Avalanche Tricolor: trabalho recompensado

 

Náutico 0 x 2 Grêmio
Brasileiro – Arena Pernambuco

 

 

A semana tem sido dura. Às manhãs normalmente difíceis pela responsabilidade de comandar o Jornal da CBN, se soma uma série de outros compromissos profissionais. Temos gravado edições extras para o Mundo Corporativo: na segunda, foi uma, hoje, mais duas. Estive em eventos nos quais realizei palestra sobre comunicação – atividade para a qual (ainda bem) tenho sido bastante requisitado -, além de apresentar o prêmio Melhores de São Paulo, entregue pela Revista Época São Paulo. Por mais que esses trabalhos me ofereçam momentos de prazer, o tempo de sono diminui, o corpo e a cabeça não descansam como deveriam, especialmente para quem, como eu, sai da cama ainda de madrugada (apenas acompanhado dos sabiás que cantam na janela). Imagine no meio da semana ficar acordado para assistir aos jogos do fim da noite, como foi o desta quarta-feira. Sei que muitos abandonariam essa tarefa, mas eu não consigo botar a cabeça no travesseiro sabendo que o Grêmio está em campo, principalmente na disputa de competição tão equilibrada quanto a desta temporada.

 

Diante da agenda cheia e do esforço para me manter em pé, a única coisa que esperava era ser retribuído por uma vitória gremista. Ganhei mais do que isso: vi Rhodolfo tomar conta da área e desarmar os adversários com dois carrinhos de dar inveja até ao Felipão; vi Wendell estrear com personalidade e talento apesar da pouca idade, sinalizando que não devemos mais nos preocupar com a ala esquerda; vi Maxi Lopes entrar em campo e desorientar sua marcação com belos dribles; além de ter visto Kleber brigar pelo espaço dentro da área, Barcos voltar a marcar e Paulinho comemorar o gol que concluiria os trabalhos desta quarta-feira à noite.

 

Com a vitória de hoje, que nos mantém na disputa pelo título, digo com tranquilidade que todo o meu trabalho foi recompensado. O de Renato e o do Grêmio, também

 


A foto que ilustra este post é de André Kuse/Grêmio.net

Um tratado para o Tordesilhas

 

Carlos Magno Gibrail

O estrelado e premiado restaurante Tordesilhas na capital paulista está protagonizando uma discórdia oriunda de moradores nas proximidades de seu endereço na Alameda Tietê. A especialidade da casa, focada na culinária brasileira, tem deixado a vizinhança “gordurosa”. O fato do olfato e do tato prejudicados pelas frituras, provavelmente passaria despercebido não fosse a fama do restaurante e a qualificação dos moradores.

 

Menos mal que o caso pontual esteja na mídia, pois pela tendência da ocupação do solo na cidade esta situação poderá ser cada vez mais frequente. O Plano Diretor de São Paulo está na pauta da cidade, e é preocupante se analisarmos a evolução dos anteriores, pois adensamento e uso misto das áreas urbanas vêm se acentuando através dos anos; com os argumentos de redução dos custos de habitação e de vida para o adensamento, e da melhoria da mobilidade para o uso misto. Quando na realidade precisamos também considerar a lei de mercado para os imóveis no caso do adensamento e a dificuldade da mobilidade em virtude das necessidades de deslocamento geradas pelo mercado de trabalho. Ou seja, as vantagens preconizadas não estão aparecendo, enquanto o sistema vigente está levando ao agravamento das condições. Além do que a população cresce em descompasso com eventuais melhorias.

 

O IBGE atualizou os dados censitários mostrando que São Paulo está com 11,8 milhões de habitantes, quase o dobro do Rio, a segunda maior cidade do país. Diante deste assustador número de gente, tudo indica que a convivência no uso misto do solo precisa ser encarada de forma civilizada, urbana e racional. Quem procurar morar perto de padarias, supermercados, lojas, restaurantes e demais atividades deve estar consciente dos reflexos inevitáveis destas operações. Ao mesmo tempo, os comerciantes instalados próximos a moradias devem respeitar os vizinhos, utilizando inclusive as tecnologias à disposição,para que todos possam usufruir condignamente os sentidos naturais do ser humano. Visão, audição, olfato, paladar e tato.

 

Aqui, nem o papa nem o meridiano resolverá. O tratado deverá conter o trato da liberdade de cada um indo até a liberdade do próximo. O Tordesilhas tem condição de cumpri-lo, e chamá-lo de Tratado da Tietê.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

A força relativa das redes sociais

 

O dono do Rock in Rio, Roberto Medina, em entrevista ao Caderno 2 do Estadão, na edição dominical, falou sobre como construiu o festival que se iniciou em 1985 e se transformou neste gigantesco espetáculo de música que viaja o mundo. Chamou-me atenção, dentre as muitas afirmações, a análise que fez sobre a importância relativa das redes sociais nas decisões que toma para escalar o elenco de atrações que, muitas vezes, extrapola a balada do rock. Não ignora a opinião que circula na rede, mas usa o termômetro certo para medir a temperatura do público. Lembra ter sido muito criticado quando contratou Shakira, na Espanha, e “endeusado” ao acertar com o grupo Rage Against the Machine. Enquanto ela foi um sucesso de público, eles foram um dos que menos pessoas levaram à Cidade do Rock na história do festival. Para Medina, “o cara que se manifesta nas redes sociais é o mais radical, o mais ativista, é mais duro e mais heavy. Muitos incorrem no erro de dar peso demasiado às redes sociais. Tem de olhar também, mas com cuidado”.

 

Destaco a análise do empresário porque vai ao encontro do pensamento que me pauta há algum tempo no comando dos programas na rádio CBN. Jamais podemos nos deslumbrar com o que escrevem nas redes sociais (e mesmo com a opinião enviada por e-mail) entendendo que lá está a opinião de todo o público. O ouvinte indignado tende a escrever mais, se dispõe a parar a atividade que realiza para reclamar, e quando escreve carrega na tinta, sendo até mais duro do que seria diante de um diálogo aberto, frente à frente. A indignação move às pessoas. A satisfação nem sempre. Além disso, os grupos mais articulados e organizados conseguem aparecer mais, fenômeno que ocorre historicamente antes mesmo do surgimento das redes digitais.

 

Recentemente, minha caixa de correio encheu de reclamações contra a decisão do prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, de criar faixas exclusivas para ônibus, medida que espremeu os carros nas já insuficientes ruas e avenidas da capital paulista. Eram motoristas incomodados com o transtorno provocado pela prefeitura que privilegiou o transporte coletivo. Assim que os repórteres da CBN foram ouvir os passageiros, coletaram uma enxurrada de opiniões favoráveis devido a redução do tempo das viagens. Tivesse ficado apenas com o pensamento reinante na internet (e-mail, Facebook e Twitter) teríamos transmitido uma impressão errada da cidade em relação a ação da prefeitura.

 

Impossível ignorar as redes sociais, estas já mostraram sua força de mobilização, mas é fundamental que aqueles que tratam com a opinião pública e os que precisam tomar decisões em qualquer instância saibam equilibrar as forças, levem em consideração a parcela silenciosa da sociedade e, principalmente, confiem na experiência e no conhecimento que construíram. Quem sabe, assim, serão um dia elogiados também nas redes sociais.

Conte Sua História de SP: o pequeno espelho me faz feliz

 

Por Maria Lúcia de Oliveira Souza

 

 

Meus pais, “Seu Francisco” e  “Dona Conceição”, chegaram a São Paulo no início dos anos 60. Assim que desembarcou na rodoviária, minha mãe foi direto para maternidade Leonor de Barros, estava grávida do segundo filho, meu irmão José. Lembro-me do meu pai, caminhando pelas ruas frias da cidade e eu abraçada ao seu pescoço. Ele procurava um lugar como abrigo. Foi o Centro Imigração que cedeu acolhida por três dias. Tempo suficiente para meu pai conseguir trabalho e moradia na zona rural do município de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Em Mogi, meu pai foi trabalhar com japoneses. Teve que amassar muito barro para construir uma pequena casa. Eu tinha apenas dois anos de idade, meu irmão acabava de chegar do hospital e assim se iniciava a guerra pela sobrevivência desta pequena família que mais tarde se tornou bastante numerosa.

 

Meus pais estavam felizes, pois deixaram suas terras para vir para cidade dos sonhos. Aos fins de semana, para ampliar os ganhos com o trabalho,  meu pai era  “Seu Francisco, o Mascate” – o vendedor de porta em porta. Toda vez que via sua mala de trabalho aberta, com todos aqueles pequenos objetos para venda, eu ficava repleta de felicidade. Ela tinha um pouco de tudo. Eram, em sua maioria, objetos que agradavam as mulheres pobres do bairro. Nela se encontravam presilhas, pentes, lenços, brincos, colares, agulha, linha, espelhos, maquiagem, fitas, flores de pano … Tinham até sachês de chá! Mas o que eu gostava mesmo era do espelho. Pegava um daqueles e ficava me olhando, apreciando os cabelos cacheados, a cor morena, os tristes olhos e as sobrancelhas fortes. A pequena Maria, a menina de quatro anos de idade, sorria e voltava a guardar o espelho.

 

Um dia muito feliz era quando acordava cedo para acompanhar meu pai até a região do Brás para comprar objetos e fazer as reposições necessárias. O trajeto era feito sempre de trem, uma viagem muito longa. O início das compras sempre começava com um pastel de carne. Enquanto eu devorava, ele ficava observando serenamente a minha satisfação com a primeira refeição do dia. Depois de mãos dadas íamos às compras. Com uma das mãos segurava firmemente a minha e com a outra, a mala.

 

Passaram-se 50 anos e ainda vou para o Brás fazer compras. Meu pai não está mais de mãos dadas comigo. As barracas de pastéis mudaram de lugar e ganharam espaço mais confortável, (bem como o meu pai Francisco). A mala? Ah! A mala permanece a mesma, guardada no lado esquerdo do peito. Dela, agora não mais a menina Maria, mas a Dona Maria, tira o pequeno espelho e nele vê o passado que lhe faz tão feliz no presente.

 

Maria Lúcia de Oliveira Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Pode também mandar um texto para mim: milton@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: vitória para lembrar e relembrar

 

Grêmio 3 x 2 Portuguesa
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Ao deixar Porto Alegre, em 1991, meu primeiro encontro com o Grêmio foi na final da Copa São Paulo de futebol júnior, no estádio do Pacaembu. Fomos goleados pelo incrível time comandado pelo atacante Dener, da Portuguesa, que mais tarde vestiu a camisa tricolor, antes de ir para o Vasco, no Rio, onde morreu precocemente em acidente de trânsito. Fiquei admirado com a performance daquela equipe e passei a acompanhá-la com mais carinho. O encanto se encerrou quando, mais uma vez, a Lusa apareceu no caminho do Grêmio, na final do Campeonato Brasileiro de 1996. Aqui em São Paulo, todos torciam para a Portuguesa, ao menos ninguém lhe queria mal. Eu, cercado de paulistas por todos os lados, praticamente sozinho, com a força e a vontade que apenas os gremistas são capazes de ter diante das adversidades, defendia nossas cores e acreditava no título, mesmo depois da derrota por 2 a 0, no primeiro jogo, em São Paulo. Ao meu lado, havia apenas o Gregório, meu primeiro filho, que não tinha mais de 50 dias de vida, mas já se apresentava coberto no berço pelo manto do Imortal. De plantão, assisti à última partida na redação da TV Cultura, onde todos eram contra mim naquele momento. E foi diante de todos eles que comemorei como louco os gols de Paulo Nunes e Aílton, suficientes para nos dar o bicampeonato brasileiro.

 

Apesar do histórico restrito, se comparado aos demais grandes do futebol paulista, a Portuguesa sempre foi traiçoeira às minhas expectativas. No ano passado, você deve lembrar, foi a Lusa quem interrompeu a trajetória de vitórias gremistas no Brasileiro. Portanto, não me surpreendeu a dificuldade que tivemos para vencê-la no sábado à noite, na Arena. Não bastasse isso, outra vez nossos limites foram testados. Nem sempre a bola chegava ao ataque da forma que gostaríamos, apesar do talento de Zé Roberto. Nem sempre a defesa se posicionava da maneira que desejaríamos, mesmo tendo três zagueiros e dois volantes próximos da nossa área. E, como sempre, nos expomos a riscos e sofrimentos para provarmos quanto somos capazes de superar nossas restrições. De positivo, a sequência de jogadas pelas laterais e o desempenho de Kléber que deixou de ser apenas um trombador, para se tornar fundamental no ataque.

 

Outro fator importante, é que aos poucos construímos uma história na Arena Grêmio, levando para lá a força que emanava das arquibancadas do Olímpico Monumental, inclusive com o aumento na média de público por partida, próximo de 25 mil pessoas. Em nove meses de vida, foram nove jogos pelo Brasileiro e apenas uma derrota. Que essa fique para a estatística e o jogo contra a Portuguesa seja mais um na caminhada de 2013, quando espero comemorar o título da mesma forma que em 1996, mas com mais companheiros ao lado, pois hoje, além do Gregório tenho o Lorenzo.

De luxo

 

Por Maria Lucia Solla

 

Flor

 

Olá,

 

luxo? me perguntei, sequestrada pelo título do artigo de Ricardo Ojeda Marins.
Parei tudo, foquei o máximo que tenho conseguido focar numa coisa de cada vez e me dei conta de que tenho vivido o luxo a vida inteira. Já tive, já não tive, vivi na abundância, no aperto, amei, desamei, ri e chorei como todo mundo, de toda raça, de todo credo e de de todo tamanho de conta bancária. Fui e deixei de ser tanta coisa, vivi papéis variados, mas o luxo dos luxos ainda acho que é reconhecer o luxo do dia a dia.

 

Ter amigos que valem a pena e reconhecer que nem sempre se é o amigo que vale a pena, é luxo. Luxo é receber o telefonema de um amigo querido dizendo que vem te ver, e ele vem. Ter pouquíssimos ingredientes na cozinha e preparar um prato divino, é luxo. Luxo é não querer parecer o que não é e não sentir insegurança de mostrar o que é.

 

Viver é luxo. Fazer parte do elenco da maior novela já encenada, é puro luxo. Luxo é excelência sob medida em cada fase da vida. Comer pastel na feira com quem a gente quer bem, num papo firme daqueles, é luxo. Luxo é bolinho de chuva, é milho na espiga na praia num dia de sol, caminhada e silêncio; é a caixa de bolinhas de chocolate recheadas de licor, esvaziada durante a projeção de Meia Noite em Paris. Luxo é o vestido de couro italiano estampado comprado na Neiman Marcus em Nova Iorque e o Cornetto comprado no boteco da esquina em São Paulo para acompanhar mais um episódio de House.

 

Luxo é prestar atenção no outro. Paz e a simplicidade do Papa Francisco são luxo.
Luxo é saber se comportar sem luxesa, mas com finesa. Acordar e saber que os filhos estão vivos e bem, é luxo. Luxo é ser capaz de reconhecer o luxo disfarçado de trivial.
E você, se pergunta?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

PS: Bem vindo Ricardo Maríns. Parabéns pelo excelente texto. Um luxo.

 

Maria Lucia Solla escreve aos domingos no Blog do Mílton Jung. Tê-la aqui desde o início deste blog é um tremendo luxo.

Mundo Corporativo: "lavar prato" para liderar melhor

 

 

É importante saber lavar prato, diz o presidente de Operações da Fogo de Chão, Jandir Dalberto, que comanda a maior rede de churrascarias do Brasil. Para ele, as habilidades que desenvolveu como garçom, logo que se iniciou na carreira em uma das lojas da Fogo de Chão, no Rio de Janeiro, são muito importantes para liderar a sua equipe, pois assim como ele aprendeu tendo como referência colegas que estavam mais tempo na profissão, entende que precisa ser referência para liderar sua equipe. Na entrevista ao programa Mundo Corporativo da CBN, Jandir Dalberto ensina o ponto certo para servir um bom churrasco e as melhores estratégias para ter sucesso no ramo de alimentação: “o ponto fundamental é gente, se você não tiver gente compromissada que abraça os objetivos da companhia você não atinge os resultados esperados”.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site http://www.cbn.com.br e os ouvintes-internautas podem participar pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e Twitter @jornaldacbn. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Luxo é o privilégio de viver novas experiências

 

Ricardo Ojeda Marins é novo colaborador do Blog do Mílton Jung e escreverá às sextas-feiras sobre o mercado de luxo. Administrador de empresas pela FMU-SP, Ricardo tem MBA em Marketing pela PUC-SP e, atualmente, cursa o MBA em Gestão do Luxo na FAAP. É, também, autor do Blog Infinite Luxury. Seja bem-vindo, Ricardo; e você, caro e raro leitor, faça bom proveito do conhecimento deste novo colega:

Luxo é tema fascinante que ganha relevância no cenário brasileiro e mundial. Para muitos, o termo ainda está associado à ostentação, riqueza, consumismo, glamour e, até mesmo, futilidade. O luxo, no entanto, vem sendo desmistificado, é objeto de estudo em diversos países, e os números mostram que deve ser visto como um segmento de negócios como tantos outros, com suas especificidades, é lógico.

 

Durante séculos foram muitos os significados para definir o que é luxo. Está ligado à magnificência, conforto, suntuosidade e demais conceitos que demonstrem exclusividade. Na antiguidade, o luxo era ostentado mediante as riquezas materiais de uma classe alta da sociedade, principalmente pelos reis. Era um luxo material, de posses de bens e prova de alto reconhecimento social. Atrelado à ostentação e ao excesso, no passado, hoje o luxo mostra-se evoluído e com um consumo emocional: é tratado não apenas no sentido de possuir bens ou produtos; passa a ser visto como a era do ser; um luxo subjetivo, no qual o consumidor busca, sem dúvida, o raro ou exclusivo, mas, principalmente, qualidade de vida, sensações e experiências, como o prazer de utilizar um bem ou um serviço, sem, necessariamente, ter o intuito de ostentação. Antes, o produto em si era alvo de desejo; hoje, a experiência que esse produto proporciona ao cliente tornou-se o diferencial. O luxo deslocou-se para o subjetivo universo do consumidor, repleto de sentimentos, necessidades e valores que envolvem especialmente o aprimoramento sociológico das pessoas.

 

Um exemplo interessante é o turismo de luxo. O hóspede desses hotéis não quer torneiras de ouro ou lustres e decoração requintados. Para ele, o luxo está nas experiências de bem-estar que o lugar oferece: spa, jantar romântico em praia privativa, gastronomia especial, a história do próprio hotel e, principalmente, o sentimento de ser único ao receber tratamento personalizado, conforme suas necessidades e desejos específicos.

 

No varejo de luxo não é diferente. Clientes preferenciais de marcas de prestígio recebem privilégios como acesso às coleções antes de seu lançamento oficial, atendimento privativo e vivenciam experiências incríveis no ponto de venda.

 

Além de buscar qualidade de vida e bem estar, o consumidor, atualmente, está envolvido em questões como responsabilidade social, preocupa-se com o meio ambiente e se interessa pela origem do produto que vai comprar. O desafio está lançado para as empresas que, além de oferecem produtos que agucem o desejo de seus consumidores e tenham valores sustentáveis em sua cadeia social e ambiental, devem estar preparadas não apenas para atendê-los, mas entendê-los, surpreendê-los e encantá-los.

 

O "Mais Médicos" e o meu direito de escolher a profissão

 


Por Milton Ferretti Jung

 

O “Mais Médicos” da presidente Dilma me fez lembrar de episódios que vivi a propósito da época em que comecei a pensar na profissão para a qual eu imaginava ter mais aptidão. Cursava, então, o Clássico no Colégio Marista Nossa Senhora do Rosário, em Porto Alegre. O meu pai fazia gosto de que me formasse em Direito. Creio que, se ele, na sua juventude, não precisasse trabalhar para garantir o sustento dos meus avós, teria optado pela advocacia. Ele apreciava assistir a júris, no Tribunal de Justiça, na capital gaúcha. Fez um curso de guarda-livros; ainda jovem, assumiu a gerência de uma drogaria – a Vargas – e de um laboratório, o Regius. Depois,p assou a trabalhar com máquinas de escrever e calculadoras. Foi, ao mesmo tempo, representante de um laboratório que, entre outros produtos, fabricava o tônico chamado Capivarol e um óleo para cabelo, o Óleo de Ovo. Viajei com meu pai por boa parte do Rio Grande do Sul, distribuindo o Almanaque do Capivaral (os almanaques, nos anos 50, eram muito apreciados pelas pessoas simples). O Citroën do meu velho estava sempre cheio dos preciosos livrinhos.

 

Lá pelos meus quinze anos, passei por uma experiência que dinamitou, praticamente, a esperança paterna de me ver advogado. Nas festas da igreja que eu frequentava e nas quais conheci a que viria ser a mãe dos meus filhos, a Ruth, morta em 1986, havia um serviço de alto-falantes batizado com o nome de Voz Alegre da Colina. Naquele tempo, a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus estava em construção e, mercê das festas, angariava-se dinheiro para dar sequência às obras. Um belo dia, na minha casa, não sei por que, alguém resolveu ligar o “Wells Radio”, aparelho importado dos States (não funciona mais por falta de válvulas, mas ainda existe) e ouvimos a Rádio Canoas anunciar que realizava teste para locutores. Apresentaram-se uns 200 candidatos. Três foram aprovados. Este que lhes escreve foi um deles. Fiquei quatro anos na Canoas, cujos estúdios sempre foram em Porto Alegre) e, em 1958, transferi-me para a Rádio Guaíba, onde estou faz 55 anos. Meu pai acabou sendo meu ouvinte.

 

Fosse vivo, e estaria escutando o Mílton na CBN. Não poderia ouvir o Christian, o meu filho mais novo, porque ele é mestre de cerimônias do Governo do Estado e embora use o microfone, atua em cerimônias raramente levadas ao ar nas rádios. Já a minha filha optou pelo magistério e gasta a sua voz tentando controlar crianças de cinco anos de idade, um legítimo sacrifício para quem tem de atuar no sistema de turno integral.

 

Se é que algum dos meus raríssimos leitores esteja se perguntando o que o “Mais Médicos” tem a ver com tudo o que escrevi até aqui, eu respondo: se o meu pai, em vez de ter torcido para que eu virasse advogado, tivesse de lidar, hoje, com um filho médico, ele gostaria de o ver trabalhando na profissão na sua cidade ou em algum distante lugarejo deste imenso Brasil? “Que vengan, entonces, los cubanos, pero que tengan que someterse a exames para probar su capacidad”.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista, meu pai e quase foi advogado. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Lei Rouanet cai na passarela da moda

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Marta Suplicy, do “Você é casado?” ao candidato Kassab, do “Relaxa e goza” dos aeroportos, vem agora colocar a moda dentro dos incentivos do governo através da lei Rouanet. Gerando tanta repercussão quanto os episódios anteriores. Menos mal que o tema tenha o lema de “Quebrar o paradigma”, colocando a moda na cultura através do apoio financeiro oficial.

 

Ronaldo Fraga por apresentar projeto para desfilar no SPFW recebeu sem restrições R$2,1 milhões em direito de captação, onde deverá mostrar uma coleção de moda inspirado nos poetas Mario de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Alexandre Herchcovitch inspirado na Antropofagia Cultural Americana apresentará desfiles na SPFW e na Semana da Moda de New York com os R$2,6 milhões em direito de captação, que foram liberados com alguma dificuldade por incluir projeto fora do país. Pedro Lourenço com uma proposta de trabalho baseado no universo de Carmem Miranda não conseguiu aprovação de captação de recurso no valor de R$2,8 milhões para expor em Paris a sua coleção. Público reduzido e local foram os principais argumentos. Pedro entrou então com recurso à mesma CNIC – Comissão Nacional de Incentivo à Cultura e, por interferência de Marta, teve a aprovação. Foi o que bastou para que o mundo da moda entrasse em rebuliço. O Ministério, e parte do público em geral não ficaram atrás.

 

O concreto nesse episódio com tantas abstrações, quando se discute se a moda envolvida é autoral ou comercial, ou se moda é cultura, ou arte, ou nada, é que não se pode esquecer que a moda é uma indústria intensiva de mão de obra, sendo o segundo maior empregador nacional. Emprega diretamente 1,7 milhões de pessoas, e em toda a cadeia o total de oito milhões de trabalhadores, dos quais 75% são mulheres. Ao mesmo tempo é bom lembrar que países como a França e a Itália apoiam a moda como negócio e marketing nacional. Diante de tais fatos, a análise numérica do CNIC quando correlacionou o investimento com a previsão de 300 pessoas como audiência, é tangível e míope para um fato intangível, que é a formação de marca de um setor e de um país. E, contra isso Marta Suplicy retrucou firme:

“O Brasil luta há muito tempo para se introduzir e ter uma imagem forte na moda internacional. Essa oportunidade tem como consequência o incremento das confecções e gera empregos. E é um extraordinário ‘Soft Power’ no imaginário de um Brasil glamoroso e atraente”.

Só falta mesmo começar a usar marcas nacionais de expressão e divulgá-las. Como fazem as mulheres no poder de outros países. E, neste caso, ao invés de quebrar, criar um paradigma: o do uso feminino dos altos cargos para a difusão da moda brasileira.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.