Um ótimo sinal para as bicicletas

 

Rota de Bicicleta

Foi agradável a surpresa neste fim de semana ao me deparar com esta imagem aí de cima, no Brooklin Velho, em São Paulo. Sinalização horizontal e vertical alertando motoristas de que esta via é uma rota de circulação de bicicletas. A rua é a Miguel Sutil que corre paralela a avenida Chucri Zaidan, larga suficiente para que o pedal seja feito de forma segura.

Na busca pela internet, descubro que a prefeitura paulistana promete entregar a primeira ciclorrota, nesta semana, com extensão de 15 quilômetros, ligando os parques do Cordeiro, na avenida Vicente Rao, e Severo Gomes, ao lado da avenida Santo Amaro, à avenida Jornalista Roberto Marinho. A velocidade máxima dos carros será reduzida para 30km em lugar dos 40 e 50km permitidos até agora.

Falamos sobre a iniciativa da CET recentemente aqui mesmo no Blog (leia aqui) e alertamos para a necessidade de projetos como esses serem discutidos com os ciclistas para que não se transformem em rotas perdidas. Semana passada, o presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego, Marcelo Cardinale Branco, participou de seminário “Melhoramentos Cicloviários para a cidade de São Paulo”, promovido pelo Instituto CicloBR, no qual o tema foi debatido. Em virtude de minhas férias, ainda não consegui conversar com as pessoas que estiveram no encontro e, portanto, não sei dizer, agora, o quanto se avançou no tema. Prometo levantar isto para você que acompanha este blog.

Seja como for, placas chamando atenção para a circulação de bicicleta são um ótimo sinal para quem luta por uma cidade-cidadã.

De simplicidade

 

Por Maria Lucia Solla

Salada

A dança da simplicidade não tem volteio; vai de um ponto a outro e pronto. Soa fácil? Rá!A simplicidade é sofisticada até não poder; mora na verdade e no real, de onde a gente insiste em fugir. Nos afogamos na elucubração que enche nossa mente e confunde nosso coração.

Focada na tal da simplicidade, aprendi que quanto mais a persigo, mais longe ela fica de mim. Como tudo na vida, nada deve ser perseguido como se fosse tábua de salvação. O caminho das pedras é decidir a proposta e deixar que o resto vem por si. De todo modo vejo a simplicidade como algo que mais se aproxima da perfeição, e inevitavelmente caio no binômio de aparência impossível: como é que alguma coisa pode ser simples e perfeita ao mesmo tempo? O nó é que é difícil encontrar bom-senso no emaranhado de condicionamento que somos, para arriscar uma resposta à pergunta. Somos um emaranhado de nós apertados pelo tempo, pelo esforço de sermos vistos e reconhecidos pelo outro; pela insegurança, pelo egoísmo, pelo impulso de nos sobre-sairmos, e isso tudo de simplicidade não tem nada. Talvez porque não sejamos treinados para sermos simples. Somos treinados para termos razão e sem simplicidade nos afastamos cada vez mais da felicidade; do bem-estar.

No amor, onde está o bem-estar, se cada um tenta aprisionar o outro? se os casais vivem de mentiras, na maior parte do tempo, o tempo todo? Na maioria dos relacionamentos, a simplicidade não tem espaço, é preciso mentir, é preciso fingir, é preciso seduzir para podermos acreditar que possuímos o impossuível: o outro.

Na moda, o estilista que alcança a harmonia da simplicidade de conceito e de linhas, faz sucesso que dura, dura por gerações. Vem modismo vai modismo, o simples volta e fica, chega e arrasa em qualquer situação. Na música, a harmonia descomplicada é eterna. Acalenta.

Sempre que me sento no banco da praça onde chego depois da escolha de uma estrada na minha vida, me dou conta da confusão. Olho em volto e vejo que tenho mais do que preciso, escondo mais do que externo, pretendo mais do que ajo. Sem drama. Tudo sempre dá certo no fim; e se ainda não deu certo é porque… …você conhece o final.

Que tal pensar nisso e dar uma revisada, cada um no seu tanto de emaranhado? É sempre um bom começo.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.

Orelhão com internet grátis deve ser incentivado

 

A decisão de retirar os “orelhões” da Oi com internet grátis das calçadas de Ipanema, no Rio, chama atenção por uma série de aspectos que se misturaram no debate sempre acirrado que se desenvolve nas redes sociais e blogs.

Para relembrar: a concessionária instalou nove cabines que, além de servirem como telefone público, ofereciam wi-fi de graça a um raio de 50 metros. Os “orelhões” foram plantados nas calçadas da avenida Visconde de Pirajá, no bairro de Ipanema em um projeto-piloto que poderia – ou pode – se estender a outros pontos da cidade. Bastava estar próximo de um deles e você seria capaz de entrar na rede com seu Ipad, por exemplo.

A ideia de espalhar sinal gratuito de internet pelas cidades é bem-vinda, portanto a iniciativa da Oi, neste sentido, é correta e deveria ser incentivada. Imagine se cada orelhão se transformasse em um hotspot, a medida que seu uso como telefone público tem sido cada vez menor em função da popularização do telefone celular.

Você aí na rua da Praia, em Porto Alegre, passearia pela internet sem dificuldade; na avenida Ipiranga, em São Paulo, também; assim como fariam os passantes da Visconde de Pirajá, no Rio. Ninguém teria mais benefício do que os moradores de comunidades pobres que poderiam acessar serviços de internet disponíveis em seus celulares. Em tese.

Seria necessário entender melhor os aspectos técnicos e financeiros que envolvem esta operação, mas não deu tempo de testar a funcionalidade do negócio. Em uma semana, a prefeitura entendeu que o impacto visual e de circulação provocado pelas cabines era ruim e mandou retirar os equipamentos. Moradores de Ipanema, entrevistados na imprensa, concordaram com a decisão. Não encontrei nenhuma palavra de alguém que tenha acessado a internet pública e gratuita.

Do ponto de vista da mobilidade, cravar mais uma barreira arquitetônica nas calçadas não faz sentido mesmo. Cada dia se tira mais espaço dos pedestres, não bastasse o piso ser irregular e impróprio em muitas vias. É banca de jornal, banca de ambulante, armação de ferro para sustentar saco de lixo, puxadinho do comércio, canteiro mal acabado, carro estacionado irregularmente, além dos próprios orelhões. Aliás, estes exigem há algum tempo uma revisão em seu desenho, pois da maneira como foram projetados no Brasil se transformaram em uma armadilha para deficientes visuais, tema sobre o qual já conversamos neste blog.

A Oi deveria ter tido cuidado ao pensar em um novo modelo de cabine telefônica e buscar um desenho menos agressivo a paisagem urbana, que se parecesse menos com um totem publicitário, assim como identificar os pontos em que ficariam mais bem colocados. Algumas vezes as empresas parecem subestimar o bom gosto do cidadão e de forma prepotente tentam impor trambolhos arquitetônicos (o poder público, também). Talvez deva convocar a criatividade nacional em busca de uma linha mais apropriada para a paisagem urbana.

A prefeitura do Rio não deve, porém, desperdiçar a oportunidade gerada. Tem de convidar a empresa, sentar e conversar sobre como estes pontos de acesso a internet, acoplados aos telefones públicos, podem ser implantados com menor impacto urbanístico. Pois a ideia, era substituir os orelhões atuais – ou alguns deles – que já não são grande coisa e colocar equipamento mais moderno. Seria um grande exemplo para as demais cidades brasileiras.

E você, caro e raro leitor deste blog, não perca tempo. Recomende ao prefeito da sua cidade – mande e-mail, twitter, carta ou ligue de um telefone público – que procure as concessionárias de telefonia da região e tome a iniciativa de discutir maneiras interessantes e criativas de oferecer internet grátis ao cidadão.

Orelhão com wi-fi tem câmera e tamanho de orelhão (publicado às 18h50)

Está cada vez mais claro para mim que erros de comunicação estão por trás da polêmica sobre os orelhões com wi-fi grátis da Oi que foram retirados de Ipanema. E reforço: responsabilidade que deve ser dividida entre a empresa e a prefeitura. O leitor Julio Abreu foi em busca de mais informações sobre o equipamento e nos conta, em comentário publicado neste post (recomendo a leitura), que as cabines teriam também câmeras de vídeo com imagens monitoradas por serviço de segurança. A intenção era colocar estes equipamentos diante de escolas púbicas, substituindo os tradicionais orelhões, medida que ofereceria duplo benefício: vigilância e internet livre aos estudantes. Outro aspecto interessante é que o espaço ocupado pela cabine é o mesmo do orelhão e o desenho mais robusto se faz necessário para proteger os equipamentos que estão embutidos.

Uma vantagem – esta ressaltada por mim – é que o desenho do orelhão com wi-fi não impõe aos cegos o mesmo risco que os orelhões tradicionais.

Morre Dekha, a mulher da paz

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A pacifista Dekha Ibrahim Abdi morreu após uma semana internada em um hospital de Nairóbi, vítima de um grave acidente de carro. Foi no distrito em que nasceu, Wajir, que esta queniana iniciou o trabalho que resultou na salvação de centenas de vítimas graças ao modelo de resolução de conflitos desenvolvido por ela.

Era início da década de 90 e o ódio que tomava conta das diferentes etnias que viviam na região havia levado a morte cerca de 1.500 pessoas, logo após o fim do regime de urgência que durou 27 anos. Dekha desafiou o poder dos chefes desses grupos e mobilizou mulheres e homens preocupados com a dimensão da violência. Através de comitês de conciliação passaram a organizar a mediação entras as partes em conflitos. Surgiu, então, o Comitê de Paz Wajir, com representantes de todos clãs, orgãos de segurança, parlamentares e religiosos.

Considerada uma líder na construção da Paz, Dekha recebeu o Right Livelihood Award em 2007. Ole von Uexküll, diretor executivo da Fundação responsável pelo prêmio, lamentou a morte da queniana: “Ela usou sua própria experiência para ajudar e treinar outros povos. Sua dedicação incansável à causa e sua habilidade de inspirar as pessoas construiu um modelo global. Sua perda será terrivelmente sentida por todos que lutam pela paz.”

No acidente, o carro em que estavam ela e o marido bateu frontalmente em um caminhão. Dekha, o marido e o motorista do caminhão morreram. Ela deixa quatro filhos e um legado que se reproduz a cada novo grupo que surge no mundo – e em algumas comunidades do Brasil, também – interessado em conter os conflitos através do diálogo.

Com informações da Right Livelihood Award Foundation e foto de Wolfgang Schmidt

Narcossalas em lugar da Cracolândia

 

Cracolândia em São Paulo

Os restos humanos que caminham em meio ao lixo e as drogas, nas ruas da Cracolândia, compõem um dos cenários mais tristes da cidade de São Paulo. São centenas de pessoas em processo de destruição, doentes e alucinados que, enquanto esperam a morte, única esperança que têm, se alimentam com crack. As soluções ensaiadas até aqui não oferecem perspectivas positivas. A reurbanização proposta pela prefeitura esquece da saúde pública; e a remoção citada por Gilberto Kassab, em sabatina na Folha de SP, tem caráter policialesco e autoritário. Não há histórico no mundo de que estas políticas tenham servido para melhorar a qualidade de vida das pessoas e da cidade.

São Paulo poderia ser inovadora e propulsora de uma guinada na história do combate às drogas se ouvisse o que disse Walter Maierovitch, presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais Giovanni Falconi, na conversa que tivemos na segunda-feira, no quadro Justiça e Cidadania, do Jornal da CBN. Incentivador das políticas sociossanitárias, ele lembrou a experiência desenvolvida em Frankfurt, onde foram implantadas as primeiras narcossalas do mundo, em 1994, recomendada pela ganhadora do Nobel de Medicina Françoise Barre Simousse.

Leia o texto completo no Blog Adote São Paulo, no site da Época SP

Foto-ouvinte: O incrível inverno de São Paulo

 

O frio reclamado por muitos e sofrido por tantos outros também é capaz de provocar imagens incríveis na cidade de São Paulo. Compartilho com vocë, caro e raro leitor deste Blog, fotografias enviadas por ouvintes-internautas da CBN. Aproveitem o lado bom deste inverno:

Inverno paulistano

Ao amanhecer, a cidade tinha uma luz diferente nessa terça-feira, 28.06, e inspirou o astrônomo Ednilson Oliveira. Na imagem, ele destaca a lua e os planetas dividindo a visão de um profissional com sensibilidade para as coisas que estão no céu.

Inverno paulistano

A avenida Paulista se destaca no horizonte e o espigão com prédios e luz é revelado pelo sol do entardecer de segunda-feira, nesta foto de autoria de Luis Fernando Gallo, colaborar frequente deste Blog.

Inverno em Parelheiros

A madrugada com temperatura próxima dos 3º, em Parelheiros, deixou suas marcas no jardim desta casa próxima do Embu Guaçu, pra cá da ferrovia Mayrink Santos, na reserva Monos Capivari-Marsilac-Jardim dos Eucaliptos. E motivou João Cappellano e a filha: “não é preciso ir até o Rio Grande Sul, Santa Catarina ou Campos de Jordão, para ver neve e curtir o frio. É só vir aqui pra região de Parelheiros.”

Pedalando para o trabalho

 

Todos os dias de capacete embaixo do braço, mochila nas costas e banho tomado, Leonardo Stamillo, gerente de jornalismo, chega a redação da rádio CBN. Ele parece estar ligado no 220 – como dizem por aí -, com um ar bem diferente daquele que muitos de nós imaginamos que estaríamos depois de pedalar de casa ao trabalho. Leonardo é casado, pai de de um menino e uma menina e usa a bicicleta com responsabilidade, como você pode conferir no vídeo do qual é protagonista. Sua bicicleta fica estacionada ao lado dos carros dos demais funcionários da casa – inclusive o meu – e antes de subir para começar o trabalho toma uma ducha, privilégio que nem todas as empresas oferecem aos seus empregados. É um exemplo de que é possível rever a mobilidade urbana também na maior cidade do Brasil.

Cadeirante quer respeito, cadeira e casa.

 

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Cadeirante

Eliete sempre  está se encontrando no centro de São Paulo com seu amigo Carlos Alberto Melo, 47, também cadeirante. Ele mora no Jardim Maracanã, região da Freguesia do Ó / Brasilândia, Zona Norte. Militante das boas  causas, Eliete,cadeirante há 13 anos, carrega o primeiro nome na  placa de sua cadeira motorizada, transmitindo ar de felicidade e superação por onde passa.
 

“Eu me chamo Eliete Pereira dos Santos Amém, moradora do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo, tenho 55 anos, nasci no dia 11 de novembro de 1955, em Palmas de Monte Alto, sertão da Bahia. Há 38 anos estou em em São Paulo […]. Sou ex-instrumentadora cirúrgica, há 13 anos sou cadeirante e vivo o drama da acessibilidade em São Paulo. Fui vítima  de cisticercose, doença transmitida pela carne de porco.

O deficiente físico não pode se fazer de coitadinho, tem direitos e deveres como qualquer outro cidadão. E deve lutar pelos seus direitos, participar.

Um dos principais problemas enfrentados pelos cadeirantes na cidade, é a falta de moradia.

Um exemplo: no antigo Hotel São Paulo, reformado, na Praça da Bandeira, conforme a Lei  foram destinadas 10 vagas para  portadores de deficiência, mas só tem um deficiente morando no grande prédio de 152 apartamentos, a Silvânia, cadeirante  que trabalha no Santander. Ela pena para entrar e sair do prédio (rua São Francisco 113 – atrás da Prefeitura), o acesso é péssimo. O deficiente precisa de oportunidade de emprego e moradia […].
 
Onde está na prática a  cota de moradia para os deficientes físicos nos programas habitacionais dos governos? Moradias com condições de acesso, rampas…
 
Nem todo deficiente tem condição de comprar um carro adaptado, então porque não pensar em incentivos para que compre uma cadeira motorizada. Se não puder comprar um scooter, que compre uma cadeira de roda digna. O que a gente vê de cadeiras de rodas caindo aos pedaços… É uma vergonha !
 
A minha é importada, custa uns 12 mil, consegui através de uma campanha solidária feita pelos meus amigos. A cadeira motorizada nacional encontra até por seis mil. O problema é que os scooters são visados … Dia desses por pouco não perdi o meu, estavam em dois, dois menores. O mais novinho disse: ‘ Pelo amor de Deus !.., não vamos fazer isso com a tia não ‘.
 
Eu sou uma mulher feliz ! Tenho um filhinho, o  Jack,  da raça pinscher.”

Carlos, digitador aposentado, com um ano  de idade, foi vítima de paralisia infantil, e não teve a mesma sorte da amiga Eliete. No Metrô Arthur Alvim, na Zona Leste, um ladrão se aproximou com cara de bonzinho, o pegou no colo, e sem violência física, deixou-o no chão com palavras de quem passava por necessidade: “Não leve a mal não, mas tem gente  que precisa mais que você.” Carlos , desde então passou  a defender seguro para cadeira de roda.


NB: Conforme informação repassada pelo Devanir, Eliete e Carlos  participariam  de uma manifestação em prol de moradia para cadeirantes, em frente à sede da Caixa Econômica Federal, no Centro, nessa segunda-feira. O ato tem o comandado do padre Ticão, da Comunidade São Francisco, de Ermelino Matarazzo, Zona Leste. Infelizmente, só peguei a mensagem dele na tarde de segunda após o evento, mas avalie que seria interessante, assim mesmo, reproduzir aqui no Blog a história dos dois cadeirantes.

Como Copenhagen foi tomada pelas bicicletas

 

Começam a aparecer os primeiros resultados da viagem da jornalista Natália Garcia pelo projeto Cidade Para Pessoas, assunto que já foi tratado aqui neste blog. Em Copenhagen, capital da Dinamarca, ela conversou com planejadores urbanos e representantes da prefeitura para mostrar a relação da bicicleta com a cidade. Uma das curiosidades mostradas neste trecho do trabalho à disposição no You Tube é o fato de por cerca de três décadas, as bicicletas haviam desaparecido do cenário dinamarquês, apesar de este meio de transporte ter sido tão popular no passado. Foi necessária a reação dos cidadãos e a pressão sobre o poder público para chegar ao estágio atual, no qual 55% das viagens dentro da cidade são feitas de bicicleta.

De conexão

 

Por Maria Lucia Solla

Conexão com o Criador

Ouça De Conexão na voz e sonorizado pela autora

Não sei como é o seu jeito de se conectar ao Criador. Você sabe a quem me refiro: ao indizível, invisível, impensável, intraduzível. Aquele de quem já deveria ser desnecessário falar. Deveria ser considerado crime, liderar e convencer pessoas a se conectarem com ele, igual, umas às outras. Sempre.

Sei que não deveria falar sobre o indizível, mas não vou tentar convencer ou converter ninguém. Apenas reflito, como costumo, em voz alta, sobre a necessidade que o homem tem de analisar e dissecar o Divino, de ter exclusividade sobre Sua melhor definição, necessidade de moldá-Lo à sua imagem e semelhança para só então adorá-Lo. O homem finge que acredita na história que prega o oposto: que foi Ele que nos criou à Sua imagem e semelhança.

Vem tempo, vai tempo, vem civilização, vai civilização, sempre foi preciso moldá-Lo à necessidade da tribo, cada um da sua, e o resultado disso é que, hoje, muitos desses deuses, criados à nossa imagem e semelhança, são mais ligados ao PIB do que à FIB. Formaram-se trustes divinos. Valha-nos! Esses deuses gostam mais da cidade do que do campo, voltam as costas à Natureza e se hospedam em templos, cada deus no seu. Os inúmeros deuses que criamos à nossa imagem e semelhança têm nomes e sobrenomes diferentes. Se a tribo precisa de mais rigor, é preciso aumentar o grau do rigor da divindade. Se a tribo precisa ser manipulada, aumenta-se o tom ameaçador dos seus mandamentos, da lista de suas proibições e de suas exigências. E continuamos a aliciar, a subjugar, a castigar devotos que vacilam no cumprimento das leis de seus deuses, que já vêm com código de barra.

Dia após dia nos voltamos contra a Criação do Criador, destruímos montanhas, damos um chegapralá em mares, mudamos rios de lugar e desprezamos, quando não matamos, o nosso semelhante.

Cada tribo, hoje, tem um tradutor, um porta-voz do seu deus urbano, que o vende como bem entende; e nossa ideia do Divino vai ficando cada dia mais fraca, cada dia mais doente.

quando digo pai
digo pai mãe
quando digo ele
penso ele ela

e me conecto sempre
nunca igual
como o esplendor do sol e da lua
que encanta
em new york ou no nepal
sempre
cada dia diferente
e isso me angustia um dia
mas no outro
me deixa contente

FIB = Felicidade Interna Bruta

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung