Avalanche Tricolor: que a exceção não se transforme em regra

 

 

São Jose 2×0 Grêmio
Gaúcho – Passo da Areia

 

 

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Bola para frente. Percalços fazem parte da vida de todos nós. Perder uma aqui, empatar outra ali, acontece. Voltar a perder, acontece também. A boa notícia é que isso não é regra. É exceção. Verdade que neste domingo, tive de encarar exceções de mais. E em duas frentes: no futebol e no esporte eletrônico.
 

 

Comecei a maratona esportiva na torcida pelo time de League of Legends do qual meu filho mais novo é treinador. Os cinco jogadores que formam a equipe dele não tinham perdido uma só série nos dois anos em que estiveram juntos. Se separaram e agora estão reunidos novamente. Estrearam com uma vitória acachapante, fim de semana passado. A aposta de todos era que a série invicta se estenderia por mais algum tempo. Porém, como para qualquer um dos mortais, o dia de perder haveria de chegar: foi hoje. Por curiosidade para um adversário que veste azul, preto e branco, mas não é o Grêmio.
 

 

Diante do insucesso no campo digital apostei minhas fichas no Grêmio que teria de encarar um gramado artificial. O piso, o vento e a chuva frustraram meus planos de, ao menos no fim do domingo, comemorar uma vitória. Sejamos justos: o piso, o vento, a chuva e a bola … pois que dificuldade para dominá-la e entregá-la ao colega mais próximo em condições de fazer o jogo fluir. Estava tão difícil quanto chutá-la no gol. E você sabe bem o ditado futebolístico: quem não faz, leva.
 

 

Os resultados alcançados pelos meninos, que foram levados ao sacrifício neste início de temporada, ficaram aquém do esperado. Imaginava-se que eles entregariam o bastão aos titulares com alguns pontos a mais na tabela de classificação. Não conseguiram! E, excepcionalmente, assistimos a uma sequência de quatro partidas sem vitória. Que se saiba trabalhar a cabeça (e o pé) de cada um deles para que essa série ruim não os influencie no restante da temporada.
 

 

Nem tudo foi tempo perdido, porém. Do time de transição, algumas figuras esboçaram potencial e vão merecer oportunidade no time principal quando, mais entrosados e com gente madura ao lado, tendem a subir de produção. Já no próximo sábado, os titulares voltam a campo (com grama de verdade) e trazem com eles a expectativa de uma retomada das vitórias, para que não permitam que a exceção se transforme em regra.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: meu passeio às cegas na terra da garoa

 

Por Wilson Baroncelli
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Essa é do tempo em que São Paulo tinha garoa, da qual você só ouviu falar, pois sumiu faz muito tempo. Do tempo em que havia bondes, inclusive em avenidas importantes, como a Paulista.

 

Lembro da linha que ia do Largo Ana Rosa até Santo Amaro: com exceção do Brooklyn, depois do Ibirapuera até lá só havia mato. Corria em via exclusiva, feito trem – tinha propagandas como esta: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo fagueiro, que o senhor tem ao seu lado. No entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado”. Havia também o trem de cremalheira para Santos, que eu, meus avô, tio e primo pegávamos para ir até Piaçaguera caçar siris no mangue. Depois minha avó cozinhava num imenso caldeirão. Isso – claro! – quando a Cosipa estava em seus primórdios e antes que o polo petroquímico de Cubatão poluísse tudo.

 

De volta a nossa história de São Paulo:

 

O ano acho que foi 1966, 1967. Naquela época, a garoa de São Paulo era densa, infernal. Ou, dizendo melhor, invernal, porque gelada, de penetrar nos ossos. Se déssemos o azar de estar usando japona (um casaco de lã de fechamento transpassado, comum na época), ela ficava encharcada e levava uma semana pra secar. E, com frequência, a garoa vinha acompanhada de uma neblina igualmente tão densa que a gente tinha a sensação de que dava pra cortar com faca.

 

Naquele fim dos anos 1960, os esportes favoritos dos rapazes de classe média – eu entre eles – eram futebol e paquera, não necessariamente nessa ordem. Coisa impensável hoje. Não o futebol, a paquera. Atualmente tudo é assédio. Uma pena…

 

Quando não tínhamos namorada, nos sábados à noite a gente saía de carro, sempre em dupla, e ia paquerar na Augusta e nas ruas do centro da cidade (24 de Maio e Barão de Itapetininga), então liberadas ao tráfego. As meninas faziam o mesmo, algumas também de carro. Frequentemente só gastávamos combustível, mas de vez em quando as coisas davam certo. Nessas horas, o rumo que tomávamos ficava na dependência da vontade das meninas. Respeitávamos isso.

 

Numa dessas ocasiões, estava no carro de meu amigo Arnaldo, o Nardo. Eu, nessa época, não dirigia, ia sempre de carona. As meninas que paqueramos toparam seguir para Interlagos, onde havia diversos dancings à beira da represa de Guarapiranga, pra gente tomar umas (ninguém tinha consciência dos riscos de beber e dirigir – pensando bem, mesmo hoje muita gente não tem), dançar e namorar.

 

Na volta, a garoa. E a neblina.

 

Aqui preciso abrir um parêntesis para que se compreenda o drama da situação que se seguiu. Nasci míope como Mr. Magoo (os mais novos podem dar um Google pra saber o que significa). Acho que na época usava óculos com sete graus. Ou seja, se em condições normais não enxergava direito, imagine com chuva e neblina. Pois bem, quando embicamos na avenida Atlântica na direção da Ponte do Socorro, a situação ficou preta. Literalmente. As luzes da avenida pareciam lâmpadas de Natal (só serviam pra enfeitar), os faróis do fusca do Nardo não iluminavam coisa alguma e, pra complicar, os vidros do carro, fechados por causa da chuva, embaçavam.

 

Pânico.

 

Trafegamos um bom tempo à velocidade de tartaruga, passando pano no para-brisa pra desembaçar. Minha cervical doía de tanta tensão. Mas chegou uma hora que não deu pra seguir, porque simplesmente o Nardo não enxergava os limites da rua. Eu, então, nem se fala. Parar naquele ermo nem pensar, embora não fosse tão perigoso como hoje. Ainda assim, era arriscado. Então tomei a decisão de ir pro sacrifício. Desci do carro e fui andando na frente dele, pois, apesar da chuva, ali fora enxergava um pouco mais. A sensação foi de ter andado 300 km ou 48 horas seguidas.

 

A neblina só amainou depois que cruzamos a Ponte do Socorro. Nardo parou para que eu voltasse para dentro e só aí percebi que diversos outros carros haviam nos seguido como em um cortejo. Pra sorte deles, não erramos o caminho.

 

Wilson Baroncelli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta homenagem aos 464 anos da nossa cidade: escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Mundo Corporativo: indústria 4.0 exigirá mudança na educação de profissionais, diz Gustavo Leal, do Senai

 

 

“A inovação aumenta a produtividade, que aumenta a renda, que aumenta os negócios, que aumenta os investimentos, que gera mais emprego: agora, os empregos mudam e vão mudar profundamente e vão estar muito mais assentados em competências que exijam uma educação mais elaborada, mais trabalhada, daí a importância do país se dedicar a projetos educacionais”.

 

A afirmação é de Gustavo Leal, diretor de operações do Senai Nacional, em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da CBN.

 

Leal falou dos impactos das tecnologias digitais a medida que forem implantadas pela indústria brasileira. Entre essas novas tecnologias estão a Internet das Coisas, a Inteligência Artificial, a Impressão 3D e o Big Data, que serão fundamentais para a competitividade das empresas.

 

O dirigente do Senai defende a ideia de que os profissionais continuarão sendo necessários para o andamento dos processos: “o trabalho humano não é substituído por essas novas tecnologias, por esses novos paradigmas; ele tem de se adaptar a isso”.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 11 da noite, em horário alternativo. Participam do programa Juliana Causin, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Sua Marca: como trabalhar com o tema da diversidade

 

 

O tema da diversidade é muito importante e ao mesmo tempo sensível para ser tratado pelas marcas como se fosse apenas mais um modismo, por isso as empresas dispostas a abordar o assunto com o seu público precisam ter alguns cuidados essenciais.

 

O alerta é de Cecília Russo e Jaime Troiano em conversa com o jornalista Mílton Jung, no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, que vai ao ar aos sábados, às 7h55, no Jornal da CBN.

 

“Não fale sobre diversidade apenas porque é o assunto do momento; trabalhe o tema se essas condições são verdadeiras na sua empresa”, recomenda Cecília Russo.

 

Por exemplo, defender a diversidade de gênero na comunicação com o público e internamente essas características não estarem presente na empresa, vai transparecer falsidade. O que seria uma oportunidade se transformará em oportunismo.

 

Inspirado pela frase “a face é o espelho da alma”, Jaime Troiano recomenda que você “aproveite a sua alma e com a alma fale o que você é”

 

Anote algumas dicas dos nossos especialistas de branding:

 

  1. Antes de entrar no tema da diversidade, verifique se você tem convicção no que está falando
  2. Identifique qual a aderência que o tema tem na sua empresa
  3. Se o tema for muito controvertido a ponto de ser algo que você não controle, fique de fora
  4. Evite a tentação de entrar no assunto apenas porque todos estão falando dele
  5. Diversidade é importante mas não é uma alavanca para parecer moderno

 

Avalanche Tricolor: ainda tem muita bola pra rolar neste ano!

 

Avenida 3×2 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos/Santa Cruz-RS

 

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Um jovem torcedor assiste ao Grêmio, em Santa Cruz (Foto de LUCAS UEBEL/Grêmio FBPA)

 

Esta quinta-feira é feriado aqui em São Paulo. Aniversário da cidade. Falso feriado para mim que trabalhei logo cedo no programa de rádio, que é nacional. Ainda mais com o noticiário pegando fogo e com a obrigação de explicar ao ouvinte o que acontecerá no Brasil após a condenação de Lula em segunda instância. Vale Ficha Limpa? Se vale por que se candidata? Se se candidata, o que vale? E cadeia? Só em segunda instância? Mas já foi em segunda! Mas tem recurso. Vá entender!

 

O futebol também é tema por aqui, neste feriado. Dia 25 de janeiro é a data da final da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Tradicional decisão que ocorre no estádio do Pacaembu. Foi meu primeiro programa esportivo quando cheguei à cidade, em 1991. Mal sabia o que me aguardava. O Grêmio decidiu o título contra a Portuguesa. E perdeu. Derrota acachapante diante de um adversário espetacular: 4 a 0. Nunca assisti a um jogo em que apesar de meu time sair derrotado e goleado, aplaudi. Para ter ideia: aquele time da Portuguesa tinha no comando do ataque um gênio da bola: Dener.

 

Certamente, você ouviu falar deste menino. Veloz, driblador, talentoso. Fantástico! Tanto quanto precoce. Dener foi campeão da Copa São Paulo aos 19 anos, convocado para a seleção brasileira aos 20, vestiu por três meses a camisa do Grêmio aos 22 e morreu em acidente automobilístico aos 23, quando ainda jogava pelo Vasco. Curiosamente, o único título que conquistou na vida profissional foi pelo Grêmio, campeão Gaúcho de 1993.

 

Naquele time do Grêmio que perdeu a final da Copa São Paulo – e de goleada – o goleiro era Danrlei, que dispensa apresentações. Enquanto escrevo essa Avalanche, olho para a camisa número 1 que está emoldurada e pendurada na parede de casa e ostenta o autógrafo do ídolo. Foi o mesmo goleiro que tive o prazer de assistir de perto caminhando com uma medalha na mão e um sorriso no rosto, no corredor do estádio do Morumbi, logo após o Grêmio conquistar o título de campeão da Copa do Brasil, em 2001.

 

O futebol é assim mesmo. Como a vida. Prega peças. Nos desvia do curso. Nos coloca em outro rumo. Nada do que acontece aqui – ou quase nada – é definitivo. O ídolo para o qual se projeta o paraíso, desaparece. O goleiro, envergonhado pela goleada, renasce.

 

Diante desses fatos, parece-me precipitado e perigoso tirar conclusões nesta altura do campeonato e acreditar que o que aconteceu nestes três primeiros jogos do Gaúcho – incluindo o da noite de ontem – sejam determinantes para o destino da maioria dos jogadores jovens ou estreantes que nos representam. Portanto, antes de opiniões definitivas e decisões intempestivas, tenha a certeza de que muita bola ainda vai rolar neste ano.

 

No futebol, na política e na sua vida!

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: vivi a evolução do Villa-Lobos

 

Por Reynaldo Goto

 

 

Nasci e cresci na Zona Oeste de São Paulo, no Bonfiglioli para ser mais exato. Brincava em uma pequena praça pública onde meus pais sabiamente escolheram sua residência. Ao contrário das crianças de hoje, eles tinham que nos “forçar a sair da rua”, que naquele tempo já era relativamente perigosa, porém longe dos níveis alarmantes de hoje.

 

Como um típico representante da geração canguru, saí tarde da casa dos meus pais. E apenas por um desafio profissional em Munique, na Alemanha. Lá percebi o valor da convivência em locais públicos. Frente a um longo período de inverno rigoroso, ficava muito impressionado de como os alemães enchiam seus parques no primeiro sinal de melhora das temperaturas.

 

Ao regressar ao Brasil para ter nossos filhos, finalmente comprei meu apartamento, também na Zona Oeste. Levava meus filhos por vezes na praça onde viviam meus pais e outras no Parque Villa Lobos. Achava curioso que o tanque de areia, do parque, era muito internacional: além dos meus filhos só observava crianças falando francês, alemão ou inglês. Confesso que essa situação me deixa não apenas perplexo, mas também um pouco irritado.

 

Felizmente fui testemunha de uma mudança muito positiva desse cenário. Pouco a pouco, o Villa Lobos foi evoluindo, novas trilhas permitiram acessos a lugares maravilhosos pouco explorados; um orquidário e um centro de reflorestamento trouxeram uma melhor cobertura para locais antes vazios; novas pistas para corrida atraíram novas tribos de atletas, assim como as recém-inauguradas academias abertas; uma nova biblioteca possibilitou novas opções para as crianças e principalmente uma agenda bem organizada de eventos trouxe uma nova vida ao parque.

 

Hoje, o Parque Villa Lobos é extremamente democrático, possibilita o convívio pacífico e harmônico de pessoas independentemente de suas supostas classes sociais, seus rótulos, suas tribos ou suas ideologias. É uma Ilha de Esperança que nos mostra como podemos pouco a pouco, com perseverança, sem soluções imediatistas e mirabolantes, com melhoria continua e boa relação público-privada transformar positivamente nossa cidade de São Paulo.

 

Reynaldo Goto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Comemore com a gente os 464 anos de São Paulo: escreva seu texto para milton@cbn.com.br.

Se o esporte é o espetáculo, não pode ser submetido ao espetáculo

 

 

 
Por Carlos Magno Gibrail

 

 

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reprodução de imagem do SporTV

 

 

Na semifinal da Copa São Paulo de Futebol Júnior, segunda-feira, em Barueri – região metropolitana, o futebol foi ignorado pelo árbitro Thiago Luis Scarati, ao dar inicio do segundo tempo da partida entre São Paulo e Internacional, num campo cujo piso estava totalmente alagado e recebendo enorme quantidade de raios nas proximidades.

 

 

A assustadora imagem de uma imensa poça de água protagonizada por um festival de raios e trovões não foi suficiente para Scarati absorver um mínimo de equilíbrio mental e paralisar a partida, que jamais deveria ter sido reiniciada.

 

 

Só mesmo a força da natureza, embalada em um raio que caiu nas proximidades dos jogadores, fazendo com que vários atletas sentissem nos pés a alteração gerada e um repórter da Globo tivesse seu corpo absorvido parte da descarga, fez com que Thiago Luis paralisasse o jogo.

 

 

O futebol e os demais esportes que se profissionalizaram têm se curvado ao capital que os mantém. Entretanto, é hora de proteger os atletas, também valiosos e valorizados pelo mesmo capital.

 

 

A melhor forma deverá ser a criação de normas de condições mínimas para a prática de cada modalidade. E, neste caso, o futebol está atrás de vários outros esportes que já possuem limites. É evidente que deixar a critério de uma única pessoa, que no caso do futebol nem é profissionalizada, não funciona e estaremos correndo riscos como o de Barueri.

 

 

A grande desvantagem do futebol no contexto geral dos esportes é que os jogadores são a parte de menor poder em todo o sistema. Os atletas por várias vezes tentaram um espaço mais participativo, mas pelas ameaças de clubes e federações nunca lograram sucesso.

 

 

Os recentes astros aposentados poderiam abraçar esta missão, principalmente os que tiveram maior notabilidade na carreira e aptidão de comunicação.

 

 

De pé de obra à mão de obra com microfone na mão.

 

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: a chuva de prata no Viaduto do Chá

 

 

Por Julio Tannus
Ouvinte da rádio CBN

  

 

  

 

Foi aqui que cresci, me eduquei, me formei, constitui família e hoje desfruto da cidade com todos os seus lugares, praças, shoppings, restaurantes, cinemas, teatros, livrarias, exposições e sua vida incessante.

  

 

Assim que cheguei de Paraty, no fim dos anos 1940, morei na São Lázaro, travessa da São Caetano, hoje a “Rua das Noivas”. Era movimentadíssima com todo tipo de comércio, além, é claro, do Cine São Caetano. Minha primeira escola, aos cinco anos, foi o Recanto Infantil Jardim da Luz, do Departamento de Cultura, no Parque da Luz.

  

 

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Julio passeia ao lado do irmão, Carlos, no Viaduto do Chá

  

 

Após alguns dias na cidade, fui com minha mãe e meu irmão caminhar na São Caetano em direção ao Parque da Luz. Ao chegar na avenida Tiradentes, em frente ao antigo Liceu de Artes e Ofícios, hoje Pinacoteca do Estado, me deparei com o monumento a Ramos de Azevedo. Ramos de Azevedo foi o centro em torno do qual gravitou o renascimento arquitetônico da cidade de São Paulo. Aquele monumento hoje está na Cidade Universitária. Quando o vi, exclamei do alto de meus cinco anos de vida: “Olha mamãe, uma mulher de peito de fora!”. Foi uma gargalhada geral. “Fica quieto menino!” foi a reação de mamãe diante da imagem daquela mulher de peito nu na estátua.

  

 

Fui flamenguista por herança de pai. E de tanto ouvir “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer” me sentia desajustado diante de tantos palmeirenses, são-paulinos, santistas … até que na celebração do Quarto Centenário da cidade, o Corinthians se tornou campeão e meu time paulista do coração. Por curiosidade, essa final contra o Palmeira só foi disputada em 6 de fevereiro de 1955.

  

 

O Quarto Centenário é de 1954. E teve imensa participação de toda a população, que invadiu as ruas de nossa cidade. Ocorreram festas maravilhosas. Recordo-me nitidamente da Chuva de Prata, que Randal Juliano, da Rádio Record, descreveu com precisão:

  

 

“O sentimento do paulista faz com que a cidade se locomova até o Viaduto do Chá. E aqui a multidão ergue os olhos para o céu, de onde caem lâminas metalizadas… Lâminas coloridas metalizadas sobre o Viaduto do Chá. Iluminadas por holofotes do exército, com o esplendor e luminosidade bonita. Traduzindo a alegria do povo paulista neste nove de julho, que comemorava uma derrota… talvez tenha sido o único povo a comemorar uma derrota.”

 
 

 

Palavras que me levam a recordar o hino do Quarto Centenário:
 

 

 

São Paulo, terra amada
Cidade imensa
De grandezas mil!
És tu, terra dourada,
Progresso e glória
Do meu Brasil!
Ó terra bandeirante
De quem se orgulha nossa nação,
Deste Brasil gigante
Tu és a alma e o coração!
Salve o grito do Ipiranga
Que a história consagrou
Foi em ti, ó meu São Paulo,
Que o Brasil se libertou!
O teu quarto centenário
Festejamos com amor!
Teu trabalho fecundo
Mostra ao mundo inteiro
O teu valor!
Ó linda terra de Anchieta,
Do bandeirante destemido.
Um mundo de arte e de grandeza
Em ti tem sido construído!
Tens tu as noites adornadas
Pela garoa em denso véu,
Sobre seus edifícios
Que mais parece chegarem aos céus!

 
 

 

Julio Tannus é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos contar outros capítulos desses 464 anos: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: minha primeira decepção de criança ao fim da II Grande Guerra

 

Por Aldo Bertolucci
Ouvinte da rádio CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, para comemorar os 464 anos da nossa cidade, o texto do ouvinte da CBN Aldo Bertolucci, que completa 78 anos de vida e de São Paulo:
 

 

Meus pais eram italianos e morávamos na Alameda Ribeirão Preto, paralela a Paulista. De nossa casa, afinal o bairro era Bela Vista, víamos os prédios Martinelli e do Banespa, com toda uma várzea e casas pequenas aos nossos pés. Nossa rua era de paralelepípedos por onde todos os dias passava a velha Amulari – uma portuguesa que ficou assim conhecida porque ao trazer suas cabras para vender o leite sempre se desculpava que estava ali para “amulari as pessoas” ou incomodar as pessoas. Soube-se depois que ela, andrajosa e maltrata, era dona de várias casas de aluguel no bairro.

 

Do outro lado do vale havia um campo de futebol, ali perto da Rua dos Ingleses, onde os times do bairro jogavam peladas nos fins de semana. Durante a guerra, os poucos automóveis a gasogênio não nos incomodavam e jogávamos futebol na rua mesmo. Às vezes, éramos interrompidos pelo Salomão, o verdureiro, que vinha com sua carroça puxada pelo Caxambu, um cavalo alazão que estacionava à espera dos clientes. Quando o cavalo fazia cocô, meu avô saia correndo de casa para catar o esterco que ele punha nas suas plantas. Alguns meninos mais corajosos de nossa rua entravam em um bueiro de um lado da rua, passavam pelo cano que ia até o outro lado e saiam pelo outro bueiro.
 

 

Em frente de casa havia um convento de freiras de clausura, cercado de muros muito altos, que ocupava todo o quarteirão desde a Ribeirão Preto até a São Carlos do Pinhal, a Rua Pamplona a Alameda Campinas. Parte desse espaço é ocupado agora pelo Hotel Maksoud. Nós garotos subíamos até o segundo andar de nossas casas para espiar alguns movimentos das freiras que mantinham uma horta. Havia uma capela onde íamos à missa. Mas era construída em duas asas. Nós ficávamos em uma e as freiras em outra sem que pudéssemos vê-las.

 

Um dos passeios mais esperados era atravessar a Paulista em direção aos Jardins – que não tinham ainda se consolidado – e chegar ao ponto final do bonde 40 – Jardim Paulista, na Rua Veneza. Do ponto final seguíamos a pé em direção ao que é hoje o Itaim Bibi, andando no meio do mato e do brejo para chegar aos sítios onde se criavam os cavalos que corriam no Jóquei. Hoje a Avenida São Gabriel substituiu as chácaras.
 

 

Lembro o fim da guerra mundial com as rádios festejando a paz e meu pai com uma bomba manual enchendo os pneus de seu Chevrolet 1938, que estava parado havia vários anos, para ir comprar gasolina e darmos uma primeira volta. Ficamos decepcionados, meu irmão e eu, porque nossa mãe se apoderou do assento da frente que achávamos ser de nosso direito.

 

Lembro também que, naquela época, a Cruz Vermelha abriu um posto ao lado do Correio Central para receber doações para vários países europeus. Fomos com minha mãe levar um saco de roupas para nossos avós e tios que tinham sobrevivido ao conflito, na Itália.
  

 

Aldo Bertolucci é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva o seu texto para milton@cbn.com.br.

Avalanche Tricolor: jovens, aprendizes da vida

 

Grêmio 3×5 Caxias
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Os guris da VivoKeyd em foto da Riot Games

 

Foi um sábado destinado aos mais jovens. Todos envolvidos em competições e com seus desafios próprios. Fui observador (e torcedor) em todos esses momentos, mesmo porque, por mais que creia na longevidade que me será oferecida, já passei dos tempos em que era um jovem competidor. Não me incomoda esse fato, posso lhe garantir, caro e raro leitor desta Avalanche. Pois vivi intensamente aquela fase, seja no futebol seja no basquete – neste por muito mais tempo. Em uma ou outra modalidade, dediquei-me a vestir a camisa do Grêmio, do colégio Rosário, no qual estudei boa parte da vida escolar, e do Rio Grande do Sul, nas poucas oportunidades para as quais fui convocado. Jogos e títulos perdi muito mais do que ganhei. Experiência e valores para a vida, ganhei muito mais do que desperdicei.

 

Logo no início da tarde de sábado, estive no estúdio em que foi disputada a partida de abertura do CBLol2018, competição nacional de League of Legend, a mais proeminente modalidade de e-Sports que temos notícia. Se duvida no que escrevo, arrisque assistir às transmissões ao vivo no canal SporTV, sábados à uma da tarde. Você vai se surpreender. É só deixar esse preconceito besta de lado. A cada ano que passa – e eu os acompanho ao menos há quatro – é melhor, maior e mais confortável a estrutura oferecida aos pro-players, que são os atletas que formam cada uma das oito organizações credenciadas a disputar o título nacional da “primeira divisão”.

 

Prometo que não me estenderei em explicações sobre o assunto, pois temo perder a atenção do leitor que caiu neste texto acreditando que falaríamos só de futebol. Mas devo dizer que minha presença na competição eletrônica justifica-se pelo envolvimento de meus dois filhos na atividade, um como jornalista e admirador e o outro como “head coach” (sim, eles costumam ser chamados assim em vez do nome em português para a função). Esse último é um dos comandantes do time favorito ao título de 2018 e estreou com uma “sonora vitória” – como descreveu o site do SporTV. Deixou-me feliz e me deixará mais anda se seguirem nesta toada, pois ainda lembro dele e seus comandados – muito já em outros times – tristes e com lágrimas nos olhos quando perderam a final do ano passado, no primeiro semestre.

 

É sempre melhor ver jovens sorrindo e satisfeito com suas conquistas. É revigorante. Pois sabemos que para conquistarem o direito ao sorriso, muitos passaram por dificuldades, às vezes tiveram de dar as costas à família que não entendia sua opção de jogar em lugar de se formar doutor, sofreram em treinamentos exaustivos para melhorar a técnica e o físico, se frustraram ao não serem chamados para compor o time principal, caíram em depressão com a crítica contundente ou choraram diante da derrota.

 

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Os guris do Grêmio em foto de Lucas Uebel/Grêmio Oficial

 

Na minha segunda etapa como observador (e torcedor), diante da televisão onde o Grêmio se apresentava com sua equipe de garotos, os sentimentos de alegria e tristeza se misturaram. Via-se o sorriso dos guris quando seguiam em direção ao ataque; quando conseguiam se livrar do adversário com a bola grudada no pé ou uma gingada de corpo; quando deixavam o companheiro mais bem colocado para o gol. O sorriso era gigantesco na comemoração do tento: e sorriram assim por três vezes, todas no primeiro tempo de partida.

 

No entanto, a alegria de jogar bola se desfez a medida que o adversário reagia, empatava, virava e ganhava a partida. Um dos nossos chorou antes de deixar o gramado. Saiu com a camisa escondendo o rosto. Outros devem ter acordado neste domingo sem ainda entender o que aconteceu? Talvez estejam com vergonha de sair de casa. De trocar mensagens com os amigos no WhatsApp. E temem pelo que ouvirão de seus superiores na volta aos treinos. Sem contar o que estão ouvindo nas redes sociais de gente incapaz de perceber que eles são apenas jovens diante de enormes desafios. Jovens em busca de afirmação, obrigados a tomar decisões, carregar nossas pretensões e amadurecer muito antes do que cada um de nós. Simplesmente, jovens. Que vão vencer, sorrir, perder, chorar. Vão viver!

 

O importante é que sejam capazes de aprender com cada um desses momentos. Se conseguirem, não perderam. Aprenderam. É o que desejo, tanto aos jovens que saíram vencedores, no Lol, quanto aos que sentiram o dissabor da derrota, no futebol.