E o menino descobriu um templo

 

Por Silvio Bressan
Jornalista e gremista

 

 

Havia muita cor e barulho naquela noite de dezembro de 1971, quando o menino assustado entrou pela primeira vez no Estádio Olímpico. Grêmio e Coritiba disputavam um jogo do Campeonato Brasileiro, mas para uma criança que só via futebol pela TV, em preto e branco, o que mais chamava a atenção era a imensidão daquele espaço, o verde da grama, o colorido dos uniformes e os sons da torcida. Os dois gols do ponteiro-direito Flecha me iniciaram na profissão de fé pela camisa 7, a mesma que já havia sido honrada por Tesourinha e Babá e ainda seria consagrada por Tarciso e Renato. Graças ao Olímpico, futebol para mim tornava-se uma coisa real, palpável, com cor, cheiro, barulho e a minha saga de gremista ganhava um palco, um verdadeiro templo para celebrar algumas de minhas maiores decepções e alegrias até hoje.

 

E já lá se vão mais de 40 anos de emoções variadas, mas sempre intensas… Logo no segundo jogo (Grêmio 1 x 1 Cruzeiro, em 1972), o espanto pelo soco de Everaldo no juiz José Faville Neto. Depois, a reverência de ver, pela primeira e última vez, o gênio Pelé naquele histórico gramado (Grêmio 1 x 0 Santos, em 1974). Na mesma época, um inusitado 0 x 3 contra um desconhecido time de Encantado virar 3 x 3 para o delírio da multidão (por outro lado, nos anos 80, também houve um 4 x 1 conta o Santo André que virou 4 x 4 para a frustração geral).

 

Eram tempos difíceis, anos de chumbo para a democracia e a torcida gremista, com derrotas em Gre-Nais e um jejum de oito anos sem títulos. O adolescente tímido, porém, como toda a nação tricolor, não desistia. Mesmo quando a bravura de um Chamaco, Cacau, Tarciso e Iúra não era suficiente para vencer o tradicional rival, lá estava ele na geral, almofada numa mão e rádio na outra, acreditando que um dia a sorte mudaria. E mudou tão de repente que quase ninguém acreditou. Na verdade, levou apenas 14 segundos até que Iúra, agora melhor acompanhado, abrisse o placar naquele Gre-Nal de agosto de 1977. O Grêmio deu a saída de bola e, sem que o adversário tocasse na bola, já estava vencendo.

 

Tínhamos, enfim, um time confiável, onde a bravura de Tarciso e Iúra agora era lapidada pela categoria de Tadeu Ricci, André e Éder. Naquele ano foram sete Gre-Nais e o Grêmio venceu cinco, três deles no Olímpico, com direito à duas goleadas. E chegamos ao dia mais importante, até então, para a história daquele adolescente no Estádio Olímpico. O Gre-Nal de 25 de setembro teve de tudo: pênalti perdido por Tarciso, gol do André, contusão do mesmo André na comemoração e um final tumultuado pela invasão da torcida e briga no gramado. O mais importante, porém, para aquele rapaz, era que finalmente seu time era campeão, em cima do seu principal adversário, e no seu grande palco. Não havia nada mais a desejar. Como reza uma de nossas mais famosas faixas, “Nada pode ser maior”.

 

Saindo da adolescência, ainda vieram o título de 1979, também no Olímpico, e a escalada nacional e mundial, a partir de 1981, com a conquista do campeonato brasileiro, até o título da Libertadores, em 1983, o maior feito da história do Olímpico. Na década de 80, aliás, fomos brindados por uma seqüência memoráveis de vitórias em Gre-Nais e títulos no nosso maior templo: de 85 a 90 quase todas as decisões foram clássicos vencidos pelo Grêmio no Olímpico. Em 89, já na vida adulta, pude testemunhar o título da primeira Copa do Brasil, em 1989, um sábado à tarde, em cima do Sport. Um ano depois, já morando em São Paulo, tive a felicidade de assistir a um 4 x 0 no Gre-Nal decisivo do campeonato. Não sabia porque pretendia voltar, mas aquele foi meu último título no Olímpico.

 

De lá para cá, como morador de São Paulo, voltei esporadicamente ao velho templo, com vitórias e derrota. A cada viagem à cidade natal, mesmo quando não havia jogo, o compromisso obrigatório era dar uma passada no Olímpico, visitar a loja e sentar nas arquibancadas, mirando o gramado. Queria aproveitar cada instante naquele velho concreto oval e rememorar as cenas mais marcantes dessas quatro décadas: as brigas e o “senta e levanta” dos Gre-Nais; a enorme buzina que ficava no meio da geral e nos ensurdecia cada vez que era acionada; ao lado do alarme sonoro, a tradicional faixa “Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”, sempre estendida e guarnecida por fiéis escudeiros; os corneteiros da social, sempre mais exigentes e pouco pacientes com o time; o pânico que se instalava na torcida quando o limitado Vilson ajeitava a bola na intermediária e todos gritavam “Não chuta, Vilson, não chuta!”; as imprecações contra o indefectível cotovelo do zagueiro Figueroa; o cheiro misturado de cigarro e cerveja; no verão, o picolé que já chegava líquido; no inverno, o café quente demais e o amendoim que era só casca e farelo; no final, os jornais queimados pela arquibancada e a volta a pé pela Azenha entupida de gente, rádio colado no ouvido e o passo apressado para não perder o último ônibus, lá na Avenida Ipiranga. No retorno à São Paulo, ficava sempre uma ponta de nostalgia até o próximo encontro com o Olímpico, que era sempre eletrônico. Numa volta à minha infância, antes do primeiro jogo, o Olímpico passou a ser uma imagem constante na minha TV.

 

Em outubro deste ano, resolvi me despedi do glorioso casarão. Convidei meus irmãos, residentes ainda em Porto Alegre, e alguns amigos daquelas jornadas, que hoje moram em Santa Catarina, para reviver parte da nossa adolescência e juventude. E lá fomos para a última aventura no templo azul. Como mascote da turma, um menino de 13 anos, filho de um amigo, com a camisa tricolor e a uma alegria incontida. Era seu segundo jogo no Olímpico e fiquei imaginando se sua empolgação era a mesma daquele menino no início da década de 70. Fomos para trás do gol do ginásio, à esquerda das cabines de rádio, ali exatamente onde estávamos há 35 anos, vendo André Catimba vencer Benitez e fazer história. Dali também vibramos com o gol do zagueiro Werley, no empate de 1 x 1 com o Santos. Não havia mais Pelé e Neymar não brilhou, até foi expulso. Mas tudo isso foi muito menos importante do que ver a emoção do menino, que, como outras gerações desde 1954, era renovada a cada quarta e domingo naquele verdadeiro santuário.

 

Tenho orgulho de ter vivido, no Olímpico, 20 de seus quase 60 anos de história memorável. Foi ali que o menino, adolescente e adulto forjou sua identidade de gremista, temperada nas vitórias e derrotas, como toda a grande paixão. É esse sentimento que levarei para a Arena e essa é a maior homenagem que posso prestar ao antigo estádio e legar às novas gerações que surgirão no moderno templo. Ainda que o antigo casarão não esteja mais lá, a alma e o coração de todos os gremistas das últimas seis décadas lá estarão. Imortal mesmo é a lembrança que não se apaga e o velho Olímpico de tantas cores, barulhos, frustrações e glórias continuará com sua chama acesa na memória de milhões de torcedores.

 

Um comentário sobre “E o menino descobriu um templo

  1. Silvio, ontem já comentei alguns fatos marcantes que vivi no Olímpico num post do Milton.
    Hoje você me deixou mais saudoso ainda, por lembrar de alguns jogos que vi ao vivo (como o gol do Torino num Olímpico abarrotado contra o Santos de Pelé no dia 1 de setembro de 1971), jogo que vi atrás do gol do ginásio, à esquerda das cabines de rádio, bem junto ao fosso.
    Outro jogo marcante foi um GREnal, na época que a torcida deles ficava a direita de quem entra pela Azenha e se entrava com comida e aí maçãs eram jogadas de um lado para outro, pois a separação das torcidas não era tão grande como hoje em dia. Neste jogo levei, não uma maçã, mas sim um ovo podre na cabeça. E olha que se entrava no Olímpico ao meio dia, talvez por isso não lembro do resultado deste jogo, nem o dia… ficou sim, o cheiro impregnado na memória!

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