A pressa ainda é inimiga da perfeição?

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

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Poucos se importaram com a pressa com que as árvores foram cortadas ….

 

Aparentemente, a pressa nas cerimonias oficiais de posse do governador eleito de São Paulo não afetou as solenidades. Tanto na Assembleia Legislativa, no Ibirapuera, como no Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi. Entretanto, se no aspecto operacional e protocolar não houve falhas, há uma tônica de velocidade e mudanças a ser considerada, como característica da personalidade de João Doria.

 

Na campanha à Prefeitura, garantiu que cumpriria o mandato e a sua administração não imprimiria o estilo do político, mas, de gestor. Em 15 meses, descumpriu o prazo e o estilo. Adotou a dinâmica convencional do político e se candidatou ao governo do Estado de São Paulo.

 

Ao ganhar a eleição, teve o aval dos eleitores, que tecnicamente aprovaram a transformação. Daí a decisão de dar prioridade a ida à posse do novo presidente, estar de acordo com o perfil estabelecido e aprovado — e nada mais a declarar: é um político e vitorioso.

 

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… até o fogo aparecer e os Bombeiros, apressados, surgirem para acabar com o incêndio.

 

A não ser um pequeno episódio na quadra da “Revolta dos Eucaliptos”, distante 200m do Palácio. Na antevéspera da posse, o corte de árvores avançou até a noite e também na calçada, onde deixaram troncos e galhos — ao mesmo tempo em que repórteres mostravam os preparativos, sem nenhum deles ter percebido o trecho com o impedimento da calçada. As reportagens envolviam apenas o Palácio, sem o entorno. Talvez por pressa.

 

Na véspera, começou um incêndio no mato deixado impunemente pela empresa executora do corte de árvores e o Corpo de Bombeiros teve que intervir. No local, os bombeiros me informaram que o chamado de socorro foi feito pelos moradores.

 

O pessoal do Palácio ignora o entorno. Talvez por pressa em executar as tarefas internas.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

A tragédia de Santa Maria

 

 

Leio que o som dos celulares dos mortos na tragédia de Santa Maria insistiam em tocar. Era o grito de desespero de parentes que à distância mantinham a esperança de ouvir filhos, netos, sobrinhos e amigos. Uma sinfonia macabra para quem recolhia os corpos. Na tela do telefone encontrado na roupa de um dos mortos, teria 140 ligações. O número estava identificado: “Mãe”. Quantas mães sofreram a espera de serem atendidas, na madrugada passada, no interior do Rio Grande do Sul?

 

Vi na TV meninas e meninos ainda com roupa de festa caminhando sem destino e chamando o nome de amigos que jamais encontrarão. Aquelas roupas não eram apropriadas para o ambiente de desastre, mesmo porque foram vestidas para a alegria. Impróprias como o sistema de segurança, a arquitetura do ambiente e a estratégia de fuga pelo que se ouviu até aqui.

 

Soube de uma menina que teria pedido socorro pelo Facebook, último acesso que teve com vida. Morreu antes de a ajuda chegar, mas sua imagem, o que pensa, curte e compartilha permanecerá eternizada na rede social. Seu perfil assim como o das mais de duas centenas de jovens mortos continuarão a provocar nossa tristeza até serem deletados. O que não apagaremos é a dor das famílias diretamente atingidas pela tragédia. Nem o drama de pais que assistem aos seus filhos saírem de casa para se divertir, sem saber qual armadilha está sendo armada para eles.

 

Li, vi, ouvi, soube tudo pelos outros, pois estava distante de Santa Maria. Mas sofri muito como pai. E temo que o sofrimento de todos não será suficiente para aprendermos com os acontecimentos na Boate Kiss. Haverá consternação, indignação, pedidos de justiça, processo aberto e investigação. Haverá missa de sétimo dia, um ano, dois, dez anos. Tempo suficiente para que novas boates e casas de espetáculo sejam abertas e funcionem sem alvará nem responsabilidade.

 

Até a próxima tragédia !

De dor

 

Por Maria Lucia Solla

No assado

Aqueles ali na frente se arrastam na inundação; uns perdem tudo, outros perdem todos. Os do lado esquerdo morrem do calor que mata gente, mata bicho e planta. Tudo morre, ou chega perto. Os da direita se debatem na neve. Tem vulcão enfurecido, e tem mar dando mostra do que é capaz de fazer. Gente da polícia mata criança e ladrão merreca ataca com arma de brinquedo. Ladrão merreca e meia vai de fuzil e dinamite, e ladrão merrecão, com cheque quente no talão, com pinta e título falso de doutor, ataca de celular e caneta. Tudo covarde. Uma merrecada só; boa de botar numa gaiola bem grande e jogar no mar, já que o rei das águas está acostumado a receber, de nós, o lixo.

E tem mais isso e tem mais aquilo, e nem vale a pena desfiar o rosário inteiro. É um tal de como vai? tá difícil! é… aqui também; ela está doente, ele em depressão; ele mente, ela trai. O pai de um tem Alzheimer, a mãe do outro também. E você quer saber? A epidemia de Alzheimer faz sentido. Ninguém está mais a fim de lembrar de tudo. Tem coisa boa, é claro, mas é tão pouca que a gente marca um par de dias por ano para fazer festa, acender velinha, bater palma e ficar contente.

Agora, honestamente? Não é culpa do povo do lado de cá nem do lado de lá, não é ele e nem é ela, somos nós, é o teu pensamento negativo e o meu, tua soberba e a minha que desembestam feito besta de dente afiado, e depois voltam para nós, seus amos e senhores. Portanto, não adianta pôr a culpa em Plutão e Saturno, os duros na queda, não adianta pedir clemência divina, buscando fora o que está dentro, que se chama consciência e que nunca se desligou da origem. Não nos servem mais as profecias, que só chegam até ali na esquina, porque a continuação da nossa história é responsabilidade nossa. Podemos rasgar os dogmas porque é aqui, neste ponto da existência, que nossa raça chega ao ponto central, de fim e de início, de morte e de vida. Ou resgata e desperta a consciência, ou não.

Confesso que tenho vivido uma luta de foice no escuro atrás da outra. Aprendo um pouco, subo um degrau e escorrego três para trás. E dá-lhe lambada! mas quem é teimosa sobrevive. O encontro com a gente mesmo, quando a gente se olha como olha o outro, não é fácil, mas quem disse que a vida é fácil? e quem prometeu um jardim de rosas? Portanto, força aí que eu vou me segurando aqui, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Foto-ouvinte: Mobílias em chamas

 

Móveis queimados
 
Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Para o desespero dos profissionais da reciclagem e dos ambientalistas , o lobby do incinerador  trabalha a todo vapor  para limpar a cidade de São Paulo. Enquanto isso,há muito tempo,  a queima de  parte do lixo doméstico já é feita na Rua Modelar,no Capão Redondo, Zona sul. As chamas e a fumaça preta  que saem do “crematório”, no espigão da Cohab Adventista , podem ser vistas  da Subprefeitura de Campo Limpo.
 
                                                                                       Devanir Amâncio

Canto da Cátia: A vida na Real

 

Incêndio na favela Real Parque

O que sobrou foi para a viela. Do que sobrou, algo foi roubado.

No incêndio que destruiu 300 barracos na favela Real Parque, em zona rica de São Paulo, a repórter Cátia Toffoletto flagrou não apenas imagens mas histórias do cotidiano deste povo. Logo que chegou ao local, após trânsito e encrencas, entrou ao vivo. E ao vivo entrevistou uma moradora ainda impressionada com o ocorrido.

Incêndio na favela Real Parque

A senhora (tinha voz de senhora) disse que o fogo começou “nove e pouquinho” e ela só ouviu a gritaria dos vizinhos, acordou, e passou a mão na bolsa e em um dos filhos. Correu pra fora enquanto alguns poucos pertences foram retirados do barraco. “O microondas foi roubado”, disse para Cátia. Ao fundo, uma voz de menina se espantava: “Foi roubado ?”

Incêndio na favela Real ParqueEm meio ao desespero de quem tentava impedir mal maior, houve quem visse ali a oportunidade de levar daqueles que tem muito pouco. E este pouco ficou no caminho a espera de um lugar para ser abrigado.

Foi a Cátia quem lembrou também o esforço dos bombeiros para impedir que as chamas chegassem na mata que resistiu a ocupação do local e no Singapura, construído há anos pela prefeitura para maquiar um problema que nunca foi contido. Faltam mais de 600 mil habitações para os paulistanos ao mesmo tempo que milhares vivem nas condições precárias dos moradores da Real Parque.

Candidatos estiveram na favela este ano garantindo melhorias. Mas toda eleição é a mesma coisa. Vão até lá, prometem “fazer e acontecer” e voltam para casa. A única coisa que deixam para trás é a propaganda irregular pendurada no poste.


Ouça aqui a reportagem da Cátia Tofolletto

De Fogo

 


Por Maria Lucia Solla

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Faz um frio danado, em São Paulo. Ajoelho na frente da lareira, pela terceira vez hoje; me esforço para acender a fogueira, e nada.

Fogo não pega assim fácil, não. Sei disso. Fogo chega no tempo dele. Tem vezes que é um zás-traz, e o fogaréu assobia para as labaredas dançarem; noutras, como hoje, exige rendição total para que a alquimia se processe; e eu, então, finalmente me rendo.

Deixo tudo de lado, me esvazio e me entrego. Examino o arranjo no braseiro e acho, numa acha aqui, noutra ali, marcas de tentativas anteriores; e cavouco para ajeitar os cavacos. Ponho álcool no copo, só que desta vez estou presente em cada gesto, em cada ação. De piloto automático desligado, ajoelho novamente aos pés da lareira e banho o feixe de lenha. Desta vez com reverência.

Fogo não costuma atender à primeira chamada. Exige paciência, e não aceita menos que atenção e dedicação, no tempo necessário para que se dê a simbiose. Só então a magia acontece. Aí é só beleza, força, e o fogo fala, o fogo grita, traz memórias de encontro, de esperança e da falta dela, de riso e choro, de real e do nem tanto.

Fogo é luz e revelação, na fogueira ou na chama da vela, e seus elementais, através da manifestação dele, podem se expressar; e se expressam.

O fogo só chegou a nós quando a Vida acreditou que estávamos prontos para interagir com ele. E a gente nem mesmo se dá conta da sua grandeza e do privilégio que é tê-lo como aliado. Somos crianças mimadas; queremos sempre um brinquedo novo e perdemos o interesse pelo conquistado. Só nos damos conta da força e da importância do fogo, quando ele se exalta e invade e toma o que está à sua volta, ou quando precisamos dele e não o temos.

Como sempre, fiquei fascinada pelo seu poder e fotografei, fotografei sem parar. E neste ponto, chego à conclusão de que é melhor que eu me cale para deixar que ele se expresse.

Escolha um ponto das imagens para fixar o olhar. Não procure nada, e deixe que as imagens se revelem para você.


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung