Conte Sua História de São Paulo: o filho do Paulo Galinheiro

Paulo Sergio Vicentin

Ouvinte da CBN

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Era início da década de 1970. Eu tinha acabado de chegar do Sul de Minas para morar com meus pais em São Paulo. Fomos viver — e eu moro até hoje — na Vila Monumento. Nossa casa era sempre cheia de amigos, em especial os da minha querida tia Suely, a Sula, que também foi quem me apelidou de Pauleta, nome que carrego até hoje.

Os amigos dela eram colegas da Cásper Líbero, onde cursava jornalismo. Os encontros tinham boa música e muitos brados contra a ditadura militar. Eu, com meus oito anos, achava aquilo tudo o máximo.

Mas o máximo mesmo era quando minha mãe, Teresinha, a Tei, me chamava e dizia: “Hoje vamos na cidade fazer compras”. Ir “na cidade” era ir à Rua Direita, no centro histórico. Um verdadeiro shopping a céu aberto. Lembro dos vendedores gritando: “Calça Lee americana! Jaquetão! Levi’s!”. Subíamos escadinhas estreitas até sobrelojas cheias de montanhas de jeans — muitos, provavelmente, vindos do Paraguai.

Depois de muito “bater perna”, como minha mãe dizia, sentávamos no balcão das Lojas Americanas e nos lambuzávamos de sundae. Outro símbolo dos ventos culturais daquele tempo.

Na volta, descíamos a Ladeira General Carneiro rumo à Praça Fernando Costa, ao lado do Parque Dom Pedro II, para encontrar meu pai. Pelo caminho, o som das catracas dos caminhões carregados de galinhas. Naquela época, frango de granja não existia. As aves vinham de pequenos criadores do interior e eram vendidas vivas nas feiras.

Ao final da ladeira, surgia a movimentação intensa de caminhões. E lá estava ele: meu pai, o Paulo Galinheiro — apelido trazido de Minas. Seu barracão, com fundos para o Pátio do Colégio, tinha de tudo: frango, galinha, galo, porco, cabrito. O movimento era constante.

Eu me orgulhava de ver meu pai comandando aquele vaivém de clientes, carroças e caminhões. Entre uma carga e outra, havia tempo para uma purrinha com os amigos, valendo um café no bar da esquina — que, por sinal, ainda existe.

Assim que o via, corria para abraçá-lo. O cheiro das aves nas roupas não importava. Era como se fosse parte dele. Entrávamos no Fusca cor de café com leite, também com cheirinho de galinha, e voltávamos para casa.

Eu, feliz pelo dia vivido. Meu pai, cansado e louco por um banho. Minha mãe, sonhando com mais um sundae.

Essa história é mais do que lembrança. Foi ali que construí uma relação de admiração e afeto com meu pai, mediada pelo trabalho e pela cidade.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Paulo Sergio Vicentin, filho do Paulo Galinheiro, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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