Conte Sua História de São Paulo: a viagem de trem com meu pai

 

Por Dimas Ramalho 
Ouvinte da rádio CBN

 

 

 

 

Ainda criança tomei o trem com meu pai Horácio para conhecer a capital. “Vai ver o que é uma cidade grande”, disse-me. Foi onde ele passou boa parte de sua vida de estudante: internato no Arquidiocesano e, depois, Direito na São Francisco.
 

 

Na chegada, não acreditei no tamanho da Estação da Luz e, depois, na quantidade de pessoas e automóveis circulando. De mãos dadas, chegamos ao Teatro Municipal e ele me falou da Semana Modernista de 22. Fiquei curioso ao ouvir sobre Mário de Andrade e Anita Malfatti.
 

 

Em frente, vi o Mappin, enorme. Atordoado com as escadas rolantes, subi e desci até cansar. Em seguida, fomos à Rua Direita, onde só pedestres passavam. Na Praça da Sé, vi o mundo real e, na Catedral, onde entramos, em silêncio absoluto, pude observar a dimensão da fé.
 

 

Depois, na Faculdade de Direito, ele apontou as Arcadas e vi seus olhos úmidos. Somente anos mais tarde, quando também ingressei na São Francisco, entendi o que significou aquele momento. Até hoje, sinto a mesma emoção cada vez que visito a faculdade.
 

 

De táxi, fomos ao aeroporto e ele, que era piloto brevetado, falou de partidas e de sua paixão por aviões. Encostado no vidro, fiquei por muito tempo observando as aeronaves subindo e descendo, pensando em quanta gente passava por São Paulo.
 

 

No Butantã, explicou que do veneno vinha a cura. E, no zoológico, disse que um dia iríamos respeitar mais os animais e a natureza.
 

 

No Mercado Municipal, me perdi entre as bancas. Na feira livre, não vi o fim dos quarteirões e o pastel foi inevitável.
 

 

No Copan, ouvi sobre Niemayer e observamos com atenção as curvas do prédio. Já na cobertura do Edifício Itália, tive a noção de perspectiva e, no térreo, experimentei o primeiro café italiano da minha vida. Era uma máquina enorme que ocupava todo o balcão e de onde saia um café muito encorpado e quente. “Que modernidade essa máquina”, eu pensei.  Sempre que tomo um café forte, lembro daquela tarde ensolarada por São Paulo.
 

 

Na volta desses dias de passeio, sentia o coração acelerado a bordo do trem, sentado ao lado de meu pai no carro Pullman, rumo a Taquaritinga (de onde vim), passando por Araraquara, onde hoje resido. Mãos geladas. Medo. Estava apaixonado pela cidade grande.
 

 

Nas longas horas da viagem de volta percebi quanto o amava, mas não disse, nem naquele dia, nem nunca. Somente agradeci em silêncio enquanto observava seu rosto sereno cochilando. Já eu não consegui dormir. Passou muita coisa na minha cabeça de criança/pré-adolescente. Um turbilhão de emoções. Trânsito, ônibus, cinema, livro, barulho, gente, muita gente.
 

 

Quem me visse naquela noite perceberia que nos olhos daquele menino brilhava uma luz diferente, estranha, nova, desafiadora, como se fosse um rito de passagem. Minha mãe percebeu. Tem coisas que só as mães percebem. Nunca mais fui o mesmo. Não sei quanto tempo durou aquela viagem. Acho que dura até hoje. Meus sonhos ampliaram-se. Vi que nunca mais teria sossego. E foi assim.
 

 

Quando penso nas mãos do meu pai, que me levaram mundo afora e me soltaram, sinto que fiquei adulto ali naquela viagem. Desassossegado, com “bicho-carpinteiro” no corpo, como dizia minha avó materna. Devia ter contado ao meu pai tudo o que aconteceu comigo, tudo que se passava na minha cabeça. Mais uma vez não falei nada. Ele, com certeza, pensaria sorrindo: “acho que ele está aprendendo!”.

 

Dimas Ramalho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Milton Jung. Escreve sua história de São Paulo e envie para o email milton@cbn.com.br

 

Avalanche Tricolor: tudo está no seu lugar (ou quase)

 

 

Grêmio 2×1 Brasil de Pelotas/RS
Gaúcho – Arena Grêmio 

 

 

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Alisson prestes a marcar seu primeiro gol (Reprodução Canal Premier)

 

Haveria de chegar o dia de nossa vitória. Enquanto os meninos iam para o sacrifício e tropeçavam na juventude e inexperiência, os “veteranos” se preparavam fisicamente para uma temporada que será extensa e competitiva. Voltaram a campo no fim de semana e apesar de amargarem uma derrota já sinalizavam que as coisas voltariam ao seu devido lugar.

 

O caro e raro leitor desta Avalanche haverá de lembrar que o título do texto que escrevi sobre a estreia dos titulares no Campeonato Gaúcho era “vai dar samba”, o que poderia parecer alucinação carnavalesca diante da sequência ruim que marcou o início da competição. Não era. Enquanto alguns ouviam os muxoxos das arquibancadas e bastidores, eu preferia prestar mais atenção no samba que ecoava lá pelas bandas da Arena. O toque de bola estava de volta, assim como a velocidade de alguns jogadores de frente e a intensa movimentação nos demais setores. Faltava ritmo e entrosamento, é claro. E pagamos caro demais por isso naquele jogo.

 

Na partida da noite dessa quarta-feira, em rodada que antecipamos devido aos compromissos sulamericanos que temos, parte daquelas características que nos levaram a ser o melhor time da América, em 2017, entrou em campo. Luan já parecia mais solto e disposto. Everton superava a velocidade de seus marcadores. A bola vinha mais redonda de trás e o domínio da partida era nosso. O deslocamento de posição de alguns jogadores e a inclusão de novos nomes impactaram o desempenho como já era de se esperar. É normal, o time está em construção para a temporada.

 

Havia dificuldade para furar o ferrolho montado pelo adversário e a falta de paciência às vezes nos levava a precipitar a jogada. Já era de se esperar, afinal a pressão por resultado é evidente. Um pênalti não foi sinalizado a nosso favor e isso também podemos considerar normal. Já virou padrão dos árbitros. E levamos um gol em jogada isolada de ataque do adversário. Acontece. E deu nova dramaticidade à partida.

 

Quando o segundo tempo chegou, Renato mexeu no time, apostou em Alisson e Jael e os espaços surgiram; e com um pouco mais de espaço ninguém foi capaz de segurar o ataque gremista. A virada com gols do próprio Alisson e de Luan, completando cruzamento de Everton, deu justiça ao resultado e, imagino, acalmou os mais ansiosos. Assim como Renato no intervalo da partida, a vitória do Grêmio também colocou as coisas no seu devido lugar e reduziu a pressão sobre os jogadores que se voltam para a primeira decisão do ano, semana que vem.

 

Neste pré-Carnaval já deu para ouvir torcedores deixando a Arena cantarolando antigo samba de Benito de Paula: “tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus!”. Quase tudo. Ainda faltam ajustar algumas peças no time e ocuparmos o espaço na tabela de classificação que merecemos. Chegaremos lá!

NRF2018: as melhores práticas do maior evento de varejo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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O Varejo, um dos setores mais importantes na economia global, tem na NRF National Retail Federation o seu maior evento mundial. Para trazer o que de mais significativo ocorreu na 107ª NRF buscamos a palavra da CEO da AGR Consultores, Ana Paula Tozzi:

 

BMJ – Qual o maior destaque da NRF 2018?

 

APT – O retorno da valorização das pessoas e equipes como diferencial competitivo foi o grande destaque deste ano. A capacidade de construir um time motivado e unido em torno dos mesmos valores e da mesma missão é o diferencial para atingir resultados.

 

Nada novo concorda?
O que mudou?

 

O desafio atual tem sido acompanhar as mudanças com a “agilidade de uma startup” somada à robustez financeira e de gestão de uma empresa estabelecida.

 

Katie Finnegan líder do Wal-Mart Loja #8 (unidade de inovação do Wal-Mart) entende que os times devem ser construídos com perfis baseados na diversidade. Eu concordo com ela. Jovens empreendedores, seniores administradores, estatísticos, marqueteiros, arquitetos… enfim, a composição do time que conseguirá romper barreiras e criar inovações que serão testadas e implementadas.

 

Parece que voltamos ao ponto em que pessoas são o diferencial competitivo dos nossos negócios. Na verdade, agora falamos: o(s) time(s) é (são) o diferencial competitivo!

 

BMJ – Encontrou alguma novidade que pudesse implantar de imediato?

 

APT – Vimos o painel do carro da GM com interação direta a Starbucks, por exemplo. O motorista pode desde localizar a loja mais próxima quanto comprar e pagar no caminho da loja, passando apenas para buscar o produto. Vimos as compras online de varejistas de vestuário com o ”pick-up” em lojas de conveniência ou em fábricas. Aumentando o fluxo da loja física e unindo operações não tão óbvias. Encontrar os parceiros estratégicos, já que o relacionamento é de longo prazo, e suar para integrar sistemas, processos de negócio e consumidores entre as empresas são as tarefas mais complexas deste projeto.

 

Outra iniciativa que o varejo deve abraçar rapidamente é a implementação das soluções de Chatbot. O atendimento eletrônico realizado por robô evoluiu substancialmente com a fusão da Inteligência Artificial. A possibilidade de oferecer serviços customizados, facilitar a integração de serviços, a simplificação de processos, a melhor experiência de uso e o melhor apoio ao cliente, fizeram esta tecnologia ser preferida dos executivos.

 

A NRF|2018 destacou o desafio do varejo em encantar uma audiência extremamente fragmentada e que, para tanto, tem que ser um varejo dinâmico e adaptável. Ou seja, acompanhar esse mercado requer constantes questionamentos e muita criatividade, tarefas difíceis de serem executadas se você estiver exclusivamente submerso nos problemas do dia-a-dia.

 

Convido você a participar do nosso Pós-NRF que acontecerá no dia 21 de fevereiro, das 8 às 11 horas, na sede da AGR Consultores em São Paulo.

 

Acesse o link e inscreva-se!

 

Sugiro que aceitem o convite da Ana Paula e identifique o BLOG DO MILTON JUNG para inscrever-se DE GRAÇA.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.
 

É preciso estar atento às mudanças nos padrões éticos

 

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Na leitura em busca de inspiração para novo projeto que inicio nesta semana – sobre o qual a gente conversa mais à frente – deparei-me com “Ética e imprensa“, livro de Eugênio Bucci, publicado pela Companhia das Letras. Dentre conflitos de interesse descritos, o professor lembra de privilégios que jornalistas mantiveram por anos no Brasil tais como ser isento de imposto de renda, imposto predial e de transmissão de imóveis.

 

A Constituição Federal de 1946 determinava em seu artigo 203: “Nenhum imposto gravará diretamente os direitos de autor, nem a remuneração de professores e jornalistas”. No mesmo texto constitucional, lia-se no artigo 27 das Disposições Transitórias: “Durante o prazo de quinze anos, a contar da instação da Assembléia Constituinte, imóvel adquirido, para sua residência por jornalista que outro não possua, será isento do imposto de transmissão e, enquanto servir ao fim previsto neste artigo, do respectivo imposto predial”.

 

Privilégios para jornalistas, institucionalizados e aceitos pela maioria dos profissionais e órgãos de imprensa. Provavelmente a maior parcela da sociedade sequer soubesse desses agrados àqueles que por ofício devem, entre tantas outras funções, identificar, investigar e relatar fatos que não estejam de acordo com as normas na gestão pública. E se soubesse talvez não fizesse oposição, apesar de um evidente conflito de interesse.

 

Sim, caro e raro leitor deste blog, os jornalistas, assim como os juízes, procuradores e promotores públicos nos dias de hoje, também recebiam uma espécie de auxílio-moradia; além da isenção de imposto de renda. As regras, consideradas normais para aquela época, vieram a cair a medida que o grau de exigência ética da sociedade evoluiu. A independência na cobertura jornalísticas foi demanda crescente; os veículos de comunicação, seus proprietários e profissionais, perceberam ou foram levados a perceber que o privilégio era inconcebível.

 

Historicamente, registram-se mudanças nos padrões éticos que costumam ser percebidas mais rapidamente ou tardiamente conforme a instituição. Algumas pagam um preço muito alto e terão dificuldades para recuperar sua reputação. A crise de representatividade de políticos e partidos é um exemplo. Há a expectativa que a conta será cobrada pelo eleitor no pleito de outubro. A conferir.

 

A Justiça brasileira também está diante deste desafio: a insistência de juízes em receber o auxílio-moradia de R$ 4.377,73, – mesmo aqueles que têm residência própria, alguns com várias delas, inclusive – sinaliza a dificuldade que os magistrados têm de traduzir as novas demandas do cidadão. Ao reivindicar o pagamento com base na lei e sob a justificativa que é uma compensação aos reajustes escassos para o serviço público, distorcem a discussão.

 

Primeiro, porque os que pedem salários mais justos que levem o debate aos fóruns competentes, encontrem espaço no Orçamento para vencimentos mais próximos das suas necessidades e, claro, dentro da capacidade finita do Estado remunerá-los.

 

Segundo, porque os que pedem o fim do privilégio sabem o que está escrito na lei e é esta lei que questionam devido aos novos padrões éticos exigidos no poder público.

 

Assim como no passado perdeu o sentido benesses do estado aos jornalistas diante da necessidade de se manter a independência e a credibilidade, a Justiça e seus juízes, tanto quanto o Ministério Público e seus procuradores e promotores, que se apressem em entender o grito do cidadão contra seus privilégios. A falta de apoio popular e o desconsideração com os novos padrões éticos enfraquecerão lutas justas e necessárias que estão em andamento no país, como as que travam contra a corrupção. E não podemos perder esta luta de maneira alguma.

Avalanche Tricolor: vai dar samba!

 

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Gaúcho – Arena Grêmio

Gremio x Cruzeiro

Everton ganha chance no time titular (Foto LUCAS UEBEL/GrêmioFBPA)

 

Impressão minha ou o único chute no nosso gol foi no pênalti? Parece-me que sim. No primeiro tempo a única tentativa séria do adversário foi-se embora pela linha de fundo. O resto do jogo fomos nós tocando bola, trocando passes e posição, dando cavadinha, procurando o espaço livre, cabeceando no poste, para fora e para o lado, chutando de um lado e o goleiro deles despachando pelo outro.

 

O time titular do Grêmio – ou quase – esteve de volta aos gramados depois de uma curta pré-temporada. Retorno que se precipitou devido aos resultados abaixo das expectativas do time de transição. A vitória virou obrigação para uma equipe ainda com a perna presa pelos trabalhos de musculação e fora do tempo para dar o passe, acertar a passada e se deslocar. Sem direito à adaptação pagou caro diante do futebol apresentado. Merecia resultado melhor.

 

O DNA do futebol gremista que nos encantou e conquistou o tri da Libertadores em 2017, porém, apareceu em muitos momentos da partida, apesar do resultado negativo. Houve boas tentativas de deslocamento, passes colocando o colega mais próximo do gol, dribles capazes de limpar a jogada e pressão o tempo todo.

 

Renato ensaiou um time, testou mudanças de posição e deu chances a novos jogadores. Sabe que precisa de tempo para que os velhos conhecidos voltem a atuar com harmonia e muito mais tempo para que os recém-chegados se encontrem dentro de campo. Precisa também da volta de Artur, que se transformou no maestro desta equipe com a posse de bola segura e a armação de jogo precisa.

 

Quarta-feira, o Grêmio volta a campo em busca da primeira vitória no Campeonato Gaúcho, novamente na Arena. Não tem como garantir que os pênaltis a seu favor sejam marcados – o do jogo de hoje não foi -, mas vai se esforçar para não depender deles.

 

Sabe que os três pontos o aproximará da zona de classificação e colocarão as coisas no seu devido lugar. Serão importantes, também, na preparação para a primeira decisão do ano: a Recopa, que começa a ser disputada na semana seguinte. Sim, o Grêmio mal começa o ano e já tem título a disputar. E pelo que assisti hoje, mesmo com a falta de gols e a derrota, acredito que na final contra os argentinos, vai dar samba! 

Conte Sua História de São Paulo: um passeio para matar a sede da metrópole

 

Por Frei Antonio Leandro da Silva

 

 

Tenho sede não só de conhecer a metrópole, como também desvendar seus recantos obscuros, percorrer interstícios, caminhar sempre um pouco mais…

 

Impressionam-me suas largas e movimentadas avenidas, arrojados viadutos, fascinantes monumentos, modernas arquiteturas, templos monetários… Uma cidade construída sobre concreto e asfalto. Nessa sociedade, sinto-me desconhecido de todos, estranho no meio da multidão.

 

Sigo a Rua São Bento, atravesso as praças do Patriarca e Antônio Prado. Subi a Avenida São João e, no cruzamento desta com a Ipiranga, experimento o que tantos nordestinos já sentiram: o anonimato de quem vive na cidade grande. Visito a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, espaço sagrado para acolher os fadigados, refúgio dos caminhantes. Ajoelho-me, rezo. O espaço fortalece minhas forças e esperanças para caminhar. A oração reanima, acalenta e silencia a alma.

 

O tempo corre, olho para o relógio, levanto-me. Retorno pela Avenida São João. Contemplo situações e pessoas, cines pornográficos, prostitutas encostadas nas esquinas e bares, bêbados deitados no chão, adolescentes cheiram cola, mulheres, com seus filhinhos, imploram esmolas aos transeuntes. Homens de gravatas conduzem pastas, mulheres bem vestidas e simpáticas seguem caminhos, camelôs desmontam suas barracas. Polícia faz a ronda, ambulâncias acionam as sirenes. Atravesso o Vale do Anhangabaú, olho atentamente os arredores. Subo a rampa da Rua São Francisco, cruzando com a Rua do Ouvidor.

 

Finalmente, meus passos me trouxeram de volta ao convento. Caminho direto ao meu quarto e concluo a escrituração:

 

“Uma coisa aprendi neste dia: o caminho da vida é longo, sinuoso e penoso. Preciso sempre caminhar com determinação, coragem e autoconfiança, mesmo quando as circunstâncias me pareçam estranhas, pois é vivenciando o novo, o estranho, que podemos dar significado ao caminhar sem desanimar”.

 

Frei Antonio Leandro da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Mundo Corporativo: coragem para experimentar depois dos 50 anos

 

 

“O mais importante é buscar autoconhecimento, fazer as reflexões do que eu gosto e no que eu sou bom para que essa experiência de testar outras possibilidades possa lhe trazer algo útil; se você não reflete, a experiência passa e você não faz nada com ela”. A sugestão é do consultor Rafael D’Andrea que tem se dedicado a cuidar de profissionais que, após os 50 anos, precisam estar prontos para enfrentar o processo de transição de carreira.

 

Na entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, D’Andrea foi explicou que é fundamental que se tenha coragem de experimentar: “o medo da mudança é talvez o principal fator que nos causa esse sofrimento com relação a mudança; é muito mais o medo que causa o sofrimento do que a própria mudança. É a angustia que nos dá esse sofrimento, que acaba nos impedindo de alcançar resultados melhores nessa transição”.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e tem a colaboração de Juliana Causin, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

De volta para o futuro do varejo

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

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Em julho de 1994, Jeffrey Bezos colocava no ar o site da Amazon. Era uma aposta para poucos. Uma dúvida para muitos, que não enxergaram que Bezos estava provendo o futuro do varejo eletrônico.

 

 

Há uma semana, em Seattle, Jeffrey Bezos introduziu o futuro do varejo físico. Abriu uma loja experimental em que não há check out, caixa, fila, chips, carrinhos  nem o mau humor de atendimentos indesejáveis.

 

A AMAZON GO oferece em 165 m2 produtos de conveniência em conjunto com alimentos orgânicos da Whole Food. Os produtos são do presente, mas a experiência de compra é do futuro. Nesta loja, o atendimento é todo seu. Você escolhe, coloca na sua sacola, pode até devolver alguns itens e vai embora. Simples assim.

 

 

A complexidade é por conta da integração de várias tecnologias de ponta. Segundo o site da empresa fazem parte do processo: “computer vision, deep learning algorithyms, sensor fusion, just walk out technology”.

 

 

Há informações que a IBM, em 2005, já disponibilizava algo similar, e na Suécia já existe formatação idêntica.

 

 

No Brasil, fomos buscar o conhecimento de Regiane Relva Romano, professora da FGV de Tecnologia Aplicada ao Varejo e doutora pela tese defendida, em 2011, também pela FGV: “Os impactos do uso da tecnologia da informação e da identificação e captura automática de dados nos processos operacionais do varejo”. Ou seja, Dra. Regiane foi diplomada expondo o que a Amazon está oferecendo aos seus clientes de Seattle:

 

“A Amazon Go faz uso de uma mistura de AIDC – Automatic Identification and Data Capture – identificação automática e captura de dados. A família AIDC inclui várias tecnologias que vão desde o simples código de barras, passando por visão computacional, NFC (Near Field Communication), QRCode, RFID (identificação por radiofrequência), biometria, entre outras. Além da AIDC, a solução da Amazon Go também envolve outras tecnologias, como é o caso de Inteligência Artificial, CRM, ressuprimento automático, Analytics, Big Data, dispositivos móveis, pagamentos inteligentes, enfim, diversas soluções tecnológicas, que apesar de já estarem disponíveis há anos, começaram a se tornar economicamente viáveis e tecnicamente confiáveis”.

 

 

Por este trabalho, Regiane recebeu o prêmio IDWORLD People 2012 Americas Awards em reconhecimento à inovação. Refletindo o lado positivo da criação mas expondo a realidade da aplicação, pois o mercado de forma geral não consegue ter a visão de inovação para executá-la de imediato.

 

Esse é o mérito de Jeffrey Bezos, cuja crença na Amazon lhe rendeu em janeiro a posição de homem mais rico de todos os tempos, com 105 bilhões de dólares.

 

Regiane Relva, atuante no varejo através da VIP-SYSTEMS, dá o seguinte recado:

 

“O foco do varejo é diminuir o atrito durante o processo de compras e tornar a experiência algo inesquecível e prazerosa! A integração de canais e o UNIFIED COMMERCE – ou seja, um passo após o OMNI CHANNEL exigirá a aplicação cada vez mais intensiva deste conjunto de tecnologias, que já estão todas disponíveis no Brasil e totalmente tropicalizadas”.

 

 

A Doutora tem o conhecimento para o experimento. Será que o varejo nacional vai esperar o futuro?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

 

Aprendendo a viver com a longevidade alheia

 

 

Eram 4h30 da manhã, ainda com a ressaca do fim de semana, a espera do café preto e do omelete, que sempre me acompanham logo cedo, quando recebi uma dose extra de vitalidade. Estava lendo O Globo e, em uma sequência de reportagens, encontrei exemplos de longevidade incríveis que nos animam tanto quanto nos desafiam.

 

O primeiro talvez você estranhe. É de um cara com apenas 36 anos. Mas não é um cara qualquer. É Roger Federer que ao vencer Marin Cilic, um croata de 29 anos, em uma disputada final do Australian Open, conquistou seu 20º Grand Slam.

 

Historicamente, esportistas de alta performance exigem de mais do seu físico e param diante da impossibilidade do corpo suportar o esforço ao qual são submetidos. Para atletas de alto rendimento, o suíço estaria próximo de encerrar a carreira, mas graças a um calendário bem organizado e uma preparação eficiente, é bem provável que o teremos por mais algum tempo nas quadras. Assim como ele, a tendência é que veremos o mesmo fenômeno em outras modalidades esportivas. E sua estratégia bem poderia se adaptar aos nossos planos de vida e carreira.

 

Logo após o caderno de esportes, deparo-me com o Segundo Caderno. E a reportagem principal, de duas páginas, tem em destaque Clint Eastwood, que se prepara para o lançamento de seu mais novo longa metragem, “15h17 – Trem para Paris”. Eastwood está com 87 anos, o que não o impede de ser inovador na forma de contar essa história real.

 

Escalou para os papéis principais os mesmos três amigos que, em férias na Europa, foram responsáveis por render um terrorista, evitando um massacre, em 21 de agosto de 2015, dentro de um trem que fazia o trajeto Amsterdã-Paris. Ao repórter Eduardo Graça disse que extrapolou o limite de até onde pode-se levar a realidade para um thriller de ficção. Muitos já teriam parado, outros tantos se conservado. Octagenário, o cineasta americano se mostra renovado.

 

O terceiro caso a me chamar atenção aparece em forma de nota na coluna de Ancelmo Gois. Fala da atriz Cora Zobaran, de 88 anos, que será destaque na revista Vogue, de fevereiro. Aos 55, fez curso de teatro para superar a depressão, iniciou carreira e, desde 2009, é estrela em campanha de supermercado, no Rio.

 

De todos os exemplos de longevidade que encontrei, nesta edição de O Globo, a dela talvez seja a mais efetiva para os dias atuais e mais próximas de todos nós: “Estou começando a aprender a viver. Só faço o que eu quero, como apenas o que gosto, ando somente com quem me apraz. E não mantenho conversa comprida com pessoa negativa”. Vou tentar!

Condenado e inelegível

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

 

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Por óbvio que o leitor sabe que o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, por unanimidade, manteve a condenação imposta pelo juiz federal Sérgio Moro ao ex-presidente Lula da Silva. O TRF/4 proferiu um julgamento memorável, assistido por milhões de pessoas. Tudo com transparência, serenidade e obediência aos ritos e códigos vigentes.

 

Quem o acompanhou via internet, pelo rádio ou na televisão, pode observar que os acusados, através de seus defensores, e a acusação, tanto pelo procurador da República com assento na 8ª Turma quanto pelo assistente de acusação constituído pela Petrobrás, realizaram suas sustentações orais. Na sequência, os desembargadores proferiram seus votos. Aliás, votos minuciosos e amplamente fundamentados, inclusive em precedentes do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça para demonstrar a convicção de cada julgador acerca dos crimes imputados ao ex-presidente. A tal ponto que só o voto do relator contém 430 páginas.

 

A primeira pergunta a partir do histórico veredito é a seguinte: o ex-presidente poderá concorrer em 2018? Consoante o texto da Lei Complementar nº 135/10, popularizada como da Ficha Limpa ou Ficha Suja e repetidas vezes interpretada tanto pelo Tribunal Superior Eleitoral quanto pelo Supremo Tribunal Federal, aquele que for condenado por um órgão colegiado (como a 8ª Turma do TRF4) pela prática de crime de lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, fica inelegível a partir da publicação da decisão, independentemente de recursos endereçados ao STJ ou ao STF buscando a reforma da pena.

 

Via de consequência, perante o regramento jurídico, há uma inelegibilidade que impede Lula de concorrer a qualquer cargo eletivo em todo o território nacional.

 

Todavia, fique claro que o questionamento acerca da possibilidade (ou não) da ventilada candidatura ocorrerá somente quando (e se) a mesma for requerida junto ao TSE.

 

Outro detalhe: a avaliação deste registro de candidatura tende a ser objetiva e sem maiores diligências, posto resumir-se a uma questão de direito, e não de fato. Assim decidiu o TSE numa decisão de 28/11/2016 repetindo um entendimento fixado no mínimo desde 18/11/1996.

 

Muitos se perguntam: mas como é possível uma convenção partidária homologar o nome de um candidato inelegível? É que de acordo com a Lei das Eleições, qualquer candidato cujo registro esteja sub judice, deferido ou indeferido e em discussão noutra instância, pode efetuar atos de campanha eleitoral.

 

Dito diferente: enquanto o inelegível busca arredar, provisória ou definitivamente, o impedimento da sua candidatura, a lei lhe assegura o direito de fazer campanha (por sua conta e risco).

 

Com isso, o seu nome, número e fotografia estarão na urna eletrônica em outubro? É provável. Afinal, nem na Constituição Federal, nem na legislação eleitoral, há regra que determine expressamente a exclusão dessas informações daquele candidato que, até a data da eleição, não teve o seu registro de candidatura deferido pela Justiça Eleitoral. Porém, como não existem direitos absolutos, o mesmo TSE pode determinar em sentido contrário, como inclusive já fez noutros casos.

 

Embora cause rebuliço, dado que muitos não se conformam à legalidade e alguns preguem desobediência ou até incitação à desordem, uma eleição sem a presença de um ex-presidente que foi condenado criminalmente pela prática do delito de lavagem de dinheiro e ocultação de bens é algo amparado pelo Estado Democrático de Direito materializado nas normas disciplinadoras dos processos penais e eleitorais do país.

 

Resumindo o momento pós-TRF/4: sem registro de candidatura, não há votação; sem votos não ocorre diplomação e, sem diploma, não há posse alguma, de ninguém, em nada.

 

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e escritor. Autor de “Campanha Eleitoral – Teoria e prática” (2016). Escreve no Blog do Mílton Jung.