O sentimento de renovação

Beatriz Breves

Foto: Mílton Jung

Uma analogia que faço com o sentimento de renovação é aquela sensação que temos quando, após um dia atribulado, chegamos em casa, tomamos um banho quente e trocamos a roupa suada por uma roupa limpa.

Parece que alguma coisa dentro da gente também se modifica. A gente se sente renovado.

E como é bom quando algo acontece, trazendo essa sensação de estarmos “novinhos em folha”! Talvez porque a renovação seja um sentimento que nos faz sentir a vida como se, de alguma maneira, estivéssemos renascendo.

Entretanto, não é todo dia que nos sentimos assim. De fato, são poucos os momentos em que entramos verdadeiramente em contato com o sentimento de renovação.

E isso é curioso, porque todos os dias vivenciamos a renovação. A todo instante recebemos novos estímulos da vida, novas experiências acontecem e o próprio corpo está continuamente se modificando e renovando suas células.

Ainda assim, na maior parte do tempo, não nos sentimos renovados. Ao contrário, muitas vezes nos sentimos como se carregássemos coisas velhas e inúteis dentro da gente.

Talvez a pergunta a ser feita seja: por que não conseguimos sentir a renovação que continuamente acontece em nós?

Uma das possibilidades que me ocorre é que tenhamos a tendência de sobrepor à renovação o sentimento de apego ao que já passou. Afinal, renovar implica, de alguma maneira, deixar o antigo ir para o novo poder chegar.

E talvez paguemos um preço alto quando não conseguimos deixar o antigo ir, permanecendo afetivamente ligados às mesmas imagens, às mesmas experiências e às mesmas formas de sentir.

Como diz o ditado, se “tudo o que é bom dura pouco”, pouco tempo após uma experiência de renovação podemos novamente nos sentir sobrecarregados. É como se não soubéssemos, ou não conseguíssemos, sustentar a transformação que a renovação nos propõe. E, assim, muitas vezes acabamos nos sentindo cansados, envelhecidos ou até ultrapassados diante da própria vida.

Quem sabe, se ficássemos mais atentos, poderíamos entrar em contato com o sentimento de renovação e, assim, aproveitar mais o que somos. Afinal, assim como o sol que nasce e se põe em renovação todos os dias, assim também somos nós.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

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