Conte Sua História de SP: os últimos dias de minha mãe

Ione Correa

Ouvinte da CBN

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Sou a filha mais nova de uma família de seis irmãos, nascida e criada no bairro do Parque São Lucas, na Zona Leste, que faz limite com a região do ABC. Quando me casei, mudei-me para Barueri, mas, todos os sábados me voltava ao bairro de minha infância, onde ainda residia a minha mãe, Dona Ana, acompanhada de duas irmãs e um sobrinho. 

O sábado era um dia totalmente dedicado à minha mãe, e, embora eu não tivesse nenhuma habilidade para manicure e pedicure, sou advogada, cuidava das unhas dela, e de outros trabalhos estéticos. Aos 83 anos, Dona Ana era muito vaidosa e cuidava com esmero de sua saúde e higiene. Passávamos o dia conversando. Ela muito mais do que eu, pois, pense numa pessoa faladeira!

Com a pandemia, minhas visitas tiveram de parar. Nos falávamos por videochamada. Era muito engraçado, porque minha mãe movimentava o celular o tempo todo. Ríamos da inabilidade tecnológica dela. Demorou pouco para dominar o uso do aparelho, algo surreal para uma mulher, que, não conseguiu ser alfabetizada por ter que trabalhar na roça desde criança. 

No Dia das Mães, eu e minha irmão enviamos uma cesta de café da manhã. Assim que o presente foi entregue, mais uma vez o momento foi compartilhado pela tela do celular.

Em junho uma notícia nos abalou: minha irmã que trabalha em hospital foi contaminada pela Covid-19. Em seguida, minha mãe passou a ter sintomas da doença e teve de ser internada. As visitas eram proibidas. Nos restava esperar os relatos médicos. Foram dias terríveis, nos quais o suspense de saber como teria sido a noite dela, nos consumia. Um alívio neste tempo de internação foi quando a psicóloga do hospital a colocou em contato com a família por videochamada. Nosso coração se aqueceu! Ela ainda estava abatida, mas, forte, e perguntou de todos, e disse que estava bem.

O aniversário de Dona Ana, 24 de junho, foi comemorado dentro do hospital. A equipe médica e de enfermagem cantou ‘parabéns a você’ e assistimos a tudo pelo celular. Ela estava muito feliz! Super animada! Cinco dias depois foi para o quarto e pudemos estar com ela. Como as condições pulmonar e cardíaca ainda estavma comprometidas, acabou voltando para a UTI — antes de deixar o quarto, minha irmã fez uma videochamada e ela pode conversar com todos os seus filhos. Foi nosso último contato com a mamãe. Ela morreu no dia três de Julho.  

A tecnologia jamais substituirá o contato físico, mas imagino o como teria sido mais difícil esses dias se não fossem esses recursos que estão disponíveis. Talvez o sentimento de frustração fosse muito maior. Foi a tecnologia que permitiu a mim e aos meus irmãos de estarem junto com minha mãe em seu derradeiro momento, e que nos traz algum alento, como tenho certeza que igualmente acalmou o coração dessa mulher intrépida, que felizmente, pude chamar de mãe. 

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Ione Correa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Um comentário sobre “Conte Sua História de SP: os últimos dias de minha mãe

  1. Muito obrigado por contar um pouco da história de minha avó, Dona Ana. Faltam palavras para descrever tanto agradecimento e quanto essa forte mulher nos faz falta.

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