Onde está nossa segurança?

 

Por Julio Tannus

 

Nem sempre uma matéria jornalística consegue cobrir a realidade total dos fatos.

 

Neste último domingo, dia 16/09/12, o jornal Folha de S. Paulo publica em sua primeira página a matéria “Revista elege 30 praças para relaxar, malhar e esperar a primavera”. E inclui na lista a Praça Pôr do Sol (Praça Cel. Fernandes Pinheiro) no bairro de Alto de Pinheiros. Não pude me esquivar de rememorar a epopeia minha e de minha família nesse local.

 

Moramos, eu e família, de 1973 a 1986, na Rua Haiti no Jardim Paulista. Uma rua bucólica, totalmente habitada por residências, até que começaram a derrubar casas e construir edifícios. Fui um dos “últimos moicanos”. Assediado insistentemente por corretores, só faltava minha casa para viabilizar a construção de um edifício. Eu resistia e argumentava que compramos a casa para morar e não para comercializar. Até que não houve mais jeito. Vendi a casa e mudamos para Alto de Pinheiros, em uma casa em frente à Praça do Pôr do Sol.

 

No primeiro domingo lá, cerca das 21 horas, ouvi um barulho e me dirigi à sacada em frente à praça. E vejo a seguinte cena: um homem apontando um revólver na cabeça de um jovem, e atirando em seguida. De súbito, minha reação foi correr imediatamente para a porta a fim de socorrer o jovem. E aí me dou conta da minha imprudência. Volto, entro em contato com a polícia que, ao chegar, verifica que o jovem está morto.

 

Sento frente ao computador e redijo uma carta endereçada aos moradores. Distribuo cerca de 150 cópias convocando-os para uma reunião em minha residência. Resultado: fundamos a Associação Amigos da Região da Praça do Pôr do Sol.

 

A Praça, até então chamada por alguns de Praça dos Namorados, era um verdadeiro paraíso durante o dia, com exceção da presença de um carro, que ficava estacionado junto a um telefone público. Com o tempo, descobri que se tratava de um traficante de drogas que ficava aguardando pedidos de compra. Durante à noite era um inferno; dezenas de carros estacionados, em cujo interior ficavam casais namorando. E, nas calçadas, traficantes vendendo drogas e aficionados se drogando. A algazarra era tanta que eu passava várias noites “em vigília”.

 

A partir de um determinado momento passei a procurar meios para solucionar essa situação. Prefeitura, Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Polícia Militar, Guarda Civil Metropolitana, CET-Companhia de Engenharia de Tráfego. Cheguei a levantar fundos entre os moradores a fim de cercarmos a Praça. Nada feito. Segundo a Prefeitura, seria necessário transformá-la em Parque, e para isso só com a aprovação da Câmara Municipal.

 

Consegui me reunir com o Presidente do CET para a colocação de placas com “proibido estacionar”, e fui atendido. Só que a situação continuou a mesma, pois ninguém obedecia à sinalização e não havia nenhum policiamento para coibir a desobediência.

 

Então nossa reivindicação (moradores, escolas, paróquia) passou a ser “um posto da polícia na Praça”. Tivemos uma reunião na própria Secretaria, mas resultou em vão.

 

Cansado de tanto tentar sem resultado, resolvemos (apesar de ser contrário) contratar um esquema de segurança particular, com viatura percorrendo 24 horas a vizinhança da Praça. Todos em casa, ao chegar à noite, ligávamos para a viatura que ficava nos aguardando na porta de entrada para nos garantir um mínimo de segurança. Para minha casa em particular, contratei um sistema de segurança com a Siemens, que incluía, além de cerca elétrica, uma comunicação permanente com a central.

 

Resolvi também recorrer à imprensa. Em um domingo à tarde, juntamente com uma jornalista, fomos à residência do então Secretário de Segurança Pública. Ao chegar, coincidentemente, o próprio Secretário estava chegando com a família. Sua mulher, ao tomar conhecimento, nos disse “nem aos domingos vocês nos dão descanso!”. Ao que a jornalista retrucou “e os bandidos nos dão sossego aos domingos, dondoca?”.

 

Passei a noite de sábado, 27/02/2004, para domingo, com repórteres do jornal Diário de S. Paulo, na minha residência. Na segunda-feira, dia 1/03/2004, sai a seguinte reportagem na primeira página do jornal:

 

“Veja como o tráfico age em praça de bairro nobre”, com a foto de um carro da PM e traficantes vendendo drogas.

 

Nessa mesma segunda-feira, à noite, uma coronel da PM toca a campainha de casa. E me diz “por que o senhor está denegrindo nossa corporação? Qual a sua fonte na imprensa?” E eu respondo “por que a senhora ao invés de nos propiciar segurança vem me ameaçar?”.

 

No fim dessa semana, viajei com minha mulher para Ilha Bela. Na época o celular não tinha sinal na Ilha. No domingo à noite, ao chegarmos à balsa, havia vários recados no celular, alertando que nossa casa tinha sido assaltada. Espalharam todas as nossas roupas, derrubaram muros, etc. Chamei a polícia científica e verificaram que foi “coisa de profissional”. Não localizaram nenhuma impressão digital.
Para finalizar: vendemos a casa e mudamos para um apartamento. E, no início deste ano de 2012, a três edifícios do nosso, houve um arrastão.

 

Onde está nossa segurança!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve às terças-feiras, no Blog do Mílton Jung

8 comentários sobre “Onde está nossa segurança?

  1. O nível do atual debate da campanha, quando se discute o tema segurança, não nos oferece muita esperança de que este cenário terá mudanças. Geralmente quando os candidatos entram na discussão se munem de propostas retrógradas, sem resultado prático, quando não de projetos que não são de sua alçada. Boa parte das vezes, idéias improvisadas e sem embasamento. Exemplo: o projeto defendido pelo líder nas pesquisas Celso Russomano, que pretende agregar no sistema de segurança os vigias de rua, com distribuição de rádios e outros penduricalhos, oficializando uma função que, geralmente, atua na ilegalidade, e, provavelmente, potencializando a formação de milícias, como assistimos no Rio de Janeiro.

    Aos prefeitos, além do investimento em iluminação pública, que parece lógico, caberia a criação de espaços de convivência pacífica, com mediação de conflitos, visando principalmente as populações mais jovens – como foi criado na cidade de Canoas, na Grande Porto Alegre, com forte impacto na redução da violência entre jovens com até 19 anos.

    Quem se atreve a deixar o discursos fácil e barato do “bato e arrebento” por medidas inovadoras?

  2. Nas mãos de Deus.

    Até que um dia nossos legisladores tomem vergonha em suas caras e mudem radicalmente o codigo penal e o ECA.

    Não precisa baixar a maioridade penal

    Basta somente acabar com esta idiotice do adolescente quando completar 18 anos se ver livre e com a ficha limpa depois de sair da Fundação Casa que deveria chamar de prisão para “dimenor”

    Deve ser assim:

    “O dimenor” criminoso, estuprador, assassino, ladrão, vagabundo, assaltante, traficante etc, que for preso na porcaria da fundação casa, ao completar 18 anos deve ser transferidso para presidios dos “dimaiores” para completar suas penas

    Presidios lotados?

    Quem mandou ser marginal?

  3. Pois é Carlos e Milton, a retórica em uma campanha eleitoral é absolutamente falsa. Se fossemos uma sociedade organizada, penso que deveríamos registrar todas as promessas feitas pelos candidatos, e elegermos um grupo de cidadãos e cidadãs dispostos a acompanhar o que está ou não está sendo realizado, a partir das promessas feitas pelo candidato eleito. Quanto a questão específica da segurança, muitas ações poderiam ser tomadas. Além das ações sugeridas pelo Milton, penso que a disseminação de postos policiais e o uso de tecnologia, do tipo camêras gravando 24 horas nos locais que estão sendo mais sujeitos a assaltos e roubos, poderiam ajudar a melhorar a segurança pública. Além, é claro, de outras providências que, para não tornar esse texto muito longo, deixo na imaginação dos/das leitores/leitoras!

  4. Boa Noite Milton e aos colegas Blogueiros.

    Milton! ontem no dabete promovido pelo estadão, pouco se falou sobre segurança, os que falaram, falram coisas que praticamente são impossiveis de serem implantadas. Agora o mito jose serra que diz fazer tudo, esta vendo a merda que ele fez em seus anos de governo/prefeito com relação a segurança/educação ou seja nada. Ele nem tocou no assunto e quando foi indagando sobre o mesmo, saiu a francesa.

    Abr,

    Sinval.

  5. A questão das campanhas eleitorais é bastante preocupante. Em muitas outras áreas sempre há algum país que se pode mirar como exemplo. Na área política vemos problemas similares, de ataques pessoais e falta de programas em quase todo o mundo “civilizado”.
    Os nossos candidatos a prefeitos em sua maioria não tem preparo para administrar a cidade e em sua totalidade não tem preparo e nem disposição para uma campanha focada apenas no programa de governo que fará. Saúde, educação, segurança, mobilidade.

  6. Bom dia Julio,
    da situação em que me encontro, num entrevero com uma construtora, posso te dizer que a segurança foi parar na mão de quem pode pagar mais por ela e infelizmente nossa carga pesadíssima de impostos deixou de ser o máximo.
    Ficamos desimportantes nos processos administrativos da cidade e chegamos ao ponto de não poder reclamar e manchar a propaganda eleitoral.
    Ainda que os números a desautorizem, a propaganda da segurança ficou mais importante que ela própria.
    Abraço

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