De gatos, gafes e gafanhotos

A imagem de um advogado com cara de gato participando de sessão virtual em um tribunal do Texas circula na velocidade da internet e leva as pessoas às gargalhadas, onde quer que esteja sendo assistida. O caso —- vou repetir por praxe jornalística já que todos vocês, caros e raros leitores deste blog, devem ter visto o vídeo — teve como protagonista Rod Ponton que apareceu conversando com os colegas e o juiz tendo em lugar de seu rosto o avatar de um gato de pêlo branco e olho azul. O juiz bem que tentou avisá-lo, mas era tarde e enquanto buscava entender o que acontecia, saiu-se com um “estou aqui ao vivo, não sou um gato”. Ufa, devem ter respirado aliviado os coadjuvantes da cena. 

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Vídeo gravado, divulgado e viralizado —- está na hora de eliminarmos esta expressão diante de tudo que o vírus corona tem nos proporcionado —-, vieram as explicações. Na  plataforma Zoom para reuniões virtuais é possível usar filtros que cobrem a sua face mantendo as expressões dos olhos e o movimento da boca. —- uma forma de se divertir nos encontros com os amigos. Ponton alegou que usava o equipamento de uma assistente e para surpresa dele o filtro foi ativado, causando o constrangimento e a frase esclarecedora.

Estas assistente, viu! Servem sempre de desculpas para as nossas gafes.

Fui vítima de uma delas —- no papel de coadjuvante, é verdade. Em 2003, apresentava o Jornal do Terra, o primeiro ‘telejornal’ na internet. Entrevistava o procurador geral do Estado de Roraima, Darlan Airton Dias. Era coisa séria. O Ministério Público havia deflagrado a Operação ‘Praga do Egito’ que logo ganhou o apelido de ‘Gafanhoto’. 85 denúncias, 52 processos abertos e a família do governador  Neudo Campos envolvida até os bolsos —- naquele momento a mulher dele era alvo de investigação. Por ser governador, a operação lhe preservava até então. E por ironia, perguntei ao procurador se havia alguma possibilidade de toda a família estar envolvida e o governador não saber de nada. A resposta veio em forma de gargalhada com trejeitos de galanteio e seguida por um suspiro acompanhado do nome de uma mulher: “ahhhhh, Luciana!!!”.

Fiquei sem jeito apesar de logo perceber que havia uma linha cruzada. A entrevista se encerrou e a desculpa é que alguém na procuradoria, inadvertidamente, apertou o botão errado do PABX e levou em ‘rede mundial de computadores’  —- era assim que a gente chamava naquela época —- parte da sua conversa com uma das assistentes. O resultado da paquera, não quis saber. De minha parte, guardei o vídeo por curiosidade. Já o ex-governador Neudo Campos esteve preso até pouco tempo e foi libertado depois de o ministro do STF Gilmar Mendes reconsiderar a decisão que ele próprio havia tomado em favor da prisão do Rei dos Gafanhotos.

Volta às aulas na pandemia: meu medo é o dia em que o gato fugir

Foto do site CBN de Denny Cesare / Código 19 / Agência O Globo

Ao longo da vida, em São Paulo, minha casa foi visitada duas vezes por assaltantes. Em uma a visita foi consumada e na outra, ficou apenas na tentativa. A experiência nos levou a adotar cuidados que não tomávamos. Os portões da frente agora são vazados —- há uma teoria de que bandidos sentem-se menos à vontade para trabalhar quando quem passa do lado de fora enxerga o que acontece dentro; a máquina do portão automático é mais veloz para reduzir o risco de surpresas quando se manobra o carro; os acessos à casa são redundantes —- ou seja, há necessidade de passar por ao menos duas barreiras antes de chegar onde querem; câmeras e alarmes estão instalados em posições estratégicas. Na busca por mais tranquilidade … ops, tranquilo nunca é … por mais segurança, certifica-se de quem bate à porta antes de abri-la, bate-papo na calçada nem pensar e é redobrada a atenção no entra e sai de pessoas —- momento de maior fragilidade diante de assaltantes de ocasião.

As medidas que tomamos aumentaram a segurança, sem eliminar o perigo — esse nos ronda a todo momento quando vivemos em sociedade. O problema é que no cotidiano, há outras coisas a se pensar e as medidas preventivas acabam sendo deixadas em segundo plano se não entrarem na rotina residencial. Dia desses levei um puxão de orelha do meu filho mais novo. E o problema não era nem o perigo que poderia vir de fora, mas os gatos que podiam fugir de dentro. Como estava sendo realizado trabalho de manutenção na minha casa, e insistíamos em deixar a porta da cozinha aberta, ele lembrou que um dos nossos gatos —- mais serelepe e curioso com a vida —- poderia sair para a parte externa e escapar para a rua. Diante do descaso, ele mesmo fez dois cartazes com o anúncio: “deixar esta porta fechada sempre”. Colou do lado de dentro e do lado de fora. A medida nos ajudou a ficarmos atentos. Nas duas primeiras semanas. Hoje mesmo, fui até a cozinha, saí, voltei e deixei a porta aberta, apesar de o cartaz estar à mostra de todos. O gato já estava na garagem.

Perdo-e se preenchi dois parágrafos para contar coisas caseiras, da minha intimidade familiar, talvez de pouca importância para você, caro e raro leitor deste blog. Se as conto, porém, é por um bom motivo. E interesse público. É para ilustrar o que penso sobre os riscos aos quais estamos submetidos neste momento em que há quem aposte que não virá uma segunda onda da pandemia da Covid-19, mas uma segunda epidemia com um variante do que um dia chamamos de ‘novo coronavírus’. Tenho dúvidas se hoje, quando mais de 231 mil pessoas morreram no Brasil e voltamos a marca de ao menos mil mortos por dia, mantemos metade da rotina que criamos no início desta jornada. Lembra que lá atrás, havia uma série de regras para impedir que qualquer coisa que entrasse na nossa casa —- a começar por pessoas —- nos colocasse em contato com o vírus? Comida lavada com álcool-gel, pacotes tocados com luvas, tapete antibacteriano, sapato e roupas deixadas em um saco plástico … No comércio, o moço na entrada apontava uma pistola para medir sua temperatura, a cada passo havia um frasco para limpar a mão e o controle de acesso era rígido. O frasco agora está vazio, a máquina de vaporizar não tem manutenção e a pistola —- que parece não servia para nada mesmo — está abandonada no escaninho de algum gerente da loja. 

O risco de baixarmos a guarda assim como muitos baixam a máscara para o queixo aumenta no momento em que assistimos ao retorno das aulas nas escolas. Permita-me não entrar na discussão se o momento da volta é esse ou não —- se você quiser análise mais bem argumentada no assunto leia gente como a professora Cláudia Costin e o jornalista Antônio Gois. Nesses dias em que tudo é novidade, após tantos meses distantes dos colegas e professores, toda medida possível é adotada. Os avisos de atenção estão pendurados pelos cantos da escola, as marcas pintadas no piso para evitar aglomeração, as classes separadas para respeitar o distanciamento, proteção de acrílico impede o contato dos mais distraídos e os protocolos de comportamento são lembrados a todo momento. Tem mais álcool-gel na garrafinha do que água nos banheiros. Cada aluno leva o seu. E as recomendações dos pais são acompanhadas com atenção pelos filhos. Meu foco não é com o que vai acontecer agora, mas daqui duas, três, quatros semanas. Quando estar na sala de aula não será mais novidade, os protocolos terem entrado para o rol das coisas corriqueiras e as distrações do cotidiano se sobrepuserem as preocupações. 

Meu medo, confesso, é com o dia em que o gato fugir. 

Festa de Lira é uma metáfora do Brasil

Reprodução Twitter

Covidão Parlamentar, Covidfesta ou o Regabofe dos Desmascarados. Deem o nome que quiserem para o evento que comemorou, na madrugada de terça, em Brasília, a vitória de Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados —- deputado-réu por peculato e lavagem de dinheiro e investigado por sonegação fiscal —-, promovida na casa do empresário Marcelo Perboni, acusado de fraude tributária por ter se apropriado indevidamente de R$ 3,8 milhões. Com mais de 300 convidados, amigos e inimigos políticos rebolando no mesmo palco, ao som de forró (a música não tem culpa de nada), e desfilando sorrisos sem máscara, todos foram protagonista de uma festa que se transformou em metáfora do Brasil. Para onde você olhar, vamos enxergar um pouquinho do que é o país em que vivemos.

Com quase 227 mil mortos por Covid-19, parcela dessas pessoas vítima, direta ou indireta, do descaso com a doença; do desrespeito a regras sanitárias; de gente que nega a pandemia. Uma gente que não usa máscara e está pouco se lixando para as aglomerações —- lá estavam os 300, representando os brasileiros que assim agem.

Eram 300, coincidência, os picaretas que Lula, em 1993, acusou existirem no Congresso Nacional. O mesmo Lula que agora é defendido com unhas e dentes pelo líder do Governo Bolsonaro, Ricardo Barros —- como ouvimos, ontem, no Jornal da CBN. Sim, o líder de Bolsonaro fala como advogado de defesa de Lula. Vá entender !?! Eu entendo. Acho que você, também. Estão todos na mesma festa.

A festa ainda nos remete a ideia de que caiu a máscara do Governo Bolsonaro e seus defensores, que chafurdaram no lodo político — e comemoraram  — ao negociar emendas parlamentares, abertamente, para comprar aquilo que o ex-governador Antonio Britto chamou de “seguro-mandato” — em entrevista também no Jornal da CBN. Diga-se: negociação que não é privilégio deste governo; é da “velha política” que pauta este governo.

A inexistência de máscaras também é simbólica quando se percebe que a turma Anti-Lavajista circula no parlamento e no noticiário falando descaradamente contra o combate à corrupção. Um pessoal que diante dos descalabros e falcatruas, cochicha nos gabinetes e planeja conchavos para se proteger. E fala grosso contra quem investiga —- ouça a entrevista de ontem. Registre-se, motivos não faltam para reclamações de abusos e erros cometidos durante os processos, mas nada que esteja a altura do roubo coletivo que o Brasil foi vítima nos últimos anos. 

(Não acredita no que eu disse no parágrafo acima? Leia o livro A Organização, de Malu Gaspar. É muito rico).

No balanço das cadeiras, com rebolados sem jeito nem constrangimento, a festa de Lira, por fim, teve cenas de hipocrisia explícita. O celebrado havia encerrado, horas antes, seu discurso da vitória no parlamento, de máscara — porque em público — e chamando a atenção do Brasil para o momento mais devastador da nossa história provocado pelo vírus da Covid-19 e alertando: “temos que vacinar, vacinar, vacinar o nosso povo”.

O momento é realmente devastador — na política, inclusive.

“Bolsonaro está comprando um ‘seguro-mandato'”, analisa Antônio Britto

Plenário da Câmara durante sessão remota. Foto: Najara Araujo/Câmara dos Deputados)

Preocupação. Essa foi a palavra que permeou a fala e a voz de Antônio Britto a entrevista que fizemos nesta manhã, no Jornal da CBN, quando discutimos a disputa pelas presidências da Câmara e do Senado, e a influência explícita do Governo Federal nas escolhas que cabem ao parlamento. Britto é jornalista antes de ter sido político. E o foi por jornalista que é. Você haverá de lembrar, que ele foi secretário de imprensa no Governo Tancredo Neves e o porta-voz da convalescência do presidente, que morreu em 21 de abril de 1985 sem jamais ter governado. Logo depois se iniciou a carreira política de Britto que filiado ao PMDB foi deputado federal duas vezes, ministro da Previdência e governador do Rio Grande do Sul. Hoje, dedica-se a analisar o cenário brasileiro, o que justificou seu convite nesta segunda-feira, 1º de fevereiro, em que Câmara e Senado elegerão seus presidentes.

Motivos para preocupação não faltam. 

Começa por assistir na discussão de governo, partidos e políticos o interesse próprio em detrimento do público. Dois dos assuntos que mais importam aos brasileiros —- combate à Covid-19 e a preservação de empregos — estão fora do debate. Discute-se apenas a necessidade de o Presidente da República se preservar de um processo de impeachment. Não por acaso, o que mais ouvimos os candidatos responderem é se engavetam ou desengavetam os pedidos de impedimento que já chegaram ao Congresso.

“O que temos é uma tentativa aparentemente vitoriosa de Bolsonaro estar comprando um seguro mandato, um seguro contra o impeachment, e o Brasil vai ter de pagar o preço por isso a partir das exigências que o Centrão vai fazer e já estão aí postas ….”

Se o instinto  de sobrevivência do presidente o leva a negar absolutamente todo seu discurso de campanha —- que iludiu uma quantidade enorme de brasileiros “cansados da velha política” (e isso sou eu quem está escrevendo, e não o entrevistado dizendo) —-, o dos parlamentares promove essa corrida por cargos e verbas. O ex-governador lembra que no próximo ano os políticos que aí estão têm uma eleição parlamentar pela frente e dentre os 513 deputados e os 81 senadores que  hoje vivem na planície não mais de 30 encontram espaço para se destacar diante da opinião pública,

“Tudo isso transforma o Congresso em um mercado”

Como disse, a lista de preocupações só faz aumentar. 

As últimas 24 horas explicitaram outro lado perverso do sistema partidário brasileiro, destacado também na conversa com Britto. Primeiro exemplo: ser presidente da Câmara é o maior cargo que o DEM conquistou no país, mas isso não o impediu de trair sua principal liderança no parlamento, no caso o deputado federal Rodrigo Maia, presidente da Câmara até as próximas horas. Segundo exemplo: no Senado, o mesmo acontece com o MDB que lançou a candidata Simone Tebet e, imediatamente, lhe deu as costas.

“É uma deterioração do sistema partidário a um ponto quase inconcebível. Se você é lançado por seu partido isso não quer dizer nada mais do que poder ser traído por ele, por seu partido, minutos depois. É muito preocupante isso, porque revela a quase inutilidade da conquista dentro do seu próprio partido”

Se pouca coisa não houvesse para se preocupar, ainda temos na pauta política a retomada do “Impeachment Já” —  o tema que direita e esquerda sacam do bolso sempre que percebem a oportunidade de colocar um governo nas cordas. Alguns sabem se safar. Nem todos: Fernando Collor e Dilma Roussef que o digam. Bolsonaro, nascido e crescido na “velha política”, dá sinais de que sabe como se movimentar no ringue, com fintas adaptativas, apesar de ignóbil no exercício da função para o qual foi eleito pelos arautos da “nova política”. 

Para Antônio Britto, aí está outra deformação do sistema político do Brasil: “deu insatisfação, liga o botão do impeachment” —- confesso que temi pelo fim da frase, apesar de o entrevistado ter se formado a partir de uma cepa de políticos bem diferente daquela que contaminou o Palácio do Planalto.  

A insatisfação virou sinônimo de impeachment, o que Britto considera perigoso e ruim para o país e a Democracia. Uma desafio que não se restringe ao Brasil. É de toda humanidade que precisa encontrar formas políticas de fazer ajustes de sintonia diante de ruídos que surgem em alta frequência, impulsionados pela tecnologia e instantaneidade das relações: 

“Quatro anos hoje é mais do que uma eternidade. O que a gente tem é um ciclo do máximo de esperança no novembro de um ano e apenas quatro anos depois a situação política tem de ser ajeitada com uma nova eleição. É impossível que qualquer país, especialmente com as dificuldades do Brasil, passe quatro anos sem um ajuste de sintonia”.

Resumir nossas escolhas a “satisfação ou impeachment” não parece estar de acordo com o que se vive diante da partição social, das redes sociais e da tecnologia, diz Britto. O parlamentarismo tem melhores saídas. Mas o Brasil é presidencialista. E o presidencialismo terá de encontrar soluções contemporâneas para esse dilema.

A entrevista completa com o ex-governador Antônio Britto, você ouve aqui:

O livro “É proibido calar!” ganha arte e resumo no projeto reLeitura

Com arte, criação e produção de Renato Avanzi e sua equipe,“É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” foi apresentado na série reLeitura, com um resumo dos principais pontos abordados no livro que lancei em 2018. Falo da construção de uma relação saudável entre pais e filhos para que possamos criar um ambiente ético na sociedade. Assista ao vídeo, compre o livro agora e depois deixe a sua opinião aqui no Blog

Lágrimas pela vacina

Enfermeira é primeira brasileira vacinada. FOTO: Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo
FOTO: Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo

Morei em um sobrado, na Saldanha, em Porto Alegre. Em cima, ficávamos nós. Na parte de baixo, Seu Juvenal e Dona Mulata. Eles estavam lá desde antes de a minha família se mudar para o Menino Deus, assim que nasci. Eram os padrinhos do meu irmão mais novo; ele era um senhor com ar divertido, ela, enfermeira. Atendia em um hospital e nas horas vagas, acudia a gente, especialmente quando tínhamos de tomar injeção.

Apesar de serem vizinhos de teto, a mãe nos levava pela mão, pois sabia que se tivéssemos oportunidade sairíamos em disparada —- você haverá de concordar comigo que injeção nunca foi do agrado das crianças. Ficou na memória o cheiro do álcool e da água fervendo, usados para esterilizar a seringa e a agulha em um caixa de metal. Naquela época, era comum as famílias terem um equipamento próprio, que passava de pai para filho, de um irmão para outro. Aplicada a injeção, lavava-se, esterilizava-se e … próximo. Fazia o máximo para ficar por último na fila, sob a ilusão de que pudesse adiar a sessão para outro dia. Não tinha como escapar, era cerrar os dentes, sentir a lágrima escorrendo no rosto e aguentar a picada da agulha.

Como a família segue morando na mesma casa, em Porto Alegre, quando vou visitá-la e entro no corredor do andar de baixo, onde viviam Seu Juvenal e a Dona Mulata, o cheiro característico da injeção exala da minha memória. O mesmo cheiro que transpassou minhas narinas na tarde desse domingo, enquanto assistia à cena mais desejada desde o início dessa tragédia que vivemos. A agulha aplicada no braço esquerdo de Mônica Calazans, enfermeira, como Dona Mulata, negra e voluntária nos testes da Coronavac,  abria uma célula de esperança em cada um de nós que sonhamos em nos ver livre dessa desgraça que se transformou o Sars-Cov-2.

As vacinas de agora não são mais aplicadas em seringas e agulhas reaproveitáveis; a caixinha de alumínio foi substituída pelo plástico e virou peça de antiquário; o cheiro de álcool e água fervendo é dispensável; e a tecnologia disponível nos laboratórios para produzir remédios injetáveis está centenas de vezes mais desenvolvida do que na minha infância. Se naqueles anos havia negacionistas, não circulavam na minha casa. Meus pais sempre tiveram a preocupação de nos oferecer o que havia de mais apropriado para proteger nossa saúde —- doesse a quem doesse. 

Lembro porém de anúncios na televisão para convencer às famílias a participarem das campanhas de vacinação. Sujismundo, o moço de cara simpática e maus hábitos dos comerciais produzidos pelo Regime Militar, era o protagonista e aparecia na tela dizendo que “não quero tomar espetadas inúteis, afinal não estou doente”. Era convencido pelo filho, pelas palavras do médico e pela lei imposta pelo Governo que suspendia o salário-família se as crianças não fossem vacinadas. Isso mesmo, os militares daquela época —- mesmo diante de todas as atrocidades cometidas e de crimes contra os direitos humanos —- eram a favor da vacinação, faziam campanha publicitária e obrigavam as pessoas a tomar a injeção.

Com um mês de atraso, em relação aos principais países do Mundo, o Brasil iniciou hoje a vacinação contra a Covid-19 —- ainda temos poucas doses e apenas um tipo de vacina, apesar de a Anvisa também ter aprovado o uso do imunizante de Oxford/AstraZeneca. Como você, caro e raro leitor deste blog, já deve saber, o Governo Federal —- leia-se Jair Bolsonaro e General Pazuello —  foi incompetente para colocar a vacina à disposição dos brasileiros e mesmo com acesso a Coronavac, importada pelo Instituto Butantan, vai guardar os frascos para iniciar seu programa de vacinação na quarta-feira, nas capitais brasileiras. “Não entendo essa ansiedade”, deve pensar com os botões de seu pijama o General da Banda.

Perdão, não quero incomodar você neste momento com um discurso contra a insensatez, por mais relevante que seja. Quero reservar este domingo para agradecer a quem construiu essa história, pesquisou no laboratório, aprofundou seus estudos, compartilhou conhecimento e nos proporcionou uma vacina que reduzirá o risco de continuarmos diante desta mortandade que já nos levou cerca de 210 mil pessoas, apenas no Brasil. Quero guardar na memória — assim como o cheiro do álcool e da água fervendo — esse dia em que a vacina me levou mais algumas lágrimas — diferentes daquelas de uma criança medrosa, na casa da Dona Mulata. Lágrimas de alegria por ver que a riqueza e inteligência do ser humano ainda podem nos salvar; e de saudades por aqueles que se foram sem ter tido essa oportunidade.

A Democracia venceu nos EUA; vencerá no Brasil?

Mike Pence e Nancy Pelosi, em foto: POOL / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP/ CBN
Mike Pence e Nancy Pelosi, em foto: POOL / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP/ CBN

 

Havia uma sensação de ressaca que me anuviava os olhos quando acordei nesta quinta-feira. Nem mesmo o céu pintado com nuvens vermelhas do sol de verão, que acorda cedo aqui em São Paulo, tornava o cenário mais claro. A imagem e a mente estavam ofuscadas pela barbárie e ignorância que os Estados Unidos proporcionaram ao Mundo ao longo do dia de ontem, desde que o grupo de alucinados, sob o comando de Donald Trump, iniciou a subida nas escadarias do Capitólio —- alguns preferiram arrombar janelas e portas secundárias. Quando fui dormir era tarde, e pouco se sabia como a primeira e mais longeva Democracia da Era Morderna resistiria aos ataques.

Prestes a entrar no ar na CBN, pouco depois das 5 e meia, chegou a informação que tornaria o horizonte mais amplo nessa manhã: a sessão do Congresso, que havia sido retomada, após a expulsão dos antidemocratas, acabara de certificar a vitória de Joe Biden à presidência. Ou seja, senadores e deputados respeitaram o voto do cidadão. Provavelmente estávamos noticiando naquele instante o resultado mais importante de todas as sessões de certificações já realizadas desde a posse de George Washington, em 1789. 

Como saberíamos pouco depois, na conversa com Walter Fanganiello, em Justiça e Cidadania, a certificação é um dos rituais mais tradicionais da democracia americana. Uma formalidade que tem simbolismo histórico. James Madison, um dos pais da federação e o maior nome da Constituição dos Estados Unidos, de 1787, assinalou na época que “a ratificação do resultado eleitoral pelo Parlamento era uma forma de chamada à unidade nacional” —- enfatizou meu colega. Embora soubesse que as 13 colônias britânicas, fundadas em 1607 e 1682, estivessem amadurecidas e expressassem o sentimento de nação democrática, entendeu por bem Madison comprometer todos os representantes dos estados federados —— deputados e senadores —- evitando qualquer tentativa de cisão.

Trump buscou desconstruir a história americana ao incentivar seus seguidores a interromperem pela força um ritual democrático e dividiu o país. Não respeitou esse ritual, assim como jamais respeitou os próprios valores que levaram à construção dos Estados Unidos da América. Ao longo dos quatro anos de mandato interferiu nas instituições, contaminou a independência de poderes, colocou a nação de costas aos interesses multilaterais e com palavras e atos buscou corroer os sistemas político e eleitoral, questionando sua legitimidade a partir de mentiras que ele próprio patrocinava.

E palavra de presidente tem uma força extraordinária, alertou o ex-embaixador Rubens Barbosa, que por cinco anos representou o Brasil em Washington, em entrevista ao Jornal da CBN. Sem que Trump tivesse incitado seus apoiadores a invadir o Capitólio, não teria havido o que o embaixador chamou de “insurreição” e “ataque sem precedentes à democracia”. Diplomata nos gestos e no comportamento, Barbosa preferiu não admitir que a lição a ser aprendida fosse um recado ao presidente Jair Bolsonaro, mesmo que as descrições que tenha feito de movimentos de intolerância e desrespeito que se reproduzem em outras partes do Mundo nos remetessem a imagem do “Trump Mequetrefe” que temos aqui no Brasil.

Na conversa diária com Miriam Leitão, o recado foi mais explícito. Nossa comentarista chamou atenção para a necessidade de fortalecermos a democracia brasileira, impedindo que os atos ocorridos nos Estados Unidos se repitam por aqui, em 2022.  Trump e Bolsonaro “são do mesmo DNA: governos de direita extrema populista e líderes que desprezam as regras democráticas”, disse Miriam. É uma gente —- e aí sou eu que estou dizendo —- predisposta a golpes institucionais, mesmo que todas as vezes que são expostos a essa verdade e ao escrutínio da justiça ou do jornalismo profissional se revelem covardes.

A manhã não havia se encerrado e o presidente Jair Bolsonaro — que parece ter assistido com prazer e sadismo às cenas no Capitólio, que resultaram na morte de quatro pessoas —-, com suas palavras, voltava a ameaçar a democracia brasileira, em uma retórica que vem construindo desde que foi eleito: “se não tivermos voto impresso em 2022, vamos ter problema pior dos que os Estados Unidos”. O discurso é mambembe, porque é desprovido de lógica e provas, mas tem capacidade de mobilizar sua turba —- como já havia feito diante de um quartel àqueles que pediam um golpe militar ou em direção aos que cercaram e explodiram fogos contra a sede do STF. Nas duas situações, vozes e instituições protegeram nossa democracia, e o presidente recuou. 

A “Democracia não foi interrompida nos Estados Unidos”, a despeito do esforço de Trump e sua turba, observou Pedro Doria, em outra das conversas de primeira que tive a oportunidade de participar durante o programa matinal. O fato é que se mesmo em um país no qual o regime democrático está estabelecido há mais de 200 anos, ainda existam forças internas capazes de ameaçá-la, devemos estar alertas para os sinais emitidos por grupos e milícias que atuam em países como o Brasil, onde a democracia é intermitente. Para protegê-la, temos de responder aos atos antidemocráticos com mais democracia, fortalecendo as instituições, o livre direto do cidadão se expressar e, por consequência, a liberdade de imprensa, que se exerce com veículos de comunicação independentes e jornalismo profissional.

Governador e prefeito decretam “elixir da juventude” e cortam o direito de parte de idosos viajarem de graça, em São Paulo

Foto Rovena Rosa/ABr, no site da CBN

O presente de Natal que o governador João Doria e o prefeito Bruno Covas deram aos idosos chegará em Fevereiro, depois que os “bons velhinhos” decidiram prorrogar em um mês a entrada em vigor da regra que proíbe as pessoas de 60 a 64 anos de viajarem de graça nos ônibus da capital, na EMTU, no Metrô e na CPTM. A extinção da gratuidade deveria começar em 1º de Janeiro, mas Governo e Prefeitura deram um mês para que os passageiros se adaptem ao novo sistema.

A coisa é mais ou menos assim: o senhor e a senhora que antes tinham o cartão do idoso deixaram de ser idosos; agora são passageiros comuns. Terão um mês para trocar este cartãozinho que permitia viagens de graça por um cartão comum, no qual você pagará tarifa cheia, ajudando os cofres das empresas que exploram o serviço de transporte. Para provar que a fonte da juventude descoberta por Doria e Covas funciona, além de pagar a passagem, já que você não é mais idoso, ainda terá de buscar o seu novo cartão em um posto da SPTrans. Faz o pedido pelo site, mas busca no posto.

Falei do assunto nessa segunda-feiras no Jornal da CBN e pisei na bola. Disse a Raquel, ouvinte que mandou mensagem pelo WhatsApp, que a extinção da gratuidade havia sido decidida administrativamente. Meia verdade. 

Vamos aos fatos:

O governador João Doria editou decreto suspendendo a regulamentação da legislação que permitia a gratuidade para essa faixa de idade, alterando a Lei nº 15.187, de 2013.

No caso da prefeitura, Bruno Covas teve de aprovar a mudança na Câmara Municipal de São Paulo. Portanto, o prefeito contou com o apoio de vereadores e, para isso, usou de uma estratégia comum e capciosa da política brasileira: a criação de jabutis.

Jabuti é a inclusão de uma lei, um artigo ou uma regra que trata de um tema em um projeto que dispõe de outro assunto. 

No caso, o projeto de lei em discussão era o de número 89/2020, do prefeito Bruno Covas, que “dispõe sobre a criação de subprefeituras no município de São Paulo”. O que as subprefeituras tem a ver com o quanto você paga para viajar de ônibus na cidade? Só um jabuti (ou um tucano) para explicar.

Nesse projeto de lei (o 89/2020), o artigo 7º revoga trechos de outras leis que nada tem a ver com subprefeituras. E no inciso IV —- aqui está a pegadinha — revoga a lei número 15.912 de 16 de dezembro de 2013 que é a que isentava idosos a partir de 60 anos de pagar a passagem de ônibus na cidade.

Você que é atento, já percebeu a coincidência: as duas leis que garantiram a gratuidade são de 2013 —- época das manifestações de rua no Brasil, que pressionaram Fernando Haddad, na prefeitura, e Geraldo Alckmin, no Governo, a oferecer transporte de graça aos idosos.

O Projeto de Lei 89/2020 que traz o “elixir da juventude”, na cidade de São Paulo, foi aprovado em votação simbólica no plenário da Câmara Municipal, em 22 de dezembro. Essa é outra manobra típica de quem tem medo de assumir decisões impopulares, pois em votação simbólica não há registro individual do voto e os vereadores não precisam se expor.

Quatorze dos 54 parlamentares em plenário fizeram questão de registrar votos contrários ao projeto.  São eles, segundo site da Câmara:

ALESSANDRO GUEDES – PT

ALFREDINHO – PT

ANTONIO DONATO – PT

ARSELINO TATTO – PT

CELSO GIANNAZI – PSOL

CLAUDIO FONSECA – CIDADANIA

EDUARDO MATARAZZO SUPLICY – PT

ELISEU GABRIEL – PSB

GILBERTO NATALINI – S/PARTIDO

JAIR TATTO – PT

JANAÍNA LIMA – NOVO

JOSÉ POLICE NETO – PSD

SENIVAL MOURA – PT

SONINHA FRANCINE – CIDADANIA

Considerando que os demais 40 registraram presença e não se pronunciaram contrários ao projeto, pode-se dizer que apoiaram a ideia de acabar com a viagem de graça dos idosos. São eles:

ADILSON AMADEU – DEM

ADRIANA RAMALHO – PSDB

ANDRÉ SANTOS – REPUBLICANOS

ATÍLIO FRANCISCO – REPUBLICANOS

AURÉLIO NOMURA – PSDB

BETO DO SOCIAL – PSDB

CAIO MIRANDA – DEM

CAMILO CRISTÓFARO – PSB

CELSO JATNE – PL

CLAUDINHO DE SOUZA – PSDB

DALTON SILVANO – DEM

DANIEL ANNEMBERG – PSDB

EDIR SALES – PSD

FÁBIO RIVA – PSDB

FERNANDO HOLIDAY – PATRIOTA

GEORGE HATO – MDB

GILBERTO NASCIMENTO – PSC

GILSON BARRETO – PSDB

ISAC FELIX – PL

JOÃO JORGE – PSDB

JULIANA CARDOSO – PT

MARIO COVAS NETO – PODEMOS

MILTON FERREIRA – PODEMOS

MILTON LEITE – DEM

NOEMI NONATO – PL

PATRICIA BEZERRA – PSDB

PAULO FRANGE – PTB

QUITO FORMIGA – PSDB

REIS – PT

RICARDO NUNES – MDB

RICARDO TEIXEIRA – DEM

RINALDI DIGLIO – PSL

RODRIGO GOULART – PSD

RUTE COSTA – PSDB

SANDRA TADEU – DEM

SOUZA SANTOS – REPUBLICANOS

TONINHO PAIVA – PL

TONINHO VESPOLI – PSOL

XEXÉU TRIPOLI –  PSDB

ZÉ TURIN – REPUBLICANOS 

O vereador OTA, do PSB, estava ausente, segundo registro oficial da Câmara Municipal de São Paulo.

A morte do amigo Carlos

Éramos tricolores, um de São Paulo e o outro do Rio Grande do Sul. Isso não nos separava. Era ponte para conversas. Nem só de futebol falávamos em almoços anuais, telefonemas esporádicos e trocas de mensagens frequentes. Carlos era muito bem informado de tudo que acontecia e escreviam. Daí que a fronteira do futebol era facilmente ultrapassada para a política, a economia, a história, o comportamento, a moda, o meio ambiente … uma quantidade desafiadora de assuntos que ele provocava e eu me esforçava para acompanhar.

“Você leu … ?” era a pergunta que o Carlos costumava fazer quando queria comentar de algum artigo publicado na imprensa —- ele jamais abandonaria o hábito de ler jornais e tinha, claramente, preferência pela Folha, assim como era assíduo ouvinte do Jornal da CBN. Demorei para escapar da armadilha da minha ignorância. Aprendi que o melhor a fazer era responder com outra pergunta: “o que ele disse?”.  Dali pra frente vinha o resumo e a análise crítica independente — e esse era outro privilégio de conversar com o Carlos, porque seu pensamento não estava envencilhado a dogmas e mitos. Sabia discernir  certo e errado por conta própria.

Pelo tempo do verbo em que escrevo este artigo ou se você, caro e raro leitor deste blog, já tiver lido o post anterior haverá de saber que o Carlos não está mais com a gente. Morreu no primeiro do ano. Era “o amigo que agoniza, ainda não sei” — lembrado na crônica que abriu este blog em 2021. Se havia tristeza naquele texto, muito dela era pela dor que sentia no coração desde que soube que ele foi internado na noite de Natal após ter sofrido um AVC, em estado grave.

Leia “Carlos Magno, um homem à frente do seu tempo”, escrito por André Gibrail

Triste mas cultivando esperança nas reservas intelectuais e físicas que o Carlos acumulou em seus 78 anos de vida, pedia a Deus todas as manhãs que o trouxesse de volta. Repeti a súplica na manhã de primeiro de Janeiro —- seria minha última tentativa. Carlos morreu à tarde. Soube depois que a pandemia havia consumido boa parte de sua energia, que vinha tentando recuperar nos treinos de tênis supervisionados pela filha Elaine. 

Que vergonha! Durante todo este tempo, o Carlos ouviu minhas queixas, meus relatos de ansiedade, depressão e tristeza, e eu não lhe dei espaço para contar de seus desafios. Ou não soube entender sua mensagem ou ele próprio tomou cuidado de me proteger de más notícias ao perceber meu desalento. Ele nunca baixava a guarda, sempre me reconfortava e depositava confiança na retomada das atividades, acreditava que poderíamos sair melhores desta crise e lembrava de como as ideias que cultivou no passado se realizavam neste momento —- há muito, defendia, por exemplo, que o varejo migrasse para o eletrônico e reinventasse o conceito de loja física. Estava entusiasmado com o filho mais novo, Rodolfo, que fazia vestibular online e acabara de passar no curso de Direito. Eu não fui capaz de ver que nesse esforço para manter a minha, a nossa energia, o Carlos estava se desabastecendo. Seu tempo estava se encerrando.

“Todos sabem que o tempo é um dos mais preciosos bens à nossa disposição. E, por isso, é algo escasso, que deve ser bem administrado”

Com essa frase iniciou seu primeiro texto publicado neste blog, em 11 de junho de 2008 — era o mais longevo dos colaboradores. Transformou a prática da escrita em missão semanal e a usou para provocar temas, defender ideias inovadoras, criticar propostas retrógradas e relembrar histórias. Nos últimos tempos, sua atenção, nos textos e no trabalho, estava dedicada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, participava do pacto Global no Grupo de Excelência do CRA-SP e incentivava o debate no mercado de moda para reduzir o impacto ambiental das confecções.

Sua preocupação com o meio ambiente vem de épocas distantes — cultivada em Paraty, no Rio de Janeiro, onde nasceu, e estendida a São Paulo, cidade em que viveu, desde 1947, e nos aproximou. Atuava em defesa da preservação do espaço verde nos bairros, denunciou derrubada de árvores na região do Morumbi, em que morou, e fazia de sua indignação textos capazes de mobilizar centenas de pessoas.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo de Carlos Magno Gibrail 

Um dia antes de iniciar o seu martírio, conversou com o Alexandre, um de seus quatro filhos, sobre Grêmio e São Paulo que jogariam à noite, pela Copa do Brasil. Ouviu considerações, fez observações e chegou a conclusão que Renato tinha capacidade de montar um time que anularia o seu tricolor e isso seria fatídico: “… pelo menos o Mílton estará contente”, concluiu. 

Se a generosidade que o Carlos me ofereceu, eu nunca mereci, a confiança que depositou em mim, mudou meu comportamento; sua inteligência em pensar, me desafiou; sua opinião, me pautou e sua elegância em vestir e se comportar, foi referência.

Carlos, obrigado por tudo que me ensinou; desculpe-me, por tudo que não aprendi!

Leia os artigos de Carlos Magno Gibrail que escreveu em 11 anos dedicados ao Blog

As notícias de jornal no primeiro do ano

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Comecei cedo o ano, como começo todos os meus dias. Se o despertador não chama, os gatos chamam. Querem comida —- apesar de que desconfio de que, como eu, buscam é companhia, porque a comida está lá a espera deles, nos dois pratos espalhados no chão da cozinha, com direito a água ao lado da geladeira. Desço, converso em voz baixa para não acordar os de casa, eles fazem de conta que me entendem e seguem seu destino. A mim cabe dar início ao ritual dessas manhãs de folga na redação: preparar o café na máquina e abrir o jornal no celular. 

Espero o apito da cafeteira, que marca o fim de seu trabalho e o início de uma maratona de cafés que servirei para mim mesmo durante toda a manhã, e estou curioso para ver a primeira página dos jornais neste primeiro do ano —- geralmente é uma edição limitada a fotos de festas nos principais pontos turísticos do mundo. Mas hoje é “2021”.

Este ano foi diferente —- caramba, vamos continuar usando essa frase para descrever o ano em que vivemos —, havia mais notícias de saúde e doença do que fotos de réveillon. Até ensaiaram um colorido nas estátuas, pontes e praças históricas que nos acompanham desde sempre, mas o vazio de pessoas anuviou a imagem da festa. Nem o Brexit que finalmente começou — e seria motivo de escandalosas manchetes —- convenceu os editores a mexer na diagramação do primeiro de ano.

Menos mal, porque assim havia pouco espaço para reproduzir mais uma asneira do presidente de plantão que dentre tantas bobagens ditas ao vivo, chamou de ilusão o uso de máscara para combater a Covid-19 —- em mais uma negação a tudo que o conhecimento científico nos ensinou ao longo dos tempos. Se o moço tem um mérito é o fato de ser ignóbil convicto, do primeiro ao último dia do ano.

Nesta primeira edição de 2021 dos jornais também encontrei reportagens sobre a esperança que novas administrações municipais nos oferecem e os tremendos desafios que os prefeitos terão de enfrentar —— pouco me importa, eles sabiam o que os esperavam, e se douraram a pílula para angariar votos, que tratem de mantê-la brilhando em punho próprio e com o pouco dinheiro que têm em caixa.

Por sua vez, os colunistas —- cada vez mais fundamentais para a existência dos jornais —- tendem a nos oferecer textos bem acabados, pensamentos provocadores e um tanto de conhecimento. Costumo parar por mais tempo diante dos meus favoritos. Gosto dos que tratam do cotidiano, mas não só deles. Às vezes, sou surpreendido com autores para os quais nunca havia dado atenção —- por preguiça, por falta de tempo ou pelo hábito de sempre ler os mesmos.

Enquanto leio e já entornei minha terceira xícara de café, o céu ficou nublado e as primeiras gotas de 2021 começam a cair sobre mim  — e aqui não há nenhum exercício poético ou mensagem subliminar, é a chuva mesmo. Sou obrigado a trocar de cadeira sem trocar de tarefa: encontrar em meio aos textos uma mensagem que me revigore para enfrentar o ano. Desejo fugaz. 

Nada que encontrar no dia de hoje vai mudar o que foi o de ontem. E o que será o de amanhã. Os amigos que perdi não voltarão; o amigo que agoniza, ainda não sei. A vida não zera no primeiro do ano  —  como se fosse um jogo eletrônico —, até porque seria muito chato termos de repetirmos todas as fases, aprendermos tudo de novo, reconhecer as pessoas que amamos, e descobrir, em tempo, que são elas a quem devemos o nosso amor. Imagine cometer os mesmos erros de antes, encarar toda a jornada de enganos até aprender a lição final —- logo agora em que estou em um momento da vida em que só peço a Deus que me livre dos meus pecados e se quiser que eu preste contas pelo que fiz que o faça quando encontrá-Lo e não aqui em vida. Que Deus me ouça!

Até amanhã!