Com arte, criação e produção de Renato Avanzi e sua equipe,“É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” foi apresentado na série reLeitura, com um resumo dos principais pontos abordados no livro que lancei em 2018. Falo da construção de uma relação saudável entre pais e filhos para que possamos criar um ambiente ético na sociedade. Assista ao vídeo, compre o livro agora e depois deixe a sua opinião aqui no Blog
MÍLTON JUNG
Lágrimas pela vacina

Morei em um sobrado, na Saldanha, em Porto Alegre. Em cima, ficávamos nós. Na parte de baixo, Seu Juvenal e Dona Mulata. Eles estavam lá desde antes de a minha família se mudar para o Menino Deus, assim que nasci. Eram os padrinhos do meu irmão mais novo; ele era um senhor com ar divertido, ela, enfermeira. Atendia em um hospital e nas horas vagas, acudia a gente, especialmente quando tínhamos de tomar injeção.
Apesar de serem vizinhos de teto, a mãe nos levava pela mão, pois sabia que se tivéssemos oportunidade sairíamos em disparada —- você haverá de concordar comigo que injeção nunca foi do agrado das crianças. Ficou na memória o cheiro do álcool e da água fervendo, usados para esterilizar a seringa e a agulha em um caixa de metal. Naquela época, era comum as famílias terem um equipamento próprio, que passava de pai para filho, de um irmão para outro. Aplicada a injeção, lavava-se, esterilizava-se e … próximo. Fazia o máximo para ficar por último na fila, sob a ilusão de que pudesse adiar a sessão para outro dia. Não tinha como escapar, era cerrar os dentes, sentir a lágrima escorrendo no rosto e aguentar a picada da agulha.
Como a família segue morando na mesma casa, em Porto Alegre, quando vou visitá-la e entro no corredor do andar de baixo, onde viviam Seu Juvenal e a Dona Mulata, o cheiro característico da injeção exala da minha memória. O mesmo cheiro que transpassou minhas narinas na tarde desse domingo, enquanto assistia à cena mais desejada desde o início dessa tragédia que vivemos. A agulha aplicada no braço esquerdo de Mônica Calazans, enfermeira, como Dona Mulata, negra e voluntária nos testes da Coronavac, abria uma célula de esperança em cada um de nós que sonhamos em nos ver livre dessa desgraça que se transformou o Sars-Cov-2.
As vacinas de agora não são mais aplicadas em seringas e agulhas reaproveitáveis; a caixinha de alumínio foi substituída pelo plástico e virou peça de antiquário; o cheiro de álcool e água fervendo é dispensável; e a tecnologia disponível nos laboratórios para produzir remédios injetáveis está centenas de vezes mais desenvolvida do que na minha infância. Se naqueles anos havia negacionistas, não circulavam na minha casa. Meus pais sempre tiveram a preocupação de nos oferecer o que havia de mais apropriado para proteger nossa saúde —- doesse a quem doesse.
Lembro porém de anúncios na televisão para convencer às famílias a participarem das campanhas de vacinação. Sujismundo, o moço de cara simpática e maus hábitos dos comerciais produzidos pelo Regime Militar, era o protagonista e aparecia na tela dizendo que “não quero tomar espetadas inúteis, afinal não estou doente”. Era convencido pelo filho, pelas palavras do médico e pela lei imposta pelo Governo que suspendia o salário-família se as crianças não fossem vacinadas. Isso mesmo, os militares daquela época —- mesmo diante de todas as atrocidades cometidas e de crimes contra os direitos humanos —- eram a favor da vacinação, faziam campanha publicitária e obrigavam as pessoas a tomar a injeção.
Com um mês de atraso, em relação aos principais países do Mundo, o Brasil iniciou hoje a vacinação contra a Covid-19 —- ainda temos poucas doses e apenas um tipo de vacina, apesar de a Anvisa também ter aprovado o uso do imunizante de Oxford/AstraZeneca. Como você, caro e raro leitor deste blog, já deve saber, o Governo Federal —- leia-se Jair Bolsonaro e General Pazuello — foi incompetente para colocar a vacina à disposição dos brasileiros e mesmo com acesso a Coronavac, importada pelo Instituto Butantan, vai guardar os frascos para iniciar seu programa de vacinação na quarta-feira, nas capitais brasileiras. “Não entendo essa ansiedade”, deve pensar com os botões de seu pijama o General da Banda.
Perdão, não quero incomodar você neste momento com um discurso contra a insensatez, por mais relevante que seja. Quero reservar este domingo para agradecer a quem construiu essa história, pesquisou no laboratório, aprofundou seus estudos, compartilhou conhecimento e nos proporcionou uma vacina que reduzirá o risco de continuarmos diante desta mortandade que já nos levou cerca de 210 mil pessoas, apenas no Brasil. Quero guardar na memória — assim como o cheiro do álcool e da água fervendo — esse dia em que a vacina me levou mais algumas lágrimas — diferentes daquelas de uma criança medrosa, na casa da Dona Mulata. Lágrimas de alegria por ver que a riqueza e inteligência do ser humano ainda podem nos salvar; e de saudades por aqueles que se foram sem ter tido essa oportunidade.
A Democracia venceu nos EUA; vencerá no Brasil?

Havia uma sensação de ressaca que me anuviava os olhos quando acordei nesta quinta-feira. Nem mesmo o céu pintado com nuvens vermelhas do sol de verão, que acorda cedo aqui em São Paulo, tornava o cenário mais claro. A imagem e a mente estavam ofuscadas pela barbárie e ignorância que os Estados Unidos proporcionaram ao Mundo ao longo do dia de ontem, desde que o grupo de alucinados, sob o comando de Donald Trump, iniciou a subida nas escadarias do Capitólio —- alguns preferiram arrombar janelas e portas secundárias. Quando fui dormir era tarde, e pouco se sabia como a primeira e mais longeva Democracia da Era Morderna resistiria aos ataques.
Prestes a entrar no ar na CBN, pouco depois das 5 e meia, chegou a informação que tornaria o horizonte mais amplo nessa manhã: a sessão do Congresso, que havia sido retomada, após a expulsão dos antidemocratas, acabara de certificar a vitória de Joe Biden à presidência. Ou seja, senadores e deputados respeitaram o voto do cidadão. Provavelmente estávamos noticiando naquele instante o resultado mais importante de todas as sessões de certificações já realizadas desde a posse de George Washington, em 1789.
Como saberíamos pouco depois, na conversa com Walter Fanganiello, em Justiça e Cidadania, a certificação é um dos rituais mais tradicionais da democracia americana. Uma formalidade que tem simbolismo histórico. James Madison, um dos pais da federação e o maior nome da Constituição dos Estados Unidos, de 1787, assinalou na época que “a ratificação do resultado eleitoral pelo Parlamento era uma forma de chamada à unidade nacional” —- enfatizou meu colega. Embora soubesse que as 13 colônias britânicas, fundadas em 1607 e 1682, estivessem amadurecidas e expressassem o sentimento de nação democrática, entendeu por bem Madison comprometer todos os representantes dos estados federados —— deputados e senadores —- evitando qualquer tentativa de cisão.
Trump buscou desconstruir a história americana ao incentivar seus seguidores a interromperem pela força um ritual democrático e dividiu o país. Não respeitou esse ritual, assim como jamais respeitou os próprios valores que levaram à construção dos Estados Unidos da América. Ao longo dos quatro anos de mandato interferiu nas instituições, contaminou a independência de poderes, colocou a nação de costas aos interesses multilaterais e com palavras e atos buscou corroer os sistemas político e eleitoral, questionando sua legitimidade a partir de mentiras que ele próprio patrocinava.
E palavra de presidente tem uma força extraordinária, alertou o ex-embaixador Rubens Barbosa, que por cinco anos representou o Brasil em Washington, em entrevista ao Jornal da CBN. Sem que Trump tivesse incitado seus apoiadores a invadir o Capitólio, não teria havido o que o embaixador chamou de “insurreição” e “ataque sem precedentes à democracia”. Diplomata nos gestos e no comportamento, Barbosa preferiu não admitir que a lição a ser aprendida fosse um recado ao presidente Jair Bolsonaro, mesmo que as descrições que tenha feito de movimentos de intolerância e desrespeito que se reproduzem em outras partes do Mundo nos remetessem a imagem do “Trump Mequetrefe” que temos aqui no Brasil.
Na conversa diária com Miriam Leitão, o recado foi mais explícito. Nossa comentarista chamou atenção para a necessidade de fortalecermos a democracia brasileira, impedindo que os atos ocorridos nos Estados Unidos se repitam por aqui, em 2022. Trump e Bolsonaro “são do mesmo DNA: governos de direita extrema populista e líderes que desprezam as regras democráticas”, disse Miriam. É uma gente —- e aí sou eu que estou dizendo —- predisposta a golpes institucionais, mesmo que todas as vezes que são expostos a essa verdade e ao escrutínio da justiça ou do jornalismo profissional se revelem covardes.
A manhã não havia se encerrado e o presidente Jair Bolsonaro — que parece ter assistido com prazer e sadismo às cenas no Capitólio, que resultaram na morte de quatro pessoas —-, com suas palavras, voltava a ameaçar a democracia brasileira, em uma retórica que vem construindo desde que foi eleito: “se não tivermos voto impresso em 2022, vamos ter problema pior dos que os Estados Unidos”. O discurso é mambembe, porque é desprovido de lógica e provas, mas tem capacidade de mobilizar sua turba —- como já havia feito diante de um quartel àqueles que pediam um golpe militar ou em direção aos que cercaram e explodiram fogos contra a sede do STF. Nas duas situações, vozes e instituições protegeram nossa democracia, e o presidente recuou.
A “Democracia não foi interrompida nos Estados Unidos”, a despeito do esforço de Trump e sua turba, observou Pedro Doria, em outra das conversas de primeira que tive a oportunidade de participar durante o programa matinal. O fato é que se mesmo em um país no qual o regime democrático está estabelecido há mais de 200 anos, ainda existam forças internas capazes de ameaçá-la, devemos estar alertas para os sinais emitidos por grupos e milícias que atuam em países como o Brasil, onde a democracia é intermitente. Para protegê-la, temos de responder aos atos antidemocráticos com mais democracia, fortalecendo as instituições, o livre direto do cidadão se expressar e, por consequência, a liberdade de imprensa, que se exerce com veículos de comunicação independentes e jornalismo profissional.
Governador e prefeito decretam “elixir da juventude” e cortam o direito de parte de idosos viajarem de graça, em São Paulo

O presente de Natal que o governador João Doria e o prefeito Bruno Covas deram aos idosos chegará em Fevereiro, depois que os “bons velhinhos” decidiram prorrogar em um mês a entrada em vigor da regra que proíbe as pessoas de 60 a 64 anos de viajarem de graça nos ônibus da capital, na EMTU, no Metrô e na CPTM. A extinção da gratuidade deveria começar em 1º de Janeiro, mas Governo e Prefeitura deram um mês para que os passageiros se adaptem ao novo sistema.
A coisa é mais ou menos assim: o senhor e a senhora que antes tinham o cartão do idoso deixaram de ser idosos; agora são passageiros comuns. Terão um mês para trocar este cartãozinho que permitia viagens de graça por um cartão comum, no qual você pagará tarifa cheia, ajudando os cofres das empresas que exploram o serviço de transporte. Para provar que a fonte da juventude descoberta por Doria e Covas funciona, além de pagar a passagem, já que você não é mais idoso, ainda terá de buscar o seu novo cartão em um posto da SPTrans. Faz o pedido pelo site, mas busca no posto.
Falei do assunto nessa segunda-feiras no Jornal da CBN e pisei na bola. Disse a Raquel, ouvinte que mandou mensagem pelo WhatsApp, que a extinção da gratuidade havia sido decidida administrativamente. Meia verdade.
Vamos aos fatos:
O governador João Doria editou decreto suspendendo a regulamentação da legislação que permitia a gratuidade para essa faixa de idade, alterando a Lei nº 15.187, de 2013.
No caso da prefeitura, Bruno Covas teve de aprovar a mudança na Câmara Municipal de São Paulo. Portanto, o prefeito contou com o apoio de vereadores e, para isso, usou de uma estratégia comum e capciosa da política brasileira: a criação de jabutis.
Jabuti é a inclusão de uma lei, um artigo ou uma regra que trata de um tema em um projeto que dispõe de outro assunto.
No caso, o projeto de lei em discussão era o de número 89/2020, do prefeito Bruno Covas, que “dispõe sobre a criação de subprefeituras no município de São Paulo”. O que as subprefeituras tem a ver com o quanto você paga para viajar de ônibus na cidade? Só um jabuti (ou um tucano) para explicar.
Nesse projeto de lei (o 89/2020), o artigo 7º revoga trechos de outras leis que nada tem a ver com subprefeituras. E no inciso IV —- aqui está a pegadinha — revoga a lei número 15.912 de 16 de dezembro de 2013 que é a que isentava idosos a partir de 60 anos de pagar a passagem de ônibus na cidade.
Você que é atento, já percebeu a coincidência: as duas leis que garantiram a gratuidade são de 2013 —- época das manifestações de rua no Brasil, que pressionaram Fernando Haddad, na prefeitura, e Geraldo Alckmin, no Governo, a oferecer transporte de graça aos idosos.
O Projeto de Lei 89/2020 que traz o “elixir da juventude”, na cidade de São Paulo, foi aprovado em votação simbólica no plenário da Câmara Municipal, em 22 de dezembro. Essa é outra manobra típica de quem tem medo de assumir decisões impopulares, pois em votação simbólica não há registro individual do voto e os vereadores não precisam se expor.
Quatorze dos 54 parlamentares em plenário fizeram questão de registrar votos contrários ao projeto. São eles, segundo site da Câmara:
ALESSANDRO GUEDES – PT
ALFREDINHO – PT
ANTONIO DONATO – PT
ARSELINO TATTO – PT
CELSO GIANNAZI – PSOL
CLAUDIO FONSECA – CIDADANIA
EDUARDO MATARAZZO SUPLICY – PT
ELISEU GABRIEL – PSB
GILBERTO NATALINI – S/PARTIDO
JAIR TATTO – PT
JANAÍNA LIMA – NOVO
JOSÉ POLICE NETO – PSD
SENIVAL MOURA – PT
SONINHA FRANCINE – CIDADANIA
Considerando que os demais 40 registraram presença e não se pronunciaram contrários ao projeto, pode-se dizer que apoiaram a ideia de acabar com a viagem de graça dos idosos. São eles:
ADILSON AMADEU – DEM
ADRIANA RAMALHO – PSDB
ANDRÉ SANTOS – REPUBLICANOS
ATÍLIO FRANCISCO – REPUBLICANOS
AURÉLIO NOMURA – PSDB
BETO DO SOCIAL – PSDB
CAIO MIRANDA – DEM
CAMILO CRISTÓFARO – PSB
CELSO JATNE – PL
CLAUDINHO DE SOUZA – PSDB
DALTON SILVANO – DEM
DANIEL ANNEMBERG – PSDB
EDIR SALES – PSD
FÁBIO RIVA – PSDB
FERNANDO HOLIDAY – PATRIOTA
GEORGE HATO – MDB
GILBERTO NASCIMENTO – PSC
GILSON BARRETO – PSDB
ISAC FELIX – PL
JOÃO JORGE – PSDB
JULIANA CARDOSO – PT
MARIO COVAS NETO – PODEMOS
MILTON FERREIRA – PODEMOS
MILTON LEITE – DEM
NOEMI NONATO – PL
PATRICIA BEZERRA – PSDB
PAULO FRANGE – PTB
QUITO FORMIGA – PSDB
REIS – PT
RICARDO NUNES – MDB
RICARDO TEIXEIRA – DEM
RINALDI DIGLIO – PSL
RODRIGO GOULART – PSD
RUTE COSTA – PSDB
SANDRA TADEU – DEM
SOUZA SANTOS – REPUBLICANOS
TONINHO PAIVA – PL
TONINHO VESPOLI – PSOL
XEXÉU TRIPOLI – PSDB
ZÉ TURIN – REPUBLICANOS
O vereador OTA, do PSB, estava ausente, segundo registro oficial da Câmara Municipal de São Paulo.
A morte do amigo Carlos

Éramos tricolores, um de São Paulo e o outro do Rio Grande do Sul. Isso não nos separava. Era ponte para conversas. Nem só de futebol falávamos em almoços anuais, telefonemas esporádicos e trocas de mensagens frequentes. Carlos era muito bem informado de tudo que acontecia e escreviam. Daí que a fronteira do futebol era facilmente ultrapassada para a política, a economia, a história, o comportamento, a moda, o meio ambiente … uma quantidade desafiadora de assuntos que ele provocava e eu me esforçava para acompanhar.
“Você leu … ?” era a pergunta que o Carlos costumava fazer quando queria comentar de algum artigo publicado na imprensa —- ele jamais abandonaria o hábito de ler jornais e tinha, claramente, preferência pela Folha, assim como era assíduo ouvinte do Jornal da CBN. Demorei para escapar da armadilha da minha ignorância. Aprendi que o melhor a fazer era responder com outra pergunta: “o que ele disse?”. Dali pra frente vinha o resumo e a análise crítica independente — e esse era outro privilégio de conversar com o Carlos, porque seu pensamento não estava envencilhado a dogmas e mitos. Sabia discernir certo e errado por conta própria.
Pelo tempo do verbo em que escrevo este artigo ou se você, caro e raro leitor deste blog, já tiver lido o post anterior haverá de saber que o Carlos não está mais com a gente. Morreu no primeiro do ano. Era “o amigo que agoniza, ainda não sei” — lembrado na crônica que abriu este blog em 2021. Se havia tristeza naquele texto, muito dela era pela dor que sentia no coração desde que soube que ele foi internado na noite de Natal após ter sofrido um AVC, em estado grave.
Leia “Carlos Magno, um homem à frente do seu tempo”, escrito por André Gibrail
Triste mas cultivando esperança nas reservas intelectuais e físicas que o Carlos acumulou em seus 78 anos de vida, pedia a Deus todas as manhãs que o trouxesse de volta. Repeti a súplica na manhã de primeiro de Janeiro —- seria minha última tentativa. Carlos morreu à tarde. Soube depois que a pandemia havia consumido boa parte de sua energia, que vinha tentando recuperar nos treinos de tênis supervisionados pela filha Elaine.
Que vergonha! Durante todo este tempo, o Carlos ouviu minhas queixas, meus relatos de ansiedade, depressão e tristeza, e eu não lhe dei espaço para contar de seus desafios. Ou não soube entender sua mensagem ou ele próprio tomou cuidado de me proteger de más notícias ao perceber meu desalento. Ele nunca baixava a guarda, sempre me reconfortava e depositava confiança na retomada das atividades, acreditava que poderíamos sair melhores desta crise e lembrava de como as ideias que cultivou no passado se realizavam neste momento —- há muito, defendia, por exemplo, que o varejo migrasse para o eletrônico e reinventasse o conceito de loja física. Estava entusiasmado com o filho mais novo, Rodolfo, que fazia vestibular online e acabara de passar no curso de Direito. Eu não fui capaz de ver que nesse esforço para manter a minha, a nossa energia, o Carlos estava se desabastecendo. Seu tempo estava se encerrando.
“Todos sabem que o tempo é um dos mais preciosos bens à nossa disposição. E, por isso, é algo escasso, que deve ser bem administrado”
Com essa frase iniciou seu primeiro texto publicado neste blog, em 11 de junho de 2008 — era o mais longevo dos colaboradores. Transformou a prática da escrita em missão semanal e a usou para provocar temas, defender ideias inovadoras, criticar propostas retrógradas e relembrar histórias. Nos últimos tempos, sua atenção, nos textos e no trabalho, estava dedicada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, participava do pacto Global no Grupo de Excelência do CRA-SP e incentivava o debate no mercado de moda para reduzir o impacto ambiental das confecções.
Sua preocupação com o meio ambiente vem de épocas distantes — cultivada em Paraty, no Rio de Janeiro, onde nasceu, e estendida a São Paulo, cidade em que viveu, desde 1947, e nos aproximou. Atuava em defesa da preservação do espaço verde nos bairros, denunciou derrubada de árvores na região do Morumbi, em que morou, e fazia de sua indignação textos capazes de mobilizar centenas de pessoas.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo de Carlos Magno Gibrail
Um dia antes de iniciar o seu martírio, conversou com o Alexandre, um de seus quatro filhos, sobre Grêmio e São Paulo que jogariam à noite, pela Copa do Brasil. Ouviu considerações, fez observações e chegou a conclusão que Renato tinha capacidade de montar um time que anularia o seu tricolor e isso seria fatídico: “… pelo menos o Mílton estará contente”, concluiu.
Se a generosidade que o Carlos me ofereceu, eu nunca mereci, a confiança que depositou em mim, mudou meu comportamento; sua inteligência em pensar, me desafiou; sua opinião, me pautou e sua elegância em vestir e se comportar, foi referência.
Carlos, obrigado por tudo que me ensinou; desculpe-me, por tudo que não aprendi!
Leia os artigos de Carlos Magno Gibrail que escreveu em 11 anos dedicados ao Blog
As notícias de jornal no primeiro do ano

Comecei cedo o ano, como começo todos os meus dias. Se o despertador não chama, os gatos chamam. Querem comida —- apesar de que desconfio de que, como eu, buscam é companhia, porque a comida está lá a espera deles, nos dois pratos espalhados no chão da cozinha, com direito a água ao lado da geladeira. Desço, converso em voz baixa para não acordar os de casa, eles fazem de conta que me entendem e seguem seu destino. A mim cabe dar início ao ritual dessas manhãs de folga na redação: preparar o café na máquina e abrir o jornal no celular.
Espero o apito da cafeteira, que marca o fim de seu trabalho e o início de uma maratona de cafés que servirei para mim mesmo durante toda a manhã, e estou curioso para ver a primeira página dos jornais neste primeiro do ano —- geralmente é uma edição limitada a fotos de festas nos principais pontos turísticos do mundo. Mas hoje é “2021”.
Este ano foi diferente —- caramba, vamos continuar usando essa frase para descrever o ano em que vivemos —, havia mais notícias de saúde e doença do que fotos de réveillon. Até ensaiaram um colorido nas estátuas, pontes e praças históricas que nos acompanham desde sempre, mas o vazio de pessoas anuviou a imagem da festa. Nem o Brexit que finalmente começou — e seria motivo de escandalosas manchetes —- convenceu os editores a mexer na diagramação do primeiro de ano.
Menos mal, porque assim havia pouco espaço para reproduzir mais uma asneira do presidente de plantão que dentre tantas bobagens ditas ao vivo, chamou de ilusão o uso de máscara para combater a Covid-19 —- em mais uma negação a tudo que o conhecimento científico nos ensinou ao longo dos tempos. Se o moço tem um mérito é o fato de ser ignóbil convicto, do primeiro ao último dia do ano.
Nesta primeira edição de 2021 dos jornais também encontrei reportagens sobre a esperança que novas administrações municipais nos oferecem e os tremendos desafios que os prefeitos terão de enfrentar —— pouco me importa, eles sabiam o que os esperavam, e se douraram a pílula para angariar votos, que tratem de mantê-la brilhando em punho próprio e com o pouco dinheiro que têm em caixa.
Por sua vez, os colunistas —- cada vez mais fundamentais para a existência dos jornais —- tendem a nos oferecer textos bem acabados, pensamentos provocadores e um tanto de conhecimento. Costumo parar por mais tempo diante dos meus favoritos. Gosto dos que tratam do cotidiano, mas não só deles. Às vezes, sou surpreendido com autores para os quais nunca havia dado atenção —- por preguiça, por falta de tempo ou pelo hábito de sempre ler os mesmos.
Enquanto leio e já entornei minha terceira xícara de café, o céu ficou nublado e as primeiras gotas de 2021 começam a cair sobre mim — e aqui não há nenhum exercício poético ou mensagem subliminar, é a chuva mesmo. Sou obrigado a trocar de cadeira sem trocar de tarefa: encontrar em meio aos textos uma mensagem que me revigore para enfrentar o ano. Desejo fugaz.
Nada que encontrar no dia de hoje vai mudar o que foi o de ontem. E o que será o de amanhã. Os amigos que perdi não voltarão; o amigo que agoniza, ainda não sei. A vida não zera no primeiro do ano — como se fosse um jogo eletrônico —, até porque seria muito chato termos de repetirmos todas as fases, aprendermos tudo de novo, reconhecer as pessoas que amamos, e descobrir, em tempo, que são elas a quem devemos o nosso amor. Imagine cometer os mesmos erros de antes, encarar toda a jornada de enganos até aprender a lição final —- logo agora em que estou em um momento da vida em que só peço a Deus que me livre dos meus pecados e se quiser que eu preste contas pelo que fiz que o faça quando encontrá-Lo e não aqui em vida. Que Deus me ouça!
Até amanhã!
O Natal no Morro da TV

A história de Natal que vou contar, o caro e raro leitor de boa memória deste blog haverá de lembrar. Em um e outro texto, já rabisquei algumas reminiscências natalinas em família lá na minha casa de Porto Alegre —- trato-a como minha porque no bairro do Menino Deus morei desde os primeiros anos de vida até o dia em que embarquei para São Paulo e mesmo que isso tenha ocorrido no século passado, e algumas mudanças tenha sofrido, as paredes, o piso, o telhado ainda estão tomados por minhas memória afetivas.
Tão tradicional quanto a Missa do Galo à meia-noite era o ritual em família a espera do Papai Noel, no dia 24 de Dezembro. Enquanto fomos crianças, mantivemos a cerimônia que se iniciava no meio da tarde com um rigoroso banho de chuveiro sob a supervisão da mãe: “esfrega atrás da orelha”, “ensaboa a cabeça”, “não esquece de secar bem os dedos do pé”. Roupa nova e cabelos penteados, meu irmão, minha irmã e eu corríamos para o carro em que o pai nos levaria para passear. O destino sempre foi o mesmo: o Morro da TV, a poucos minutos de casa.
Por mais curta que fosse a viagem, a ansiedade nos acompanhava até o alto daquele morro. Nem tanto pelo belo visual que tínhamos disponível, com boa parte da orla do Guaíba no horizonte; ao fundo a chaminé do Gasômetro, ainda sem o restauro que lhe transformou em ponto turístico; e os prédios que marcavam a geografia do centro da cidade. Sabíamos que a saidinha era estratégica. Seria em tempo suficiente para o Papai Noel chegar e deixar os presentes embaixo da árvore —- se ficássemos em casa haveria o risco de flagrarmos o bom velhinho e quebraríamos a magia que ainda inundava nossas mentes.
Naquela época, não éramos apenas nós que subíamos o Morro. Outras crianças podiam ser encontradas lá em cima, sempre acompanhadas de perto pelos pais. As mães … bem, as mães curiosamente não apareciam. Deviam ter o mesmo problema que a minha que alegava compromissos de última hora para não nos acompanhar no passeio: aprontar os pratos da ceia, era o mais comum; outras vezes era a necessidade de dar os últimos retoques na limpeza da casa. As mães realmente faziam muitas coisas. Tinham tantos afazeres que nunca percebiam a passagem do Papai Noel. Ele entrava, deixada os presentes, dava no pé e elas juravam que não tinham sequer ouvido algum barulho: — Bah, Mãe! Ano que vem vê se presta atenção!
Assim que voltávamos, já era possível ver o colorido das luzinhas da árvore de Natal refletindo no vidro da porta. Mal a mãe nos recebia, subíamos correndo a escada sem dar bola para o alerta do pai: cuidado para não cair. Cair? Nós nos jogávamos no chão para identificarmos os nossos nomes nas caixas de presente espalhadas entorno da árvore. Pelo tamanho e formato tentávamos descobrir o que havia dentro. O cheiro dos pratos no fogão e o som com as músicas natalinas gravadas em uma fita K-7 preenchiam o ambiente, enquanto desembrulhávamos os pacotes. Tão excitante quanto saber a surpresa que nos havia sido reservada, era ver o que os irmãos tinham recebido —- os da minha irmã mais velha nem podia tocar; os do meu irmão mais moço, eram nossos.
Hoje não tem mais o pai nem a mãe. Também não sou mais o guri de calça curta daquele tempo. O Morro da TV foi tomado por facções criminosas e as famílias não são bem-vindas. Nem de casa podemos sair, sob o risco da contaminação. A despeito de transformações e restrições, persisto na ideia de acreditar que o Natal se faz presente todo o ano para nos lembrar que podemos sempre renascer, reinventar nossos caminho, reforçar nossas amizades, rever nossos comportamentos e nos renovarmos diante de Deus.
Feliz Natal!
Coronavac: comunicação equivocada prejudica confiança em vacinas

Hoje cedo recebi alerta no WhatsApp de uma amiga querida. Não eram felicitações de Natal nem um desejo de um 2021 próspero. Era vídeo que roda na internet há uns seis meses com imagem do site do Instituto Butantan no qual aparece a embalagem de vacina produzida pela Sinovac com texto em português e data de fabricação de 9 de abril — o vírus havia chegado há pouco mais de um mês por essas bandas. O autor da gravação, de quem temos apenas a voz, propaga a teoria de que os chineses é que criaram o vírus e por isso já tinham o imunizante pronto para faturar em cima da tragédia e estariam em conluio com o governo paulista, que teria assinado acordo com a Sinovac no ano passado. Antes de eu enviar o texto que desmontava a teoria de conspiração do autor anônimo, a mensagem no meu WhatsApp foi apagada pela própria emissora — ainda bem.
Leia aqui a checagem feita sobre o vídeo com informação falsa que circula na internet
Igual a essa existem outras centenas de informações falsas circulando nas redes, reproduzidas indevidamente por gente assustada, desconfiada ou mal-intencionada. Não bastasse isso, ainda temos um presidente negacionista, que levanta a possibilidade de virarmos jacaré e falarmos fino caso sejamos submetidos à “vacina chinesa”. O terreno para esse tipo de asneira é fértil não apenas no Brasil — mas aqui principalmente porque adubado por um discurso genocida.
Desde que o vírus aterrissou no país, uma força-tarefa científica se expressou nos meios de comunicação e nas redes sociais ajudando a esclarecer ponto a ponto, coroa a coroa, tudo que surgia de informação do Sars-Cov-2. Doutores e pesquisadores transformaram-se em porta-vozes do conhecimento alertando para os riscos, identificando as formas de prevenção, analisando estudos publicados e orientando sobre as novidades divulgadas pelos laboratórios. Foram heróicos para tentar nos imunizar do vírus da desinformação. Pena que essa vacina que usaram não foi capaz de tornar imune o rebanho —- o gado é resistente.
No ambiente em que estamos, no qual a mentira contamina tanto quanto o coronavírus, comunicação honesta e transparente é fundamental. Os sucessivos adiamentos dos resultados dos testes finais da Coronavac, pelo Butantan e o Governo de São Paulo —- tivemos mais um nesta quarta-feira —- são munição para essa turba que tenta atacar a confiança da população brasileira no programa de vacinação.
Sabe-se que o tempo da ciência tem um relógio próprio que não segue necessariamente a cadência da sociedade contemporânea, sempre em busca de soluções para ontem. Não é recomendável que os cientistas acelerem seus estudos além do razoável e deixem de respeitar as etapas e os controles de segurança e eficácia. Assim como é fundamental que suas descobertas estejam sempre disponíveis para o escrutínio da comunidade científica — o ceticismo é um dos pilares do ethos científico ao lado do universalismo, do compartilhamento e do desapego material.
A velocidade com que se conseguiu responder ao avanço deste coronavírus com os processos para se desenvolver tecnologias já usadas anteriormente tanto quanto a criação de novos conhecimentos na fabricação de vacinas é motivo de orgulho para a humanidade. Nunca se realizou testes e se desenvolveu imunizantes com a agilidade vista neste momento. Imagine que ao menos nove países já estão vacinando as populações mais suscetíveis à doença. E esse número vai crescer de forma contundente antes do fim do ano com o início da vacinação na comunidade europeia.
Por um alinhamento de fatores que passam pela irresponsabilidade do Governo Federal, disputas políticas, falta de planejamento e decisões equivocadas quanto ao investimento para a compra de vacinas, o início da imunização no Brasil será apenas no ano que vem. Na melhor das hipóteses em janeiro. Uma frustração que aumenta a cada novo prazo não cumprido. Semana passada, o Instituto Butantan já havia prometido os resultados finais dos testes da Coronavac e a entrada do pedido de autorização na Anvisa. Alegou-se a necessidade de as informações serem divulgadas simultaneamente na China e no Brasil. Marcou-se nova data — este 23 de dezembro. O máximo que se conseguiu dizer agora é que a vacina é eficaz —- o que não seria pouca coisa, não houvesse a promessa dos políticos a nos iludir.
A justificativa desta vez é que a Sinovac quer antes olhar os dados do Butantan e apenas depois fazer o anúncio oficial; e o contrato entre a instituição paulistana e a fábrica chinesa prevê que a divulgação deve ser simultânea. O que, convenhamos, já era sabido por todas as partes. Ou só hoje o Butantan soube disso? Deixa-se a impressão de que a pressão política leva o instituto a fazer anúncios que não é capaz de cumprir e, assim, ludibria a opinião pública.
A comunicação ineficiente de uma vacina eficaz e segura — e há todos os motivos para crer que será eficaz e segura — somente beneficia aqueles que querem destruir a credibilidade da ciência, os negacionistas e genocidas.
Abuso do deputado Fernando Cury, em plenário, atenta contra as mulheres, a sociedade e a Democracia
A cada nota ou notícia com fatos do assédio de um deputado paulista à colega em plenário aumenta um grau no meu termômetro de indignação. Falei do caso no Jornal de sexta. Após a reportagem, compartilhei com o ouvinte minha posição diante do assunto —- a qual voltarei a registrar aqui. Relutei em retomar o tema neste blog, por imaginar que pouco teria a dizer, aos caros e raros leitores, além do que está gravado e, principalmente, do que jornalistas mais bem preparados, mulheres bem posicionadas e analistas disseram desde a divulgação do vídeo. Engano meu. Sempre há o que dizer. Sempre temos o que dizer. Por que todos têm. E usam seu direito à palavra.
Na sexta-feira, assim que comentei a vergonha do ato do deputado Fernando Cury (afastado do Cidadania) contra a deputada Isa Penna (PSOL), o primeiro e-mail que recebi foi de um ouvinte me alertando que o jornalista deve ser imparcial diante da notícia —- mensagem que se repete toda vez que o jornalista noticia ou comenta um fato que vá no sentido contrário daquilo que pensa o mensageiro.
Hoje, em nota no painel da Folha, soube-se que 15 deputados estaduais de São Paulo —- entre homens e mulheres — também se sentiram no direito de se expressar e foram ao gabinete de Cury se solidarizar —- sim, eu disse no de Cury, o agressor; não no de Isa, a vítima. E foram abraçá-lo porque Cury “é um cara gente boa” e a Isa “é complicada” —- assim definiu um parlamentar ouvido pela Folha. A nota do jornal não deixa claro se o abraçaram por trás, passando as mãos em seus mamilos e escorrendo-as até a cintura como ele diz que costuma fazer “com diversas colegas, aqui, de abraçar e estar próximo”.
Nesta semana ainda, em outra situação, um juiz de São Paulo —- com o rosto e o nome escondidos porque o caso está em segredo de justiça —-, também disse o que pensa quando julgava o caso de uma mulher que acusa o ex-marido de violência doméstica: “Se tem lei Maria da Penha contra a mãe (sic), eu não tô nem aí. Uma coisa eu aprendi na vida de juiz: ninguém agride ninguém de graça”. O vídeo foi reproduzida pelo portal Papo de Mãe, das jornalistas Mariana Kotscho e Roberta Manreza.
A imagem registrada no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo é clara. O deputado Fernando Cury conversa com mais dois colegas, olha para a deputada e se dirige até ela. Antes de sair do pequeno grupo de amigos, ainda é puxado pela manga por um deles — não se sei para impedi-lo de algo que ele disse que faria, para incentivá-lo ou qualquer outra coisa que somente o próprio poderá esclarecer. A deputada está diante da mesa diretora da Assembleia e conversa com o presidente da casa no instante em que Cury chega, encosta seu corpo no dela, por trás, e toca um dos seios da deputada com a mão direita que, em seguida escorrega até a cintura dela. Isa o empurra e ele insiste em colocar a mão no ombro dela com cara de ingênuo, do tipo “o que é que eu fiz?”.
Que fique claro —- como reforcei na descrição que levei ao ar no Jornal da CBN —, o que ele conversou com seus colegas antes da importunação sexual, o que um dos parlamentares disse quando puxou o braço dele e o que se passou na cabeça de Cury no momento em que decidiu agir daquela maneira, não temos como saber, apenas supor.
Já a cena de importunação é explícita. E quanto a esse comportamento é preciso que o Conselho de Ética da assembleia paulista se pronuncie o mais breve possível. Soube-se ontem pela presidente do conselho, a deputada Maria Lucy Amary (PSDB), que em virtude do recesso parlamentar o caso somente será discutido no ano que vem. Lamentável. Espero que a deputada Amary tenha noção da relevância do papel dela diante do fato e impeça que o espírito de corpo fale mais alto.
O que Cury fez em plenário também acontece em outros ambientes, a medida que aumenta a presença feminina em espaços antes dominados por homens.
A pesquisa Percepções sobre a violência e o assédio contra mulheres no trabalho (Locomotiva / Instituto Patrícia Galvão, dezembro 2020) mostra que 36% das trabalhadoras dizem já haver sofrido preconceito ou abuso por serem mulheres, no Brasil; um índice que sobe para impressionantes 76% quando as trabalhadoras são apresentadas a diversas situações de abuso como gritos e xingamentos; discriminação em razão da aparência, raça, idade ou orientação sexual; controle excessivo e críticas constantes; agressão física; elogios constrangedores; assédio e estupro. Em apenas 28% dos casos relatados, a vítima soube que o agressor sofreu alguma consequência. A impunidade fortalece o agressor e fragiliza a mulher.
São Paulo e o Brasil têm o direito de saber as consequências do caso do deputado Fernando Cury. E a punição que receberá tem de estar a altura do ato que cometeu —- que por si só já é grave — e do local em que cometeu este ato. Porque o fez no plenário de uma casa legislativa, espaço destinado ao exercício da Democracia — e ele a desrespeitou, também. A atitude de Cury mostrou o que pensa sobre a presença das mulheres na política. Sinalizou em público como acredita que as mulheres devem ser tratadas no seu cotidiano. E por isso cabe punido, publicamente, como uma mensagem de que não toleramos mais esse tipo de comportamento.
Conte Sua História de São Paulo: o bolo do Natal de 1963
Por Luiz Carlos Silva
Ouvinte da CBN
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Papai adorava ler Karl Marx e mamãe encantava-se com a leitura de Allan Kardec. Eu, aos oito anos de idade, sem entender absolutamente nada do conteúdo daqueles estranhos livros, relia minha cartilha Caminho Suave e alguns gibis do Zorro e do Fantasma, sutilmente escondidos entre as páginas da cartilha para não serem vistos por mamãe e evitar uma boa surra de vara de marmelo.
Na véspera do Natal de 1963, papai saiu de casa, no pacato bairro Parada Inglesa para participar de uma reunião no Sindicato de Brinquedos e Instrumentos Musicais, na avenida Celso Garcia, no Brás, e prometeu a mamãe que voltaria para a confraternização natalina.
No início da noite, mamãe começou a fazer um bolo de morango e ao terminar o colocou cuidadosamente sobre a mesa. Ato contínuo, disse que só comeríamos o bolo quando papai chegasse.
Desolado, sentei-me diante do bolo e com as mãos no queixo e os cotovelos sobre a mesa, sussurrei uma oração para Jesus pedindo o retorno de papai o mais breve possível. O tique taque do relógio cuco na cozinha e alguns estampidos de fogos que iluminavam o céu, anunciavam a proximidade do dia do nascimento de Jesus e me deixavam inquieto. De soslaio, mirava minha mãe e a porta da cozinha para saber se papai estaria chegando. Entre um olhar e outro, passava o dedo no bolo e o levava rapidamente até a boca.
Alguns minutos para a meia noite, pai chegou com um um embrulho embaixo do braço. Meu sorriso de felicidade iluminou a cozinha. Finalmente, poderia comer o bolo. Papai, me deu o embrulhado acompanhado de um carinhoso beijo na testa. Meus olhos marejaram diante da bolão de capitão, número cinco, cheirando couro cru, que estava embrulhada para presente. Com um abraço muito forte e vários beijos no rosto agradeci ao papai.
Fomos para a mesa, nos demos às mãos e mamãe iniciou uma interminável prece agradecendo a tudo e a todos. Ao fim, nos abraçamos e desejamos um Feliz Natal! O bolo de morango finalmente pode ser cortado, servido e saboreado —- claro que sem passar despercebido de todos à mesa as inúmeras marcas de dedos, prova inconteste de um menino guloso e ansioso. Logo em seguida, dormi em um velho sofá na varanda, lambuzado de bolo, abraçado na bola de capitão, com o tique taque do relógio e o barulho dos pingos de chuva que se iniciava…. Era o Natal de 1963.
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Luiz Carlos Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
