Avalanche Tricolor: se aprendeu a lição, tudo bem!

 

Goiás 2 x 0 Grêmio
Brasileiro – Serra Dourada (GO)

 

O esporte é rico em histórias engraçadas. Lembrei na noite de hoje do caso de um colega do time de basquete que chegou no vestiário, colocou o uniforme, vestiu o abrigo e atentamente ouviu a orientação do técnico. Ficaria na reserva, mas com boas chances de entrar e, quem sabe, mostrar todo seu talento, garantindo lugar entre os cinco titulares nos próximos jogos. A partida se iniciou, a disputa era equilibrada, a marcação forte, mas o adversário tinha vantagem no placar. O treinador fez uma substituição, fez outra, tentou uma terceira, uma quarta formação, até que olhou para o banco e chamou meu colega. Chegava a chance de mostrar todo seu valor. Aqueceu tempo suficiente para pegar o ritmo do jogo. Quando estava pronto para entrar na quadra, arriou o abrigo e ficou apenas de cueca para a gargalhada dos torcedores. Havia esquecido de vestir o calção e com isso jogara fora a chance de assumir posição de destaque no time.

 

O jogador sem calção foi o Grêmio na noite dessa terça-feira, em Goiânia. Ficou preso no congestionamento, entrou atrasado em campo, perdeu o Hino Nacional, o pique do jogo e o toque de bola. Desatento, cometeu erros infantis e foi incapaz de superar suas limitações, ao contrário das partidas anteriores quando cometemos erros, tivemos dificuldades para executar jogadas, mas, mesmo assim, éramos maiores do que todas as nossas falhas. Com isso, desperdiçamos a oportunidade de seguir na disputa pela liderança do Campeonato e corremos o risco de cair na tabela de classificação.

 

Apesar de tudo isso, não há motivos para desespero. Nossos adversários também cometerão seus tropeços no decorrer das rodadas, quem sabe já nessa quarta-feira. O importante é aprender a lição, compreender nossas carências e resolvê-las durante a semana para que no próximo sábado quando nova chance surgir estarmos preparados para chegar à liderança (sem esquecer de vestir o calção).

Governo quer incentivar e-mail e aplicativos brazucas

 

 

Os smartphones produzidos no Brasil terão de sair de fábrica com até cinco aplicativos criados em solo nacional, a partir do mês que vem, e com pelo menos 50, até o fim de 2014, para que os fabricantes se beneficiem de isenção das alíquotas de PIS/Pasep e Cofins. O Ministério das Comunicações entende que assim estará fomentando o mercado brasileiro de apps. Não é no que acredita o editor do jornal O Globo Pedro Doria que, em sua coluna desta terça-feira, escreve que a pretensão do Governo é marcada pelo desconhecimento; não leva em consideração, por exemplo, que nos smartphones mais baratos não há memória para carregar 50 aplicativos; nem se baseia no costume dos usuários desses modelos de celulares que têm em média 41 apps instalados (dados da Nielsen) e usam apenas 5, na maioria dos casos (dados do Centro PEW). A medida ainda esbarra na falta de mão de obra, pois faltam engenheiros de software com capacidade para atuar nesse mercado. Cálculo da Qualcomm é que dos 2,3 milhões de desenvolvedores que existem no mundo apenas 35 mil estão no Brasil.

 

Logo que li a notícia tive o interesse de contar quantos aplicativos já havia baixado no meu Iphone, comprado recentemente. Cheguei até agora a 67 dos quais apenas pequena parcela uso com frequência, outro tanto acesso de vez em quando e o restante tende a permanecer por lá tomando espaço da tela e da memória. Facebook, Twitter, WhatsApp e o viciante Candy Crush (sobre o qual ainda conversaremos nesse blog) são os que mais clico, além dos nativos da Apple tais como Mensagem, Calendário e Contato. Estou sempre em busca de novidades, mas boa parte das vezes, após baixar o app, o esqueço por lá ou o uso por tempo limitado, o que parece ser o hábito da maioria dos usuários, também. Não tenho a menor ideia de quantos desses que estão no meu Iphone foram fabricados no Brasil. Sei apenas que o último, da rede Adote um Vereador, foi montado dentro da plataforma da Fábrica de Aplicativos, que é ideia brasileira.

 

De volta a coluna de Doria, a sugestão dele é que o Governo se preocupe em ensinar programação nas escolas, estimular mais gente a buscar engenharia de software e montar cursos técnicos de código. São caminhos mais complexos, porém, efetivos para o desenvolvimento desse mercado no Brasil. Lembra, ainda, das iniciativas de instituições, inclusive públicas, que criam ambientes de competição e criação entre desenvolvedores, oferecendo condições para que eles apresentem aplicativos que ajudem o cidadão em diferentes serviços.

 

Além de aplicativos desenvolvidos na pátria Brasil, o Governo Federal está disposto a incentivar a criação de um serviço de correio eletrônico verde-amarelo para concorrer com o Gmail e o Hotmail e restringir a ação de espiões estrangeiros. Aleksandar Mandic, que trabalha na área desde os tempos das BBS e criou, em 1996, o servidor de e-mail que leva seu sobrenome, ao ser consultado pela Época Negócios, definiu assim a ideia do governo brasileiro:

“É uma viagem por que o Brasil não é maior que o mundo. Para isto funcionar, você vai ter que trocar e-mail só dentro deste provedor. Todo mundo vai ter que assinar este provedor, seja você americano, francês ou argentino. Não é bem assim. Ainda que o Correio faça isto, vai ter quantas contas? Um milhão de usuários? Quantas contas de email existem no mundo? Bilhões, provavelmente. Não é todo mundo que vai trocar.”

Pelo que leio dos especialistas, parece que as justificativas para construir um e-mail brazuca e os caminhos para desenvolver aplicativos tupiniquins vão apenas fazer volume na já extensa lista de ideias de jerico produzidas no Brasil.

Conte Sua História de SP: o Centro dourado do meu avô

 

Por Mariana Pereira da Rocha Cruz
Ouvinte-internauta da CBN
 

 

 

 

Aos 85 anos foi meu avô quem me fez enxergar São Paulo da maneira que vejo hoje. João Baptista Pereira Netto não é simplesmente um joalheiro ou ourives. Dedicado, faz do trabalho um lazer, do pó a peça e das jóias, pequenas obras de arte que vende com preço justo e honesto, muitas vezes criticado por minha avó, dona Ofélia.

 

 
Nasceu no bairro Santa Cecilia, cresceu ao lado de seus sete irmãos. A educação se dividiu entre o jeitão descontraído da minha bisa italiana e do meu biso português, que até bebericava sua cachaça, mas por um pouquinho só não foi padre.

 

 
A Igreja Sagrado Coração de Maria foi pano de fundo de toda uma infância, pobre é verdade, mas nem por isso infeliz. São muitas as histórias que meu avô costuma me contar em sua oficina. Entre uma peça e outra, ele descreve o centro da cidade de São Paulo e as ruas onde costumava brincar ou ver os bondes passarem.

 

 
Com o rádio sempre ligado, aumenta o volume quando o assunto é Corinthians, grande paixão e ,possivelmente, um dos únicos assuntos que consegue tirá-lo do sério. Cresceu na Santa Cecília, construíu família em Pinheiros e devido a queda nas obras da linha Quatro do Metrô veio morar no Butantã, bem perto da minha casa.

 

 
Não reclama dos acontecimentos da vida, aliás não costuma reclamar. E eu devo confessar: só agradeço de poder estar ainda mais próxima de meu avô. Enquanto admiro seu trabalho de artesão ele me conta do dia em que foi escolhido para provar a Coca Cola quando chegou ao Brasil. Foi ali na Praça Ramos de Azevedo, no antigo Mappin. Também conta dos títulos da seleção brasileira via rádio, ou através de auto falantes que podiam ser ouvidos na Rua Direita, ou na Praça da Sé.

 

 
Anhangabau, Praça da República, Praça Ramos: aí passaram todos os principais eventos da vida de meu avô. Notícias, paqueras, trabalho… Hoje é um grande sacrifício para um jovem da minha idade se locomover até o centro. Pensa-se no trânsito, nos moradores de rua, na sujeira, nos usuários de droga, no preço dos estacionamentos. Pensa-se muito até a desistência.

 

 
Comigo é diferente. Ir ao centro da cidade com meu avô é descobrir uma São Paulo encantadora. Enquanto andamos na procura das pedras perfeitas ou vamos ao encontro de um antigo amigo dele, onde compra o ouro em pó, consigo vislumbrar São Paulo em sua mais perfeita elegância. Em um piscar de olhos, os postes são de ferro, os homens de chapéu, as mulheres de vestido… E o centro da cidade palpita …

 

 
João Baptista Pereira Netto, homem de fala mansa, trejeitos calmos e pacientes, é uma antítese em meio à confusão da cidade. Neste mundo em que todos trabalham demais, engolem a comida e ganham apenas o suficiente para pagar as muitas contas, ele é um dos poucos privilegiados que pode se dar ao luxo de viver da sua arte. Nas suas palavras, um verdadeiro presente de Deus.

 

 
Nas minhas palavras apenas posso agradecer por ter esse avô que me fez enxergar que a Vila Madalena, Vila Olímpia, Itaim, Moema, Jardins, são sim bairros lindos e jovens, cheios de restaurantes e lojas … mas que a história e o pulsar de São Paulo estão mesmo no centro dela.

 

 
 
Mariana Pereira da Rocha Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em audio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: estranhas e boas sensações

 

Grêmio 1 x 0 Ponte Preta
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Memória curta ou seletiva, lembro de alguns poucos jogos e lances do passado. Por curioso que seja, não esqueço do sabor amargo que carreguei, ao lado do meu pai, enquanto deixava o setor de cadeiras do Estádio Olímpico, no dia em que fomos derrotados pela Ponte Preta na semifinal do Campeonato Brasileiro de 1981. O placar era suficiente para nos classificar à decisão contra o São Paulo, pois havíamos vencido a primeira partida por 3 a 2, em Campinas (SP), mas fiquei com a sensação de que algo ruim nos esperava logo ali na esquina do futebol. Perguntava-me por que tinha de ser sofrido daquele jeito, com nosso time, mesmo apoiado por um estádio tomado de gremistas, espantando bola para longe da área para não tomar o segundo gol do adversário que nos tiraria da final. Será que estávamos prontos para sermos campeões naquele ano? A história mostrou que sim, mas meu coração, provavelmente, ainda não estava forjado para entender que ser gremista é padecer no paraíso.

 

As lembranças daquela partida, em 1981, até hoje, me levam a ter uma sensação estranha, difícil de explicar, quando vamos enfrentar a Ponte Preta. Sempre tenho a impressão de que será uma partida complicada com placar enviesado capaz de provocar uma reversão de expectativa. Nesse jogo de sábado à noite, não foi diferente e meu sentimento era de que o clima estava propenso a um tropeço, vínhamos de quatro vitórias seguidas, com chances de colarmos no líder, embalados pela classificação às quartas-de-final da Copa do Brasil e diante de nossa torcida. Os acontecimentos na Arena ratificaram essa percepção, pois apesar de termos time superior não conseguíamos alcançar o resultado que desejávamos e precisamos que um adversário fosse expulso – justamente, registre-se – e outro fizesse uma barbeiragem em campo para chegarmos ao gol. Antes ainda tomamos um tremendo susto ao ver a bola nas nossas redes, mas, felizmente, o auxiliar atento sinalizou o impedimento. É preciso, claro, para não sermos injustos, dizer que os erros da Ponte foram influenciados pela nossa forma de jogar e marcar.

 

Independentemente das minhas sensações do passado, resultados como o desse fim de semana mostram que temos de estar sempre alerta. Jamais podemos deitar em berço esplêndido porque esta não é nossa origem. Há que se avançar a cada partida, encará-las como decisões nas quais os três pontos é que nos interessam, mesmo não apresentando o futebol que agrada os críticos. Por isso, gostei de ouvir no intervalo um de nossos jogadores dizer que para o Grêmio 1 a 0 é goleada. É com esse espírito que temos de partir para cima de todos os nossos adversários, superando a eles e as nossas limitações. Essas existem, sim, apesar do lugar privilegiado na tabela de classificação. O bom é saber que estamos conscientes delas e temos, no elenco e no comando da equipe, gente capaz de vencê-las e, quem sabe, repetirmos a conquista daquele inesquecível ano de 1981.

De incerteza

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

peço licença para compartilhar um texto que escrevi em agosto do ano passado, aqui para o blog do Mílton Jung. Como as ideias insistem em me boicotar, fui espiar para saber por onde se embrenhava minha reflexão, há um ano. Sabe como é, olhar no espelho do tempo faz bem. A percepção também é íntima dele.

 

Nós, filhos dos homens, nascemos e renascemos infinitas vezes numa vida só. Sempre sós. Todos nós. Ressuscitamos como nos fez ver o filho Dele, e a cada ressuscitar temos oportunidade de ver o novo a piscar. Tudo sempre novo. É paralisar, ou experimentar e enfrentar. Nos esforçamos no entanto para acreditar que tudo continua como era, pelo medo de soltar o velho, de deixar ir a dor e o prazer conhecidos, mas nada continua. Nada permanece. Vida é pura, e simplesmente, impermanência. Repetimos o que ouvimos, dizendo que vida é movimento, do mesmo modo que rezamos o Pai Nosso e a Ave Maria, como dizemos eu amo você, como dizemos quase tudo o que dizemos. Sem sentir. Sem verdade. O som corneteia pela boca, acostumado e apressado que é, e amordaça a alma. Usamos frases já feitas para não corrermos o risco de aceitar que nada é como antes, não é, Mílton Nascimento?

 

Rugas redesenham nossos corpos, a pele cansada de se agarrar em nós se afasta e a gente renasce. Sempre. Tem quem coleciona dores, tem os que preferem amores, os que miam e os que criam, os que param enquanto outros se preparam e os que se queixam, com medo de continuar, com medo de se olhar de perto. Param no ponto.

 

Passa uma, passa outra oportunidade, e nos esquivamos delas com medo de embarcar em mais uma viagem divina, aqui na Terra. Mas está ali, ao alcance da mão, sempre. Se a gente consegue se distanciar um pouquinho que seja do próprio ego, percebe que a certeza é só fumaça aprisionada por ele, fumaça que asfixia a incerteza, parteira do renascer.

 

É isso.

 

Entendi que fui até ali só para lembrar que certeza é fumaça aprisionada pelo ego.
Até a próxima inspiração, ou não…

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: o salário emocional garante os talentos

 

 

“As empresas tem investido cada vez mais no potencial humano e a tônica de restringir o investimento em desenvolvimento mediante crises tem diminuído, sinal de que os líderes estão considerando o potencial humano como grande ativo, mas ainda há empresas que não acordaram para isso”. O alerta é da diretora de Talent Development da LHH/DBM, Fátima Rosseto, entrevistada do programa Mundo Corporativo, na CBN. Especialista em desenvolvimento profissional, Fátima fala da necessidade de as empresas investirem no salário emocional para preservar seus talentos.

 

O Mundo Corporativo é apresentado, ao vivo, no site da CBN, às quartas-feiras, 11 horas, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn. Você pode participar desse debate, também, se inscrevendo no grupo de discussões Mundo Corporativo na CBN, do Linkedin. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN.

Como é a sua mesa de trabalho?

Notícias importantes, cadernos de jornal, anotações feitas durante o programa, recados do produtor, Ipad e celular se confundem sobre a mesa do estúdio onde apresento o Jornal da CBN. Além de ser uma contradição à organização que mantenho no meu espaço de trabalho no escritório de casa, também se transforma em uma incógnita diante da pesquisa apresentada pelo Gilberto Dimenstein, no quadro Capital Humano. Conforme estudo publicados na revista Psychological Science deescobriu-se que estar cercado por desordem pode promover o pensamento e estimular novas ideias. Em contraste, trabalhar em uma mesa limpa pode promover a alimentação saudável e a generosidade. O estudo foi conduzido pelo psicólogo Katleen Vohs e os colegas dele da Universidade de Minnesota, Minneapolis, nos Estados Unidos. De uma maneira geral, os participantes expostos a uma quarto bagunçado geraram o mesmo número de ideias para novos usos como os que estiveram em uma sala limpa, mas as ideias deles foram classificadas como mais interessante e criativas. Em compensação, a turma da sala organizada doou mais do seu próprio dinheiro para a caridade. Os cientistas querem transferir o estudo para a internet, pois os resultados preliminares sugerem que a arrumação de uma página web prevê o mesmo tipo de comportamento.

Certa ou não, falar da pesquisa no jornal e publicar a foto da minha mesa na CBN no Twitter provocou uma série de participação de ouvintes-internautas que compartilharam as imagens de seus locais de trabalho – inclusive no helicóptero. Os bagunceiros, comemoraram, pois agora têm uma boa desculpa. Os arrumadinhos se defenderam dizendo que foram criativos ao cuidar de suas mesas ou que ao limpar a área, abrem espaço para a criatividade. Como fiquei no meio do caminho, vou considerar que sou criativo na rádio e generoso em casa. Cada um na sua. E curta as fotos.

Conte Sua História de SP: do cheiro de café na padaria à serração

 

Lia Araujo
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

 

Tenho muito carinho em falar sobre a São Paulo querida dos paulistanos! Sempre que penso sobre minha cidade natal tenho um sentimento relacionado à infância. Acordando cedinho em casa, sentia o cheirinho  do café de coador e do filão de fresquinho da padaria mais próxima. Acompanhando minha mãe à feira livre, abarrotada de pessoas apressadas e feirantes animados. Parando na banca de pastel com garapa. Aos domingos, vendiam até frangos e pintinhos vivos.

 

Sou do tempo que era possível atravessar tranquilamente a praça da Sé ou o Vale do Anhangabaú ou a Praça do Patriarca, mesmo em altas horas da noite sem medo. Sim, São Paulo já foi uma cidade tranqüila durante à noite. Antes do metrô, os ônibus eram seguros e em número suficientes, também. A população era apenas a metade da atual.

 

Todas as manhãs e no inverno à noite, por conta da densa vegetação,  havia serração, às vezes acompanhada de garoa, a famosa garoa que caiu no esquecimento, após o advento da poluição proveniente de tantas indústrias e veículos. As indústrias já estão se diluindo pelo interior; enquanto os carros aumentam cada vez mais em número e modelos variados. Até o bonde agora é motivo de folclore na lembrança dos cinqüentões.

 

Impossível lembrar-se de São Paulo sem falar dos inúmeros migrantes e descendentes de imigrantes. Havia o bairro dos italianos, dos japoneses, dos árabes, dos judeus, dos libaneses, dos portugueses. Muito interessante como essa gente miscigenou-se e transformou São Paulo nesta terra tão pródiga para todos. A megalópole de milhões de habitantes. A cidade que não pára, não dorme, não cala.

 

Prezo em manter esta memória que passo para os jovens, divido com eles todo o encanto que um dia me proporcionou esta São Paulo.

 

Lia Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.

As aulas de direção do guri friorento

Por Milton Ferretti Jung

 

Quinta-feira da semana passada escrevi, neste blog, que a saudade é um sentimento permanente na cabeça das pessoas idosas. Referia-me, especialmente, àquela que sinto das Kombis da Companhia Jornalística Caldas Júnior. Se é que alguém leu o meu texto, ficou sabendo que viajei por várias cidades brasileiras, revezando-me com alguns companheiros da Rádio Guaíba (os possuidores de carteira de motorista) na pilotagem de um desses veículos. Se, antes de escrever sobre Kombi, eu tivesse consultado a Wikipédia, tomaria conhecimento do seu nome completo, no idioma alemão. Sugiro respirar fundo antes de tentar pronunciá-lo: Kombinationsfahrzeug.

 

Volto a tratar, nesta quinta-feira, se me permitem, do tema saudade. Ocorre que o inverno gaúcho tem sido duro de suportar. As pessoas fazem de tudo para enfrentá-lo ou, em certos casos, para sobreviver a ele. Anda-se quase de maneira permanente com os pés e as mãos gelados. Houvessem meus pais me mantido em Caxias do Sul durante a minha infância, talvez tivesse me acostumado ao frio intenso. Como me trouxeram para Porto Alegre com uma semana de vida, sou, como a maioria dos nascidos na capital gaúcha, um baita friorento.

 

Fiquei pouco mais de um ano internado em um colégio da cidade serrana de Farroupilha. Resolvi ir ao encontro do desejo de meus pais ao concordar com eles na troca do Colégio Roque Gonzales, em Porto Alegre, pelo Ginásio São Tiago. Sabem por quê? Porque, nesse, as férias de julho duravam trinta dias e não quinze, como no internato. Se eu disser que sinto saudade do tempo em que passei internado e em que era liberado apenas para visitar a casa paterna no feriado prolongado da Páscoa, os supostos leitores têm todo o direito de duvidar. Justifico, porém: minha saudade refere-se somente ao curto período no qual me permitiam permanecer em casa. Então, me reencontrava com os amigos, jogávamos futebol nos terrenos baldios da Rua 16 de Julho, que eram muitos na época, ou futebol-de-mesa no quintal da minha casa.

 

Para falar a verdade, tenho saudade até mesmo das minhas dramáticas voltas ao internato depois das feriazinhas de Páscoa. É que o meu pai me deixava dirigir o Citroën dele. Não se espantem. Eu tinha direito de pegar somente o guidão do carro. Pena, entretanto, que lá em Farroupilha, o inverno, meu tema desta quinta-feira, era bem mais duro do que o de Porto Alegre. Acordávamos cedinho, descíamos o declive existente entre o São Tiago e a Igreja Matriz, em geral escorregando na geada, e assistíamos à missa rezada pelo Monsenhor Brambilla.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: jogamos pela nossa história

 

Grêmio 2 x 0 Santos
Copa do Brasil – Arena Grêmio

 

 

Para competições no estilo da Copa do Brasil, a tese sempre foi de que até três gols de desvantagem, a gente virava em casa. E como toda tese, ao contrário do senso comum, esta também é formulada com base em fatos. Foram nossos desempenhos e nossa história nas disputas de mata-mata que criaram o mito da Imortalidade. Foi com vitórias consideradas impossíveis que construímos nossa fama. Lembro dos times de Espinosa, Felipão e Mano, apenas para não forçar muito a memória, que arrancaram resultados dentro do Olímpico superando nossos limites técnicos, físicos e emocionais. Hoje, apenas escrevemos mais um capítulo dessas façanhas da forma mais sofrida que poderíamos imaginar. Com grito, com Werley, com dor, com  Souza e com lágrimas. Sob o comando de Renato, o Grêmio incorporou seu passado pois foi capaz de vencer esta batalha apesar de todas nossas restrições. Jogamos e vencemos pela nossa história.