O trote como tortura

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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A CPI do Trote, realizada pela Assembleia Legislativa de São Paulo, em seu relatório final, divulgado no dia 10, sugere o enquadramento do trote universitário na lei da tortura. É um tema velho, mas atualíssimo. E muito importante, pois a iniciação acadêmica, junto com o casamento e a morte, completam os principais rituais de passagem da vida das pessoas – além de dissonante, pois no Estado de São Paulo o trote é proibido pela lei 10454/1999.

 

O trote e a Universidade estão juntos desde a Idade Média quando surgiram as primeiras entidades de ensino universitário. Era uma época de violência e intolerância, mas o trote surgiu como medida profilática. As roupas eram queimadas e os cabelos raspados. Aos calouros não era permitida inicialmente a entrada nas salas e assistiam às aulas nos vestíbulos.

 

Daí os vestibulandos. A palavra trote veio como significado de aprendizagem forçada como se fazia com os cavalos. Chicotadas e submissão. Não era metáfora, pois a violência passou a caracterizar rituais para calouros mundo afora. No Brasil, o trote chegou importado pela jovem elite brasileira que estudou em Coimbra.

 

Na CPI paulista, presidida pelo deputado Adriano Diogo PT e relatada por Ulysses Tassinari PV, foram intimadas 17 pessoas, das quais só duas compareceram. Essas negaram as acusações e uma delas foi contestada de imediato por uma aluna. Entretanto, estas ausências não impediram que mais de 100 depoimentos fossem tomados, gerando 190 páginas de relatório e 9.000 documentos entre fotos e vídeos com trotes violentos.

 

São provas que mostram afogamentos em piscinas, tapas, socos, ingestão forçada de alimentos repulsivos como fezes, vômitos e drogas, introdução de substâncias no ânus, afogamentos em vasos sanitários, exercícios físicos extenuantes, cárcere privado, homofobia, racismo. E o testemunho de sete vítimas de estupro.

 

“Acordei com ele me penetrando por trás” diz vitima na USP.
“Veteranos ameaçaram urinar em mim”, diz aluna de medicina da PUC.
“Pensei em me matar”, declarou outra aluna que sofreu trote violento na faculdade de medicina.

 

Não bastasse tudo isso, ainda existe suspeita de que esta relação de poder permanece indefinidamente, gerando uma preocupante rede de dominação. Os professores Antonio Almeida e Oriowaldo Queda da ESALQ USP fazem este alerta em artigo na FOLHA de sábado. Recomendo a leitura.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

2 comentários sobre “O trote como tortura

  1. Gostaria de expressar meu total repúdio às práticas vigentes entre as universidades com relação aos trotes. São abomináveis e fruto de um desconhecimento total da boa educação. Meus 2 filhos, um recentemente formado, recusou-se a ser por ele submetido, e a outra filha, a formar-se no final deste ano, foi tachada de excluída, juntamente com algumas amigas que igualmente não participaram. Há numerosas outras formas de tornar o ingresso ao ensino superior uma comemoração vitoriosa da conquista do estudante, um mecanismo que reverta em benesses para a sociedade. Parabéns as instituições que o aboliram ou o transformaram em algo positivo e benéfico a ser seguido.

  2. Thereza Christina, concordo totalmente com o seu pensamento. Recepcionar os novatos como se fossem bichos de verdade, é abominável também para os bichos. Mesmo porque no caso de bichos a Sociedade Protetora dos Animais não iria permitir.. Somente humanos desqualificados tem esta competência..

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