as demandas de passageiros, o trânsito e as áreas de concentração residencial e industrial e traçar a cidade.

No dia 27 de janeiro de 1959 foi criada a primeira linha Diametral de São Paulo, ligando Belém a Pinheiros. A experiência de traçar itinerários diametrais deu certo. Com uma só linha se substituiria outras pequenas ligações que eram ociosas em alguns pontos e horários e insuficientes em outras. No dia 20 de fevereiro foram criadas outras linhas deste tipo, como a do Paraíso para Casa Verde.

Antes mesmo do surgimento do conceito diametral, foram inauguradas linhas importantes pela CMTC. Uma delas foi a Penha-Lapa que começou as operações em 1953 e chegou a ser cancelada em 1978, mas por exigência dos passageiros retornou um ano depois. Em 1983, segundo levantamento da CMTC, se tornou a linha mais movimentada da cidade.

(Leia amanhã, os empresários pressionam a prefeitura para voltar a atuar na capital)

Adamo Bazani é repórter da CBN, busólogo e produziu esta série em homenagem aos 456 anos de São Paulo

5 comentários sobre “História dos ônibus: a cidade cresce e surge a CMTC

  1. Adamo,

    Parabéns pelas excelentes matérias, tenho acompanhado semanalmente suas publicações. É muito bom a gente reviver a história dos ônibus, principalmente quem viveu um pouco dela pois cheguei em SP na década de 70 e acompanhei este desenvolvimento.

    Estou pesquisando, e tenho encontrado alguma dificuldade para encontrar fotos de ônibus das extintas viações Brasília e Itamaraty que operaram na região da Vila Nova Cachoeirinha na década de 70. Será que você tem algum material a respeito?

    Gostaria de pegar uma carona no Blog do Milton e, publicar alguma coisa em meu blog na comemoração do aniversário de São Paulo.

    Abraços e Sucesso !!!

  2. Olá Alecir. Realmente a história dos transportes é fascinante porque mostra a história da cidade em todos os seus aspectos. Obrigado pelos comentários em relação à reprtagem. Sobre as Viações Brasília e Itamaraty posso proicurar as fotos. Tenho um acervo grande e realmente é necessária uma procura com mais calma. Se eu achar as fotos desta empresa, comunico.

  3. Queria aproveitar a notícia sobre os ônibus para perguntar – estes ônibus passam pela inspeção ambiental? Em especial, o ruído emitido é avaliado?

  4. Parabéns!!!

    Adamo e ao Milton pela divulgação de nossa São Paulo da Garoa.
    Fantástico quando é relembrada a história de São Paulo para muitos que não conhece a mesma.

    Felicitações, sou ouvinte de carteirinha.

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