Aging in place: o que é preciso para envelhecer em casa e na comunidade

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Envelhecer no lugar
Imagem produzida por IA

O envelhecimento é uma experiência heterogênea, marcada por diferentes trajetórias, condições de vida, histórias pessoais e relações sociais. O ambiente físico e o ambiente social participam diretamente da maneira como cada pessoa envelhece.

A casa, a vizinhança e os espaços onde a vida cotidiana acontece acumulam memórias, hábitos, referências e vínculos que contribuem para a construção da identidade e do sentimento de pertencimento.

É nesse contexto que se insere o conceito de aging in place. Entre 2011 e 2021, estudos da American Association of Retired Persons (AARP) identificaram que 77% das pessoas com mais de 50 anos desejavam permanecer em suas próprias casas. Entretanto, “envelhecer no lugar” não significa apenas permanecer fisicamente na mesma residência.

O conceito envolve a possibilidade de continuar vivendo em um lugar significativo, preservando autonomia, segurança, identidade, vínculos sociais e participação na comunidade à medida que as necessidades se transformam.

O pesquisador português António Fonseca amplia essa perspectiva ao destacar que o lugar não se restringe à casa. A vizinhança, os espaços públicos, os serviços, a mobilidade e as relações sociais também fazem parte das condições necessárias para envelhecer no local. Permanecer em casa sem conseguir circular, acessar serviços ou manter relações sociais pode resultar em isolamento, e não necessariamente em aging in place.

Por isso, o aging in place está relacionado à capacidade de o ambiente acompanhar as mudanças funcionais, cognitivas e sociais que ocorrem ao longo do envelhecimento.

Avanços na saúde, na farmacologia, na nutrição e nos hábitos de vida ampliaram a expectativa de vida, ao mesmo tempo que as cidades se tornaram mais complexas. Trânsito, ruído, deslocamentos prolongados, excesso de estímulos e conectividade permanente fazem parte da experiência urbana contemporânea e podem aumentar as exigências físicas e cognitivas impostas ao indivíduo.

Compreender como essas condições repercutem sobre o corpo envelhescente exige uma abordagem que articule arquitetura, desenho urbano, gerontologia e serviços socioassistenciais e de saúde.

Em 1973, os pesquisadores Lawton e Nahemow formularam a Teoria da Pressão–Competência, segundo a qual o comportamento e a adaptação da pessoa ao ambiente resultam da relação entre suas capacidades e as demandas impostas pelo espaço. Quando a competência diminui, ambientes com elevada pressão ambiental podem ampliar dificuldades, insegurança e dependência. A adequação do ambiente, nesse sentido, consiste em compatibilizar suas características com as capacidades do indivíduo, reduzindo barreiras desnecessárias sem eliminar estímulos que favoreçam a autonomia e a participação.

A partir dessa perspectiva, a Teoria Ecológica do Envelhecimento amplia a compreensão da relação entre pessoa e ambiente ao considerar que diferentes níveis de competência exigem diferentes graus de suporte ambiental. Assim, à medida que as capacidades funcionais diminuem, o ambiente passa a exercer maior influência sobre o comportamento. Pequenas alterações nas condições espaciais podem, portanto, produzir efeitos significativos sobre a autonomia, a segurança e a participação cotidiana.

Essa relação é fundamental para o aging in place, uma vez que a permanência no lugar escolhido depende da capacidade de o ambiente acompanhar as transformações decorrentes do envelhecimento.

Nesse contexto, ganha importância o princípio da docilidade ambiental, segundo o qual a influência do ambiente sobre o comportamento tende a aumentar conforme diminuem as competências individuais. Já a proatividade ambiental reflete a capacidade ativa da pessoa idosa de modificar, gerenciar e controlar seu espaço físico e social para atender às suas necessidades e manter a independência. O ambiente, portanto, passa a fortalecer ou enfraquecer a competência do indivíduo em sua própria moradia.

Dentro dessa perspectiva, a percepção também constitui uma peça fundamental da relação entre pessoa e ambiente. Cada indivíduo seleciona, organiza e interpreta os estímulos ao seu redor a partir de experiências, valores, hábitos e referências construídas ao longo da vida.

Uma rua associada ao medo pode ser evitada, enquanto um espaço reconhecido como familiar pode favorecer segurança e confiança. Esses códigos de referência influenciam escolhas, comportamentos e formas de utilização dos lugares.

Essa compreensão deve estar presente no projeto das residências e das instituições destinadas às pessoas idosas. Pequenas decisões podem modificar significativamente a autonomia cotidiana. A altura das janelas, a disposição dos equipamentos, a largura dos percursos, o alcance dos objetos e a relação visual com o exterior interferem na capacidade de realizar atividades sem depender continuamente de outra pessoa.

Uma janela alta, por exemplo, pode restringir a paisagem de quem permanece sentado ou deitado. Uma simples alteração na altura da abertura ou a inclusão de uma faixa transparente pode ampliar o campo visual e favorecer a relação com o entorno.

O mesmo princípio se aplica aos ambientes institucionais. A autonomia não desaparece quando a pessoa passa a viver em uma instituição. Ao contrário, o espaço deve oferecer condições para que ela continue exercendo escolhas. Isso inclui decidir onde sentar, com quem permanecer, quando buscar privacidade e quais atividades realizar.

Ambientes padronizados e com aparência hospitalar podem reforçar a dependência e a institucionalização.

Mobiliário familiar, cores, texturas, objetos pessoais, conforto ambiental, referências visuais e diferentes possibilidades de permanência, por sua vez, ajudam a construir espaços mais próximos da experiência residencial. Vale ressaltar que o conforto ambiental ultrapassa a dimensão física. Temperatura, iluminação, ventilação, acústica, materiais, cores e organização espacial influenciam a experiência corporal, emocional e social.

Um ambiente confortável deve proporcionar descanso, conversa, observação, escolha, circulação e manutenção das relações com outras pessoas, sem exposição ou vigilância excessiva.

Uma mesma área de convivência pode oferecer locais próximos à televisão, espaços mais silenciosos, pontos de observação e áreas destinadas à conversa. Essa variedade permite que cada pessoa escolha como deseja vivenciar aquele momento, respeitando diferentes necessidades e preferências.

Portanto, o aging in place pressupõe construir condições para que a pessoa possa continuar vivendo, escolhendo, circulando, convivendo e reconhecendo-se no lugar onde sua vida acontece.

A arquitetura participa desse processo quando deixa de considerar o envelhecimento apenas como uma questão de acessibilidade e passa a compreender o espaço como parte inerente das condições que sustentam autonomia, independência, pertencimento, segurança e continuidade da vida.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é doutorando e mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, Ceará.

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