A situação do jovem brasileiro na pandemia: sem ensino e sem emprego, tem esperança?

Foto de Tim Gouw no Pexels

A vida não está fácil para ninguém —- eu sei, começar um texto com essa frase que já virou lugar-comum não é muito inspirador para você seguir com a leitura. Porém, o fato é que a frase está cada vez mais comum desde que a pandemia se iniciou. E de tão comum, ganhou expressividade. Parece contraditório, mas faz sentido. Especialmente se você for um jovem que por jovem que é teve de enfrentar o que enfrentamos desde o ano passado sem a experiência da dor que forjou a personalidade e a alma dos adultos.

É da juventude que quero falar nesse bate-papo com você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog. Porque para eles, os jovens, as coisas estão bem difíceis. Podes crer (acho que nenhum jovem usa mais essa expressão, né ?!?).

Imagine a situação do cara ou da cara. No pico de sua energia e com hormônios em alta rotação, foram todos convocados a se trancarem em casa, se afastarem dos parceiros, segurarem o tesão pela vida e abrir mão de parte dos direitos que conquistaram. 

Enquanto alguns perderam o direito às relações, outros tiveram roubados o direito a educação. 

Cezar Miola, conselheiro do Tribunal de Costas do Estado do RS, informa em texto escrito na Gazeta do Sul, que 91,9% das mais de 3,6 mil redes municipais tiveram de completar o calendário escolar de 2020 com atividades não presenciais:

“Dados do IBGE indicam que 1,4 milhão de crianças e adolescentes não frequentaram a escola em 2020, sendo que outros 4,1 milhões, embora vinculados a algum estabelecimento, não tiveram acesso a atividades educacionais (para se ter uma dimensão do que representam esses números: todo o Estado do RS possui 2,2 milhões de alunos na educação básica)”

Perderam relações, perderam qualidade de ensino e perderam, também, o direito ao trabalho —- como mostram números divulgados nos últimos dias por diferentes instituições. 

Ainda nessa quarta-feira, em gravação do programa Mundo Corporativo, Helen Andrade, head de Diversidade e Inclusão da Nestlé, lembrou que para a turma dos 18 aos 24 anos, a taxa de desemprego no Brasil está na casa dos 30%, segundo cálculo do IBGE. Tema que preocupa a empresa que ela representa — hoje, o maior grupo de alimentação do mundo. Para tentar conter esse drama, a Nestlé tem  desenvolvido programas para incluir esses jovens no mercado de trabalho. Apostam na ideia de que com a juventude e a criação de projetos para manutenção e atualização de profissionais com mais de 50 anos, conseguem criar um ambiente colaborativo e criativo, unindo vivacidade e vivência. A experiência, porém, é exceção no mercado de trabalho brasileiro.

Sem emprego e sem escola, esse jovem é também um sem esperança. E como é triste para nós, que somos pais, assistir ao desalento da juventude. Porque são rapazes e moças que tinham nos programas de estágio ou de aprendizagem, além da formação profissional e da permanência na escola, a possibilidade de complementarem a renda familiar. Considere que o salário médio em São Paulo é de mais ou menos R$ 650,00 — ou seja, se estiver no mercado de trabalho, essa turma leva  para casa mais dinheiro do que o auxílio-emergencial, já não fossem suficientes a formação técnica, a absorção de conhecimento, o desenvolvimento da personalidade e autoestima adquirida.

É triste. É doloroso. É um perigo porque jovens sem esperança não esperam o futuro, tentam soluções imediatas nem sempre as melhores e mais saudáveis. 

Como de desespero já estamos cheios, trago algumas informações que talvez nos ajudem a respirar um pouco mais —- ainda que atrás de uma necessária máscara de proteção.  Dois estudos divulgados nos últimos dias sinalizam que talvez o mercado de trabalho comece a acenar novamente para os mais jovens, mesmo diante de muitas das restrições que ainda vivemos pela incompetência na gestão da crise sanitária que encaramos desde março do ano passado. 

Um levantamento feito pelo CIEE – Centro de Integração Empresa-Escola, que reuniu informações do seu banco de dados, identificou que o número de vagas abertas para jovens cresceu 28,9% no 1º trimestre de 2021 se comparado aos últimos três meses de 2020. No Estado de São Paulo este aumento chegou a 38,9%.

Se olhar para os dados do CAGED, tivemos o melhor primeiro trimestre de toda a série histórica agora em 2021, com recorde de abertura de vagas para aprendizes de 14 a 24 anos. Na análise feita pelos técnicos da Kairós  Desenvolvimento Social, houve um saldo positivo, entre contratados e demitidos de 43.570 postos de trabalho.

Antes de comemorar, lembre-se: disse que talvez possamos respirar, mas ainda sem tirar a máscara. Temos de colocar os números nos seus devidos lugares,  

Tanto o CIEE como a Kairós comparam o primeiro trimestre deste ano com o último trimestre do ano passado —- o ano em que a tragédia sanitária assolapou nossas expectativas e enterrou nossos sonhos. E, principalmente, do sonho de muitos jovens aprendizes que fazem parte de grupos mais vulneráveis. 

Infelizmente, se queremos ter um olhar mais preciso sobre o que acontece na nossa vida, de acordo com números e estatísticas, é preciso pegar o retrato de agora e comparar com a fotografia tirada no mesmo período do ano passado. Ou seja, primeiro trimestre de 2021 com o primeiro trimestre de 2020 —- quando os efeitos da pandemia ainda não tinham sido plenamente absorvidos pela economia.

Segundo o CIEE, nessa perspectiva, a oferta de oportunidades de estágio e aprendizagem despencou 28,7%, no Brasil. Olhando aqui para a região em que vivo, o tombo foi ainda maior na capital paulista, 29,3%. No Estado de São Paulo 27,2%.

A Kairós traz outro cálculo que demonstra o quanto ainda precisaremos reagir para nos recuperarmos do legado de 2020. Lembra do saldo de 43.570 vagas abertas que falamos antes? Está distante ainda das 72.885 vagas de aprendiz que foram fechadas desde abril do ano passado, quando começaram os efeitos da pandemia. 

Elvis Cesar Bonassa, diretor da Kairós, lamenta que “não houve nenhuma medida do governo para proteger esse grupo (de jovens), nem responsabilidade social das empresas para manter as vagas”.

Já Marcelo Gallo, superintendente Nacional de Operações do CIEE, prefere destacar a perspectiva de que haverá um crescimento gradual do número de vagas ao longo do ano — o que pode ser um alento para quem já viu o mês de maio se iniciar e até agora não encontrou o seu espaço no mercado de trabalho. 

Entre número e estatísticas, diagnóstico e prognósticos, nós, pais, temos a responsabilidade, assumida diante da sociedade quando aceitamos a ideia da paternidade, de mostrarmos a todos esses jovens —- em especial aos nossos jovens filhos, que ainda estão sob nosso campo de observação — que  toda e qualquer saída para esse cenário está pautada na ideia de oferecemos a eles um ambiente eticamente saudável. Porque nos cabe, independentemente da dimensão das crises que enfrentamos —- humanitária, sanitária e econômica — a missão de oferecermos aos nossos filhos a educação —- e não apenas o ensino — que permita que eles façam as melhores escolhas diante dos problemas que têm de administrar o tempo todo no relacionamento com os amigos e com a família, no emprego ou na falta dele, na escola ou na vida.

Rádios precisariam de mais de 10 dias para anunciar os mortos da Covid-19, no Brasil

Na época da escola — e estamos falando lá do fim dos anos 1970 e início de 1980, em Porto Alegre —, nosso sonho de consumo era passar no vestibular e entrar em uma das duas grandes universidades à disposição: a PUC, a melhor das particulares, e a UFRGS, que pronunciados URGS, sem o F de Federal. No ritual de passagem, havia um hábito que sempre achei curioso — e não sei isso acontecia aqui pelas bandas de São Paulo: a lista de aprovados era anunciada no rádio, com a leitura de curso após curso e de nome após nome. As famílias colavam o ouvido no aparelho e ficavam chuleando para que o nome do rebento fosse anunciando pelo locutor. 

Nome lido na rádio era motivo de festa em casa. Lembro de minha mãe, todas as vezes que ouvia o nome de um dos filhos na lista, corria para pintar uma faixa e estender na frente da casa — desconfio que até tivesse a faixa pintada de antemão. Naquela época, claro, não havia rede social, whatsapp e internet na forma que conhecemos. E a única maneira de ostentar o orgulho da família, era com um trapo de pano e mal pintado pendurando na frente de casa: “aqui tem um bixo” —- assim mesmo com “x”. Fui exposto duas vezes, na primeira quando passei no curso de jornalismo na PUC, na segunda quando passe no vestibular para educação física na federal. 

De minha parte, o que me chamava a atenção era a forma como os locutores de rádio anunciavam o nome de cada candidato e curso, em uma velocidade incrível e entendível. Ocupavam parte da tarde com aquela transmissão que era interrompida apenas para a leitura dos reclames comerciais —- os cursinhos pré-vestibulares eram os principais anunciantes.

Por que lembrei dessa história? 

Na sexta-feira, fui levado a falar sobre a triste marca de mais de 400 mil pessoas mortas por Covid-19, no Brasil. Logo me veio à mente o site Inumeráveis, criado no início desta tragédia, que decidiu registrar o nome e, na medida do possível, a história de cada uma das centenas de milhares de vidas perdidas durante a pandemia. Imaginei que pudéssemos, para marcar a importância de cada um na vida deste país e, em particular, na vida de suas famílias, abrir nossa programação de rádio para ler o nome e o sobrenome dos mortos:

“Abadia de Fátima Alves, Abdiar Martins de Moura, Abdon Albuquerque Cavalcante, Abel Augusto Teixeira, Abel da Cruz Neto, Abel Jorge Cassimiro, Abein Maria Pereira Cardoso, Aberal Riberia, Abigail  Pinto Magalhães, Abila Silveira Bueno …..”

Decidíssemos ler a lista de nomes aprovados para essa passagem da vida para a morte — e aqui deixo que cada um dos raros e caros leitores deste blog dê a conotação que sua crença e religião oferece ao momento — não bastaria dedicar apenas uma tarde da programação de rádio. Um dia inteiro não seria suficiente para ler o nome dos mais de 404 mil mortos por Covid-19 — número superado neste sábado, quando escrevo este texto. Uma semana teria se passado e os locutores continuariam a divulgar o nome e o sobrenome, naquela que seria a mais extensa transmissão de rádio ja ouvida neste país. Mesmo assim, a lista não estaria completa. 

Considerando que um minuto seria necessário para que 30 nomes fossem registrados; as rádios teriam de dedicar mais de 10 dias de sua programação para nominar todos os mortos, no Brasil. Talvez fosse o caso de alguma emissora dedicar-se a essa missão — o que seria um marco na história diante dessa que é a maior tragédia vivida pela nossa geração. Anunciante não faltaria: a programação seria patrocinada pelo Governo Federal – Pátria Amada, Brasil.

O povo da Antártica que se cuide

Na confusa forma de falar e pensar, especialmente quando é exigido dele o improviso —- e como improvisa?!? —-, o presidente Jair Bolsonaro fez uma convocação em favor do turismo no Brasil  que incluiu entre os nossos dotes a Antártica:

“Conheça o Brasil por dentro e por fora. A verdade acima de tudo. Amazônia, Antártica …” —- disse enquanto divulgava um canal de viagens. 

Essa extensão territorial que só cabe nas afirmações do presidente motivou uma série de brincadeiras na internet, que costuma não perdoar. Porém, contaminado por este cenário conspiratório que inclui de tentativa de invasão das nossas florestas por forças estrangeiras a vírus produzido em laboratórios chineses, fiquei preocupado com o improviso de Bolsonaro. 

Teria sido um ato falho? Destes em que o nosso inconsciente fala mais alto e revela desejos íntimos?

Diante de outros atos (também falhos) do presidente, não me surpreenderia em saber que sua Casa Civil —- aquela que faz coisas escondidas do presidente —- estaria, em parceria com seu Ministério das Relações Exteriores e Ministério da Defesa, planejando ocupação da Antártica pelo Brasil. Não seria o primeiro. 

Em 1978, o General Jorge Rafael Videla, ditador, enviou para a Antártica algumas famílias, incluindo uma jovem grávida, de quem nasceu naquele continente um menino, batizado Emílio —- que teria sido a primeira pessoa a nascer na região. A intenção da ditadura argentina era povoar a Antártica e ficar com ao menos um naco do continente, quiçá dominar o todo.

A medida sem sucesso, tresloucada e típica dessa turma, contrariava de forma explícita o Tratado da Antártica, de 1959, assinado pela Argentina e mais 28 países que, no passado, reivindicavam um pedaço de terra (ou de gelo) e depois entraram em acordo, abriram mão de suas pretensões e aceitaram a ideia de que a região deveria ser área livre em nome da exploração científica e em favor da humanidade. 

A propósito: como mostra a história, o ditador argentino em seu sonho conquistador entrou numa fria.

Claro que pode ser apenas ignorância geográfica do presidente ou uma trapalhada provocada por um cérebro preocupado com fantasmas inexistentes (vide os comunistas de plantão) e riscos iminentes (eis aí  a CPI da Covid), mas —- diante de tantos absurdos que já assistimos nos debates internos deste governo —  é sempre bom ficar em alerta. Vai saber o que passa na cabeça de Bolsonaro.

Rituais para ser um líder comunicador

Foto de Thirdman no Pexels

Medo do desemprego, dúvida sobre a possibilidade de ascender na carreira e poucas perspectivas de melhoria financeira têm abalado o otimismo dos colaboradores das empresas no Brasil, segundo estudo realizado pelo LinkedIn. O Índice de Confiança do Trabalhador que mediu a disposição no último trimestre de 2020 ficou em 58 pontos contra os 64 registrados no penúltimo trimestre do ano passado. Para resgatar a confiança dessas equipes de trabalho, além da sinalização de recuperação do país —- que foge do nosso controle —-, é preciso investir em uma das competências mais exigidas dos líderes nos tempos atuais: a comunicação.

É preciso expressar de forma clara ao colaborador a importância dele para a empresa e qual é a visão desta empresa em relação ao projeto de trabalho que ele está envolvido. Em resumo: o profissional tem de ser reconhecido para se sentir pertencente ao grupo. Sem isso, não haverá engajamento. Para que se construa esse relacionamento, a comunicação é essencial, devendo ser realizada de forma transparente, com argumentos consistentes e demonstrando que está acessível — verdadeiramente acessível —- a ouvir e responder as demandas que surgirem.

Acolher o outro e saber transmitir as mensagens que tornarão esse colaborador comprometido com o propósito e as metas da empresa são tarefas do líder comunicador —- essa figura cada vez mais necessária na dinâmica da empresa. 

Na tarde dessa quarta-feira, dediquei-me a conversar com líderes de um grupo empresarial preocupado na criação de uma cultura comunicacional e, em determinado momento, fui provocado a pensar em alguns rituais para o líder estabelecer uma comunicação efetiva com sua equipe. Não titubeei em destacar que o primeiro passo para que um profissional se transforma em um líder comunicador é saber ouvir o outro. Como lembra o consultor Thomas Brieu, entrevistado no programa Mundo Corporativo, em agosto de 2020, precisamos praticar a escutatória — palavra cunhada por Rubens Fonseca em texto no qual nos alerta:

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil”.

No livro Comunicar para Liderar, que escrevi ao lado da fonoaudióloga Leny Kyrillos, trouxemos nove passos para que se percorra o caminho por um diálogo qualificado:

1. Reaprender a ouvir

2. Ouvir étão importante quanto falar

3. Exercitar a paciência

4. Saber perguntar

5. Não demonstrar pressa

6. Atenção na linguagem não verbal

7. Identificar as necessidades do outro

8. Buscar pontos em comum

9. Criar vínculos que fortaleçam as relações

Caso você se sinta à vontade, compartilhe com a gente bons e maus exemplos de comunicação que você já vivenciou em sua carreira. 

“Teje preso!”

Presidente do Senado em foto de Jefferson Rudy/Agência Senado

Em algumas semanas, a despeito do esperneio do Governo, teremos a CPI da Covid como protagonista da cena política e dividindo espaço com o mal que lhe deu origem —- refiro-me a doença e não a quem disparou o gatilho do vírus. Hoje, a temos apenas instalada, o que significa pouco apesar do muito esforço que senadores de oposição tiveram de fazer para convencer o STF a obrigar o presidente do Senado a cumprir a lei. Decisão do ministro Luis Roberto Barroso ratificada pelo plenário do tribunal.

Para que a CPI se inicie é preciso que partidos e blocos indiquem seus representantes —- são 18 no total dos quais 11 são os titulares —- em até dez dias. Feito isso, os membros sentam-se à mesa para decidir quem ocupará o cargo de presidente e de relator da comissão. Uma decisão que é tomada em público mas negociada no particular. Em seguida, começam os trabalhos propriamente dito: levantamento de informações, coletas de provas, apuração de fatos e a convocação de depoentes.

Na entrevista desta quarta-feira no Jornal da CBN, o senador Humberto Costa (PT), indicado por seu partido para ser membro da CPI, já deu a dica: o primeiro convidado tem de ser o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Convidado é forma gentil de falar, porque convidado pode declinar do convite. Em CPI, você vai por bem ou por mal. Queiroga deve ir por bem até porque ao assumir o cargo o estrago já havia sido feito. Estará na CPI para dizer qual a estrutura da pasta, as carências, transmitir dados oficiais e tentar driblar as perguntas mais capciosas que serão feitas para colocá-lo em contradição com o presidente.

Falamos na entrevista também do desafio desta comissão de tocar os trabalhos mesmo com as restrições sanitárias que recomendam o afastamento e o “mandato remoto”. O fato tem sido usado pelos governistas para empurrar a discussão com a barriga —- para ser mais exato: com a vacina.

O líder do Governo no Senado Eduardo Gomes (MDB) teve o despudor de sugerir que a comissão começasse somente quando todos estivessem vacinados. Por favor, caro e raro leitor, não entenda mal: quando o Senador diz todos não inclui você ou eu, ele se refere a ele e a seus colegas senadores: “enquanto a CPI não tiver condição de funcionar com pessoas imunizadas, que não possa funcionar presencialmente”. Ou furamos a fila oficialmente pelo bem do Brasil ou não temos CPI para o bem do presidente Bolsonaro, deve ter pensado em sua intimidade.

Marcos Rogério (DEM), outro dos senadores governistas, disse que “os atos da CPI impõem a presença física. O depoente deve estar presencialmente na comissão para não ser orientado; para não ser constrangido; para não ser ameaçado; e até para decretar prisão, em flagrante” —- será que ele está disposto a dar ordem de prisão ao ex-ministro Pazuello, por exemplo? Seria um escândalo, não!

Argumentos frágeis: desde o início da pandemia, nós assistimos a sessões de julgamento online, em diversos tribunais no Brasil —- com direito a gafes e inconfidências cometidas por juízes, promotores, advogados, réus e testemunhas. Até agora não se viu nenhum advogado de defesa convencer os tribunais de que seus clientes estão tendo o direito cerceado ou estão sendo coagidos porque prestam depoimento à distância. Há inúmeros instrumentos de controle à disposição. Basta boa vontade.

Além disso, nada impede que o “convidado” vá depor presencialmente no Senado e tenha na sala apenas a presença do presidente e do relator da CPI, além de assessores mais próximos —- todos devidamente mascarados. Os demais integrantes da comissão tocam os trabalhos de casa mesmo, via internet.

Quanto a mandar prender, não parece ser um problema, já que a polícia do Senado permanece de prontidão na casa. É só enviar um WhatsApp: “teje preso”! — expressão que entrou para o folclore político das comissões parlamentares de inquérito quando foi usada pela senadora Heloisa Helena (PSOL), contra o presidente do Banco Central, Chico Lopes, durante a CPI dos Bancos, em 1999. 

Apesar de que os senadores devem tomar cuidado, muito cuidado: a Lei Contra o Abuso de Autoridade, em vigor desde janeiro do ano passado e aprovada por eles como retaliação ao comportamento do Ministério Público, em especial aos da Lava Jato, pode ser acionada se algum dos depoentes se sentir desrespeitado pelos parlamentares. Pau que bate em Chico, bate em Francisco, ensina um ditado da terra da ex-senadora Heloísa Helena.

“O exercício da religião é fundamental nesse momento”

Com a devida autorização, reproduzo com destaque neste post, a mensagem, antes privada, enviada pelo Padre Manoel Corrêa Viana Neto, em resposta a texto que publiquei no dia 6 de abril:

Milton a paz! Enviei para ti um argumento plausível e concordo com aquilo que penso sobre a abertura das igrejas, defendida pelo Dr. Taiguara Fernandes de Souza. “Não existe sacramentos virtuais”!


Depois, a pandemia não atinge somente o corpo, mas a psique e a alma e o exercício da religião que não é apenas algo intimista, mas sobretudo comunitário é fundamental nesse momento.

Tenho atendido muitas pessoas que estão sofrendo sobremaneira na alma porque privadas da eucaristia e da participação na igreja.


Quando você fala que somos templos do Espírito Santo, invocando uma passagem de São Paulo aos Coríntios (6,19), não pode esquecer do contexto que esta passagem é citada: o problema da imoralidade e do contra testemunho de cristãos! Ou seja, com uma mentalidade mundana, é por isso que logo a seguir ao versículo por você citado, no 20, ele vai dizer que “fomos comprados por alto preço. Portanto, devemos glorificar a Deus com o nosso próprio corpo”. Isto é, pela fé autêntica e corajosa…


Você já imaginou se os cristãos dos primeiros séculos se intimidassem com a perseguição e se resignassem na sua fé, não celebrando e não se encontrando, mesmo à custa do martírio? Certamente não estaríamos aqui refletindo sobre essa situação…


Já dizia o provérbio latino: “Quot capita, tot sententiae” (quantas cabeças, tantas sentenças). O que me preocupa é o cerceamento de um direito constitucional e soberano: o da liberdade de religião, tanto no foro interno como externo.

Isto é o que eu gostaria de expressar a você no teu post.


Um abraço e que Deus te abençoe!

NB: duas outras mensagens deixadas na área de comentários do blog trazem outros argumentos contrários a minha opinião, exposta no post “É um pecado querer fiéis de joelho nas igrejas diante de um vírus que mata“. Convido-os a ler, refletir e, se entenderem pertinente, deixarem também os seus argumentos, com a mesma generosidade que fizeram aqueles que por lá passaram

É um pecado querer fiéis de joelho nas Igrejas diante de um vírus que mata

Foto Pexel

Sou católico. Praticante. De ir a missa no domingo (sábado à noite para ser mais preciso). De fazer o sinal da cruz. Rezar para fortalecer os pedidos de quem me pede. Ler a palavra. Ouvir a homilia. Não sou crente, não. O que não significa que seja descrente. Apenas que tenho dúvidas e tento resolvê-las na intimidade das conversas que tenho com minha consciência. A religião quase sempre esteve presente na minha vida. Fiz o passo a passo da cartilha, a começar pelo batismo, seguindo na primeira comunhão, crisma e casamento com véu, grinalda e aliança abençoada. Comecei estudando em colégio de freira e conclui no colégio dos irmãos maristas, em Porto Alegre.

De frequentador assíduo na missa da Igreja do Menino Deus, lá no fim da Getúlio Vargas, à presença frequente na capela da Imaculada Conceição, na esquina aqui de casa, tive longos momentos de ausência. Confesso. Só voltei a genuflectir diante do altar quando deparei com o desespero da vida. Dúvidas sobre minha existência. Busca de respostas para meu comportamento. Medo do que seria capaz de fazer com minha vida — não se assuste, nunca pensei em dar um ponto final, apenas não sabia o que viria depois das reticências. 

A pandemia me afastou da igreja. Jamais da reza. Ao contrário. Nunca me apoiei tanto na palavra de Deus como nesses tempos de incerteza

Está aqui na tela do computador, a reprodução de um dos trechos do Livro de Salmos:

Eu olho sempre para o Senhor

pois ele me livra do perigo

Livra o meu coração

de todas as aflições”

E se peço que Ele me salve —- assim como a todos que estão em meu entorno e em meu coração —-, faço a minha parte. Em respeito ao que prezo na religião, que é a fortaleza pela vida, nunca mais voltei às missas presenciais. E assim me manterei forte até encontrarmos uma solução para essa desgraça que vivemos.

Foi com alegria que ouvi a voz do Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, no Domingo de Páscoa:

“… a nossa recomendação de celebrar sem a presença do povo nas igrejas não veio de uma proibição: nossa posição vem da preocupação pela situação da pandemia, que está muito grave, com muitos doentes e mortos”

Lamentei que suas palavras não ecoaram de absides à gárgulas de capelas, igrejas, catedrais e abadias. Em muitos locais o que se ouviu foram falas pedindo pela ocupação das naves; e indignação aos limites que governos e autoridades políticas impuseram; foram padres e asseclas reclamando da ausência de fiéis, comparando nosso esforço em nos mantermos em confinamento a cristãos sepultados em catacumbas. Lamentável!

Em uma das missas online que assisti, no Domingo de Páscoa, o padre, jocoso em sua analogia, questionou a proibição às missa e cultos. Perguntou a si mesmo se o vírus, por católico que fosse, só conspiraria contra os fiéis. E renunciaria à contaminação dos passageiros que são transportados aos montes em trens e ônibus. Antes fosse essa uma verdade. Pois bastaria impedir de vez a presença de pessoas nas igrejas e deixá-las circular livremente pelas cidades no transporte público para contermos o assassinato em massa que estamos assistindo no Brasil.

É claro que qualquer um de nós, obrigados a embarcar em um ônibus ou trem lotado, corremos sério risco de contaminação. Infelizmente, como parar por completo a dinâmica de uma cidade parece ser impossível, interromper o transporte público é inconcebível. Mas temos medidas que podem salvar vidas. Impedir aglomerações, rogar para que empresas aceitem a ideia de ter trabalhadores remotos e incentivar o confinamento àqueles que têm essa alternativa, são algumas medidas que estão a nosso alcance.  

Proibir reuniões religiosas —- assim como políticas, sociais e esportivas, apenas como exemplo —- é saudável neste momento em que vivemos. Nossos compromissos com Deus podem ser cumpridos à distância. Nossa presença em uma edificação santa é simbólica, necessária quando possível, mas não é essencial. Basta lembrar, meu amigo padre, Coríntios 3:16:

“Acaso não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós”

“Dou conforto na passagem e não tormento”

Dra. Isadora Jochims

reumatologista, artista visual

Conheça a história da Dra Isadora Jochims publicada na revista Vogue

Guerra / Não estou em uma guerra /

Cuido de vidas, não ceifo /

Dou conforto na passagem / E não tormento /

Não sou movida a ódio / Mas a amor e afeto /

Não quero ganhar / Quero empate /

Minhas bombas são de infusão / Elas seguram almas /

Seus barulhos são de alerta / E não de explosão e morte /

Não sou um soldado /

Minha vida vale / Não sou um número /

Sou a ponte / Para o outro lado /

Não julgo / Não quero saber seu passado /

Apenas da sua vida /

Agora / O ato / A cura /

Não tenho armas / Nem balas /

Tenho a ciência / O conhecimento das medicinas /

Das prevenções / Do cuidado /

As vacinas /

Estou na linha de frente / E não escondido em uma trincheira /

Na linha da frente / Da vida e da morte /

Não obedeço ordens / Tenho autonomia /

Penso / Existo /

Trato precocemente a loucura / Da disputa e do poder /

Por isso não esqueça / Não estamos em uma guerra! /

A vida é mais do que perder / E ganhar /

Nem tudo vale! /

Me paramento / Se paramente / De amor /

Para a esperança enfim / Renascer em nós!”

Conheça a história da Dra Isadora Jochims publicada na revista Vogue

Maria Lucia Solla fez a passagem

Perde-se vidas todos os dias. Algumas sabemos pelo número. Outras pela história. Há aquelas que conhecemos de perto. Na sexta-feira, fui informado que Maria Lucia Solla “fez a passagem” — foi assim que um dos filhos dela comunicou a morte da mãe. Maria Lucia foi colaboradora de primeira semana neste blog. Em 10 de junho de 2007, escreveu a primeira coluna dominical — espaço em que testou várias de suas formas, sempre mantendo uma linguagem rica, sincera e provocativa. Fez crônica e poesia, fez texto, vídeo e áudio. Não tinha vergonha de se expor, mesmo que às vezes preferisse aparecer na penumbra. Escreveu de tudo: de amor e desabafo — sobre este disse um dia:

“…é vapor que assobia pela válvula, quando se está prestes a explodir. é o que está acumulado há tanto tempo que não dá para represar. É um descarrilar inesperado que faz a gente escorregar, meter as mãos pelos pés, cair, se ralar, levantar, e mesmo sangrando gritar. Para não engasgar, para não sufocar”

“De desabafo”

Conheci Maria Lucia nas aulas particulares de inglês. Ela me apresentou não apenas à língua de Shakespeare. Me fez aprofundar na de Camões. Pois tinha profundeza e generosidade na fala e na escrita. Em 2002, havia lançado “De bem com a vida mesmo que doa” (Editora Libratres), livro que me presenteou no início de nossa relação e me motivou a convidá-la a escrever semanalmente no blog recém-criado.

Aceitou o desafio e o cumpriu com maestria até dezembro de 2015, quando se despediu dos caros e raros leitores deste blog:

“Tem o dia da chegada e tem aquele da partida

É assim com tudo na vida

sem morte depois dela

que disso eu estou convencida”

“De vidas e suas rimas”

Se você se dedicar a escolher um ou outro texto —- ou todos, se desejar e tiver tempo para a boa leitura —-, você conhecerá melhor Maria Lucia Solla. Ela sempre foi transparente nos seus sentimentos. E mesmo que indignada com o que acontecia em seu entorno, mais íntimo ou não, sabia oferecer uma palavra de esperança. Era uma companhia agradável, que se distanciou com o passar do tempo, das viagens e da minha rotina. 

Em meio a tantas mortes que noticiamos e sofremos, registro aqui a da  Maria Lucia Solla porque além de ter sido amiga, fez deste blog algo bem melhor do que seria se tivesse apenas minha presença. É a segunda morte de um colaborador apenas este ano. A primeira foi do amigo Carlos Magno Gibrail de quem tenho saudade diária, pois se não bastasse tudo que já escrevi até hoje sobre ele, também foi meu companheiro de pandemia, com quem conversava semanalmente —- o telefone não tem tocado mais aqui em casa.

Tinha poucas notícias da Maria Lucia nestes últimos anos. Espero, de coração, que a morte — que ela sabia chegaria um dia — tenha chegado como ela desejou em texto de outubro de 2010

“Mas que venha depressa

seja ela o que for

que chegue com muita calma

dançando

rodopiando

sapateando

pra que eu tenha tempo de arrematar da vida

todos os fios

até então tecidos

outros tecer

e resgatar os esquecidos”

“De morte e vida”

Que Marcelo Queiroga abandone o protocolo oficial e assuma logo o sanitário

reprodução GloboNews

No jogo de imagem nem sempre o que se diz é o que se faz, nem sempre o que se faz é o que se é, nem sempre o que se diz e se faz é o que entendem de nós.

Dito isso, vamos tentar entender o papel que cada um dos protagonistas na transição do Ministério da Saúde cumpriu desde a notícia do fim de semana de que o General Pazuello seria demitido do cargo.

O presidente Jair Bolsonaro, animal político, de olho nas pesquisas de opinião —- ele diz que não confia nelas, mas as considera sempre —- e no que a volta do ex-presidente Lula ao palanque eleitoral representa, percebeu que era preciso sinalizar a disposição de mudança. Mudou sem mudar. Jogou às feras a cabeça do fiel general, mas disse que a gestão foi um sucesso —- e aí meu colega de profissão e amigo tricolor Silvio Bressan pergunta em texto: “então por que trocou?” 

Bolsonaro tentou agradar os novos amigos do Centrão ao conversar com a Dra Ludmila Hajjar. Como ele não muda, entre quatro paredes diz o que pensa  e o que pensa não está sintonizado com as boas práticas para combater a Covid-19, a doutora não aceitou o convite. Recorreu, então, a quem o apoia desde as primeiras horas: o cardiologista Marcelo Queiroga. Haja coração (e estômago)!

O General Pazuello, já sentindo o bafo das feras na nuca, na segunda-feira, convocou a imprensa e despejou sobre os brasileiros, com a mesma arrogância com que comandou a pasta, uma quantidade gigantesca de informações sem respaldo na realidade. Apresentou um calendário de vacinação em que na soma tem até imunizante que não completou seu ciclo de testes. Falou que um dos seus legados é a transparência nos números da Covid-19. Motivo de orgulho para os brasileiros, segundo ele. Gente orgulhosa e de memória curta essa, não? Ainda na interinidade do cargo, Pazuello tirou os dados do ar e só retornou depois de assistir à uma reação inédita: veículos de comunicação se reuniram e criaram um consórcio para tabular as informações de mortes e contaminados.

Na primeira aparição pública como futuro ministro, o doutor Marcelo Queiroga chegou dizendo que não vai mudar nada: vai continuar a obra de Pazuello.  Ontem morreram 2.789 pessoas, o maior número já registrado em 24 horas, desde o início da pandemia. Fato, aliás, que não parece assustar o líder do governo, deputado Ricardo Barros que afirmou, agora pela manhã, que vivemos em uma situação confortável. Temo em saber o conceito de conforto que pauta o líder bolsonarista. 


De volta a Queiroga, o futuro ministro que pretende dar continuidade ao trabalho do futuro ex-ministro. Era de se imaginar que ele cumprisse seu papel protocolar ao substituir o general. Bateu continência ao presidente, disse que é Bolsonaro quem manda, que sua tarefa é levar em frente as políticas de Governo no combate à Covid-19 e agradeceu ao antecessor. 

Ouça reportagem da CBN com as afirmações do futuro ministro da Saúde

Posto isso, a expectativa é que haja um oceano entre o que o doutor Queiroga disse até agora como futuro ministro e o que fará assim que tomar posse no Ministério da Saúde. Sim, eu insisto em acreditar na redenção do ser humano. Queiroga terá de reorganizar o ministério; rever os desmandos militares e sem noção de Pazuello e sua tropa; encontrar caminhos para que as doses de vacina cheguem com maior rapidez no Brasil e com a mesma agilidade sejam distribuídas; estancar a sangria de dinheiro com medidas ineficazes; fazer o presidente calar a boca; e, principalmente, liderar uma campanha nacional e unificada de combate à Covid-19, adotando todas as ações que, desde o primeiro dia, têm sido recomendas pelos maiores especialistas de saúde:

Defender uso radical de máscara — inclusive obrigando o presidente a fazê-la; a lavagem  exagerada de mãos com álcool gel; e o bloqueio de atividades e circulação em todas as cidades e Estados em que a taxa de transmissão seja alta, incentivando o distanciamento social. 

Se desconsiderar as palavras de ordem do presidente Bolsonaro, deixar o protocolo oficial de lado pelo protocolo sanitário, Queiroga terá cumprido sua missão salvando vidas.

Se seguir à risca os pensamentos do presidente, deixará o cargo com o jaleco manchado de sangue da mesma forma que o General Pazuello manchou a farda do exército brasileiro.