Eleição ensina que a política não pode se alienar do eleitor

Urna Eletronica
Foto: divulgação TSE

No caminho para a urna, neste domingo que entra para a história, encontrei eleitores de diferentes colorações políticas. Tive a sensação de que havia uma agitação eleitoral mais intensa do que no primeiro turno. Procuro relativizar essas impressões. As ruas que percorro também são parte do meu ambiente, e o ambiente pode nos fazer confundir a própria bolha com o país.

Em comparação com o primeiro turno, porém, vi mais apoiadores de Lula: roupas vermelhas, camisetas estampadas, adesivos no peito e bandeiras nas mãos.

A presença de apoiadores de Flávio Bolsonaro já não me surpreendia. Desde a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, esse grupo costuma se manifestar de forma mais ostensiva, muitas vezes com a camisa da seleção brasileira ou a predominância do amarelo nas vestes.

Foi preciso esperar a apuração, e a confusão eleitoral proporcionada por gestores municipais e ministros dos tribunais, para saber se a impressão das ruas se confirmava nos números. Confirmou-se, ao menos em parte.

A abstenção nacional caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,2% no segundo. Com isso, cerca de 3 milhões de eleitores a mais compareceram às urnas. Quando se somam também a redução dos votos brancos e nulos, estima-se em 4,7 milhões o aumento de votos válidos e de comparecimentos entre os dois turnos: 2,9 milhões de pessoas que haviam faltado no primeiro e 1,8 milhão que tinham votado em branco ou nulo.

Na cidade de São Paulo, onde voto desde que cheguei, nos anos 1990, a abstenção caiu de 23,4% para 20,36%. Sim, o que vi no meu bairro, era parte do que acontecia na capital paulista. A participação cresceu também em outras regiões. No Nordeste, em sete estados a abstenção ficou abaixo da média nacional de 19,2%. Bahia, Pernambuco e Ceará tiveram índices ainda menores.

Os números confirmam que mais eleitores compareceram. Não dizem propriamente por que cada um deles foi votar.  Ainda assim, é difícil separar esse movimento da intensa disputa que tomou as ruas e as redes sociais. As manifestações mostraram que a política voltou a ocupar o espaço público com força. Seja com o verde e amarelo (e algumas bandeiras americanas) seja com o vermelho (não lembro ter visto nenhuma bandeira de Cuba — me corrijam se eu estiver errado), a paisagem política do segundo turno se transformou.

A ciência política brasileira usa a expressão alienação eleitoral para reunir abstenções, votos brancos e nulos. É uma forma de medir a parcela do eleitorado que não valida um candidato — seja por não comparecer, seja por comparecer e não escolher nenhum dos nomes em disputa. O indicador não explica, sozinho, as razões de cada eleitor. A ausência pode expressar desinteresse ou protesto, mas também dificuldade de deslocamento e outros impedimentos.

A alienação eleitoral não surgiu nesta eleição. O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos já empregava a expressão em estudos sobre eleições brasileiras, diante dos riscos autoritários que marcaram nossa história. O tema voltou ao noticiário neste ano, quando pesquisas apontaram eleitores pouco informados ou ainda sem decisão. O primeiro turno, com abstenção maior, reforçou a impressão de distanciamento. O segundo turno, marcado por maior comparecimento, mostrou que esse quadro não era imutável.

Em 2004, criei o Adote um Vereador, em São Paulo, para mobilizar cidadãos a acompanhar e fiscalizar o trabalho dos parlamentares municipais. Talvez eu tenha partido de uma compreensão mais ampla da alienação política. O problema não estava apenas em quem faltava, votava em branco ou anulava o voto. Também me preocupava o eleitor que escolhia um candidato e, depois, se desinteressava pelo mandato. Assim como pelos vereadores que o conjunto dos eleitores havia escolhido.

A ideia era mostrar que a responsabilidade do cidadão não termina na urna. O voto abre uma relação que deveria continuar durante o mandato, com acompanhamento, cobrança e participação nos assuntos da cidade.

Nunca vi sentido em apontar o dedo para o eleitor e culpá-lo pela própria ausência. Partidos e políticos também têm responsabilidade quando só procuram a população em época de eleição, não criam espaços permanentes de participação e tratam demandas coletivas como moeda de troca. A apatia não nasce no vazio.

Neste segundo turno, houve mobilização dos dois lados, embora os dados indiquem que Lula ampliou mais sua votação. Ele recebeu cerca de 10,4 milhões de votos a mais que no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro ganhou cerca de 3,7 milhões. De cada quatro votos novos que apareceram no segundo turno, três teriam ido para Lula, calculou Pedro Doria, meu colega de Jornal da CBN. Com certeza, o presidente reeleito concentrou a maior parte do crescimento dos votos dos dois finalistas.

O que a eleição ensina, então? Que o eleitor pode voltar a participar quando a disputa lhe parece decisiva e quando encontra razões para se envolver — especialmente quando entende que existem ameaças à Democracia. Mas seria precipitado concluir que essa energia se manterá sem escuta, representação e presença política entre uma eleição e outra.

A alienação eleitoral também pode ser lida como um sinal de que a política não está oferecendo perspectivas ou canais de participação que convençam parte do eleitorado. O movimento contrário, que é a participação, exige que o cidadão perceba que sua voz tem consequência e sua presença importa antes e depois da eleição.

O saudoso Adote um Vereador nasceu dessa convicção: a política não acontece apenas no dia da votação nem pertence exclusivamente a quem ocupa um cargo. Ela se realiza na vida pública, onde as pessoas acompanham, perguntam, cobram e propõem.

Quero acreditar — mesmo com toda a desconfiança a que me dou o direito — que os partidos aprenderão a lição: o desafio não é conquistar o voto do eleitor alienado. O desafio é impedir que o político se aliene do eleitor.

Deixe um comentário