Jornalista não deve ter medo da informação em rede, deve respeitá-la

 

#eSTAS2012: Redvolution, el poder del ciudadano conectado. The power of connected citizens

 

A multidão tem seus braços voltados para a cena que se desenrola ali na frente e na ponta dos dedos manipula o celular captando a imagem que será compartilhada imediatamente com um sem-número de pessoas. São centenas de imagens sendo registradas ao mesmo tempo e espalhadas para diferentes pontos até onde sua rede social alcança. A verdade ainda não é conhecida, o que não impede que comentários se multipliquem para diversas plataformas ajudando a construir a opinião pública (o que é mesmo que está acontecendo ali?).

 

O acesso simplificado à tecnologia e a facilidade com que nos conectamos em rede permitem que o cidadão conte os fatos a partir de seu ponto de vista e construa sua própria história, influencie pensamentos e se transforme em fonte da informação. Uma quebra de hierarquia em sociedades que se acostumaram a ter nos meios de comunicação o monopólio da notícia. Este empoderamento, que democratiza os debates e mobiliza a sociedade, não significa que o cidadão é um jornalista. Ele seguirá cidadão, mais forte e influente, e o jornalista permanecerá com seu papel de cobrir os assuntos, levantar as mazelas, cobrar mudanças, identificar exemplos e buscar a verdade que se constrói na investigação e não apenas no primeiro olhar. Tem obrigação de mediar as forças envolvidas, encontrar o equilíbrio que ajuda a esclarecer e assumir a responsabilidade da publicação, respondendo pelo que diz, mostra e escreve.

 

Jornalistas e jornalismo devem respeitar a força da informação em rede, estruturada pelo somatório de fatos registrados pelos cidadãos em diferentes meios, mas jamais temê-la. Quem souber melhor dialogar com esta sociedade, usufruir desta massa de informação à disposição e ofereccer a ela conteúdo qualificado e diferenciado vai se sobressair. Esta fórmula funcionará seja nos meios tradicionais de comunicação seja nos novos formatos que estão para surgir. Nada impedirá que o jornalista seja autor e autoridade, pois também não dependerá exclusivamente desse veículos para transmitir seu conhecimento. Formas de financiamento compartilhado já existem para sustentar a realização de reportagens e coberturas. E mais uma vez, independentemente de toda tecnologia desenvolvida, o que fará diferença é a credibilidade. Enquanto soubermos cultivá-la com nosso trabalho, o jornalista e o jornalismo persistirão. E o cidadão estará ainda mais fortalecido.

 


A imagem deste post é do Flickr da Fundacion CiberVoluntarios

Prêmio Comunique-se de Rádio, é nosso!

 

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Recebi na noite de terça-feira, o Prêmio Comunique-se na categoria “Âncora de Rádio”, durante cerimônia que marcou a 12a. edição do evento, em São Paulo. Na verdade, quem recebeu por mim foi a amiga Rosana Jatobá que no ano passado já havia subido ao palco ao ganhar o troféu na categoria jornalismo de sustentabilidade. Jatobá foi colega aqui no blog, depois seguiu em seu voo solo, construiu site próprio, escreveu livro e comanda programa e coluna sobre o tema na Rádio Globo. Na premiação, ainda estava escalada para ser mestre de cerimônia na abertura do evento. Portanto, percebe-se que eu estava muito bem representado. Minha ausência, justificada em texto lido por ela, deu-se por dois motivos: um prático e outro sentimental. Acordo de madrugada para fazer o Jornal da CBN e foi graças a este trabalho que tive meu nome destacado entre tantos profissionais, portanto nada mais justo do que agradecer a escolha com aquilo que tenho de melhor a oferecer: meu trabalho. Não comparecer ao evento me impediu, também, de repetir o choro que me dominou quando fui premiado pela primeira vez, em 2009. Ouvir a Rosana foi menos constrangedor.

 

A pedido de ouvintes, que carinhosamente escreveram para parabenizar-me, explico que o prêmio é organizado pelo Portal Comunique-se, plataforma que reúne jornalistas e comunicadores. São os próprios jornalistas que fazem uma primeira seleção de dez nomes, em seguida abre-se a votação pela internet pelos inscritos no portal, saem três finalistas e uma terceira etapa é realizada para a escolha do vencedor. Calcula-se que 100 mil pessoas votaram nesta etapa. O prêmio reúne gente consagrada e muitos colegas de redação já foram agraciados com o troféu. Alguns se repetem, comprovação de seu talento, como Miriam Leitão, Juca Kfouri, Carlos Alberto Sardenberg, Gilberto Dimenstein entre outros tantos que me acompanham pela manhã no Jornal da CBN.

 

A propósito, não tenho dúvida de que minha escolha está diretamente ligada a esta relação de talentos que me cerca na rádio CBN. São eles e mais uma equipe de jornalistas, que muitas vezes não aparecem (ou falam), que oferecem condições para que meu trabalho se sobressaia. Tenho convicção de que radiojornalismo não se faz apenas com ícones e âncoras. Somos dependentes de repórteres, editores, produtores e redatores, além de profissionais da área técnica, que ambientam nosso trabalho e interferem na produção, e do setor de internet, afinal temos de estar em todas plataformas. Uma gente criativa e responsável que encontro na rádio CBN desde que iniciei meu trabalho por lá, em 1998. E de quem tenho muito orgulho pelo que fazem.

 

Prêmio Comunique-se de Rádio, é nosso!

O dia em que o candidato comprou um livro

 

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A cobertura jornalística da campanha eleitoral, em rádio e TV, tem várias limitações impostas pela legislação e, algumas vezes, se transforma em um “agendão”, como costumamos dizer nas redações. O candidato está aqui, vai até lá e passou acolá. Informações ilustradas por imagens de político sorridente em meio a multidão que se espreme na feira livre e a rua de comércio popular. Gostam também de aparecer no palco de seminários de engravatados, onde recebem propostas de governo que assinam e jamais serão cumpridas. Com o pé no chão ou no palanque, estas agendas costumam render cenas para a campanha, talvez votos e, em alguns casos, infecção estomacal. Um dos lugares preferidos desta semana é a Bienal do Livro, que leva hordas de estudantes e fãs de escritores para os corredores no Parque do Anhembi, em São Paulo.

 

Há uns dois dias, vi um dos candidatos à presidência, ao lado de seu vice, caminhando entre “eleitores” e encenando para selfies que serão distribuídos nas redes sociais. Nos estandes, folhavam livros e posavam para as câmeras como se estivessem interessados na leitura. E nós jornalistas relatando o acontecido. Encenação que me lembrou história contada pelo jornalista Lucas Mendes, na época em que trabalhamos juntos na redação da TV Cultura. Ele já dava expediente em Nova York quando o presidente Fernando Collor acabara de ser eleito no Brasil. Antes da posse, Collor fez viagem para os Estados Unidos, não lembro se para descansar e recuperar o fôlego da intensa campanha eleitoral ou se para mais uma vez viver no mundo do faz de conta, o que lhe era típico. Cada passo que dava era coberto com curiosidade e intensidade pela imprensa brasileira que deslocou suas equipes de jornalistas atrás do primeiro presidente eleito desde o fim da Ditadura Militar.

 

Conta Lucas Mendes que, entre os programas realizados, Collor entrou em uma livraria e começou a olhar as estantes em busca não se sabe de que livro. Dezenas de repórteres cinematográficos e fotógrafos entraram correndo para registrar o momento, assuntando a dona da livraria. Ela se dirigiu a Lucas Mendes, que observava tudo da periferia da confusão, e quis entender “por que toda esta gente?”. Lucas explicou que o novo presidente do Brasil estava comprando um livro. E foi obrigado a ouvir da atônita livreira americana: “ele nunca comprou um antes?”

Procuram-se engraxates de rua!

 

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O evento pedia sapato social, destes que se combina com o terno: preto para o cinza, caramelo para o azul marinho. Como admiro a peça, não costumam me faltar. Por isso, nem me preocupei em visitá-los no guarda-roupa com a devida antecedência, fato que me causou um susto e uma descoberta. No momento em que os tirei do sapateiro, percebi que permanência deles fechados no armário, durante todas as férias, e o descuido de quem os guardou lá – provavelmente, eu mesmo – deixaram algumas marcas esbranguiçadas no couro. Nada que uma boa engraxada não resolvesse. Embaixo da pia, onde costumava guardar graxa e flanela, não havia mais nada. A velha caixinha com os apetrechos para o sapato parece ter se desfeito no tempo ou ter sido jogada fora em uma das últimas arrumações que o ambiente enfrentou. Nada que atrapalhasse meus planos, pois bastava ir até um engraxate e tudo voltaria reluzente para casa. Foi quando percebi que há muitos anos não passo perto de um desses engraxates de rua que, ficavam sentados aos seus pés fazendo arte no pisante, enquanto nós, no alto de um trono de ferro, líamos o jornal e trocávamos alguns murmúrios concordando ou não com os comentários que o artista fazia. “E aí, como estão coisas?”, “viu a última do prefeito?”, “tá precisando de chuva, não!?”, “andam dizendo por aí que ….”. E a gente, humm, é, talvez, quem sabe, meu Deus do Céu! Nada muito longo, mas o suficiente para ele entender a personalidade do freguês. Havia, também, uns pivetes com idade para serem nossos filhos, ou melhor, sobrinhos, já que todos éramos chamados de tio. Esses não tinham lugar fixo, carregavam suas caixas de madeira nas costas em busca de trabalho, ficavam na porta dos restaurantes e lugares chiques de onde saíam homens de terno e sapato social desfilando uma suposta elegância.

 

Puxando na lembrança, a imagem que tenho é dos engraxates do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Voltando ainda mais no tempo, lembro dos que sentavam na Praça da Âlfandega, ao lado da sede do Banrisul, no centro de Porto Alegre. É bem provável que tenha passado por outros tantos lá no Sul ou aqui na cidade, mas a memória não ajuda muito. Há algums meses, uma ouvinte da rádio escreveu para o Conte Sua História de São Paulo sobre o fim da sapataria do bairro onde mora, fenômeno que deve ter se repetido em outros lugares, pois o ponto comercial ficou muito caro para serviço tão mal remunerado. Deve ter virado farmácia ou posto de gasolina. Com a falta de credibilidade da praça pública, os engraxates de rua foram sendo extintos. Nestes tempos de violência urbana, quem se atreveria ficar exposto a assaltantes? Como boa parte do comércio, a sapataria vai para dentro do shopping e se oferece como sendo do futuro, torna o serviço mais caro e impessoal. Somos recebidos por moças e nossos sapatos somem atrás de um balcão sem que o sapateiro sequer olhe para nossa cara. Atendem o sapato, não mais a freguesia. Talvez esteja querendo demais. Em um mundo no qual tudo é descartável, vai ver o sapato não merece mais retoques. Sola, meia-sola ou apenas um pano para deixá-lo nos trinques? Nada vale mais a pena. Ficou velho, perdeu o brilho, bota fora e compra outro.

 

Se você conhece lugares onde os engraxates ainda exercitam seu talento, não deixe de me avisar. Pois, por enquanto, o “vai uma graxa, aí, cidadão!?” está só na saudade.

 

(e os meus sapatos ainda estão a espera do brilho)

 

PS: Imagem da Galeria de Giordano Pedro no Flickr

Eduardo Campos e a imprevisibilidade da vida

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A queda de um helicóptero, no litoral paulista, foi a primeira notícia que chegou à redação. No Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, um dos nossos repórteres avisa que o governador Geraldo Alckmin havia abandonado às pressas a cerimônia da qual acabara de participar. Sem confirmação, surge a suspeita: Eduardo Campos estaria envolvido no acidente. Assessores diretos do líder do PSB foram procurados por telefone. Os celulares não atenderam. De Brasília, soube-se que Campos não voava de helicóptero. Era a esperança de que tudo não passaria de boato. A Aeronáutica envia a primeira informação oficial sobre o acidente: não era um helicóptero, era um Cessna, jato executivo, mesmo modelo do usado pelo ex-governador. No local do acidente, nenhuma informação  e repórteres mantidos à distância. No hospital, notícias desencontradas sobre quantas pessoas feridas estavam sendo socorridas. De volta à Brasília: deputados e colegas de partido perplexos já sinalizavam o drama. Havia pessoas chorando e assustadas ao telefone. Todos tentavam saber a verdade. A mãe de Eduardo Campos deixa o compromisso que estava, no prédio do TCU, onde é conselheira. No seu gabinete, pouco tempo depois é vista aos prantos.  O pior cenário se desenhava: Eduardo Campos, 49 anos, estava morto.

 

Eleito duas vezes Governador do Estado de Pernambuco, três vezes deputado federal, deputado estadual, ministro do Governo Lula e candidato à presidência da República pelo PSB, Eduardo Campos, havia transformado-se na maior novidade desta corrida eleitoral ao fechar aliança com Marina Silva, assim que a ideia da criação da Rede Sustentabilidade foi frustrada, no ano passado. Quando todos se voltavam para as estratégias da batalha publicitária que se iniciaria no rádio e na TV e ainda repercutiam sua presença no Jornal Nacional, Campos volta a nos surpreender, agora definitiva e tristemente. Uma tragédia que abortou a jovem carreira de um político que parece ter surgido para viver intensamente, pois teve pressa para ascender, assumiu compromissos e foi protagonista em todas essas etapas. Ninguém perde mais do que sua família, mas se é verdade que sua morte impacta a política e, mais diretamente, a eleição que está em andamento, muito mais nos choca por despejar sobre todos a dura lição da imprevisibilidade da vida.

Parabéns, uma boa ideia!

 

51? Uma boa ideia

 

Passei parte da sexta-feira ouvindo amigos e conhecidos reagirem assim diante da minha nova idade. Brincadeira feita, como era de se esperar, por aqueles que, como eu, já haviam passado ou beiravam a casa dos 50. Aos mais jovens, o diálogo não fazia o menor sentido, pois eles não têm mais como referência o slogan que se transformou em marco do mercado publicitário, criado pela Lage Stabel & Guerreiro, em 1978, para vender a cachaça 51. Com “uma boa ideia”e estratégia de marketing arrojada, o fabricante conseguiu fazer de seu produto um sucesso mesmo que para muitos não seja a melhor cachaça produzida no Brasil. Como a idade me ensinou que em alguns assuntos, tais como futebol, religião e cachaça o freguês tem sempre razão, não vou meter meu bedelho na discussão e deixo por sua conta o voto nesta concorrida eleição.

 

De volta aos abraços recebidos no fim da semana passada. Se brincar com a ideia do 51 não significa nada para a garotada, com certeza Facebook, Twitter e internet têm tudo a ver com a turma; e ainda me causam algumas surpresas. Assim que cheguei no estúdio da rádio, abri o computador e o Google Chrome despejou na minha tela um doodle com tortas, bolo e velinha de aniversário. O que é apenas resultado de uma máquina que identifica sua conta e cruza os dados com seu perfil se transforma em uma mensagem simpática e quase pessoal de congratulações. Você chega a acreditar que alguém lá no Goggle acordou bem cedinho só pra lhe mandar aquele recado.

 

Eu fiquei impressionado mesmo foi com a quatidade de mensagens geradas nas redes sociais, e em algumas delas chegando por todos os lados. No Facebook, por exemplo, tinham parabéns na caixa de entrada, em posts e na linha do tempo; e no alto da página ainda aparecia uma lista de fotos de pessoas que teriam me enviado as felicitações. Curioso é que se fiquei perdido olhando para cima e para baixo para não deixar escapar nenhum abraço – afinal, não sou o Felipão mas também gosto de carinho -, alguns amigos também. Ao menos dois muito próximos, que conseguiram falar comigo por telefone, me disseram que haviam registrado suas congratulações no Facebook, mas não sabiam bem por onde: “Milton, o abraço tá lá, mas não sei onde foi parar”, me disse um deles.

 

Sem saudosismo, lembro que nos meus 25 anos, quando ainda morava em Porto Alegre, as felicitações chegavam ao vivo pelos amigos que conseguiam lhe encontrar no dia do aniversário ou colegas que lhe abraçavam no trabalho – alguns por obrigação -; também discavam para o seu telefone fixo (se você não souber o que isso significa, procure no Google) ou enviavam cartões pelo correio. Estes cartões podiam ser encontrados nas papelarias, muitos com mensagens prontas – o sujeito só se dava o trabalho de assinar embaixo. Agora, até os cartões são eletrônicos: costumo receber nas datas especiais um assinado pelo meu pai, normalmente com alguma referência mais pessoal (registre-se: ele também me telefona e só não me dá um beijo ao vivo devido à distância).

 

Indepentemente do formato que chegam, quero deixar claro que fico muito feliz com as lembranças registradas aqui ou acolá e, por isso, escrevo este post, mesmo que atrasado, para agradecer a gentileza de cada um de vocês que despendeu minutos do seu dia para me escrever algumas palavras. Serei sempre grato. Agora, estou mesmo muito curioso para saber como chegarão as felicitações nos meus 60 anos. Serão drones os cartões de parabéns à você? Taí, uma boa ideia!

Recomeçando o velho e bom blog

 

Blogs

 

O caro e raro leitor deste Blog já percebeu que a cara está nova. Não a da foto logo acima, retocada com algum editor de imagens qualquer, mas a dos textos, comentaristas e favoritos. Na língua do internetês: o template mudou. Com a graça da turma que entende do riscado na CBN, tudo ficou mais claro, mais agradável de ver e ler. Por mais que o conteúdo seja fundamental, o desenho não deve jamais ser desprezível. Por origem, a palavra design significa “dar sentido as coisas”, lembra Roberto Verganti, da Politécnica de Milão. Sendo assim, interfere na nossa relação com as coisas e as transformam em revolucionárias quando alcança a excelência. Não, não quero chegar até lá, meus limites intelectuais e criativos somados a minha autocrítica me livram desta pretensão. Tenho expectativas bem mais amenas, que não me impedem porém de, inspirado pelo novo desenho do Blog, ser mais preciso, presente e claro no diálogo travado com você neste espaço. Com certeza, a mudança me dá nova motivação.

 

Curiosamente, as mudanças ocorrem em uma época na qual para muitos esta coisa de blog já era. Cora Rónai, de O Globo, colunista a quem devemos sempre prestar atenção, escreveu há alguns meses sobre a incorporação dos antigos blogs pessoais pelo Facebook, e a transformação do que costumávamos chamar de blogosfera em rede social. Assim como eu, Cora gosta de tecnologia e gatos, com a diferença de que demonstra conhecimento técnico profundo sempre que escreve sobre ambos. Ela tem a razão, enquanto eu só tenho a emoção para escrever. Portanto, não vou tentar provar a ninguém verdade diferente daquela que os entendidos estão pregando. Mesmo porque essa ideia de que os blogs estão fora do tempo já é velha, também. A primeira vez que ouvi a tese foi durante a primeira edição da Campus Party Brasil, em 2008, quando um repórter de televisão – desses com jeito descolado – perguntava para seu entrevistado – ainda mais descolado (e careca) – sobre a morte da blogosfera. Confesso que tomei um susto, pois este Blog que você lê agora (ou você está me lendo no Facebook?) havia nascido não fazia um ano. Tivesse acreditado, teria desperdiçado 7.532 posts e cerca de 35 mil comentários feitos desde 4 de junho de 2007 quando o Blog entrou no ar.

 

A influência das redes sociais, em especial o Facebook, não pode ser desdenhada. É por isso que em meu perfil pessoal ou na fan page que mantenho, publico, se não o post completo, ao menos a chamada para todos os posts escritos no Blog. O Twitter, de quem sou fã desde pequenino, também é canal de divulgação do que faço por aqui. Assim acontece com o Instagram e o Linkedin, em situações específicas. Conectar todas as ferramentas digitais é essencial para que nossas ideias alcancem o maior número de pessoas. Estendemos nossos braços, também, aos seguidores dos comentaristas que me dão o privilégio de publicar seus textos semanalmente, como o Carlos Magno Gibrail, o Ricardo Marins e meu pai, Milton Ferretti Jung, além daqueles que passam por aqui pontualmente, como o Antonio Augusto, a Dora, o Julio Tannus, a Maria Lucia e a Rosana. E todos os demais que aceitarem compartilhar seu conhecimento com os leitores desse espaço. É nesta miscelânea de canais que estaremos sempre dividindo nossas percepções sobre o cotidiano, a cidadania, a política, a economia, o esporte (o meu Grêmio, é lógico); enfim, sobre sobre nossas vidas. Digam o que disserem, independentemente do que criarem, estaremos sempre buscando novas formas de nos expressar, sem jamais abandonar este Blog.

Volta às aulas

 

Nos próximos dias, milhares de crianças se despedem das férias, conferem os cadernos, arrumam a mochila e seguem de volta à escola. As aulas recomeçam e a rotina dos estudos, também. Alguns tiveram tarefas durante a folga do meio de ano, porque os professores aprenderam que incentivá-los a fazer exercícios no recesso aquece a memória e ajuda a guardar alguns conceitos (em troca, os alunos são recompensados com pontos extras na avaliação). Reencontrar os amigos de sala já não provoca mais a mesma sensação do meu tempo, porque em tempos de rede social nada mais é novidade, tudo se conta, se posta e se “selfie”. Por mais que cada um vá para o seu lado, o Facebook nos deixa lado a lado, compartilhando visitas, encontros e baladas. Com tudo registrado em tempo real, imagino que ninguém mais se atreva a pedir para os alunos escreverem a velha composição com o título “Minhas férias”. Tá tudo no Face, professora!. Aliás, ninguém mais chama aquilo de composição, agora é redação.

 

Estou de volta, também, após 15 dias de férias nos quais tentei me manter o mais distante possível das obrigações. Em meu Twitter e Facebook apenas compartilhei o que era publicado no Blog; no e-mail da rádio, deixei acumular broncas, pedidos, convites e anúncios; no pessoal, respondi o que pedia urgência e guardei o que me daria trabalho. Mesmo assim é impossível desligar por completo, especialmente morando na cidade, onde cruzamos por pessoas, ouvimos comentários, o rádio insiste em contar notícias e o jornaleiro arremessa as manchetes na porta de casa todas as manhãs. Apesar de obrigado por força da profissão, gostaria de não ter sabido de aviões que caíram e foram derrubados, e dos números gigantescos de mortes provocadas por líderes-anãos que comandam seus países e quadrilhas.Lamentei que Ubaldo e Suassuna tenham ido embora. Fiquei triste com a morte de Rubem Alves que tantas vezes salvou-me de entrevistas medíocres com suas respostas inteligentes. A quem vou procurar na próxima pauta? Ao menos não precisei noticiar a falta de propostas para o Brasil no início da campanha eleitoral.

 

As férias terminaram. Passaram muito mais rápido do que planejei. Não tive tempo para fazer quase nada do que programei. Havia me proposto a ficar em casa para organizar a vida: arquivos, livros , discos e documentos. Vão continuar esperando para voltar ao lugar certo. A volta dos treinos de golfe vão ter de esperar, também. Até a bicicleta ficou pendurada na parede, andou menos do que quando estou na ativa. Fiquei devendo todas as visitas aos amigos e parentes. Li, não tudo que imaginava, mas li porque sempre estou lendo; ouvi mais música do que o normal e me diverti com os seriados e filmes à disposição no Netflix. Foram maratonas regadas a vinho. O que aproveitei muito mesmo foi a companhia da família porque era este meu único compromisso nestes dias todos. É para isso que se tira férias. Conversamos, nos divertimos, encontramos soluções para o problema dos outros e deixamos os nossos para lá, lembramos de histórias passadas e programamos outras tantas.

 

Agora, chegou a hora de conferir as tarefas, arrumar a mochila e voltar à ativa. Seja bem-vindo, trabalho!

Fazendo a lição de casa no League of Legend

 

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Éramos três mil sentados nas cadeiras que ocupavam todo o Espaço das Américas, local destinado a grandes espetáculos em São Paulo. No palco, a parafernália eletrônica se destacava com dois conjuntos de cinco telas digitais gigantescas, na vertical, estampando a imagem de personagens coloridos. Estavam entre três telões que permitiam que todos assistissem à batalha travada por aqueles personagens, em um cenário de florestas e rotas nas quais encontram-se tropas, dragões, torres, inibidores e nexus – a estrutura a ser conquistada. Telas menores estavam mais abaixo e nelas víamos o rosto de 10 jovens, divididos nas equipes azul e vermelha. Atrás de todos os equipamentos, são eles a alma que move o League of Legend, sobre o qual já conversei com você neste blog, mas que vale sempre lembrar é o jogo on-line mais jogado no mundo, disputado por cerca de 67 milhões de jogadores por mês. Alguns jogadores são ídolos da garotada que vibra a cada ataque aos adversários e derrubada de torres, lances transmitidos ao público presente e aos milhares que assistem pelo computador em suas casas por equipes de narradores e comentaristas – profissionais que levantam a galera do eSport com os mesmos cacoentes (para o bem e para o mal) da turma do esporte que acompanhamos no rádio e na televisão.

 

Deixe-me voltar aos jogadores, pois são eles, mais do que as máquinas, que me chamam atenção. A começar pelo fato de jogarem algo que para mim parece coisa de outro mundo. Apesar do privilégio de contar com dois “comentaristas particulares”, que passaram as partidas me explicando cada lance, ainda tenho muita dificuldade de entender as estratégias usadas pelas equipes. Sei que começam com a escolha de centenas de personagens (ou campeões, como chamam oficialmente) disponíveis, pois cada um tem desenhos e poderes diferentes e, no momento de selecioná-los, é importante identificar o que mais se encaixa com o tipo de jogo necessário para vencer a equipe contrária. Antes dessa escolha tem-se o direito de eliminar alguns campeões, impedindo que o adversário os utilize. Por isso, estudam muito os outros times, pois este conhecimento pode determinar a sobrevivência ou não no cenário. Poderiam ensinar a tática para alguns técnicos do nosso futebol.

 

Times escalados, vai começar a partida: é aí que me perco no embaralhado de movimentos e ataques que devem ser feitos de forma coordenada, o que exige muita disciplina, comunicação e raciocínio estratégico. São habilidades nas quais essa garotada de pouco mais de 18 anos é craque e que os fazem se destacar no cenário nacional e chamar atenção dos patrocinadores que bancam treinamentos, viagens, estágios no exterior, equipamentos e até a contratação de estrangeiros para reforçar as equipes. Se não estão disputando os jogos, são assediados pelos admiradores. Quase ninguém mais pede só autógrafo, como fazíamos no passado. Agora, querem selfies, o que deve deixar as marcas que estampam os uniformes dos eAtletas ainda mais felizes, pois garantem milhares de exposições nas redes sociais.

 

Alguns desses jogadores já construíram personalidade própria e quando aparecem no telão, em entrevistas pré-gravadas ou na apresentação das equipes, são ovacionados pela galera. Um é mais agressivo, o outro, provocador. Tem o engraçado e tem o queridinho das meninas, também. Sim, elas estão lá, muito mais na torcida do que no jogo. Não chegam a ser uma maria-mouse, mas jogam suas asinhas para cima dos garotos. E quando me refiro a asas não é linguagem figurada. Caminhando na plateia, você encontrará muitas meninas fantasiadas com roupas de personagens de games, mangás e animes. Elas fazem colsplay, me contam os companheiros de jogatina.

 

No fim de semana, disputou-se mais uma etapa regional do Campeonato Brasileiro de Lol – CBLOL para os íntimos – , competição que distribui R$ 110 mil em prêmio, sendo metade destinada ao campeão. Foram oito equipes se enfrentando em partidas de melhor-de-três, em quartas de final e semifinal, que se encerraram no começo da noite de domingo. Depois de batalhas acirradas, com direito a virada de placar, mortos e feridos (figurativamente, lógico), KaBuM e CNB se classificaram para a guerra final que será no próximo sábado (26/07), no Ginásio do Maracanazinho, no Rio de Janeiro. Os oito mil ingressos para a final foram vendidos em poucas horas, foi a informação que todos os organizadores do CBLOL e dirigentes ligados a Riot Games Brasil, responsável pelo jogo por aqui, fizeram questão de me contar. O vencedor será o representante brasileiro no cenário internacional e vai para o International Wildcard, onde enfrentará o campeão latino em busca da vaga no Campeonato Mundial de 2014.

 

Curiosamente, dentre as finalistas não estão a equipe que levou seus jogadores para se desenvolverem na Europa e as duas que importaram sul-coreanos para reforçar o time. O que para muitos pode ter sido uma surpresa desagradável pois desestimularia investidas mais audaciosas dos patrocinadores, para mim é um incentivo a milhares de jovens que estão nas ligas amadoras do Lol aqui no Brasil, pois o resultado tornou mais real a possibilidade de eles se destacarem internacionalmente mesmo treinando apenas por aqui. O poder econômico tem influência, mas não é determinante no sucesso. Ops, desculpe-me pelo palpite. É que esse esporte tem crescido tanto que, assim como no futebol, já tem um monte de gente, como eu, achando que é treinador de Lol.

 

Por falar em futebol, uma informação para os gestores das arenas que construímos em algumas cidades-sede da Copa do Mundo: a partida final do Mundial de Lol está marcada para 19 de outubro, no Estádio Sangam, um dos principais palcos da Copa da Coréia e do Japão, em 2002. Quem sabe não está aí a solução para alguns dos elefantes brancos que levantados, no Brasil: transformá-los em campos de batalha do League of Legends.