Moda & Trabalho: o inverso do espetáculo

 

Carlos Magno Gibrail

 

Sewing and cutting of cloth (all women), 1936

 

Em 1930, a cidade de New York, centro mundial da indústria de confecção, começou a receber os reflexos da nova tendência da moda, que passava a enfatizar o design e o comércio em sua cadeia operacional. A Produção perdia importância estratégica a ponto de poder se dissociar do contexto. Corte, costura e acabamento, poderiam estar em outros locais, mais apropriados para um setor industrial. E, a costura, etapa mais intensiva de mão de obra passou a exercer forte papel social.

 

Em 1987, com 23 anos de atuação no setor de confecção, três anos de mestrado em Administração, e um ano estudando e atuando na sobrevivência das Pequenas e Médias Empresas de Confecção Infantil, apresentei a minha dissertação de Mestrado à PUC SP. Era o primeiro trabalho acadêmico focando empresarialmente o setor de moda, e ressaltava, genericamente, a importância das confecções brasileiras no aspecto corporativo e, especificamente, o trabalho feminino domiciliar das costureiras, apontando a sua inigualável função social.

 

Hoje o trabalho domiciliar, imprescindível às populações carentes, foi reduzido em parte pela melhoria das condições trabalhistas, que exigem registro e cumprimento das leis, que impossibilitam às pequenas oficinas se manterem devido aos baixos valores que recebem. Ao mesmo tempo, do lado oposto surgem locais que, ao descumprirem tudo, se viabilizam.

 

Para as Pequenas e Médias Empresas, as mudanças foram drásticas, pois muitas não sobreviveram às variações de mercado, outras foram incorporadas por grupos financeiros. Poucas cresceram. Ao traçar hoje, um quadro de sobrevivência para as Pequenas, Médias e Grandes empresas nacionais de confecção, fico apreensivo com a questão do trabalho industrial terceirizado. Segunda-feira, o Estadão publicou matéria sobre o trabalho escravo. O “Domínio do fato” teoria de 1930, usada para condenar nazistas e também “Mensaleiros”, está sendo cogitada para punir na ponta marcas de moda. Preocupa-me, pois relegar as oficinas e condenar as marcas na ponta, atende à espetacularização.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

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