Planos de saúde com mensalidades mais baixas podem facilitar o acesso a consultas e exames, mas deixar de fora internações, cirurgias e tratamentos complexos. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Bruno Sobral, diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), e Lígia Bahia, professora do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Os planos populares ofereceriam uma cobertura mais limitada do que os convênios tradicionais. A principal dúvida é o que aconteceria quando um exame identificasse uma doença grave. Sem cobertura para as etapas seguintes, o paciente teria de recorrer ao Sistema Único de Saúde.
Mais acesso a consultas e exames
Bruno Sobral defendeu a regulamentação de serviços que já são oferecidos por cartões de desconto e clínicas populares. Segundo ele, essas empresas não estão sujeitas às mesmas exigências impostas às operadoras de planos de saúde, como garantias financeiras, obrigações com os clientes e regras para a rede de atendimento.
“Esse produto, esse serviço, já existe. Ele não está sendo inventado”, afirmou.
Na avaliação do diretor da FenaSaúde, permitir a oferta regulada de planos mais baratos aumentaria o número de pessoas atendidas e facilitaria a realização de exames preventivos. Ele citou a mamografia como exemplo de procedimento capaz de identificar precocemente uma doença e ampliar as possibilidades de tratamento.
Sobral reconheceu que esses planos não resolveriam todas as necessidades do paciente. Por isso, defendeu uma articulação com o SUS para dar continuidade ao atendimento quando fossem necessários procedimentos não cobertos. Para ele, o diagnóstico precoce também poderia reduzir os custos futuros do sistema público.
O risco da assistência fragmentada
Lígia Bahia afirmou que planos com cobertura reduzida podem criar uma falsa sensação de segurança. O paciente paga para realizar consultas e exames, mas pode descobrir que não tem proteção justamente quando precisa de cirurgia, internação, medicamentos caros ou tratamento contra o câncer.
“Você está colocando sua vida em risco. Isso é uma enganação”, disse.
A professora lembrou que a Constituição define a saúde como um direito e prevê atendimento integral. Na visão dela, separar o diagnóstico do tratamento fragmenta o cuidado e transfere ao SUS as etapas mais caras da assistência.
Lígia defendeu uma articulação entre os setores público e privado, desde que as políticas de saúde sejam orientadas pelo interesse público. “Os negócios têm que se encaixar na Constituição de 1988, não o contrário”, afirmou.
O debate expõe uma escolha que vai além do preço da mensalidade. Planos populares podem abrir uma porta para consultas e exames, mas essa porta precisa levar a algum lugar.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.