Tudo junto e misturado

 

Por Dora Estevam

 

 

Você já pensou em colocar um par de meias lilás com calça xadrez e sapato marrom? Se o seu avô saísse de casa com paletó rosa, camisa branca e gravata vermelha? Fala a verdade, você não acharia normal.

 

 

A moda nem sempre é aquilo que consideramos normal. Separei fotos de street moda para você saber que muita gente mistura tudo e sai por aí para trabalhar e exercer as suas atividades sem problemas ou preconceitos. Vale para homens e mulheres.

 

 

São tantos panos um em cima do outro que você não consegue enxergar o que é o quê. Mas vale a lição para quem busca ideias de visuais dififerentes e arrojados. Só tome cuidado para não cair no ridículo: tentar parecer que tem 15 anos, se você tem 50, por exemplo. Vai ter que passar o dia dando explicações. Há, há, há.

 

 

Fique com estas inspirações, e boa sorte nas montagens. Afinal, a moda está toda revisitada, faça a sua também. O seu armário deve estar cheio de peças que não são usadas há tempos, vai ser legal dar uma renovada nelas.

 

 


Dora Estevam é jornalisa e escreve sobre moda e estilo de vida aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Faça parte do Fórum Mundial da Bicicleta

 

1º Forum Mundial da Bicicleta – English Subtitles from Forum Mundial da Bicicleta on Vimeo.

 

Os leitores deste blog sabem bem a opinião de seu titular em favor do uso indiscriminado de bicicleta, mesmo que este não se habilite a fazê-lo com a frequência que gostaria. Insisto em pedalar mas não consigo ir além da prática do lazer, apesar de adorar a ideia de ter a bicicleta como meio de transporte. Volto ao assunto, hoje, porque recebo através de meu irmão, o Christian Jung, que tem o mais famoso blog especializado em fusca do sul do continente (menos, Milton, menos !), o post sobre a organização do primeiro Fórum Mundial da Bicicleta, em Porto Alegre – cidade na qual nasci como muitos de vocês já devem saber -, entre os dias 23 e 26 de fevereiro. O evento é resultado de uma série de ações geradas após o atropelamento coletivo que ocorreu há cerca de um ano – em 25 de fevereiro de 2011 – na capital gaúcha, e contará com a presença do americano Chris Carlsson, um dos idealizadores da primeira Massa Crítica, que se realizou em São Francisco, nos Estados Unidos, em 1992. Ele deve passar por São Paulo, também, de acordo com informações dos organizadores do Fórum que tentam pelo sistema colaborativo arrecadar R$ 3,5 mil, dinheiro que pagará as passagens de avião, único pedido feito por Carlsson para estar no Brasil, neste perído. Durante o encontro será discutido o futuro das cidades e o papel da bicicleta nos âmbitos social, econômico, ambiental, esportivo e cultural. Para saber como ajudar entre no site do Fórum Mundial da Bicicleta ou veja o vídeo que coloca à sua disposição.

 

Obs: Se quiser conhecer o Blog do meu irmão, vá até o MacFuca, vale a pena, mesmo que o seu negócio seja a bicicleta.

Que venham, logo, mais ciclovias

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Há muito tempo Porto Alegre pede que a Prefeitura providencie a implantação de ciclovias. Este é o meu assunto nesta quinta-feira,dia 2 de fevereiro de 2012. A cidade conta com uma via para uso exclusivo de ciclistas na Avenida Diário de Notícias. Em seu primeiro trecho pode-se pedalar sem medo de ser atropelado. No segundo,interrompido por uma rotatória com sinaleiras,há espaço para bikes na calçada que margeia um dos lados da Avenida. Os ciclistas, principalmente os que pilotam bicicletas de corrida ou outras que são equipadas com pneus finos, queixando-se do tipo de piso, recusam-se a usar a ciclovia. Seja lá como for, ciclistas diletantes ou que treinam para competir, preferem arriscar-se a andar em fila indiana no asfalto da Avenida Edvaldo Pereira Paiva, apelidada de Beira-Rio, porque acompanha trecho de alguns quilômetros do Rio Guaíba (recuso-me a chamá-lo de Lago Guaíba, ”novidade” com a qual não concordo).

 

Não concordei, também, quando, em ciclovia que está sendo construída na Avenida Ipiranga, uma das mais longas de Porto Alegre, a Prefeitura começou a instalar, para proteção dos futuros ciclistas, um guard-rail de toras de eucalipto de reflorestamento. Foi a segunda polêmica provocada por desencontros de opinião entre as autoridades responsáveis pela obra. Na primeira, houve quem dissesse que, como a ciclovia seria implantada debaixo de fios de alta tensão, seus usuários ficariam expostos a sério risco. Ambas as polêmicas foram substituídas por uma ideia muito bem recebida: a de entregar o projeto do guard-rail e seu entorno a um arquiteto. Dentre 37 propostas, a vencedora foi de Rodrigo Troyano. Seu projeto, bem bolado, prevê guard-rail neutra, possibilitando a visão do outro lado do Arroio Dilúvio e conta com vegetação na sua estrutura, para que se integre à paisagem. Caso o ciclista se desequilibre, será protegido por bolas de plástico reciclável, que funcionará como uma almofada. Troyano receberá um prêmio de R$4,5 mil e o diretor-presidente Da EPTC, Vaderlei Cappellari, prometeu que o projeto será iniciado imediatamente ao longo dos 9,4 quilômetros da Ipiranga, a um custo estimado de R$1,9 milhão. Que venham, porém, outras ciclovias. Assim, talvez, os que protestam sosseguem o pito. E possam pedalar mais.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

De São Paulo um dia depois da festa

 

Por Maria Lucia Solla

 


Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

 

 

São Paulo chora, e não é manha. Síndrome do dia seguinte? A cidade amanheceu chorando. Não um choro explosivo, intenso, mas aquele choro intermitente de quem para pelo cansaço, se lembra das agruras e dá-lhe chorar de novo.

 

São Paulo é uma senhora respeitável, de 458 anos, com artérias comprometidas e algumas irremediavelmente entupidas. A quantas plásticas já foi submetida, perdeu a conta, Quando nas cidades do exterior a moda muda, corremos para dar o que consideramos um upgrade na nossa, em vez de respeitarmos sua personalidade.

 

Nossa cidade vem rapidamente perdendo suas curvas ao enfrentar escavadeira, britadeira e toda a parafernália moderna usada para modificar sua beleza natural e real em favor da beleza prometida e comprometida. Insatisfeitos e cegos, copiamos daqui, colamos de lá e criamos uma balbúrdia tão grande que nem nós conseguimos aguentar.

 

Essa respeitável senhora teve seus veios de água, por onde deveria correr livre e solta a sua emoção, condenados a prisão perpétua e enjaulados em canos de concreto.

 

Nos breves intervalos do seu choro arrastado e gemente, imagino que ela deva dar graças por nenhum dos velhos amigos estar por perto. Ela não aguentaria a dor, pois tem certeza de que nenhum deles a reconheceria.

 

Observando seu choro, me transposto a uma conversa lá em Camanducaia, no alto do morro, quando meu filho me explicava, paciente, como ele e sua família, três filhos pequenos, viviam cercados pela Natureza quase intocada, sem medo.

 

Tranquilizando meu coração que há muito está distante da terra, ele dizia, mãe, precisa negociar com a Natureza, é isso que fazemos aqui. Não é só escolher o pedaço de terra onde se quer viver, cortando aqui, alinhando lá, precisa respeitar limite. Antes de a gente chegar aqui, tudo obedecia a um ritmo que a gente veio modificar. Demos um chega pra lá nos bichos, modificamos o desenho do chão, plantamos concreto onde havia flor. Se não tiver o mínimo bom-senso, se não agir com a consciência acordada, com respeito, a relação fica impraticável. Não te preocupa, mãe, que as crianças fazem parte desse equilíbrio.

 

Ele tinha razão; fora a queda de um andaime deixado pelos pedreiros, que resultou num bracinho quebrado e depois remendado no hospital, e um ataque de abelhas, a Natureza acabou cuidando para que nada sério acontecesse aos pequenos, lá em cima da montanha.

 

Por isso, chora, São Paulo, chora até que as lágrimas acalmem o teu coração.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

O Retiro da moda popular em São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

 

O que diriam paulistanos que conheceram as chácaras e fazendas do Bom Retiro, no Século 19, e encontravam no local refúgio para o descanso e a tranquilidade se visitassem o bairro nos dias atuais ? Definitivamente, descansar não é mais verbo a ser conjugado por lá, haja vista o enorme movimento de pessoas nas ruas deste distrito que faz parte do centro de São Paulo – cerca de 80 mil por dia. Calcula-se que 20 ônibus chegam diariamente de diversas partes do Brasil, em especial do Sul, trazendo consumidores que se somam aqueles que vão de carro e lotam os 30 estacionamentos que têm nas proximidades. A maioria destes é revendedor e responsável por 60% das compras feitas nas lojas do bairro.

 

O que mais atrai os milhares de visitantes, além da enorme concentração de lojas – cerca de 1.600 -, são as roupas baratas que há muito tempo deixaram de ser sinônimo de baixa qualidade. Este preconceito já está fora do dicionário da moda dos lojistas. Encontra-se no Bom Retiro produtos de acabamento invejável e é clara a preocupação com relação aos tecidos e aviamentos. No setor atacadista, a maioria das empresas tem estilista própria que viaja no mínimo duas vezes ao ano em busca de novidades e tendências, no exterior. Têm ainda empresas de consultoria que prestam serviço nesta área incentivando a criatividade e inovação. Todos os dias, as grifes abastecem as vitrines com seis novas peças o que atrai mais e mais clientes e gera empregos constantemente

 

No setor atacadista a maioria das empresas tem sua estilista que viaja no mínimo duas vezes por ano ao exterior em busca de novidades e tendências internacionais, além das empresas de consultoria que prestam serviços nesta área. Todos os dias tem novidade nas lojas, cada grife produz cerca de 6 peças novas por dia o que atrai mais e mais clientes, e também gera empregos constantemente – são 50 mil empregos diretos e 30 mil, indiretos. Um dos sinais de que os fabricantes estão conectados com o que há de mais novo é o surgimento de confecções preocupadas com a questão da sustentabilidade, caso da ADJI- Menswear.

 

Antenados, muitos lojistas desenvolveram sistemas de e-commerce, apesar de o maior sucesso ainda ser o telemarketing. Como as vendedoras conhecem o tipo de produto que atendem as necessidades de seus clientes, assim que chegam novos modelos elas entram em contato e, por telefone mesmo, fecham o negócio , sendo a mercadoria enviada pelo correio – 55% da moda feminina do Brasil saem do Bom Retiro. Os fabricantes da região faturam perto de R$ 3,5 bi por ano.

 

Um dos desafios dos empresários da região é com a manutenção do bairro e para que os problemas sejam resolvidos mais facilmente a Associação dos Lojistas do Bom Retiro têm mantido diálogo permanente com a prefeitura. Um dos resultados desta conversa foi a coleta de lixo pela manhã que impede o acúmulo de sacos com retalhos que antes acabavam abertos por catadores e se espalhavam pelas ruas. As calçadas são pouco confortáveis para o passeio, pois além da multidão que procura as lojas também existe uma série de barreiras como os postes de iluminação. Para amenizar este cenário, a Eletropaulo está fazendo o aterramento da fiação e os dois primeiros quarteirões do bairro já estão com energia sendo transmitida por baixo das vias. O custo para esta primeira parte da obra foi assumido pela Associação que agora espera que a prefeitura assuma seu compromisso e financie o restante do projeto. De acordo com informações da Subprefeitura da Sé ainda é preciso abrir o processo de licitação. A segurança melhorou um pouco com a Operação Delegada, da Polícia Militar, que reforçou o policiamento na região, mas muitas lojas ainda preferem manter equipe própria de vigilância.

 

Ufa! Se só de ler todos os aspectos que envolvem o Bom Retiro já dá fome, imagine caminhar por lá. Para matar a fome também não falta estrutura, são mais de 52 restaurantes, bares e lanchonetes para atender os visitantes. E com uma área dominada por coreanos – na maioria -, judeus, italianos e gregos, é possível imaginar a variedade de comidas. A culinária grega e italiana são minhas prediletas. Para você aproveitar melhor todo este espaço e não se perder na multidão, separei alguns endereços de lojas do atacado e do varejo. Aproveite o máximo e depois deixe aqui outras sugestões do Bom Retiro:

 

Jeans
Atacado: Di Collani – Rua Prof. Cesare Lombroso, 259 lj.,21 – 3224.0166
Varejo: Loony – Rua Jose Paulino, 190 – 3334.2050

 

Tricô
Atacado: Modelan – Rua da Graça, 42 – 3333-2193
Varejo: Rua Jose Paulino, 256  – 3223-7711

 

Camisaria
Atacado: Umen – Rua Jose Paulino, 140 – 3221-3203
Varejo: Fascynios – Rua da Graça, 450 – 3333-2000

 

Terninho
Atacado: Seiki – Rua Aimores, 143 – 3225-9214
Varejo: Karmiss – Rua Jose Paulino, 210 – 3331-6059

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do MÍlton Jung

De bom e mau

 

Por Maria Lucia Solla

 


Ouça “De bom e mau” sonorizado e na voz da autora

 

 

Olá,

 

pisquei, e a segunda virou quinta. Os dias correm como nós, e num desses dias voadores liguei a televisão e ouvi que o número de assaltos a residência e estabelecimento segue crescendo. Confirmei também que a civilidade segue diminuindo e que a fúria do invasor atinge nível de dar náusea. Se sequestra e se mata por tudo e por nada também. Humano tortura humano, legal e ilegalmente; se degrada, dissolve, mingua.

 

Tem muito ódio, muita raiva, muita amargura nos corações. Campeia a traição, o abuso e o descaso pelo outro. A sociedade do eu primeiro vem fortalecendo alguns músculos, mas vem deixando definhar o próprio coração. Se sobressai no índice do dinheiro, do consumo, e se retrai na educação, no respeito, na consciência do real direito de cada um.

 

Mas tem o outro lado onde pipocam projetos sociais; gente que troca o dia-a-dia, o conhecido, o conforto, pelo inverso da medalha. Gente que se arrisca no universo da diferença, do carência, da doença, do desengano, onde acaba encontrando – dizem os que se entregam – um presente da vida.

 

De um lado o invasor, do outro o libertador. É o que vemos desde criança no desenho animado. Bom contra mau. Falávamos disso, meu filho e eu, no domingo passado. Sobre repressão, criminalidade e atividade das polícias. E eu pergunto o que mais vai ser preciso proibir, quantas vezes mais vai ser preciso remendar a Constituição, para podermos saciar a boca faminta da justiça, do suborno, e das polícias, num desbotado filme de bandido e mocinho.

 

Enquanto o bom continuar a se entrincheirar e se armar para combater o mau, será só um arremedo de bom. Será um mau presunçoso a se considerar do bom lado da cerca. Só isso. E o mau, acreditando ser mau porque é isso que lhe dizem desde que entendeu a primeira palavra, o primeiro olhar, se arma para resistir, lutar e atacar o bom.

 

Não tenho a solução, nem na palavra nem no pensamento, mas sinto no coração que ela existe e que é possível; e tenho certeza de que você também sente. É preciso, no entanto, que a galera do bloco bom não se pavoneie, sentando nos próprios pés na ilusão de que não percebam seu medo e sua vergonha, e que não continue apontando, de bico erguido, o erro do vizinho. Em qualquer área, em todo nível social, cultural, no bloco civil, no bloco militar, penso em gente, não em casta.

 

As maiores e mais fratricidas guerras foram guerras religiosas; e continuam sendo. O religioso rotulado, que se considera bom, fica cada dia mais agressivo e arregimentador. É só olhar em volta, para os que rezam estirados no chão para falar com Deus, e os que se ajoelham para fazer a mesma coisa. Para os que aceitam os santos, e os que não aceitam. Para os que consideram Jesus o Messias, e aqueles que não. É guerra que, como todas as outras, é feia, dissimulada, discriminatória e preconceituosa, disfarçada de divina, correndo solta, acelerando o tempo que se esgota para que a consciência se instale como programa de tecnologia de ponta.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

O império do nude

 

Por Dora Estevam

 

Nude é quase uma ausência de cor, que se consagra na moda e leva milhares de mulheres às lojas e aos salões de beleza em busca do tom certo, aquele que deixa a pele com aspecto sofisticado. Surgiu com impacto há um e meio e terá sua vida prolongada graças a seu uso por vários estilistas nas últimas coleções que assistimos.

 

Foi a cor predileta de celebridades que passaram pelo tapete vermelho em busca do Globo de Ouro, nesta semana. O festival deu um show de beleza, sofisticação e tendências de moda em todos os ítens: maquiagem, jóia, vestido de festa, sapatos e bolsas. Se elas usam é porque é bonito – quase sempre. Vamos ver algumas fotos de celebridades que optaram pelo nude?

 

Na maquiagem, a pele clarinha combinada com o batom de mesma cor, deixa a mulher com uma aparência bem saudável. O nude cai bem nas peles morena e branca. Sem restrições, o ousado pode ficar por sua conta já que o nude é totalmente neutro.

 

Nas ruas é que se vê o resultado de tanto trabalho. E é nas ruas que vemos, também, como as pessoas são criativas ao captarem o fashion das passarelas e editoriais de revistas e levarem para seu cotidiano. O nude conquistou definitivamente os corações de todos, além dele ser uma ótima opção para misturar com outras cores.

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

É um privilégio viver em São Paulo, para alguns

 


Texto publicado, originalmente, no Blog Adote São Paulo, da Revista Época São Paulo

Favela do Moinho

 

Encontre um conterrâneo morando fora da terra natal e você notará nele uma ponta de desejo de voltar para casa um dia qualquer. É um sentimento normal para quem decidiu tocar sua vida distante de onde nasceu. De muitos amigos do Rio Grande do Sul que já vivem em São Paulo há algum tempo, costumo ouvir planos para o retorno – um trabalho que pretendem fazer, uma casinha que vão comprar ou uma história mal acabada que imaginam dar o ponto final. Tenho um amigo em especial que é carioca, fala com forte sotaque e torce para o Flamengo, estudou no interior paulista e mora na capital muito mais tempo do que viveu na cidade do Rio. Brinco com ele: “só você não sabe que é paulista”. Vive aqui, trabalha aqui, é feliz aqui, mas um dia, quem sabe, talvez …

 

Confesso que eu mesmo muitas vezes me refiro a casa em que morei na infância, no bairro do Menino Deus, em Porto Alegre, como “lá na minha casa” quando, na realidade, minha casa fica bem aqui na zona Sul de São Paulo, fui eu quem construí ao lado da minha mulher e onde meus filhos nasceram (perdão, filho nascer em casa é modo de se expressar, há muito que eles nascem nos hospitais). Ao contrário da maioria dos amigos que veio de outros Estados, não desenho meu futuro ou aposentadoria na capital gaúcha e não vai aqui nenhum sentimento de frustração com o Rio Grande do Sul, estado que admiro por uma série de fatores, apenas tenho dificuldade, neste momento, de imaginar minha vida longe de São Paulo, onde ganhei personalidade profissional e desenvolvi meu conhecimento. São tantas as oportunidades que encontramos e tão ricas as experiências que trocá-las por qualquer outro lugar não me parece viável.

 

Este sentimento, porém, não é compartilhado pela maioria das pessoas que vive em São Paulo, incluindo aqui os paulistanos de nascença, conforme mostrou com clareza a pesquisa IRBEM 2012, feita pelo Ibope e encomendada pela Rede Nossa São Paulo, na qual 56% dos entrevistados disseram que gostariam de deixar a cidade, índice que chega a incríveis 66% quando ouvidos moradores dos distritos de Aricanduva e Mooca. A diferença entre o que penso e o que pensa a maioria me parece facilmente explicável. São Paulo não é uma cidade para todos, beneficia muito mais uns do que outros e oferece oportunidades diferentes, muito diferentes como mostram os índices de desigualdade que fazem parte da mesma pesquisa. O índice de satisfação média na questão desigualdade social é de apenas 4,3 quando se trata de conseguir emprego, em uma escala de 1 a 10. O de acesso à saúde é de 3,9 e o à moradia de 3,8. Nem todos tem os mesmos serviços à disposição. Veja que dos 96 distritos em que a cidade é dividida 45 não têm biblioteca infanto-juvenil e 44 não têm biblioteca para adultos. As diferenças também ocorrem nas áreas de lazer, educação, transporte, saúde e tantas outras. Como alertou Oded Grajew, um dos fundadores da Rede Nossa São Paulo, em comentário no programa CBN São Paulo: “esta desigualdade é insustentável, causa de muitos dos males que enfrentamos”.

 

Sinto-me um privilegiado por morar em São Paulo, e aqui pretendo viver por muito tempo ainda, mas adoraria saber que nossos gestores públicos e todos os demais que se oferecem para encarar este desafio tivessem projetos para diminuir estas desigualdades. Seria um presente e tanto para a cidade que completa 458 anos, no dia 25 de janeiro, saber que um dia todos terão os mesmos privilégios que tive desde que cheguei por aqui, em 1991.

A bicicleta ainda vai te pegar

 

 

Acabo de sair do Rio de Janeiro e ainda estou a bordo do avião que me traz de volta a São Paulo, enquanto escrevo este texto. Havia um mormaço na cidade que levou muita gente para a praia, nessa segunda-feira. Nada impressionante, pois estamos no Rio e em período de férias. O branco da pele de algumas pessoas que vi passeando na orla – diga-se, as vejo da janela do táxi – sinaliza que muitos são turistas. O que realmente me impressionou foi a legião de bicicletas laranjas na beira mar, ruas e avenidas adjacentes. Estão disponíveis para aluguel e, me parece, caíram no gosto dos cariocas e simpatizantes pela praticidade que oferecem e pelo baixo custo – os mensalistas pagam R$ 10 e se for por apenas um dia, R$ 5. Não havia um trecho do roteiro Santos Dumont-Leblon-Santos Dumont, que cumpri para atender compromisso profissional, no qual não havia uma “Laranjinha” interferindo na cena. Seriam 600 disponíveis e carregando a marca e a cor do Banco Itaú em uma bela jogada de marketing – assim como o Bradesco fez ao adotar a Ciclofaixa de Lazer, em São Paulo. A capital paulista também tem bicicletas de aluguel, estão em estações de metrô, especialmente, mas não chamam tanta atenção porque se escondem entre os carros.

 

Ainda com a imagem das bicicletas cariocas na cabeça, logo que sentei na poltrona do avião me deparei com elas em destaque em reportagens da revista de bordo da Gol Linhas Aéreas. Se os salgadinhos e docinhos não agradaram, a leitura se fez agradável com o texto e as fotos de Denis Russo Burgierman que descreve a aventura de passar três dias visitando o centro paulistano a bordo de um bicicleta. Pedalou 80 quilômetros e conheceu hotéis, restaurantes, bares e demais atrações turísticas. Uma das recomendações: ter em mãos o mapa Ciclo Rotas SP 2011, idealizado por Leandro Valverdes, um dos donos da Ciclo Vila, bicicletaria na Vila Olímpia. Denis usou um bicicleta dobrável que agilizou o passeio e a hospedagem.

 

Não é que encontro outra bicicleta, na mesma edição. Esta bem mais velha, com marcas de ferrugem e, curiosamente, usada por um repórter digital. Explico. A publicação convidou dois repórteres a viajarem para Fortaleza, um com todo tipo de facilidade oferecida por equipamentos eletrônicos e o outro, a moda antiga – até máquina de fotografia com filme, ele portou. Lucas Pretti precisou de informações que estavam na internet, acessada em seu celular, para saber onde alugar uma bicicleta, pois funcionários de hotel, taxistas, vendedores e moradores não tinham a menor ideia, o que demonstra que a prática não é comum: “A cidade não tem infraestrutura nem apelo turístico voltado a experiências urbanas. Também não há ciclovias, mas a cidade é plana, com uma paisagem linda, e a coragem de se aventurar era grande … Para mim foi mais divertido tomar sol pedalando do que em uma cadeira na praia. Um prazer que só a internet pôde proporcionar” – escreveu Pretti.

 

Assim como todos as demais cidades brasileiras, Fortaleza tem de estar pronta para a ocupação urbana que os ciclistas estão proporcionando. E você fique atento porque um bicicleta ainda vai te pegar (no bom sentido). Esteja no táxi ou na poltrona do avião, elas tomam cada vez mais espaço.